sábado, 14 de outubro de 2017

crônica da semana - a bom remar jorane

A bom remar
É um jeito delicioso de falar que não se usa mais. Antigamente era comum: “dizque fulana ia me dar uma prova daquele chope de groselha docinho. E eu, a bom acreditar nela, mas quite, me enganou, a sacrista”... Só Jorane mesmo.
Uma única vez a vi de pertinho. Foi numa mobilização em favor da preservação do Casarão da Praça Ferro de Engomar. E nem foi tão de perto. Eu fiquei numa esquina, e ela noutra. Mas reparei bem o quanto ela é reconhecida como uma referência. Revela opiniões, expõe ações. Naquela época, fez peso, ali na praça, em favor da proteção do Casarão que estava sendo pilhado de peças estruturais e ornamentais de considerável valor histórico e cultural.
Sou fã da cineasta Jorane Castro. Não sou nem crítico de cinema nem nada, mas dou o maior valor na linguagem que ela usa para contar as histórias na tela. Além do talento, Jorane tem uma desenvoltura, uma facilidade na comunicação de chamar atenção. É jornalista, atua no meio acadêmico, tem obras reconhecidas internacionalmente, mas admiro muito a cineasta, também, por aquele traço ribeirinho, aquele viés pés no chão da personalidade dela.
Atinei bem na revelação destes vieses da alma, numa entrevista que ela deu à jornalista Linda Ribeiro, no programa Coxia. Um momento muito dos seus pai d’égua. Duas destacadas figuras  na arte da comunicação. Linda Ribeiro, usando da sua reconhecida competência como entrevistadora, deixou Jorane muito à vontade para uma boa conversa. E aí, ela cortou e arou. Falou dos tempos que viveu fora do Brasil, dos grandes projetos que participou, da estrutura profissional que ergueu para viabilizar o cinema na Amazônia. Éraste, e eu, vendo pela televisão e já conhecendo um pouco da trajetória da cineasta, fiquei até tonto com tantos valores, com tantas conquistas, com a envergadura do talento de Jorane. Estava, então, explicado: Me peguei como um fã platônico que jamais atravessaria a rua da praça  Ferro de Engomar para puxar uma prosa com pessoa tão famosa, mesmo que fosse para salvar o Casarão. Era uma estrela das mais inalcançáveis alturas. Das mais inatingíveis lonjuras...
Até que ela começou a falar das vezes que vinha de Paris para as férias e se quedava aos encantos ribeirinhos do interior. Nessa hora, bateu o martelo sobre aquela coisa da natureza cabocla que ela preserva. Mostrou-se rés ao chão paraense. Perto mesmo, de ao pegado da gente.
Em determinado momento, usou uma expressão que por demais me encanta. Confrontando a vida nos glamourosos recantos da Europa, com o emaranhado de furos que moldam os rios da Amazônia, revelou que, quando das férias, passava os dias no interior “a bom remar, a bom remar”, assim mesmo, de forma reiterada.
“A bom remar” É uma variação do sentimento de intensidade que vale para “a bom esperar”, “a bom andar”. Só Jorane mesmo, em entrevista perfeita, na simplicidade de todo seu brilho, para abrigar tão bem, na boa fala, uma pérola dos nossos dizeres tradicionais.
E falou com tanta naturalidade, que parecia que estava na porta da rua, numa conversa solta, de fim de tarde cametaense, a bom enfileirar causos.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lua do Círio



















Véspera do Círio 2017

domingo, 8 de outubro de 2017

crônica da semana - círio psicodélico

O Círio e o povo unido
Quando entramos na praça, um tilintar psicodélico ecoou dentro de mim, uma satisfação líquida percorreu minha dorsal, ativou minhas terminações nervosas e o meu mundo transladou pela órbita letárgica de um caleidoscópio de flores lilases. Viajou entorpecida minha alma entre cantigas e bênçãos. Havíamos chegado no céu.
Mas antes, lutamos a luta de um povo unido.
Os padres franceses estavam um isso para serem expulsos do Brasil. Enquadrados na Lei de Segurança Nacional, os religiosos aguardavam julgamento presos.
O Círio era no dia seguinte. Na sede do Ipar, uma reunião, à revelia da ordem de Dom Alberto Ramos que proibia a realização de qualquer manifestação na procissão, decidia a estratégia de mobilização e protesto em apoio aos padres e aos 13 posseiros do Araguaia. Uma alemã magra, alta, com a dicção voluntariosa, fazia uma fala de certezas e crenças na liberdade. A pastora Rosa Marga iniciava um apostolado vibrante, corajoso, e solidário. Foi a grande líder do MLPA, movimento que se ergueu para lutar ao lado dos presos do Araguaia.
Tínhamos uma irmã salesiana na luta, também. Irmã Lísia era, como todas as outras freiras, digamos assim, caseira. Não se abalava para as coisas do mundo. Professava sua fé coordenando o semi-internato do Centro Social Auxilium e de lá saía apenas para a reunião com os jovens, do outro lado da rua, na Escola Salesiana do Trabalho. Foi contaminada com o bichinho do inconformismo, com a larvinha revolucionária. E acabou saindo pro mundo. Para toda reunião ou mobilização do MLPA, a gente arrastava a Queridinha, querido diminutivo pelo qual a irmã era conhecida, por causa daquele humor cearense da peste.
Vivíamos dias de transformações no início dos anos 80. A igreja retornava com as Comunidades de Base, apostava na práxis popular centrada no método “Ver, julgar e agir”. Os religiosos eram chamados a colaborar. Nossa turma operava com, o então padre, Brunys e com a Queridinha, pelas ruas estivadas da Pedreira e Sacramenta, no diapasão de Puebla.
No dia do Círio, o pau cantou feio. Dom Alberto falou. Dom Alberto avisou. Não passarão.
Até que caminhamos um bocado, mas, às proximidades da Basílica, o tempo fechou. Polícia despintada que estava no meio de nós, polícia fardada, todo mundo tirou uma casquinha. A primeira faixa a ser destruída, para mim, era a mais verdadeira. Trazia uma passagem da conversão de Paulo: “Por que me persegues?” Era simbólica. Quando ela caiu, quando se esfarelou aos pisões da repressão, nós todos nos esfarelamos. Padres, freiras, religiosos, leigos, jovens, velhos, todo mundo apanhou. Muitos foram presos com violência. Sangravam. Mas não choravam. Em meio ao ataque, ainda se entoou um canto novo de alegria, até o sufocamento total da manifestação. Eu fui varando, com pedaços de pano e uma ferpa deste tamanho sacada da estaca que emoldurava minha faixa, na mão. Pequenininho, me vi diluído naquela multidão, triturado por uma onda poderosíssima. Era a Berlinda chegando.

Quando entramos no CAN, um psicodelismo lilás acendeu dentro de mim. Havia chegado no céu.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

crônica remix - Francisco

O Santo dos pobres
Um violão Giannini Trovador. Vinte e seis exemplares do Asterix, que representavam até então, a coleção completa dos episódios criados pelos geniais franceses René Goscinny e Albert Urdezo. Um Pau de Chuva, instrumento percussivo que arremeda o som de água caindo, originário dos Andes chilenos e que comprei, numa exposição, como sendo artesanato dos Cintas-Largas. Uma caixa com muitos quadrinhos. A linhagem inteiriçada dos cartunistas paulistanos. Revista Circo. Chiclete com Banana. Geraldão. Níquel Náusea. Piratas do Tietê; De carona, a vovozinha revista MAD, já nos estertores, fazendo o contraponto; e uma pilha de PQP que mamãe mandava pra mim, todo mês. Somando no acervo, os primeiros números de O Planeta Diário e Casseta e Planeta. Noutra caixa, as aquisições capa dura, feitas junto ao Círculo do Livro e também adquiridas na livraria da, revolucionária, Rose. Sartre. Veríssimos, muitos Veríssimos e as minhas, até hoje, iluminações literárias, Zero e Feliz Ano Velho. Na mala, uns vinis ‘emprestados’ de Mercedes Sosa, Zé Geraldo, Ana Belém, Maria Betânia...e preciosas amostras de cassiterita, columbita, topázio, quartzo-dente-de-cão, quartzo rosa, uma fagulhinha, quase invisível de diamante industrial, meus quase nada de vestir, um frasco de Contouré  e...só. Esta era a minha bagagem franciscana quando embarquei em Porto velho, de volta para Belém, num dia 4 de outubro, como o de hoje. Dia de São Francisco de Assis.
Operou um milagre, o Santo dos Pobres, naquele dia. Depois de quatro anos longe, estava difícil de voltar. Uma greve poderosíssima dos aeronautas tirou do ar uma leva de aviões. Os vôos liberados eram um aqui, outro ali. Esta situação fez com que, naquela terceira vez, eu me visse deixando Porto Velho sem ninguém para me dar um tiauzinho, antes do embarque. Estava sozinho. Mas deixei estar, não queria incomodar os Borges Guimarães, a minha família rondoniense, com mais uma tentativa. Antes, nas duas incursões, toda a galera. Lencinho branco de despedida, lembrancinhas, emoções, saudades antecipadas, e, olha só, os vôos foram cancelados. No dia 4 de outubro, havia uma chance mínima, para que a viagem desse certo. A providência, um milagrezinho tinha que acontecer. Combinei com meu povo que iria sozinho, afinal, milagres não acontecem assim, na vida da gente, quando a gente bem entende. Não botei fé.
O avião que me trouxe marcaria certinho o final da greve. Desde ele, tudo voltaria ao normal. Desembarquei em Belém, já de tardinha, com a certeza da ajuda do Santo Francisco.
Sempre fui fã de São Francisco (meu filho tem Assis no nome). Isso, se não causou conflito, gerou um desconfortozinho na minha vivência dentro da igreja. Sou ex aluno salesiano. Atuei na pastoral da Sacramenta, nas comunidades de base, nos movimentos de jovens, levando a mensagem de Dom Bosco, mas não escondia a minha inclinação franciscana.

Um ser humano admirável, Francisco. Em plena idade média, num cenário irrefreável da ascensão burguesa, rebelou-se e optou pela pobreza. Talvez essa reviravolta na vida seja, realmente, o maior atrativo na historia de Francisco. E esta visão, um tanto romanceada do santo, de prima, me arrebatou. Mas depois, conhecendo mais sobre a opção de Francisco (e ajudado pelos cenários históricos dramáticos envolvendo os Fraticelli, descritos por Umberto Eco em O Nome da Rosa), tomei pé do quanto o Santo de Assis foi sábio e corajoso para superar a suntuosidade da Igreja, a soberba do clero, a ânsia dos pobres... séculos mais tarde, a greve dos aeronautas, e operar milagres. Salve, Francisco!


sábado, 30 de setembro de 2017

crônica da semana - banzeiro

Banzeiro
Daquele dia que aportamos no galpão Mosqueiro-Soure, chegando do Acre, custei que só para navegar nas águas da Guajará de novo.
Meio tonteira isso, algo de não se entender, mas nós belemenses, temos um jeito continental de ser e de estar. Pouca trela dedicamos às nossas águas de fora (do contrário já teríamos uma linha regular de transporte público, Icoaraci-Belém).
Nos batemos há tempos pelos caminhos de terra firme, hoje mais que antes, travados, engarrafados, esburacados e perigosos. Resulta que só caí pra dentro da baía, novamente, quando regressei de uma temporada de um ano trabalhando nas minas de ouro do Amapá. E foi cheia de graça essa minha viagem. Poderia regressar de avião, o contrato que fiz com a empresa, me dava direito. Quis experimentar a aventura de quase 24 horas navegando pelos rios amazônicos. Troquei minha passagem de avião por uma de navio e zarpamos eu e minha companheira Edna. Ela, que durante a minha jornada em Macapá fez várias vezes este trajeto, não se animou muito. Mas eu... Cisquei a viagem toda. Não preguei o olho. Subia, descia os conveses, zanzava de popa a proa. Perdia o olhar durante o dia procurando o horizonte ou, pela parte da noite, admirando o brilho das estrelas. Por vezes, eu corria exaltadíssimo ao encontro de Edninha com a notícia de que as canoinhas estavam se aproximando. E ela, calejada naquela lida, me voltava com uns saquinhos plásticos já preparados contendo pequenos regalos a serem lançados para os ribeirinhos. E lá eu me abalava para a balaustrada do navio, aprumava a pontaria e...
Foi uma experiência. Uma vivência que jamais pensei, no futuro, se repetir tantas vezes.
Pouco depois de voltar de Macapá e retomar a vida continental de Belém, fui chamado para trabalhar em Barcarena. Pronto. Acabou a aridez. Findou-se a pobreza de água. Se num determinado momento da minha vida, me fiz cativo das terras emersas, nos últimos 22 anos, me realizo no leito da baía do Guajará. Começo e termino o dia navegando os humores das águas toldadas do estuário.
E esta frequência me dá um quê de proximidade com a dinâmica da baía. Conheço detalhes da travessia. Entendo o balançar do barco em cada trecho da viagem. Me permito a tensão quando cruzamos a foz do rio Guamá e navegamos meio de banda resistindo à forte correnteza guamarina. E me deixo folgar quando o sentido da corrente passa a ser único, na frente de Belém.
Um tempão ziguezagueando por este tecido líquido guajarino, garante o conhecimento sobre a ocorrência das marés e permite elaborações de agendas (na maré cheia, a viagem, normalmente é mais rápida. Isto não é uma regra, mas, pelo comum, é). O cerzido diário me concede saber respeitar a vontade dos ventos.
Dia sim, outro também, a caminhada sobre as ondas me alerta para a época do ano de grandes banzeiros. De manhanzinha, até que não, mas ao cair da tarde, agora, entre agosto e dezembro, o banzeiro é certo. É tempo de onda quebrar no Ver-o-Peso e ir lamber a calçada da ‘Casas Pernambucanas’.

Para quem se queixava ser continental, a aventura, de uns tempos pra cá, tá é boa.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

degenerescendo

Há homens que eu aprecio
puros ou com gelo
grisalhos ou imberbes
ativos ou pacatos
doces ou amaros
sutis ou indelicados
ébrios, ébrios,ébrios
ou sóbrios e sonolentos
Há homens que eu aprecio
puros, crus, ao natural
ou com uma pitadinha de sal
pais, filhos, espíritos cantos e encantos
mas são poucos
muito poucos
e com carinho
lembro tanto deles.

sábado, 23 de setembro de 2017

crônica da semana - brisa

Super da brisa
Ontem aconteceu o equinócio. E não tem nada de oculto ou misterioso nisso. É o marco de um período que o sol se posta exatamente sobre a linha do Equador, determina também a incidência direta dos raios solares nas superfícies tropicais. Corresponde ao momento em que a Terra está mais perto do sol. Todos estes eventos, somados às particularidades do planeta, interferem na posição da zona de convergência intertropical, aquecem as água do Atlântico Norte e provocam fenômenos naturais como tempestades e furacões. Fenômenos absolutamente naturais, resultantes da dinâmica prodigiosa do nosso planeta. Não tem nada de castigo de Deus nisso.
Mesmo porque Deus é super do bem, super da brisa.
Um ensinamento que mais pininica dentro de mim, e que resultou positivamente da minha passagem pelo oratório da Escola Salesiana do Trabalho, foi a certeza que o padre Lourenço nos dava de um Deus de amor. Comparava a bondade de Deus com a vida cotidiana de um pai de família ali das baixadas da Pedreira. Dizia que o pai não quer o mal para os filhos. Ele provê, cuida, dá carinho, e só deseja que os filhos sejam felizes.
Acredito até hoje na convicção do padre Lourenço. Diante dela me é muito claro que os filhos de Deus que habitam as terras do Haiti, de Cuba, das pequenas ilhas caribenhas, do delta do Mississipi, de jeito maneira, foram atormentados por forças divinas.
Relacionar as catástrofes naturais à ira de Deus, para mim, é pecado mortal. Leva, sem maiores discussões ao fogo eterno. É alta trairagem com o pai, além de uma robusta demonstração de ignorância. Mais fácil e mais possível é que as tragédias tenham razões nas insanidades humanas.
Uma passada de vista num bom atlas geográfico daqueles das antigas, faria um bem danado no entendimento dessas catástrofes. Deixaríamos de perseguir o bom pai, e nos daria vaga a perceber soluções e proteções.
A população dessas regiões tem o conhecimento desses riscos. A eles, falta a atenção de políticas preventivas. Engenharias aplicadas. Poder de mobilização. Condutas e infraestruturas eficientes de evacuações e socorro. O que a gente vê, pelas notícias que nos chegam, é que tecnologias que se antecipam aos fenômenos ajudam bastante. Salvam vidas.
Deus é do bem. Deus é da brisa. Do amor e da felicidade. Não tem nada a ver com dores, tormentas e furacões.
Quando não entendemos um evento na natureza como pertencente ao planeta, damos vez à tragédia. Quando nos comovemos com um vendaval no litoral da Flórida e desconhecemos o avanço das águas sobre Cuba, sobre o Haiti, como se só existissem seres humanos dignos de atenção na costa leste dos Estados Unidos, nós sim, é que somos um pouco culpados por dores, tormentas e furacões.
O equinócio é um fenômeno importantíssimo na história das civilizações. Estamos aqui, porque o homem tratou este evento com racionalidade e moldou-se a ele. Aquece as águas do Atlântico Norte, atiça a circulação dos ventos, cria redemunhos enormes. Não tem nada de castigo de Deus nisso.
Equinócio quer dizer “noite igual”. E não noite eterna. Não nos fechemos na escuridão.



sábado, 16 de setembro de 2017

crônica da semana - patrimônio cultural

O patrimônio e a pamonha
Um dos resultados desse estado de coisas é o contágio. Agentes ativos e passivos sucumbirão à piração espalhada no qual pega. Agradeço ao bom pai, que eu não seja exemplo para nada, e para ninguém, mas se for tirar por mim...
Mire e veja se não é um desatino: a água geladinha, corrente e transparente, em profundidade boa para garantir um senhor dum tibum. A maravilha de um igarapé pródigo, correndo ao meu lado, me convidando para os prazeres da natureza, e eu, entre incrédulo, indignado e bestão, me pego conferindo o sujeito operar aquela aparelhagem dos infernos montada na mala do carro dele, pelo controle remoto. Avalio que aquilo só pode ser produto do mais puro e indissolúvel sadismo.
Ocorreu no final de semana próximo passado, logo na biqueira de estes monstrengos barulhentos serem indicados pela Câmara, como patrimônio cultural e imaterial de Belém.
Não bastasse o barulho grassar em cada palmo desta cidade, agora é reconhecido como um bem cultural. Égua-te, pira-paz.
Por outra,vamos à vida real. Dez, entre dez pessoas, com quem entabulo uma conversa sobre este assunto, relatam algum tipo de pendenga. Uma zanga, uma humilhação. Para tirar as provas, aproveitei apara fazer umas comparações regionais, ensejando a visita de uma amiga vinda de Manaus. Fiz aquela sabatina. Perguntei sobre o calor, o tacacá com jambu pinçado a palitinho, o transporte público, e, é óbvio, sobre o barulho. De Manaus, livrou a barra. Mas de Belém, não deu um desconto. Diz-se apavorada. Os pais moram na Sacramenta e há mais de dez anos sofrem com um vizinho que tem um patrimônio cultural na porta. O pobre do casal foi bater no juiz. Parece até uma coisa, essas pessoas só podem ter pacto com o mais graduado dos satanases. Nada os detêm. Muitos demonstram abertamente serem protegidos por gente importante. Prova é que, segundo minha amiga, mesmo depois dos trâmites na justiça, as desditas sonoras continuam. E cada vez mais ferozes.
A gente tenta fugir. Pega a estrada sem rumo em busca de sossego.  Descobre praias paradisíacas. E quem está lá, atazanando na areia? A selvageria sonora. Dá meia volta. Ganha o mundo, sobe ladeira, desce ladeira, penetra no escondido da mata, e vai dar na beira de um igarapé maravilhoso, aquele da água friínha de engilhar a ponta dos dedos, num mergulhinho mais demorado. Foi lá que o destino colocou o infeliz com o controle na mão. Fiquei em transe. Não mergulhei na água geladinha, não bebi nada, não comi nada. Fiquei teso, só observando o sujeito operando o patrimônio cultural dele. Embora várias famílias estivessem ali, era ele quem comandava. Havia uma hora de profunda agressão. Um locutor gritava desesperadamente, amparado por um pop eletrônico, dentro das poderosas caixas de som. Nessa hora ele colocava o volume do máximo. Aquilo até hoje está na minha cabeça (é a tal da piração, do trauma). Quer saber, borimbora daqui, sugeri ao meu povo, humilhado.

Na volta, paramos na estrada e compramos uma boa partida de pamonha. Ainda bem, meu Deus, ainda bem que existe pamonha, para dar algum sabor à vida. 

domingo, 10 de setembro de 2017

Nada a deduzir
Nada a somar
Abade, Curuçá
o paraíso

crônica da semana - terra plana

Dona Redonda
Tomei foi um susto dia desses, ao entrar num blog para pesquisar sobre uma conta da matemática que calcula a distância da linha do horizonte até a gente.
Trata-se daquela linha no fim das vistas que se desenha lá no fundo da baía do Guajará, e se estende ali pras bandas do Marajó. A linha do horizonte.
Pitágoras resolve a parada. É só calcular o valor de um dos catetos do triângulo retângulo e a questão está dominada. Ocorre que para que esta conta seja executada, a gente tem que admitir umas verdades anteriores. É essencial que a gente acredite, por exemplo, que a Terra é redonda. Ou como se ensinava antes, nas aulas de Geografia, redonda, achatada nos polos.
A forma da terra já era conhecida pelos gregos há mais de dois mil anos. Enquanto algumas crenças da Antiguidade pregavam que após a linha do horizonte as embarcações despencavam num precipício eterno, Eratóstenes, comparando ângulos e distância entre duas cidades gregas, imaginou a Terra como, o que seria hoje, uma bola de futebol. Colombo provou que além do horizonte havia não o fim do mundo, mas um mundo novo, e venceu os medos (quando estive visitando a Espanha, fiz questão de reproduzir aquela cena clássica atribuída a Colombo. Ao final da tarde, sentava numa batente de frente pro mar, procurava navios sumindo além do horizonte oeste e trabalhava uma emoção dentro de mim. E trabalhava uma direção aqui dentro de mim: ali, pra’quelas bandas é a minha Pedreira do samba e do amor).
O meu susto se deu exatamente porque, repassando uns comentários sobre o cálculo indicado no blog, encontrei várias intervenções questionando a afirmação de que a Terra é redonda e ao mesmo tempo, defendendo a idéia de uma Terra plana. Minha apreensão aumentou quando, rolando a barra de comentários, mais e mais pessoas apareciam reiterando esta noção de uma Terra com uma superfície definida em forma de disco. E com tal entusiasmo e decisão que ao cenário, só faltou ser acrescido o apavorante abismo eterno.
Parece inacreditável que na era do Google Earth, dos satélites e das estações orbitais, ainda apareçam opiniões tão antigas. Não houvessem estes suportes tecnológicos, a alternância dia e noite já seria uma dica considerável sobre a forma esférica da Terra. Mas me parece que estas evidências quase nos dadas de bônus pelo bom Deus, não bastam.
Há riscos nestas interpretações conservadoras dos estados naturais. Quem opera descartando o conhecimento que a ciência nos oferta, verga-se com certa facilidade para o preconceito, para a homofobia, para o racismo, para a eugenia. Empenha-se em defender a arma não mão do cidadão de bem. Não digo que ter convicções diferentes sobre a realidade, seja um pecado mortal. Infelizmente o que percebo é que estas certezas, não raro, vêm acompanhadas de intolerância, de violência, de radicalismo ideológico e doutrinário.

Acredito no crescimento através da educação e do conhecimento. E tenho certeza que a linha do horizonte, se buscada aqui do meu alpendre, vou encontrá-la um pouquinho antes das matas do Marajó. Prova de que há um mundo novo, além. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

crônica remix- Hera da terra

Hera da Terra (O Despertar de uma Lenda)

Era a final do festival de música da Escola Salesiana do Trabalho. O teatro da Escola, lotado. A animada torcida, distribuída pelos quatro cantos da platéia, anunciava em coro, uma certeza: “já ganhou, já ganhou”. No palco, o Hera. O Hera da Terra.
Foi uma noite inesquecível. A bem da verdade, aquele festival marcou. Muitas estrelas brilharam por lá naquele setembro de 1982. Assim, de repente, lembro do Gil Guedes, do (saudoso) Rui Guilherme, do Paulo Uchoa, daqueles fantásticos meninos de Queluz (que sumiram, heim!). Lembro também, que a coordenação do festival estava pávula, pávula, naquela noite, porque contava no júri, com o internacionalíssimo Sebastião Tapajós.
Lembro de pérolas da poesia que se instalaram para sempre no meu coração quando expressaram a indesejável solidão “...No teu cais do porto/ Não atraca/ Nem um marinheiro torto/ Náufrago de bar/Que fosse morto de paixão” ou a inevitável indignação“Olha o que brota do chão/ Nada mais do que lágrimas/ Que o homem plantou/ Sob a mira de fartos tropéis”.
Era a final do festival. O prêmio era, num oferecimento dos sorvetes Gelar, um violão e um troféu (quem ainda guarda este prêmio, heim?). Reações diversas na platéia. Óbvios descontroles em alguns, inexplicável serenidade em uns poucos. Encanto nos olhos. Indisfarçáveis emoções. No palco, o Hera da Terra.
Foi um arraso. A música “Despertar das Lendas” conquistou o mundo de gente que estava ali. Naquela final, a música já estava na boca do povo. Uma porque vinha das eliminatórias com todas as honras e, outra, porque era um produto ali da moçada do bairro. Nascera do solo gentil da Sacramenta.
No palco o Hera. Um grupo artístico-social-musical-etílico (não necessariamente nesta ordem) que juntava alguns dos maiores talentos de Belém (e vou aqui, citar só os capas, as unanimidades: Antônio Francisco, o poeta-líder; Arlindo, dito à época, Fernandinho, o mágico das harmonias e Ribba, aquele que coloria os poemas).
O Hera da Terra não ganhou aquele festival. Como todo bom festival, aquele foi marcado pela injustiça. Ganhou o samba trazido por um grupo do Curió.
Ganhou, porém, tantos corações...Ganhou o meu coração.
Gostaria de, aqui, homenagear todos os artistas que estiveram naquela final. Para mim, junto com aquela outra final, a da FCAP (que nos trouxe a Flor do Grão Pará, do Chico Sena) foi um dos momentos mais ricos da nossa música.
Neste sábado, à noite, a cantora Teresa Cristina vai reviver os grandes sucessos do Hera da Terra no Teatro da estação Gasômetro.  Que bom, poder assistir ao ‘despertar de uma lenda’.


sábado, 2 de setembro de 2017

crônica da semana - eclipse

Eclipse oculto (e põe oculto nisso)
Em 1991 aconteceu um eclipse aqui na região Norte, que mobilizou uma pá de gente. Para mim, ele foi um eclipse tão oculto, mas tão oculto que não vi um tico assim. E olha que fiz por onde.
Na época não tinha essa informação vasta pela internet, mas como sou metido nessas paradas astronômicas, fiquei sabendo com bastante antecedência do dia, mês, ano, horários e regiões em que o eclipse poderia ser visto nas melhores formas e jeitos. Em Belém, o sol teria uma ocultação parcial, que nem essa do último ocorrido. Ficaria em torno de 40%. Mas pra mim, já valia.
Trabalhava em uma mina no Amazonas, por esses dias. Articulei com os colegas, fiz as contas dos dias, bem certinho, programei minhas férias. Ficou tudo no jeito. Se a memória não me trai, foi em Julho. O fenômeno iniciou, como este que passou, ao cair da tarde, e como este que passou, apesar de um mês de sol pródigo, que é julho, exato neste dia, a tarde nublou. Égua da pissica da velha chica! Parece uma coisa. O pobre do belemense não tem uma forra nem pra ver o eclipse, vôte!
Animadíssimo estava, desde o início da tarde. Tive a aquilatada companhia do meu compadre naqueles momentos de espera. Marcamos encontro, almoçamos em algum lugar ali pelo centro e até a biqueira do eclipse, administramos a ansiedade tomando uma gelada no Bar do Parque, sob as benções de um geral que alvoroçava as mangueiras da Presidente Vargas. Estava preparadíssimo. Sabia que a exposição exigiria cuidados (com 40% de ocultação, seria quase que um sol normal brilhando intenso e emitindo ultravioletas perigosíssimos para os olhos). Montei várias partes de placas de radiografia desde aquelas antigas do meu menisco bichado até a mais recente radiografia do pré-molar (hoje sei que esta forma também não é segura. A peça admitida para observar eclipse é o filtro de soldador, aquele de mais alto grau, mas mesmo assim, para uma observação de poucos segundos. Mas o mais seguro mesmo é fazer a projeção em superfície branca, como já nos advertia Kepler lá em miliquinhentos e uns caroços).
Quando deu a hora, descemos para a escadinha. O vento geral tava que tava e isso aumentava a excitação daquela ruma de gente descendo para a baía. E era um quiquiqui, um alarido, uma animação. Mesmo quem não se conhecia, puxava conversa, procurava ver a qualidade das radiografias dos pré-molares... Houve de certo, uma interação, meio aquilo de povo unido. Na alegria e na tristeza. Por fim, necas de pitibiriba. O sol não apareceu. As nuvens não abriram uma brecha e pra completar, caiu uma chuvinha.
Frustrados, eu e meu compadre desviamos para um bar que tinha bem na beira do Ver-o-Peso. Tomamos todas. Edmar, do Mosaico de Ravena, estava tocando lá. Pedi uma canja e submeti aquela plateia a um grande sofrimento. Fui convidado a devolver o violão em meio a uma chuvarada de papel, cubinhos de queijo, pelinhas de tomate, petiscos diversos, apupos e palavras pouco elogiosas.

O pior né nada: lá no Amazonas, de onde eu tinha vindo de férias, o dia escureceu plena três da tarde e os passarinhos endoidaram.

sábado, 26 de agosto de 2017

crônica da semana - boiúna

Na boca da boiúna (crônica dedicada a Eduardo Costa)
“Lugar que tem pouco cachorro, desconfie.”
Tinha cinco cabeças de gado. Tirava leite bom todo dia. Enchia os baldes, transportava, reunia a família, fazia uma empreitada, distribuía o leite em garrafas de vidro de um litro, e depois deixava de casa em casa, na currutela próxima.
O rio corria lá embaixo. A margem era bordada de um capinzal alagado no baixio. Ao elevar-se um pouquinho, a beira era tomada por um emaranhado de raízes grossas e troncos retorcidos. Lá em cima, no plano, se erguia numa ponta de mata alta que tinha até uma castanheira resistente, solitária, mas vitoriosa. O caminho para o pequeno rancho era uma mistura de capoeira, pasto e uma mata rala nascendo. Não havia uma vareda bem definida, cuidada, limpa. Utilizava aquela área de beira-rio apenas como piseiro para os animais e para raros momentos de pescaria, portanto, qualquer trajeto, era trajeto, mesmo que se esgueirando entre os galhos, se abaixando sob troncos, deslizando em declive cheio de limo. Água boa para as coisas domésticas, apanhava de um poço, ao pegado da casa, que dava água o ano todo. Na época da seca, o custo era soltar a corda que o balde ia buscar água limpa e friínha lá embaixo, bem no olhinho do sol.
Quando deu pela falta de uma vaca, não disse nada.
O tempo foi passando. A lua cheia nascendo na planície alagada trazia a beleza colorida do horizonte para o alpendre. Entes e mundiamentos, trazia também.
A cada lua, um animal sumia. Até não restar mais nenhum. Ficou sem produção, sem jeito e dinheiro para conseguir outras leiteiras. Mas não disse nada.
Tinha uma criação coadjuvante pequena, mas diversa. Galinhas poedeiras, umas quantas cabras. Patos, picotas, marrecos. Alguns animais silvestres domesticados também incrementavam o plantel. Veado mateiro, uma preguiça sonolenta, uma penca de macacos excitados, jabutis, pacas e quatis. Um grupo de cachorros valentes guardava a criação e a casa.
O terreiro foi se esvaziando aos poucos.
E ele nada dizia.
Percebia uma mudança naquele largo que levava ao rio. Aos poucos, regos varridos, escavados, iam se formando. Eram bem lisinhos e mostravam certa ordem na direção. Saíam de vários pontos do capinzal, mas lá no alto convergiam no rumo único do pequeno rancho.
Quando não restou mais nenhum animal, nem de cria, nem silvestre, nem de leite, nem de couro, nem de pena, ele mandou a família para a casa de um tio, na baixada da Pedreira e mergulhou na solidão. Ficou só. Ele e os cachorros valentes.
Sobre as perdas, nada falou.
Não bastou ser valente. Na lua seguinte, nos seis dias de luz e colorido só restou um cachorro fazendo um arremedo de guarda.
Quando, no sétimo dia de lua, o último cachorro sumiu, ele refletiu nos dizeres do povo: “lugar que tem pouco cachorro, desconfie”. Desceu até a margem do rio e se deteve um pouco ante o capinzal alagado. Ouviu o silêncio da sucuri digerindo a última presa. Na outra margem o dia amanhecia cinza. Deu a volta subiu o barranco e, sem dizer nada, sumiu triste e derrotado ali pros lados da castanheira solitária.



domingo, 20 de agosto de 2017


Natureza morta. Fachada mais flores lilases.Madrid,2012

sábado, 19 de agosto de 2017

crônica da semana - segundona

Segundona
Não me tenham, como tantam por inteiro, apenas vou na leva. Na média. E é cada marmota que a gente arruma, nessa vida louca...
O que se deu foi que em pleno domingo véspera de feriadão, minha mulher se surpreendeu de me encontrar todo ajeitado no meu cantinho da cama, embrulhado só com o nariz de fora. Espantou-se com a minha determinação já que não iria acordar cedo no dia seguinte. Aliás, por causa do feriado imprensado, só voltaria a madrugar, na quarta-feira. Me toquei nas paradas e a única coisa que me ocorreu justificar foi que aquele é o meu costume, o meu jeito de ser meio doidinho.
E é de espantar por inteiro. No domingo, o custo é aparecer o letreiro do Faustão que já vou programando meu despertador, bebo aquele golinho de água, rezo o “com Deus me deito, com Deus me levanto” e vou me ajeitando pra dormir. E é tão centrada a intenção, que eu, que gosto pacas de futebol, às vezes nem vejo ‘o gols’ de tanta precisão que vejo em dormir cedo para acordar cedo. Diga se não é leseira por demais.
Esta minha determinação vem se construindo ao longo do domingo. Falo brincando, mas é sério. Domingo, depois de meio-dia, pra mim, já é segunda. Segundona cheia dos ais e uis.Tudo pode acontecer no domingo até a hora do almoço. Toco um pandeiro no samba, tomo uma gelada, passeio, bato o ponto na Banca dos Escritores Paraenses, na Praça da República, espaireço e libero o cocuruto de compromissos. Mas deu aquela horinha, o dia volteou ali pelas doze badaladas do sol a pino, vai dando aquele tóim óim óim na cabeça, e já que me avio nos termos. E de tal forma é, que, antes que a noite caia, o meu uniforme já está passado, meu par de meia separado, a mochila com minhas coisinhas pessoais arrumada. Só não calço a bota logo porque dou uma forra à comodidade, à confortabilidade.
Desde que tempo sou assim. Faz parte da minha carteira de responsabilidades este exagero. Sou meio aperreado nas amarrações de compromissos, mesmo sem pressão.
Nos tempos que trabalhava no mato, em Rondônia, no Xingu, por aí pelo ermo amazônico, armava acampamento nas mais altas lonjuras, pra lá donde o vento faz a curva. E mesmo distante dos centros administrativos das empresas, dos chefes e dos cartões de ponto, não dava mole. Sete horas já estava tomado café e de boroca no ombro, pronto para a lida. Por estar longe, fora de foco, com a equipe na mão, controlada, bem que poderia variar a jornada. Sair um pouquinho mais tarde, deixar a neblina sentar, tomar um café mais sossegado. Mas quite! Fazia questão de cumprir horário. E ia na frente. A galera atrás, emburrada, alguns ainda bocejando, outros terminando de mastigar as bolachinhas do café, os mais atrasadinhos, se equipando, ajeitando um lado do meião sobre a bainha da calça, dando uma correndinha para alcançar o grupo, ajeitando o outro lado...

O tempo passa, as urgências mudam, algumas seduções, permito que apareçam imperdíveis, irresistíveis, no domingo. Eu vou ficando mundiado, me arredando pra perto. De repente...Tóim óim óim. Não tem escapatória, domingo, pra mim, depois do meio dia, já é segunda, a segundona.

sábado, 12 de agosto de 2017

crônica da semana - 22 anos

22 anos e lá vai poeira
Na terça-feira próxima passada, inteirei 22 anos trabalhando na mesma empresa. Para mim, um fato extraordinário. Mas antes de ter este aspecto portentoso, na minha carreira de operário, cria um caráter subversivo na minha trajetória de cronista. Nunca na história desta coluna, falei deste trabalho do qual vivo os últimos 22 anos. Hoje vou falar.
E como sou um narrador dos pretéritos nem tão perfeitos, começo com o primeiro de agosto de 1995.
Foi um choque. Uma atividade completamente diferente daquela que eu desenvolvia até então. A mim me destroncou totalmente, o momento em que recebi uma pá, como instrumento de trabalho. Eu tinha mais de dez anos de formado como Técnico em Mineração e, até ali, a única ferramenta que conhecia era a lapiseira. Éraste, sofri que só com aquele choque de realidade. Chorava pelos cantos, meu corpo reagia mal àquela lida, àquele regime bruto que me fazia duvidar da mais remota possibilidade de vingar naquele serviço, um mês ao menos (que dirá, 22 anos). A barra pesou pacas pro meu lado.
Não desisti. Encarei a parada. Dei o valor exato àquele trabalho. Achei argumentos para torná-lo digno e importante para o processo em que eu militava e, ora, ora, para a minha sobrevivência.
A terça-feira próxima passada se deu em branco para muita gente. Não para mim. Volvi aos primeiros dias e catei uma razão para meus momentos de infortúnios. O motivo, talvez, viesse até mesmo daquele processo de formação na Escola Técnica que penso, sem maldade, nos incutiu este temperamento arrogante, ao sair para o mercado de trabalho. Não admitindo reveses. Na Escola a doutrina pregava a liderança, a chefia de grandes hordas de peões indisciplinados. O salário ali em cima, o status de ser um capataz melhorado, a soberba dos iludidos. A cartilha em que rezávamos não vislumbrava em momento algum, um cenário em que nós seríamos os peões. Daí o sacolejo que me tirou de órbita.
Mas não me arrependo, ao olhar para trás. A vida de operário me apresentou outros desafios rigorosíssimos (daqueles que deixavam o ato de empunhar uma pá, lá atrás em termos de tensão e inquietação). Aprendi o sentido de coletividade quando me envolvi no movimento sindical (ainda hoje, apesar da alteração na diastólica, não sei pensar só no meu umbigo. Tudo que diz respeito ao ambiente de trabalho, mesmo que me seja alheio, dou pitaco, faço zangas, contesto, apoio).
Meio sem jeito, um tanto bambo, com uma vergoinha besta, rogo o perdão dos meus leitores por desvelar essa passagem recôndita, escondidinha da minha vida profissional ativa. Não poderia deixar passar em branco esta data. E nem admitiria um silêncio sobre a minha alegria em ter conquistado 22 anos como operário. Sim, sou feliz por isso. A família, meus livros editados, alguns prazeres a que me dou o direito, uma ou outra ajuda a quem precisa, a minha cervejinha. Parte do que sou, os amigos que conquistei são produto daquele dia primeiro de agosto de 95, em que tomei como instrumento de trabalho uma pá e a transformei na mais lustrada, refinada e precisa lapiseira que arrisquei empunhar.


domingo, 6 de agosto de 2017

fotopintura


Baía de Guanabara em Paquetá - Natureza morta - Julho 2017

sábado, 5 de agosto de 2017

crônica da semana- sou dos becos

Sou dos becos, sou das bocas
Foi um tempo bom que não volta mais. Essa coisa de pobre andar pra cima e pra baixo de avião já que acaba. E nem é pelo preço das passagens. A baixa participação do nosso povo vai ser por causa do preço das bagagens. Agora, se a gente não cuidar, corre o risco de, só para despachar as tralhas, pagar quase o triplo do valor das passagens compradas naquela promoção pai d’égua.
É, vai pesar mesmo no orçamento... Como tínhamos uma promoção boa que nos franqueava a bagagem e nos levava por um preço bem em conta, escolhemos novamente o Rio de Janeiro como destino de férias. A paisagem, o traçado geomorfológico do Rio, é encanto comum. Todo mundo que visita a cidade, espera conhecer suas belezas naturais. Da minha parte, tinha uma motivação especial. Fui atrás dos becos, das bocas. E achei.
O que chamo de becos, ou bocas, porém, vai além das vielas perdidas e escuras. São as referências marginais, são formatos subversivos de arte, são resistências culturais. Algo diferente de ‘um cantinho, um violão’. Embora aprecie a dupla, estava mais para “barracão de zinco”, mais para “lata d’água na cabeça”. O meu norte era o samba, mas seguindo o som dos becos, apaniguei  a balada singela e até o Jazz.
O começo de tudo foi na Pedra do Sal. Um lugar de manutenção e realização da cultura afro-brasileira. Um espaço que agregou e congregou a religiosidade e a arte dos negros. Era o que eu estava procurando. De repente, estava pisando no mesmo chão que pisaram símbolos da nossa história como Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres. Um ambiente que reunia o negro vindo da ‘Costa’. E que, hoje, reflete a trajetória do samba sob as bênçãos de Tia Ciata.
Atualmente, há um esforço muito grande para sustentar aquele lugar como um local de culto à memória. A roda de samba que acontece ali, além de pôr a turma para cantar e dançar, além de reunir pensamentos comuns, também é um nicho de conscientização. E por isso sofre, como sofrem por este Brasil afora as manifestações populares, quaisquer que sejam, de rua. Uma semana antes da minha visita, a roda de samba não se realizou por causa da ameaça de ser empastelada pela Guarda Municipal.
O vento frio, o ar seco, cortante me levou a lugares aquecidos. Uma ponta prateada de lua me indicou o caminho e fui dar em uma reunião embebida pelos mais concentrados fluidos de liberdade. Uma rua, até um dia desses, abandonada, ao largo da praça Tiradentes e que hoje se move excitada respondendo aos estímulos vigorosos do Jazz.
Mais uma voltinha no vento, e o encontro com a palavra de esquina, plena,vulcânica. A Lapa, na praça Luana Muniz, se iguala em opulência à mais extraordinária feição geomorfológica da cidade. O Sarau do Escritório é uma grande planície florada, com campos densos, e aqui, ali, escaninhos reluzentes, misteriosos, donde surge um Chacal a uivar versos livres.
Nas ruas do Rio de janeiro, encontrei a música (algo diferente do cantinho e do violão), a poesia, o traço, a cor, a história, a memória, corações e afetos, valores e conteúdos que me ratificaram como sendo dos becos. E das bocas.


sábado, 29 de julho de 2017

crônica da semana - santosdumont

Viagem de avião (com o pé direito)
Antigamente eu tinha uma roupa meio aquela de arrumadinha só para viajar de avião. Camisa manga comprida, calça social no mais alinhado vinco, lenço passadinho no bolso. Durante um bom tempo ostentei, também, um sapato em couro trançado que era um mimo. Durou, durou que só. Depois que aquele par de sapatos se acabou de vez, sei lá, minha vida ficou vazia (ou minhas viagens de avião ficaram de vera, sem jeito, menos engalanadas).
Era um acontecimento. Uma viagem de avião naqueles meus primeiros passos pelos céus era algo de garboso momento. E algum sinal: quem viajava de avião, ou era barão ou trabalhava em firma boa em Tucuruí. Eu não trabalhava na construção da hidrelétrica, mas era da parte da firma.
Tirando as formalidades que foram, de certa forma, abolidas (dispensei o lenço), com o passar dos anos, a sensação que tenho, ao viajar de avião, ainda é a mesma. Não chega a ser um desespero daqueles de encarreirar os mistérios dolorosos em recitações tensas do terço a cada decolagem, mas, me bate uma gastura, uma impressão de pequenez, de impotência.
Estar flutuando, aparentemente sem se apoiar em nada, sem se mover sobre qualquer matéria visível, me inquieta. Iniciados vão argumentar que há sim, um meio físico de suporte para a sustentação da aeronave lá em cima que é o ar. Mas a gente lembra disso lá nas alturas? O que a gente vê mesmo é só o vazio (ou umas doces nuvenzinhas entre o avião pesadão e o chão distante e certo).
Longe de mim descredenciar a ciência das coisas, mas lá em cima o buraco é mais embaixo. Não sei vocês, mas em voos com mais de uma hora de duração, já procuro o sol, uma estrela conhecida, o mar, pra ter certeza que o bicho está no rumo certo; crio referências para perceber se não está perdendo altura; tento, apesar das constipações no ouvido, discernir ruídos (não tem uma hora que parece que o motor para?). Fico ligado e, em que pese uma injustificada desconfiança acerca dos absolutos tratados sobre aerodinâmica, revisito mentalmente os conceitos da Física que mantêm aquela máquina porruda e pesada, no ar. O ouvido atento...
Pensando sobre isso ainda, já em terra firme, no Rio de janeiro, subi os quase mil metros de altitude da serra da Estrela e fui confortar meu coração na casa de Santos Dumont, em Petrópolis.
(Se eu estivesse na quinta série e, no retorno às aulas, tivesse aquela missão de fazer uma redação falando sobre as férias, escreveria contando estes detalhes, estas besteragens que permeiam meus pensamentos, não exatamente semeando pavor, mas talvez ativando uma pontinha de orgulho e encanto que tenho por uma humanidade criativa, revolucionária, que descobre matéria onde nada vemos, que usa das forças invisíveis, e que domina os mistérios gloriosos do céu. Continuaria reiterando este meu fascínio, principalmente por ser o Brasil, o berço do homem que pôs pra voar a primeira máquina mais pesada que o ar.  Admitiria a minha pequenez porque, não entendi a genialidade de Santos Dumont, patetei e ameacei  iniciar a subida na escada da casa do gênio com o pé esquerdo).

  

sábado, 22 de julho de 2017

sou dos becos
sou das brenhas
sou das bocas
putas nuas
sou das brechas
arte louca
sou dos nichos
sou dos guetos

batuque que bato
artes santas

momento que vivo
tempo bêbado
clima nu
sou do samba
das esquinas
sou do jazz
Pedreira paz
sou bate batera
sou da pedra
sou 90 

sou o som
que vem no vento
assobio

sábado, 8 de julho de 2017

crônica da semana - escadinha

Férias na escadinha
Alguns minutos de espera por uma carona me fizeram voltar muitos anos no tempo. O ponto de encontro era a escadinha do cais do porto, na praça Pedro Teixeira. Enquanto, minha carona não chegava, dei umas voltas para abelhudar  a produção da turma de pescadores que àquela hora da noite, mariscavam aproveitando a maré enchendo e a noite sem chuva.
Revisitei os tempos de traquinagens e peraltices de moleque rueiro, que eu era. O custo era a batida da campa anunciar o fim da última aula e as janelas das férias se abrirem amplas, gerais  e irrestritas  à nossa frente,  que num instante, a gente inventava uma pescaria na escadinha.
Antes, claro, vencíamos o asco, o dito nojinho e nos embrenhávamos pelos estirões de terra preta que dominavam os quintais da Pedreira, em busca de minhocas para isca. 
Mamãe sabia da aventura. Recomendava. Avisava sobre os ventos fortes nos finais de tarde, sobre o banzeiro certo quando o sol esfriava (o que quer dizer que, Deus te livre e guarde de descer a escadinha para desengatar linha. Esta arte ela não permitia de jeito e maneira). Nestes termos, me dava a bença, e eu estava liberado. Podia ir. Não tinha muitas opções para as férias. A pescaria na escadinha era, por certo, um divertimento, mas, também, me ocupava, me fazia desprezar aquela trava de menino besta de não pegar em minhoca, em terra molhada. Tirava de mim o medo de varar as cercas da vizinhança, de andar descalço pisando na terra nua, no úmido da beirada daquele igarapé que corria por detrás das casas ou na lama vasta quando ele se espraiava no (i)gapó.
Divertir, a gente se divertia a valer. Folgávamos com aquele deslumbramento, com aquele transe provocado pelas cores que modelavam o horizonte, no arrebol. Agora, pescar, não me ocorre ter fisgado um único peixe.
Divertir, nos divertíamos às pampas, com o vento que soprava com mais de mil de encontro a gente, e dava aquela sensação gostosa de muito ar, de muita vida, de um mundo de alegrias, distante, agitado, mas amistoso  vindo nos visitar. Por outro lado, pescar, pescar mesmo, puxar um peixinho daquele jeito de fazer um risco na água. Lembro não.
Na minha história de escadinha, não puxei um único peixe. Até que sentia o bichinho beliscando minha minhoquinha, mas patetava, perdia a puxada e ele fugia. Por outra, a minha linha engatava nas pedras (mamãe não deixava eu descer. Ralhava), eu quebrava bem na mão, e ficava sem, só ‘amucegando’ os outros moleques.
Quando as aulas voltavam, em agosto, todo mundo contava história de veraneio em Salinas, Marudá, Algodoal. Eu fazia a minha redação na mais pura mentira, botava pra chulear na imaginação (talvez venha daí o pendor para crônica). Dizia que tinha passado o mês todo em tal lugar maravilhoso assim, assim, com praia de água salgada e muitos coqueiros na areia. Mas quite! Pintava os canecos mesmo era na escadinha.

Na minha abelhudação, enquanto esperava a carona para casa, lembrava dessas coisas. E vi que os pescadores, naquela noite, até que estavam puxando. Uns peixes gititos assim, mas enfim...Puxando e se divertindo pacas.

sábado, 1 de julho de 2017

crônica da semana- biotônico

Biotônico Fontoura
Peguei todo mundo na mentira. Nem era par ser este Bê-á-bá...Bê-é-bé...Bê-í-bi...o-tônico Fontura o título desta crônica. O certo mesmo era esta historinha ter por título o outro suplemento famoso da minha época de moleque parrudo, o óleo de fígado de bacalhau. Mas é um nome grande, com sobrenome e subtítulo em versão erudita “Emulsão Scott” e em dito popular “Emulsão de Escote”, que era como eu conhecia. Por aí a gente tira, só no título eu consumiria boa parte dos caracteres que me são disponíveis nesta prosa.
Mas não vamos nos bater. Não há motivo pra gente ficar de ponta. Minha mentira é doce. Não é de fazer mal. Apela para uma imagem, para um gosto antigo e revigorante, abre o apetite, tira a palidez e, olha, é mentirinha cheia de afinidades, afinal, naqueles tempos, a Emulsão de Escote e o Biotônico Fontoura eram fortificantes que a gente tomava uma colherada dum; passava um pedacinho, e uma colherada doutro.
A dupla, me parece, ainda existe nas farmácias. Não tenho certeza. Perdi contato. Acho que por isso ando numa panemice, num desânimo só.
O que torna é que há um motivo pra este tema de hoje. E não tem lá a ver com a sustância e a boa disposição prometidas pelos elixires. Disse que era uma crônica surgida de uma imagem, num foi? E é. De um rótulo.
No vidro de óleo de fígado de bacalhau, o rótulo é ilustrado com a imagem de um pescador trazendo às costas, um peixe enorme. O bacalhau é fisgado e alçado de forma que, pendurado, dá na altura do homem.
Em mim, é marcante esta figura. Forte a idéia de um peixão fisgado. Elevado. Dominado. Uma cena anticonflito. Anti “O Velho e o mar”. Não sugere esforços exagerados do homem para pegar o peixe. E até me parece contradizer os benefícios da bebida, porque o homem representado não exibe aquele ar saudável, conquistador, vencedor. Na foto, tá mais pra Jeca Tatu que para Hemingway.

E foi no Veropa, que tal? Tava eu espairecendo da semana, tomando uma gelada, ao pôr do sol, bem de boa, só curtindo o ventinho terral, quando alguém, com um semblante entre o horror e a incredulidade, me levou a olhar além dos ombros. Atrás de mim, uma cena desconcertante para uns princípios conservadores que ainda cultivo. Uma moça estava sendo, literalmente fisgada. O arranjo consistia em mostruário de pano preto apinhado de brincos e piercings de tudo quanto é cor, tipo e qualidade, uma bolsa aberta, largada sobre um banco, uma moça dividindo uma cerveja com um parceiro e um rapaz (tatuador?) fincando um gancho deste tamanho um isso assim acima dos lábios dela. Esta sim, uma cena com o fulgor, com a energia e a força de um Hemingway. Na investida decisiva, acompanhei a zagaia varar a pele da menina. A bichinha chega ergueu-se da mesa (O rótulo da Emulsão de Escote se reproduzindo ali, de palmo em cima). Depois de perfurado o buço, a limpeza do pouco sangue derramado foi feita. Com o beiço meio inchado a moça olhou-se no espelho e aprovou o trabalho do tatuador (instalador de piercing?). Ali, em pleno Ver-o-Peso, a moça continuou com a cervejinha, e a prosa com o acompanhante. Fisgada e Feliz.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

crônica da semana- pai alterna

Pai alterna
Era um show de um rapazinho fofinho, gente boa pacas, adorado pela petizada. Por força das interações, convivência e conivências com minha filha, até sabia umas músicas dele. “Tempo de pipa” era a minha preferida. Fui junto. Fiquei lá espremido junto à grade, bem pertinho do palco, durante boa parte do show. Ao final, acompanhei o cortejo de fãs até o camarim, supliquei para o baixista chamar o cantor lá dentro, e quando ele veio, esperei pacientemente, a vez, para fazer o retrato dele com Amaranta. Foi tudo muito perfeito e prazeroso naquela noite. O desfecho feliz, autógrafo, quetais, coquetes e salamaleques. Mas o começo de tudo foi tenso.
Era noite. O local do show era uma mistura de casa de espetáculo e bar. Minha filha tinha pouco mais de dezesseis anos. Apesar de todos os papéis solicitados pela produção, na hora de mostrar as identidades, a menina foi barrada. Um segurança de uma envergadura monumental, que se fosse medido, bem medidinho, somaria uns três quilômetros de tórax e que se alçava a uma elevação comparável a um prédio de oito andares, nos impediu de entrar, sem papo e sem apelo. Pensa num pai pê-da-vida. Olhei pra cima, comparei nossas posses, ponderei que o paletó preto que encapava o segurança, poderia fazer alguma diferença em favor dele, na hora do vamos-ver-quem-tem-razão, já que, só de bermuda, camiseta e percata, eu estava. Relevei a afronta, desisti do enfrentamento radical e passei à conversa. Ele me cobrou uma autorização do juiz. Aí eu peguei o bacana na dobra. O que seria uma autorização do juiz senão uma autorização minha, do pai, autorizando o juiz a autorizar a entrada da minha filha naquele recinto. Estávamos pulando etapas, ora. Eu já estava ali. Estávamos economizando tempo, aliviando a carga de um servidor público aquilatado, desestressando a magistratura dessas coisinhas bobas. E dei o xeque-mate, anunciando a ele e aos passantes, que eu autorizava. O próprio pai estava ali para autorizar a menina. Fui aplaudido pela galera que fazia fila na roleta. Sem defesas ele capitulou, não ficou de todo convencido, não, mas vergou o corpanzil, ajustou a pulseira de plástico com uma tarja verde no meu braço, no braço da minha filha, e abriu caminho. Depois foi tudo as mil maravilhas. Showzaço do Cícero. Minha filhinha feliz.
E virei pai alterna. Uma marca surgida por causa dos lugares meio diferentes, em que eu era visto acompanhado dos meus filhos. Encontro de poetas, batuques em praça pública, arrastões de bois, e estes shows de cantores pouco conhecidos. Era comum eu levar as crianças para estas partes. Com o passar do tempo, eles é que passaram a me levar. E foi assim, no show do Cícero fofinho. Eu,  em muitos casos, ainda, chancelando a identidade e segurando a onda com seguranças porrudões.
Depois de amanhã, Amarantinha completa 19 anos. É dona do próprio nariz, responsável e programadora de si mesma. O lado bom é que já é ‘de maior’ e não precisa mover mundos para ter direito ao divertimento que lhe apraz. O outro lado, é que não convida mais o pai alterna para ir às partes com ela.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

crônica da semana - senhr,senhor

Senhor, Senhor!
Parça do meu convívio. De conversas repentinas, assuntos rápidos. Só que, infelizmente, dia desses, emendamos o papo.Vai daqui, vai dali, e ele foi desfiando vantagens. A água da casa dele era ligação direta do tubulão da rua. Paga só a taxa. Luz, toda noite, joga o bode na rede de alta para garantir os 220 volts do ar condicionado. Internet, tem pelo menos duas senhas clandestinas garfadas da vizinhança. Cai uma, usa a outra. TV a cabo, emenda cabos, conseguiu antena na feira do Barreiro e, em dias de jogos, declina da seleção de filmes para adultos e vibra assistindo aos jogos do Papão estirado no colchão de mola que comprou de um terceiro, sem nota. Tem uma carteirinha de meia-passagem, apesar de ter abandonado a escola há mais de 20 anos. Contava essas estripulias, digamos, pareadas à contravenção, com certo orgulho. Fazia caras altivas, presunçosas. Tipo eu sou o talzão. Olha, fiquei besta com aquele enfileirado de trambiques. Teve uma horinha, que me permitiu a palavra e eu indaguei se de nada lícito ele tinha em casa ou no uso para contar. Silêncio. Depois de uns instantes, lembrou que tinha o diploma de Pedagogia, mas sobre ele pairava uma pendência ainda. Pagou o curso direitinho, mas deu rolo no registro do MEC. Não soube explicar ao certo. Desconversou. Puxou o celular, buscou a foto e me mostrou a testa do rapaz tatuada.
Este mesmo parça, já o vi em novenas de rua, daquelas que acontecem ao pegado do Círio. No meio dos outros, aparentando fé ardorosa. Em certos momentos mais aquecidos, de mãos dadas com os demais devotos, olhos fechados, cenho franzido, é tradição chamar com voz suplicante: “Senhor, Senhor”.
Movimentava o celular à minha frente para que eu percebesse o detalhe, para que a humilhação do adolescente se mostrasse para mim em vários e grotescos ângulos. Enquanto manipulava o celular, fazia uma narração cheia de ódio. Declarava sem a menor prudência, que se fosse ele que pegasse aquele ladrãozinho, faria até pior. Arrancava as unhas dele, faria um furo na bochecha, lanhava as costas com cinturãozadas. Quebrava uns dentes. Senhor, Senhor!
Um choque, aquela cena de horror. Passei um tempo sendo submetido àquele transe selvagem. Dentro de mim, me questionava sobre esta coisa ruim, este instinto bruto que temos dentro da gente. Esta medida de uma única via que julga, condena, menospreza alguém que sequer sabe quem é, e, por outro lado, abstêm-se de culpas mínimas; salva-se a si mesmo de tatuagens ou penas leves, pela prática de delitos socialmente inocentes (como usar do gatonet). E além de tudo, posta-se de bem com torturas e vilipêndios.
Informações de várias fontes me chegam dando uma versão diferente para aquela barbárie. O garoto sequer era ladrão contumaz, padece de um desequilíbrio mental. Foi torturado por puro sadismo. Outras notícias dizem que uma vaquinha foi organizada a fim de patrocinar uma cirurgia plástica para remover a tatuagem.
Outubro se avizinha... Não adianta clamar “Senhor, Senhor” e acender uma vela para a tortura e outra para a brutalidade. A Santa, mãe de Deus, tá vendo.


sábado, 10 de junho de 2017

crônica da semana- recomeços

Recomeços
Éraste,  parece uma coisa, olha! Ô paradinha pra dar certo no jeito e na cor. A gente nem dá o particípio, nem corre nos intercâmbios, sequer recorta os entornos ou dobra as calendas e, tibum! Mergulhamos nas mais doces coincidências.
Calhou d’eu entender que este momento que vivemos, embora permeado de dramaticidades e extravagâncias, seja também de reviravoltas, de revoluções. Não que eu esteja sendo acometido de um otimismo vão, sem sal e sem aval. Também não sou assim, bestão, alienado. Tenho consciência de que o cenário é delicadíssimo. Ao mesmo tempo, porém, é de decisões.
Penso que segui um princípio de sobrevivência, um juízo inquebrantável. Vamos resistir. Pensando bem, algumas feridas abertas neste corpo-Brasil são reveladoras, expõem diferenças antes camufladas, exibem as hipocrisias. Assim, o caminhar até que é mais seguro, vamos reconhecendo as vilanias, e daí, criamos defesas, superamos as hostilidades com o combate da hora.
Isto, em todos os campos de relacionamento. Naqueles que atingem o bolso, ou em outros que nos esmigalham o coração.
Pois não é que calhou!
Vi olhos, neste início de junho, brilharem como antes não brilhavam. Vi horizontes se descortinando num comportamento múltiplo, em escalares desafios, e medo nenhum percebi, tecido ou trançado ao largo. Pai d’égua, isso! Vi passos decisivos no rumo de recomeços.
E eu que reitero, reinicio,  reeescrevo. E eu que meto meu bedelho no fundo do olho do mundo nesta arte de “reiterar o já dito, o já vivido, o já pensado”, acho muito dos seus pai d’égua essa história de ter serventia para que alguma paradinha aconteça e mude mundos, mundinhos, Raimundinho! Mundinhos, Raimundinho!
Vi também, sorrisos reeditados, exposição de encantos sazonais, humildade, afeto perto-longe, conivência. Vi na simpatia de D. Dora, leitora aqui da coluna que desde 2013 comparece às edições da feira do Livro, no Hangar, para ter uma prosa assim comigo.Vi naquele carinho, a dimensão completa e repleta de responsabilidades, que têm as palavras que digito todos os sábados aqui. E eu? E eu acho muito pai d’égua, esta cumplicidade!
Então calhou, que por causa do título do meu novo livro, eu desenvolvesse uma dedicatória, na hora dos autógrafos, que sinalizasse para recomeços. Por causa do mês de janeiro, por causa da sobreposição de temas. Uma explicação tecnicamente possível para a edição da coletânea, deste ano, enfim. Em outro sentido, não pensei, não maldei.
Mas o mês de junho começou ditando vieses que nem janeiros. E eles se desenharam no campo do amor à vida, na esfera do trabalho, no reencontro com D. Dora. No fortalecimento de velhas amizades. Na crença em revoluções e resistências.
Não era esta a intenção. Mas calhou, ora se calhou!
E minhas noites têm sido de sono profundo e reconfortante. E minha alma me anima doce e abrandada. E minha razão reconhece o mais concreto e certeiro que possa ser o futuro. Alcançável, ora.

Ô coisa pra dar certo! Assim, apontando os particípios, os tais intercâmbios, aqueles entornos, as ditas dobras e calendas. No rumo das mais doces coincidências

sábado, 3 de junho de 2017

crônica da semana- janeiros

Janeiros
É o quarto episódio de uma aleatória temporada da série que mais com pouco explico. Vai ter sessão de autógrafos hoje. Sei que aos sábados, tenho muitos leitores que me acompanham aqui na coluna. Em outros lançamentos, tive oportunidade de conhecer alguns de vós. Seria bom nos vermos. Apareçam.
Fosse outro o caso, eu poderia até oferecer um caldo de cana com pão doce, um Q-suco de groselha com broa polvilhada. Mas, Deus te livre e guarde! Não pode. O regulamento da Feira do Livro é rígido. Não permite seduções e nem prazerosos intermediários. A coisa é ali, entre o autor e o leitor. Ninguém se mete.
“Janeiros” é a realização de um desejo que venho cultivando desde 2013. Tô querendo guardar em livro, as crônicas que venho publicando no jornal. É uma missão. São quase quinhentas crônicas. Isso em uma única edição sairia uma fortuna, então, venho picando as publicações, em episódios, sempre que aparece uma graninha. Nesta leva de intenções, a série vai se ajeitando. Na sequência das edições vieram “O rio do meu lugar”, “A rainha do rádio”, “Corrente” e agora, este “Janeiros” que vos apresento. Por enquanto está tudo nos conformes. O bom pai tem me ajudado e meu projeto tá caminhando rente como pão quente.
As outras edições da série foram temáticas ou enquadradas em razões para se realizarem. Ora conceituais, ora sentimentais, ora estilísticas. “Janeiros” obedece a esta cobrança formal que me imponho.  A composição do livro é inspirada em uma dinâmica textual muito usada por Nelson Rodrigues, e evidente em “O Óbvio Ululante”, coletânea que terminei de ler dia desses. Arremedando a pegada do autor, “Janeiros” é formado pela repetição de temas. Nos meus escritos, encontrei eco no método abonado e assumido, por Nelson. Reparei que abordo o mesmo assunto umas quantas vezes. Mas dei, também, que este é o grande desafio, o grande barato. Dar movimento, tratar tramas constantes de formas variáveis, esta é a motivação. Sinto benzinho essa pressão nas crônicas que escrevo no mês de janeiro. É o mês de aniversário de Belém e há anos dedico a coluna à cidade. Com o cuidado de dar roupagens diferentes às histórias. Um ano falei da geografia, em outro mirei na arquitetura, mais outro e apontei para o coração de quem ama Belém. Uma versão que me deu muito gosto fazer foi a que expressei a relação com a cidade, do ponto de vista de alguém que está distante. Centrei a narrativa no Acre e criei uma personagem inspirada em minha mãe. Muitos segredos não vividos se revelaram para mim, naquela experiência.
Uma construção cíclica, tendo uma Belém inalterada sentimentalmente, e em contrapartida, travestida de incertezas, exige sempre um recomeço e uma guinada estratégica ao racional. Reescrever, reiterar o já dito, o já vivido, o já pensado, é sentir-se à vontade para nascer de novo e ver o cotidiano com outros olhos, com outra voz, com braços e pernas livres. Novos olhares são novos saberes, são novos prazeres. São janeiros.
A reinvenção de temas pauta o meu novo livro. Todo janeiro, me renovo.  Em “Janeiros” me reinvento. Borilá. Espero vocês à noite, no Hangar.


sábado, 27 de maio de 2017

crônica da semana- limousine

A limousine do ricaço
Tenho uma irmã que sempre que me visita, deixa uma prosa pra lá de especial. Domingo próximo passado, revelou que se considera uma pessoa pra lá de chique, porque, na vida, já andou de limousine.
Na reuniãozinha de família, todo mundo desdenhou desta pavulagem. Mas quando, já? Ora, limousine! A gente se ampara na sorte para pegar uma vaga sentado, no Sacrabala, agora avalie um rolé de limousine. Nem nunca!
Para mim, é um carro de ricaços, coisa de cinema. Não acreditava existir uma limousine em Belém. Até que um dia, aconteceu, num casamento.
Era junho, os meninos estudavam no colégio do Carmo e a noite era dedicada ao tradicional folguedo. Tem aquela hora que a festa ganha aquele ar intimista, os alunos procuram seus grupinhos, arrastam pé pelo salão e os pais são largados ao largo, só no mingauzinho de milho. Fiz um trato com os meninos. Podiam se divertir a valer que a gente ia bem ali, na praça tomar uma cervejinha porque ninguém é de ferro (pleno sábado!). Quando saímos, uma movimentação de gente bem vestida, só no salto e paletó, chamava a atenção. Encerrava-se uma cerimônia de casamento na igreja do Carmo. De repente, uma surpresa. Pelo canto da praça, vislumbramos uma reluzente aparição, um carro esticadão e maravilhoso Era sim, uma limousine exibindo-se em pomposa aproximação.
Foi lá em baixo, no beco, fez a manobra, o motorista encostou rés o portão da igreja, e desceu.Tão engalanado que mais parecia um major da RAF . Os convidados cercaram o carrão e lá de dentro, sob uma chuva de arroz, emergiram os noivos. Receberam homenagens, beijinhos e abraços rápidos. A marcha nupcial lá longe, tocada delicadamente por músicos refinados. Uma débil tentativa de organizar as mais animadas e a noiva lançou o buquê. Tão logo os providenciais conselhos da mãe foram guardados na memória da noiva, os dois entraram no carrão. Foi então que rolou o momento mais garboso do evento. Não é que a limousine tinha aquela abertura no teto! O motorista ligou o motor, mas não pôs o carro em movimento. Deu-se o suspense. Eis então que os noivos aparecem no topo da limousine, com sorrisos largos e metade dos corpos para fora, ostentando taças adocicadas de champanhe e amor. Aplausos, encantamentos, invejinhas discretas e sinceros rogos diluídos na turba e o carro desaparece na dobra da Dr. Assis.
Eu, que tomar uma cervejinha iria, fiquei bebinho da silva com aquela solenidade. E com a exuberância daquele carro esticadão com teto solar super útil em plena noite de São João.
A humanidade seguia assim, de limousine, no meu cocuruto, num mundo irreal, até que o vendedor de mingau que a tudo assistia ao meu lado, cortou meu barato revelando que não era de verdade, aquela limousine. Era uma imitação mal arranjada. Minha convicção foi destruída por aquela opinião. Voltei ao normal, desacreditando na existência de limousines, motoritas da RAF e chanpanhes.
Hoje, a única limousine que acredito é aquela que carregava minha irmã, quando ela trabalhava na casa de uns ricaços no Rio de Janeiro e nas férias, ia toda chique, no carrão com eles para Angra.