sábado, 13 de maio de 2017

crônica da semana-fosfosol

Choque de realidade
Há muito tempo, lá nos meus primeiros dias de trabalho em Rondônia, ouvi de Rogério, bateador da minha equipe, que se eu não tivesse estudado um pouquinho, eu estaria ferrado.
É que lidávamos com um equipamento muito bruto, quase medieval. Uma parafernália de sondagem constituída de uma plataforma donde quatro homens percutiam uma peça de madeira super pesada sobre uma composição de tubos de ferro temperado, procurando introduzi-la terra a dentro. Era coisa pra macho. E não é que eu fui lá fazer uma forcinha pra ver como é que era a parada. Mas foi pá te aquieta. Como diz a galera da novela: empombaleci na hora. A vista escureceu, os esfíncteres relaxaram, a perna bambeou. Larguei do cepo e desci com mais de mil da plataforma. E haja abano e chuviscadinho de água na cara, pro homi tornar. Quando desanuviei, Rogério, com aquele jeito matreiro de caboclo de Humaitá, irônico, sapeca, chegou e sentenciou.
Aquilo ficou comigo, olha, não exatamente me angustiando, mas confirmando a mais pura moleza do meu ser e da minha mente para essas missões mais aquelas de exigentes. De certo mesmo, é que eu ficava logo verde e o passamento me consumia, ao menor esforço. A minha valência é que não era arte de morrer, porque se fosse, eu já tinha ido desde que tempo.
Não foi só essa vez na sonda medieval, não. Tem uma clássica que aconteceu logo que comecei a namorar Edninha. Quis me amostrar pra ela, dar uma de obreiro, cuidador dos teres e haveres domésticos. Inventei de capinar a frente de casa, pois que o capim já estava subindo o alpendre. Mas quando! O custo foi dar duas enxadadas. O suor desceu frio e farto. E olha que o sol estava devagarzinho quase parando. Sei lá, acho que foi o mormaço. Me joguei na calçada agonizando. “Ai, amor, ai amorzinho, me abana” (me ocorreu que foi assim que minha equipe me salvou, naquele dia em Rondônia com abanos e salpicos de água na cara). Coitada da minha pequena, deve ter perguntado ao pai eterno, muito preocupada, naquela hora, donde, ai ai ai, estava atando a mula dela.
Por causa dessas marmotas, pensei ter um mal gravíssimo, um troço degenerativo qualquer que fosse moer meus dons abstratos e concretos. Reza a lenda, porém, que esse negócio de andar dando pilora por aí tava mais pra dengo, uma artimanha para chamar a atenção, receber mimos e paparicos, dizque, porque eu era amamãezado. É...Poder ser, pode ser.
Outra versão conta que por ter estudado um pouquinho, me achava isento de missões mais brutas. Me achava um doutorzinho besta por causa de um segundo grau técnico conquistado a cinquinhos no boletim. Uma razão bem provável.

A prova é que a cura para as minhas panemices veio com o implacável choque de realidade. Foi só sair debaixo da barra da saia da mamãe, experimentar um período desempregado, ter que me aviar com a lista de material escolar de menino todo ano, que o cabo da enxada ou da pá, assentou como a mais encastoada lapiseira, na minha mão. Pelo sim, pelo não, andei tomando, também, umas doses de Fosfosol para prover Fósforo ao cérebro, Cálcio para os ossos e Ferro para os músculos.

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