sábado, 20 de maio de 2017

crônica da semana - cai cai da estrela

Cai-cai da estrela
Não tinha aqueles sonhos que parecia que a gente estava caindo? Mamãe dizia que era porque a gente estava crescendo. Com metro e pouquinho de altura, conclui-se que... sonhei muito pouco.
Se não caí tanto nos sonhos, na vida real eu sou o próprio cai-cai da estrela. (nota para os mais novos: Brinquedos Estrela. Era uma indústria poderosíssima de brinquedos que dominava o ramo, no Brasil. A petizada se encantava com os lançamentos da Estrela a cada temporada. Uma outra galerinha tirava onda. Como o marketing sempre agregava o nome da empresa ao produto, em conjugações do tipo ‘o pula-pula da estrela’ ou o ‘bate-bate da estrela’, a molecada logo taxava aquele moleque meio azuruote que do nada, vivia caindo, fosse na bola,fosse nas brincadeiras de pira, fosse no simples caminhar pelos canteiros da Pedreira, de ‘cai-cai da estrela’. O meu caso).
Éraste, eu era campeão. Os meus estatelamentos mais comuns são aqueles de perda de chão. Acho que é porque sou pequenininho. Foi não foi, há aquela distância cruel entre a intenção e o gesto da pisada e tibei-te, lá vou eu ao chão.
(A mais extraordinária das quedas e aquela da qual emergi ileso e não bati o pacau por força de um milagre, ocorreu na Vila dos Cabanos por causa, ora, por causa de dóceis patinhos. Acontece que minha vizinha tinha uma criação que era um mimo. Uma noite de sobras em casa, raspei a panela e fui ao quintal fazer uma pré para os amarelinhos. Deixa estar que o quintal estava escuro e na ânsia de alcançar a cerca que dividia nossos quintais, nem dei que o alpendre era bem alto. Um passo em falso e desabei eu e a panela de petiscos. Até hoje penso que ouvi risinhos patéticos do outro lado da cerca, deixa eles. A queda foi feia, de alto risco. Um anjo me amparou e eu levantei sofrendo apenas de susto).
Ao pegado das quedas por perda de chão, vem o desaprumo por tropeção (ou tropicão, como dizem os mineiros bãos). Este é mais paid’égua. Não comporta tanto risco, e se destaca como um deslizamento algo cômico, algo trágico.
(Na minha passagem por Altamira, trabalhando com Geologia, experimentei longas caminhadas em mata fechada. Era o meu calvário. Eu me enganchava nas raízes, nos cipós, em troncos atravessados no meio do caminho e era tibei-te que não acabava mais. No início, os pequenos da minha equipe preocupavam-se, me acudiam, levavam a minha boroca pra reduzir os enganchos. Mas eu era pateta por demais. Não estava acostumado. Um piado ao largo, um ronronar longe, eu pensava que era uma fera da floresta prestes a nos devorar, desviava a atenção no caminho e enchinava chega fazia um rastro na floresta. Por fim a equipe me largou de mão e esperou que eu por mim, reagisse, que eu tomasse tento. Sei que riam risinhos a cada pouso forçado, mas sabiam que era uma queda doce. A floresta não machuca).

Pelo que se torna e pelo que se deixa, essa marmotagem de cai-cai da estrela me certifica como um homem normal, que se submete a uma lei formulada por Newton. Não sofro por isso. O que me enfeza é saber que tem gente que não se submete à lei nenhuma e só cai pra cima. Só cai pra cima.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

crônica remix- vestida de azul e branco

Vestida de azul e branco
Levando um sorriso franco pelos caminhos que iam dar no Instituto de Educação, Luzia encantava com os seus passos educados, o insubordinado seringueiro.
Pra frente que era, o homem do mato, mais velho e mais experiente, mas indiscretamente apaixonado, não resistia e acompanhava, com evidente interesse, o inocente caminhar da normalista de 16 anos rumo à Escola Normal.
No início da noite, enquanto as moças passeavam faceiras pela praça à beira do rio, ele juntava uns amigos, arrumava um violão e se declarava para Luzia cantando os versos de Nelson Gonçalves que tinham uma normalista como musa inspiradora.
Não conhecia limites, o coletor de látex, fazia e acontecia para chamar a atenção da jovem estudante. Aproximou-se da casa, conquistou os pais, os irmãos, superava-se em gentilezas para a família.
‘Mas a linda normalista não pode casar ainda, só depois que se formar’, alertava a poderosa voz de Nelson Gonçalves na canção. E ele esperou.
Nessa época, Luzia ainda não era a mamãe. Era uma estudante do curso normal querendo ser professora lá nas terras distantes do Xapuri e Manoel Sodré, atentado que só ele, ainda não era meu papai que tão pouco conheci, era um coração entregue, dominado, submetido aos caprichos da paixão.
O seringueiro, que de passagem se diga, era realmente um homem carismático, boa praça, fez porque fez que acabou ganhando a simpatia e o amor da doce normalista.
Casaram-se. E foi tudo direitinho, como manda o figurino. Com véu, grinalda, e lua de mel na capital do então território do Acre. Depois vieram os filhos...
Outro dia, coloquei o disco na vitrola, chamei os meus meninos e disse, olha aí, foi assim que a nossa história começou, com o Nelson Gonçalves fazendo a trilha sonora.

Luzia enviuvou aos 28 anos. Desde então, viveu apenas para as crias. Deu as costas para o mundo e dedicou a vida única e exclusivamente ao papel de mãe.
Neste ano de 2008, faz dez anos que Nelson Gonçalves nos deixou. Naquele dia, quando ouvi pelo rádio a notícia da morte do cantor, senti que os rastros deixados pela felicidade que um dia existiu, estavam por fim, se apagando.  Pressenti que a linha frágil, mas benéfica, útil que ligava a história da cândida normalista lá do interior do Acre com a mãe dedicada prostrada, agora, num leito de hospital em Belém, estava, a partir daquele momento, se rompendo.
Naquele instante, peguei a mão de minha mãe (as mãos mais lindas do mundo), e pedi que ela cantasse aquela canção do Nelson. Por quê? - perguntou ela surpresa com aquela idéia absurda. Porque, mamãe, respondi pausadamente, porque quero guardar a tua voz aqui dentro do meu coração cantando a canção que um dia te fez feliz.
A minha mãe não cantou. O ar lhe faltava para articular as palavras (e tanto que ela gostava de cantar!). E eu também não lhe falei que o Nelson Gonçalves havia morrido.
Por aqueles dias (como hoje, véspera do Dia das Mães), eu quis fugir, me perder no mar sem fim e chorar escondido. Mas no14 de maio, dia do meu aniversário, tive que ser forte. Não escapei ao último encontro com a bela normalista que, certa vez, se apaixonou por um seringueiro bruto. Comemos o bolo de caixinha que a minha irmã fez e cantamos um parabéns austero, como num ritual de despedida, até que ao final da tarde a luz que vestia de azul e branco o olhar da minha amada mãe foi se apagando...

No dia seguinte, o sorriso franco era apenas uma lembrança de uma canção ausente, e minha mãe, para o meu total desespero, descansava serena, para sempre em paz, em meus braços. 

sábado, 13 de maio de 2017

crônica da semana-fosfosol

Choque de realidade
Há muito tempo, lá nos meus primeiros dias de trabalho em Rondônia, ouvi de Rogério, bateador da minha equipe, que se eu não tivesse estudado um pouquinho, eu estaria ferrado.
É que lidávamos com um equipamento muito bruto, quase medieval. Uma parafernália de sondagem constituída de uma plataforma donde quatro homens percutiam uma peça de madeira super pesada sobre uma composição de tubos de ferro temperado, procurando introduzi-la terra a dentro. Era coisa pra macho. E não é que eu fui lá fazer uma forcinha pra ver como é que era a parada. Mas foi pá te aquieta. Como diz a galera da novela: empombaleci na hora. A vista escureceu, os esfíncteres relaxaram, a perna bambeou. Larguei do cepo e desci com mais de mil da plataforma. E haja abano e chuviscadinho de água na cara, pro homi tornar. Quando desanuviei, Rogério, com aquele jeito matreiro de caboclo de Humaitá, irônico, sapeca, chegou e sentenciou.
Aquilo ficou comigo, olha, não exatamente me angustiando, mas confirmando a mais pura moleza do meu ser e da minha mente para essas missões mais aquelas de exigentes. De certo mesmo, é que eu ficava logo verde e o passamento me consumia, ao menor esforço. A minha valência é que não era arte de morrer, porque se fosse, eu já tinha ido desde que tempo.
Não foi só essa vez na sonda medieval, não. Tem uma clássica que aconteceu logo que comecei a namorar Edninha. Quis me amostrar pra ela, dar uma de obreiro, cuidador dos teres e haveres domésticos. Inventei de capinar a frente de casa, pois que o capim já estava subindo o alpendre. Mas quando! O custo foi dar duas enxadadas. O suor desceu frio e farto. E olha que o sol estava devagarzinho quase parando. Sei lá, acho que foi o mormaço. Me joguei na calçada agonizando. “Ai, amor, ai amorzinho, me abana” (me ocorreu que foi assim que minha equipe me salvou, naquele dia em Rondônia com abanos e salpicos de água na cara). Coitada da minha pequena, deve ter perguntado ao pai eterno, muito preocupada, naquela hora, donde, ai ai ai, estava atando a mula dela.
Por causa dessas marmotas, pensei ter um mal gravíssimo, um troço degenerativo qualquer que fosse moer meus dons abstratos e concretos. Reza a lenda, porém, que esse negócio de andar dando pilora por aí tava mais pra dengo, uma artimanha para chamar a atenção, receber mimos e paparicos, dizque, porque eu era amamãezado. É...Poder ser, pode ser.
Outra versão conta que por ter estudado um pouquinho, me achava isento de missões mais brutas. Me achava um doutorzinho besta por causa de um segundo grau técnico conquistado a cinquinhos no boletim. Uma razão bem provável.

A prova é que a cura para as minhas panemices veio com o implacável choque de realidade. Foi só sair debaixo da barra da saia da mamãe, experimentar um período desempregado, ter que me aviar com a lista de material escolar de menino todo ano, que o cabo da enxada ou da pá, assentou como a mais encastoada lapiseira, na minha mão. Pelo sim, pelo não, andei tomando, também, umas doses de Fosfosol para prover Fósforo ao cérebro, Cálcio para os ossos e Ferro para os músculos.

sábado, 6 de maio de 2017

crônica da semana - eiras beiras e fulôs

Eiras, beiras e fulôs de laranjeiras
Vai longe o dia que arrumei minhas coisinhas e caí no trecho para viver de vera, o mundo do trabalho. Este um de carteira assinada, férias, décimo, que arrisca agora, ir pro beleléu.
A poesia, a escrita do coração, a febre lírica, sutilezas e devaneios, ombrearam-se às eiras, beiras e fulôs de laranjeiras; O certo é que nem termos, nem lei, vingam quando é chegada a hora de partir. Eis que as minhas roupas se encaixavam sem resistência dentro da mala na tarde molhada de uma segunda-feira do mês de fevereiro de 1983.
Lá do passado, retiro a mais clara dedução. O momento de arrumar a bagagem, olha, não é fácil não. É de inspirar versos dos mais certeiros, dos mais imbricados.
E trago de lá esta passagem. O cheiro canforinado das roupas que hoje, não me cabem mais. E, por outro lado, pelo lado indomável dos bens afetivos, é roupa que cabe arrumadinha na minha memória.
Naquela terça, fiz uma última caminhada pela Pedreira e Sacramenta. Como era um dia de semana, pouca gente estava em casa. Quem eu encontrava, era agraciado com palavras doces de despedida. Meu melhor amigo me acompanhou no estirão. Demos uma volta enorme, a pé, fazendo um traçado absolutamente emocional.
Quando chegamos em casa, o cansaço era grande, a fome maior ainda, e a comida pouca. Já havia passado a hora de comer. Mamãe ajeitou o que tinha e demos de pau numa farofa de ovo e um caldo de feijão. Foi a engalanada refeição da partida.
Esperamos um pedacinho, após o almoço, para fazer a digestão, e a seguir, eu me entreguei ao rito.
Minhas coisinhas estavam todas na estante que mamãe tinha comprado, mas só havia pago uma prestação além da entrada (dali a alguns dias o caminhão da loja apareceria na frente da vila para levar o móvel de volta por falta de pagamento).
Além das roupas, fui organizando na mala meus livros, a cópia do trabalho de conclusão do curso, que descrevia uma viagem de campo ao ramal das Canas em Ourém e que eu tinha como uma parte forte do meu raquítico currículo; alguns cartões com motivos católicos que meus amigos do movimento jovem haviam me presenteado na missa de domingo e meu troféu.
Na época eu era um campeão. Ostentava um troféu pelo primeiro lugar no concurso de poesia do colégio Souza Franco. Quando saquei do ponto mais nobre da estante o troféu e intentei lançá-lo num cantinho da mala, o coração disparou. Eu estava saindo da minha querida Belém, para uma terra distante; deixando meus amigos, minha mãe, minha poesia, o meu título de campeão. Não deu outra. Nessa hora, me danei a chorar. Foi um choro farto, pleno, um extravasamento que denotava toda a minha tristeza com a necessidade premente da partida. Com a necessidade urgente de trabalho (este um que agora arrisca desaparecer). Chorei que solucei.

Poderia ter estudado mais, tentando outros rumos, aprimorado minha escrita, elaborado minha poesia. Mas não! Tô aqui tomando fôlego, no passado, para garantir a continuidade do trabalho de vera (este um que conquistei, com carteira assinada, férias, décimo, farofa de ovo, eiras, beiras e fulôs de laranjeiras). 

sábado, 29 de abril de 2017

crônica da semana - ciapós

No céu como diamantes
As estrelas são os diamantes do céu.
E uma imagem de um céu riquíssimo, minado de cristais brilhantes me tem ocupado o cocuruto nessas últimas semanas, nas horas em que me envolvo com o livro “A Batalha do Riozinho do Anfrísio”, do escritor paraense André Nunes. Esta imensidão estrelada aconteceu para mim, em noite inesquecível às margens do rio Xingu.
A história que André conta no livro acontece também nas vastas paragens do Xingu.
Foi uma noite de entontecer. Estava acampado com minha equipe na borda sul do rio, em uma das lagoas formadas durante o verão. Depois do trabalho, eu normalmente me recolhia à rede e, debaixo do mosquiteiro, lia alguma coisa à luz de lampião, até o sono chegar. Por esse tempo, aproveitando uma trégua das carapanãs, que por ali, davam na canela, a turma se demorava um pouco, no dominó, no baralho ou numa prosa vã. Numa noite quente, desci para um papo com o pessoal, na areia, bem na beirinha da lagoa. O lugar era afastado e a pouca luz nos dava contemplar um cenário deslumbrante. Tão impressionante, tão inebriante, que se aproximava de um caos prazeroso, um transe letal. Centenas de milhares de diamantes brilhando no céu. Nunca mais vi noite igual. E aquela imagem, jamais esqueci. Para mim o maior tesouro, a noite mais bela está ali, nos céus do Xingu.
André Nunes narra no livro dele, as histórias que, em recortes salteados, eu ouvia, quando morei em Altamira. Os confrontos entre os índios e seringueiros eram passagens constantes nas noites do meu acampamento (cheguei a reproduzir em uma crônica aqui no jornal, o relato de um cozinheiro que trabalhou comigo e que, em tempos remotos, fugiu com a família de um ataque de índios. Fugiu atirando. O título que dei à crônica, anuncia a gravidade da aventura: “44 papo amarelo”); Sabia, já, das campanhas violentas de revides (no livro ele conta que em um ataque Caiapó, uma criança, da família do seringueiro é segura pelas pernas, por um guerreiro, é lançada com força e tem a cabeça estourada contra um esteio, fincado no meio do barraco. Conheço outra versão que conta que quem teve a cabeça estourada contra a tora de madeira foi um indiozinho Caiapó. Nas duas versões  versa a brutalidade). Aprendi também a substituir o didático tacape, que era o nome pelo qual conhecia, dos livros do primário, a poderosa arma indígena, por borduna. Uma peça de madeira cilíndrica, densa, de uma tenacidade tão bruta que, em batalha, tinha a capacidade de partir um cristão ao meio.
O desfecho do conflito, percebi, ao conhecer várias famílias construídas a partir da união de índios e seringueiros. Relação que me deu ter como companheiros de trabalho Pedro Cruz, o índio louro; Seu Zé, índio pequenininho; Chico, o arredio; Elcino, índio com sotaque. Todos ali se envergonhando, na roda de conversa, quando eu pedia que cortassem uma gíria caiapó.

Paisagens, trechos de praia, corredeiras, pedrais, rebojos e mansidões, índios amigos, são retratos ainda nítidos do grande rio. São histórias que se cruzam brilhantes no meu céu e no céu do Xingu, como diamantes.

sábado, 22 de abril de 2017

crônica da semana -fóssoro

A vela e o fós’soro
Agora, pela semana santa, me purificando das faltas e enfezos que me consomem durante o ano todo, nas águas fartas de Cotijuba, me vi repetindo, sem tirar nem pôr, as manias da mamãe.
É assim, uma esquisitice da parte de tramela, de trinco, de fechadura, essas coisas. E sempre mais aguçada à noite, antes de dormir.
Mamãe era muito cismada nas arrumações da casa, ao final do dia. Privilegiava a segurança. Ajeitava, ajustava, ia, voltava, tornava a ir. Até que tudo estivesse verificado e certificado, não se aquietava. Por fim, se acomodava, sintonizava a televisão no Sílvio e não dormia sem antes acomodar sob a rede, em posição logo à mão, um cotoco de vela e o fós’soro (mamãe, não sei por quais cargas d’água, declinava da correta loução para fósforo. Falava ‘fóssoro’, e eu pra estilizar o traço, reproduzo da forma que se lê no título desta crônica, com apóstrofo e tal). Dos pavores que tinha, acordar no meio da noite em plena escuridão era o pior.
Aconteceu que em Cotijuba, depois de um dia explorando a ilha, e de noitinha já se entregando aos reclamos do cansaço, todo mundo se recolheu cedo. Eu fui o pri. O custo foi tomar um leite morninho. Enchinei na rede roncando um ronco pra lá de turbinado, mas o povo, que também na baba estava, nem thum para o meu trovejar. Foi atrás. E mais com pouco cada qual em sua rede, estava dormindo.
Mas deixa estar, que no meio da noite, acordei meio zonzo. A casa estava o puro breu, o que me inquietou. Procurei o chinelo e já espertinho, pirei com a constatação de que todas as janelas do compartimento em que dormíamos, estavam abertas. Pronto. Acabou a tranquilidade. Fiquei num pé e noutro. Abri a porta, espiei longe. Procurei um céu especial de estrelas, mas nada. Um nublado frio e denso tornava a noite um tanto assustadora. Fiquei com medo de visagem, capelobo, vira-porco, matinta e mais que depressa voltei para a minha redinha. Bolei, bolei. Virei prum lado, pro outro, me embrulhei dos pés à cabeça. Mas quede sono? Cutuquei minha mulher e chamei baixinho pelo nome dela, pra não acordar os outros. Ela despertou atarantada, percebeu meu desassossego, mas adiante, entendeu meu medo. Levantou, fechou as janelas, passou a chave na porta e me liberou pra dormir um sono de paz.
Houvesse um céu salpicado de estrelas, o sono esperaria mais um pouco. A gente continuaria a explorar Cotijuba, agora de pescoço esticado esperando uma estrela cadente, adivinhando um formato de constelação, contando pontinhos brilhantes no espaço limitado entre os dedos em hashtag.
Os tempos são plúmbeos e frios. Penso que, antes, mamãe não tinha medo.Tinha mania, que é coisa diferente. Reflito tentando decifrar esta minha herança de costumes. Será que não transformei uma ronda prosaica de fim de noite em uma missão paranóica?
A cidade, e mesmo os arredores, os arrabaldes, as ilhas bucólicas me são desafios a enfrentar. Assim, da parte de tramela, de trinco de fechaduras...
Minha valência é que, questão não faço de um cotoco de vela e o fós’soro ao pé da cama. Meu celular tem lanterna. Tenho que resistir.



domingo, 16 de abril de 2017

crônica da semana:dordolho

Caso de amor, cólica ou dordolho
Primeiro: ajusto o fone de ouvido, sintonizo o celular na minha rádio preferida e daí ganho meu rumo no final da tarde. Uma rotina que há muito eu estava a fim, esta de interagir com o agito do centro da cidade no fim do expediente. E vou sacando. O cenário, as pessoas, os vícios, costumes e imperfeições.
Um sinal de como foi o dia, é o vendedor de coco que fica no largo das Mercês. Se ele ainda está ali, naquela hora, quer dizer que o dia foi frio (Belém 23 graus), o povo não se animou e a venda foi pouca. Por causa disso, vai aventurar até mais tarde. Enquanto bato o pé na praça Visconde do Rio Branco e interpreto o tempo e a temperatura, a moça da ótica passa por mim. Aparece sempre descendo a escada na outra quina da praça. Com a postura, elegância, cílios postiços e salto alto de vendedora de ótica. Outro dia, quando nos cruzamos, percebi que chorava. Imaginei coisa ruim, desemprego. Mas não. Nos dias seguintes, nos topamos de novo. Ainda bem que continua empregada. Deve ter sido algo de amor ou de cólica, ou mesmo de dordolho por causa dos cílios grandes.
Após a estátua do doutor Gama malcher, confirmo que a mureta que fica pros lados do belo casario, é um autêntico mictório público. Não tem um dia que eu não flagre um cidadão fazendo xixi ali. E sem cerimônia alguma. Na maior naturalidade. As pessoas passando, os ambulantes se desmobilizando, fregueses escolhendo coisinhas na feirinha ao pegado e ele ali, se aliviando na maior. Na Santo Antônio, me deparo com o relógio lá no alto da Paris N’América, que não funciona, e que marca a mesma hora toda a vida. Um trabalhador, como sem falta, recolhe as travas de uma porta metálica, acomodadas na calçada do prédio abandonado em frente. Barraquinhas cobertas com lonas azuis pingando o restinho de chuva da tarde entremeiam-se às calçadas falhadas, assentam-se sobre um trilho silencioso e rompem o paralelismo dos paralelepípedos, expurgados do leito da rua. A loja mais animada da cidade surge no meu flanco direito. Barulhenta que só ela, mas com certa graça. No final do dia, os vendedores se agrupam à entrada, ainda acesos. Dançam, sorriem uns para os outros, vivem um momento deles, de missão cumprida. Ainda vou comprar um isto ou um aquilo naquela loja. Talvez um pouco de ânimo com o futuro ou um fogão de seis bocas.
Ao despontar na Presidente Vargas, faço uma leitura da minha parada. Antevejo se meu ônibus vai lotar ou não. O sinal abre para os carros. Embora haja um estirão a percorrer até o ponto sinalizado, o ônibus para bem antes; um outro, para logo atrás e fecha o cruzamento, o meu que vinha abeirando, tira por fora e queima a parada. Dá uma raiva! Que povo é este que atrapalha o trânsito por birra, por opção. E que serviço é este que me deixa acenando em desespero, feito besta, para um ônibus que não está nem aí pra mim? Minha cidade descompensada, descontrolada. Agitação ao fim do dia. A chuva pingando. Os olhos ardem. Lacrimejam. Um olho chora de amor por esta cidade, o outro por causa de uma cólica, de um assombro, ou de um dordolho mesmo

sábado, 8 de abril de 2017

crônica da semana a cura tom cruise

A cura
Tô com um negócio com o Tom Cruise. Sabe uma cisma, uma inesgotável desconfiança? Para mim, em todo e qualquer flagrante, qualquer imagem que seja, captada do ator, maldo logo: não é ele. É um engodo, uma farsa (um disfarce). E tantos e quantos são os blefes e menções, que chego admitir que o Tom Cruise, de vera, de certo mesmo, não existe. O Tom Cruise é só uma máscara vil e traiçoeira.
Tô impressionado, já pensou? Desde que vi umas das edições de “Missão Impossível”, entro em parafuso quando a prosa envolve firmezas ou certezas.
No filme, as cenas deixam a gente abilezadinho. Uma hora o bandido vem com aquela cara de malzão, pronto para meter o bicho no mundo ocidental cristão, mas aí, de repente seus olhos vidram, ele dá um estrebucho, leva as mãos ao rosto, pressiona e engilha a cara, e da face, desloca uma máscara. Aí, a gente descobre aliviado que quem está na ação é o nosso herói, Tom Cruise, nos salvando a todos, e não o bandido. O mocinho, ora veja, tinha confeccionado uma máscara que nem, que nem a feição do meliante. Em outro momento, a confusão é grande. Quem tá com a cara do Tom Cruise é o  bandido e o Tom Cruise, de novo, tá com a cara do bandido, e de novo, a gente nem malda. Coisa de endoidecer. Ainda bem que a cena já é no final do filme e o desassombro vem quando uma máscara é largada ao chão, nosso herói dispara na carreira levando consigo a valiosíssima ampola de belerofonte e salvando a vida de milhões de pessoas.
Então, pelo que torna e pelo que deixa, o que me impressionou mesmo, foi a expressão de pavor na cara do Tom Cruise falso, nos estertores da morte, enquanto o verdadeiro corria para a glória, de posse do belerofonte salvador. Não foi o final feliz, o sorriso congelado, a musiquinha romântica que roubou meu apreço e envolvimento. Foi o semblante sofrido, desesperado. Foi aquela conotação dramática, a comoção dos olhos arregalados, do cenho tensionado, da boca travada. Um grito reprimido de dor que me persegue, que me consome, que me toma de sobressalto à hora mais inesperada, como litisconsorte de uma tragédia de mentirinha, mas chamuscada pelo calor que me queima como febre braba, que me arde quase que de verdade. O rosto do falso galã, agonizando, no frigir dos ovos, é mais verossímil, nas minhas reflexões que o sorriso insosso, fitando o final feliz de um mar azul. Um Tom Cruise cataclísmico, prostrado, de tez engilhada, estilhaçada de conteúdos, destroçada de forma. Uma máscara posta-se ante meu pasmado e silencioso lufar, me intimidando, me confundindo, me desafiando a demascará-la. Mas resisto. Insisto na crença. Embaixo da máscara, não é o Tom Cruise, ora,ora. É um usurpador de caras, caretas, caretinhas.

Não é o fim. A possibilidade de luta me reanima. Nada a temer. Por que temer? Fora, abaixo esse negócio de temer. Temer, não. Temer jamais. Apresento-me para o bom combate e imagino lá na frente, o antídoto, a preciosíssima ampola de belerofonte. O sorrriso verdadeiro do Tom Cruise, o mar azul, a quimera e a cura.

sábado, 1 de abril de 2017

O barranco fértil do rio Acre
A poronga ardia no alto da cabeça e o lume fino e quente o guiava. A terra úmida o prendia, atrasava a rota, atolava a vontade. Consumia o ânimo. Gotejos lembravam a noite perto, o sono querendo mais, o assanhamento com a mulher no leito falhado de pachiúba... e o quentinho do abraço.
Se não completasse a rua de seringa, não haveria olhares carinhosos e nem cumplicidades promissoras. Tinha porque tinha que vencer o lameiro. Nem sei dizer que período era aquele. Se era dia, se era noite, madrugada alta, alvorecer. Para o seringueiro o tempo não é contado em ponteiro de relógio. É medido em aviamentos, em cada palmo trilhado na escuridão, em instantes curtos de carícias, carinhos, prazeres ásperos e prestos. A poronga ardendo, o gotejo, a solidão. Os filhos, a mulher, dormindo em leito de pachiúba falhada. A sina.
A jornada do seringueiro começava cedo e tinha um motivo para isso, mas também, terminava cedo. Em 1992, quando visitei o seringal onde nasci, lá no Xapuri, experimentei a rotina do campo. Na ‘colocação’ ainda havia boa parte da família do meu pai. Tios, primos, os filhos dos filhos dos tios. Passei cinco dias lá, enfurnado. O ritmo é o mesmo, de tantos e tantos anos. O seringueiro sai para a mata, por volta das quatro da manhã. Tem uma meta de árvores pra cortar. As seringueiras são disseminadas na selva, mas tantas existem no Acre, que dá pra organizar traçados de colheita que são conhecidos como ruas. No início da jornada, no caminho de ida, ele vai riscando os troncos e posicionando a tigela, que fica aparando o leite. Nessa hora, a orientação que tem vem da poronga, daquela força vital de homem da floresta e de alguma esperança de vida melhor. Na volta, o clarão do dia já se anuncia. A seiva é coletada e dali, até o sol alto, o seringueiro se dedica ao defumo das bolas (pélas) de borracha. O tempo desmilinguindo, rareando, o dia indo embora. Quando o seringueiro se livra das desobrigas com o patrão, aí é que ele vai pensar na casa, nos filhos, catar o de comer (por isso sai no escuro ainda: para esticar o tempo, para arranjar uma beiradinha do dia em que possa ir atrás de uma caça fácil, um veado mateiro, uma paca gorda; usa o restinho de luz do sol, para chapinhar minhocas, tentar uns peixes, plantar algumas raízes no barranco fértil do rio Acre).
Nem bem anoitece, uma última descida ao igarapé para arear a panela ou para um banho restaurador sela o fim da lida. Um radinho, ainda insiste na pregação do Ângelus, mas o sono vem irresistível.
Fiz essas coisas quando fui ao Acre na tentativa de reviver o tempo perdido de meu pai. Sem certeza ou solidez porque o tempo para ele não se deu ao ritmo dos ponteiros do relógio. Idealizei um seringueiro.
Meu papai morreu aos 38 anos, num 31 de março. Era jovem. Muita árvore tinha pra riscar ainda. Minhas débeis tentativas de reencontrar meu pai, não deram resultado. Não o encontrei nas ruas de seringa. Mas não esmaeci não. Depois daquela viagem ao Acre, alegra-me a certeza de ter meu papaizinho abrigado esses anos todos, no lado esquerdo do peito.


segunda-feira, 27 de março de 2017

crônica da semana - A chuva de peixe

A chuva de peixe
Aquela era uma tarde tranquila do mês de Outubro, em Xapuri. Os seringueiros passavam em comboios procurando bons negócios para as pelas de borracha. Na Rua da Gaveta, as crianças brincavam soltas e corriam alegres. Ao pé da janela, vovó Marieta cerzia na moderna Vigorelli, uns panos de prato. Tudo na santa paz, a não ser aquela nuvem vindo-que-vindo. (depois do caso passado, minha avó reconheceria que havia sim, algo de estranho no ar: “lá pras bandas do campo de aviação, o céu era de um negrume só. Por cima da mata, o arco-íris tomava o céu de fora a fora, e no horizonte, uma luz fraquinha amarelava a tarde”. Tem também o relato de um comboieiro que naquela hora ao atravessar o Ina, percebeu o igarapé estranhamente mais raso, a correnteza pouca e um rumorejo veloz a animar as árvores da margem).
Quando o pampeiro arriou, o povo já se tinha aquietado dentro de casa, as crianças já estavam agasalhadas com os casaquinhos de lã e meias nos pés, e as lamparinas já estavam estrategicamente distribuídas pelos quatro cantos.
Os raios riscavam o céu um após outro. O estrondo dos trovões fazia balançar as casas e um mundo de água formava rios pelas ruas da cidade. Minha avó juntou as cianças em torno de si e rezou em voz alta para todos os santos, para que os guardassem.
De repente, o mais forte dos trovões soou ensurdecedor. E um clarão se abriu no céu, revelando o inacreditável...
O estatelar pesado no telhado, o deslizar truncado, e o estrebuchar sólido no chão, chamaram a atenção de minha avó. “ Meu Deus, o que é isso?” Vovó ajuntou as crianças num canto do quarto e num repente de coragem, abriu a janela pra ver. Era fantástico! Desesperou-se com o que viu e mais que depressa se danou a gritar pela comadre: “Joana, Joana, me acode, mulher, tá chovendo peixe! Tá chovendo peixe!”.
Apavorada, pegou os pequenos e atravessou o terreiro sob a chuva de piabas que caíam do céu, aos montes. Foi bater na casa da comadre Joana. (o que se conta até hoje, na cidade, é que na hora do grande trovão, a barriga do arco-íris se rompeu e as piabas que ele havia tragado do leito do Ina, naquela tarde, desceram como chuva, de volta à terra.
A vizinha, já acostumada com as coisas estranhas que aconteciam naquele lugar, acalmou a minha avó, que nascida em Belém, acompanhou o marido que foi fazer a vida lá pras bandas do Acre. “Que coisa esquisita, estranha, impressionante mesmo”, resmungava ela para a impassível comadre Joana.
Minha avó ficou por lá, sob a segurança da comadre, até que as últimas piabas ainda despencavam sobre as casas, árvores e postes de luz. Caíam num fio de água, serpenteavam nas valetas, varavam na rua Coronel Brandão e, de lá, eram levadas pela correnteza de volta ao rio.
Anos depois, nas tardes quentes de Belém, sentada na cadeira de embalo, minha avó repetia esta história pra gente, uma platéia de olhos arregalados e atentos, com tal seriedade e convicção, que não suscitava uma duvidazinha sequer. Nos olhávamos sem dar um pio. Égua, chega dava um arrepio na gente.


sábado, 18 de março de 2017

crônica da semana - 5S

Cada qual com o seu cada qual
De tantas disparatadas passagens narradas no romance “Cem anos de solidão”, o momento em que a aldeia é submetida ao mal da insônia é aquele que dou reparo especial.
A doença começa pela falta de sono e evolui para o esquecimento. A memória dos habitantes vai definhando, desaparecendo.
A população reage de uma maneira bem prática. Primeiro, escrevendo o nome do objeto. Depois, eles passam também a descrever para que serve aquele objeto. A seguir, ainda somam a origem, modo de fabricação, quantidades existentes, et cetera. É nesta parte da história que dou reparo especial, porque relaciono esta prática de etiquetagem e a um programa que conheci aí, nas minhas lidas de operário.
O programa se chama 5S, porque é formado por cinco palavras em japonês que começam com a letra “s”. Trata-se de uma técnica criada no Japão, que reúne algumas disciplinas com a finalidade de, obviamente como estamos falando do mundo dos negócios, aumentar os lucros. É baseado na otimização de tempo, valorização de equipamentos, limpeza e racionalidade nas ações. Nas empresas é ferramenta exigida como meta dos trabalhadores e tratada como profissão de fé.
A gente que está neste meio, se adapta a este novo trato. E, naturalmente, importa para casa algumas das práticas. Um “s” que batalho para que a gente faça uso em casa, é o segundo, que em japonês se conhece por ‘seiton’ e que significa ordem, organização. É aquele senso que prega que cada coisa tem que estar no seu devido lugar. Quando venho com esta conversa aqui em casa, a galera cai de pau. Diz que o trabalho tá me pondo doido, que isso aqui não é empresa e que coisa e loisa e mariposa. Desisto. Mas quando passo meia hora pra achar a chave do portão ou quando vasculho mundos e fundos atrás do maldito carregador de celular, volto à carga. Me animo na luta. Não significa sucumbir a todas as vilanias do capitalismo a gente admitir que, ter um lugar certo para guardar as coisas, e na hora que precisar ter sempre o que necessita à mão, pode ser até uma conduta que elimina muito estresse. Tenho aqui um texto impresso que se eu soubesse por onde diabos de piriricas de buraco soquei meus óculos, citaria uma pesquisa interessante sobre o caso. Mas não sei por onde andam meus olhos. Fica pra próxima.
Não vamos ao extremo também. Este mesmo “s” inspira ações como a de José Arcádio Buendía nos disparates comuns encontrados em “Cem anos de solidão”. Se não domarmos o senso, vamos sair etiquetando tudo em quanto. Nem tanto, né.
Perco a batalha em casa, pela implantação do 5S, quando o tema é ‘seiri’, o primeiro “s” (hã hã, por isso não comecei por ele). É aquele que determina que a gente só pode guardar, ou ter perto, aquilo que é útil e necessário. Neste aspecto sou indisciplinado pacas. Tenho coisas do arco da velha e que precisariam de etiqueta para lhes dar finalidade, porque nem para que servem, sei mais. Mas não jogo fora nunca. Minha mulher fica na ira para aplicar este “s” em mim, de com força, mas aí digo que aqui não é uma empresa e que não vamos pirar por causa dessas invencionices dos japoneses.
 

sábado, 11 de março de 2017

crônica da semana - o rato roendo

O rato roendo meu dedão do pé
Reza a lenda que, na biqueira de formular a teoria da Relatividade, e ainda envolto em dúvidas atrozes para definir um pensamento científico revolucionário, durante uma cochilada rápida, Einsten sentiu uma chamegamento no dedão do pé. Um roc roc até gostosinho, simpático, relaxante. Diz-se que, durante a soneca, um ratinho encantado veio roer-lhe as dúvidas e ao acordar, o cientista, já estava com a teoria consumada, batida e arrematada, no cocuruto.
Pode até ser uma invencionice, esta história do ratinho roendo o dedão do gênio, destarte, intenta um proseado curioso para ilustrar o momento único da criação. Mas tem um sentido. Este alheamento, este sumiço do físico e palpável, provocado pelo sono, certamente, dá espaço para a transcendência, para a abstração. O espírito voa em sonhos. E o ratinho vem nos inculcar decifrações, revelações.
Acho que todo mundo já passou por situações parecidas. Um trabalho urgente que não sai, mas que depois de uma horinha de sono, de repente se concretiza. Uma tarefa de escola complicada, que não se esclarece de jeito e maneira, e que, no dia seguinte, no abrir dos olhos, abre-se límpida e inquestionável no pensamento. Um encalacre doméstico sem solução, porque envolve vaidades, grana, posturas vãs, transformado em rio navegável, contornável, possível de ser negociado, após a calma de uma noite de sumiço geral, de apagão. Sabe o que é isso? O ratinho, aquele mesmo do físico alemão.
Este conhecimento, no entanto, é fugaz. Se não for trabalhado no mesmo instante, se a gente não anotar, se não houver registro seguro, impressão e certeza, arrisca fugir de novo. Cair no limbo. É o que acontece comigo quando escrevo, em sonho, meus escritinhos aqui na coluna.
O ratinho vem roer meu dedão, como sem falta, todo dia, na viagem para o trabalho.
É bem cedinho, o caminho é longo, o ônibus que nos leva oferece um certo conforto, recosto a cabeça na almofada da poltrona, fecho os olhos e o ratinho vem.Nem tão prodigioso como o do Einsten, mas marca sempre a presença. Do dia, é o meu período mais fértil. No relaxado do roc roc no dedão do pé, por vezes, elaboro uma crônica inteirinha, durante essa meia horinha de viagem. E toda arrumadinha, com recortes de humor, com pesquisa, uma pitada de lirismo. Justa e encorpada. Sem presunção, o melhor da minha criação literária surge nessa hora do ratinho.
Por vezes, faço duas crônicas, um poema e descrevo a paisagem que imagino estar passando ao largo (porque estou de olhos fechados na antecâmara do sono, do jeito que o ratinho gosta), tudo ao mesmo tempo, em ambientes textuais diferentes.
Este desenvolvimento, no entanto, é um lampejo. Assim que Einstein tornou daquele sono, foi ao bloquinho e rabiscou a essência da teoria, reza a lenda.
Não tenho o costume de andar por aí com um bloquinho de anotações e nem a memória guarda os recados que o roc roc abrandado do ratinho em meu dedão, me entrega. Tão logo o ônibus chega, me despeja à realidade do dia, e minha bota com biqueira de aço toca o chão, tudo se esvai em brumadas lembranças.
 

sábado, 4 de março de 2017

crônica da semana- pandegolândia

Meu reininho da Pandegolândia
Éraste! O pobre é ralado. Um ser adversativo. Sempre tem o feixe ‘mas, porém, contudo, entretanto, todavia’ compacto se emboletando na vida dele.
O camarada tem uma semana por acolá de estressante, no trabalho e nas artes? Tem. Tem um alívio quando tudo termina bem? Tem. Pra completar tem um feriadão de carnaval que não acaba mais? Ora, se tem. Mas não esqueçamos: o pobre é ralado. Na batida da campa da sexta-feira ele gripa.
E uma gripe estranha. No meu caso, que sou amamãezado, uma exposição repentina à umidade noturna, a mais doce brisa do terral, uma lufada de respingos da chuva da tarde, já me são o princípio do fim do mundo de coriza e febres por dentro altíssimas, avalie uma gripe estranha com dor de garganta e quebradeira no corpo. Como dizia minha mãe: “chama o carro, chama o carro, que o homi tá mal”.
O que torna é que minha patota ganhou o mundo no sábado gordo e eu fiquei sozinho em casa, dizque, me recuperando.
E até que me recuperei rápido. Na verdade eu estava era cansado pacas. Uma preguiça imensa. Vontade de dormir para sempre. Dei o desdobro para não viajar. A idade, Esse menino, a idade me cobrando quietudes.
Não estranho a solidão, mesmo que seja batendo de frente com a euforia do carnaval. Houve uma época, nos ermos das minerações por onde passei, que meu carnaval era acompanhando o Chacrinha (e em programas gravados). No frigir dos ovos, tô é bem na foto em Belém. Na cidade das mangueiras, na Pedreira, do samba e do amor, com intenções e possibilidades, ali, na biqueira de se concretizarem. Se quiser vou batucar por aí, arriscar uns passinhos atrás do Mangal dos Urubus, concentrar, Irrecuperável,  no Boiúna do Mário. Ver o Piratas passar ali na esquina. Vai de mim. Mas não vou.
A mim, me apraz curtir essa liberdade doméstica alcançada pela sedutora solidão. Ninguém pra concorrer comigo na Netflix. As toalhas dispostas à mão, na tentação de eu pegar qualquer uma sem que o dono me ralhe: “ei, essa toalha é minha!”. E eu peguei qualquer uma. Meu sonho! E peguei mesmo qualquer uma rá rá rá. Isso não tem preço. Carnes, verduras e legumes na geladeira e opto, sem remorsos, pelo macarrãozinho com ovo. Maravilha! Missão sagrada: a comida da gata, esta não pode falhar. Mas no resto, me entrego às leis que não regulam nadica de nada no meu reininho solitário da pandegolândia. A pia, por acolá de louça, e ainda falta água. Pai d’égua, um álibi.
Cerveja a dar na canela só pra mim. Mas de álcool, nadinha. A missão é recuperar. Um suco de acerola pra dar aquele reforço na vitamina C e anoitece.
Nem tinha dado ibope pro celular. Vou ao zap e vejo lá, fotos da família se divertindo. Lá pelas tantas, uma mensagem chega, perguntando se estou melhor. Gravo um áudio: Vou navegando.

No dia seguinte, todo mundo de volta. Reclamações sobre o lixo que não pus fora, sobre o computador que não desliguei, e porque não troquei de roupa. Tava sentindo falta disso. Tusso violentamente, espirro espirros vulcânicos. Caio prostrado. Peço que alguém me faça um chazinho. E sigo, navegando, curtindo uma febrinha por dentro.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

crônica da semana - maré estofa

A maré estofa e o que a gente perde por lá
Eu perdi na maré uma mina de coisas, um trancelim, algum fim, títulos e prosas não escritas. Como alento, aprendi na Universidade a achar artes e peças, a perder de novo. Aprendi.
Foi numa disciplina que me deu um trabalhinho. Na primeira tentativa, passei (com um errezinho, mas passei). Fiquei uns dois semestres passado. Até que fui informado que não poderia me matricular regularmente, porque o meu professor havia me despassado daquela mesma disciplina que eu  havia passado com R, alegando que eu não participara de uma viagem de campo. Já pensou o transtorno? Escapei de repetir a disciplina com um nome consagrado na pesquisa do petróleo. O horário não combinava. Outra vez, nem conheci o professor. Desisti no caminho da Universidade. Sei lá, me deu um banzo.  Fui me atrasando no curso. Voltei com o professor Werner Truckenbrodt, uma lenda, no curso de Geologia. Passei com B, sem precisar fazer viagem alguma. Depois do Werner, me animei. Tratei o curso com mais zelo. Sabia que não iria concluir, mas decidi que o que eu aprendesse dali pra frente, levaria comigo para a vida. Aprendi sobre a maré estofa e sobre este mundo silencioso que nos tira sonhos e coisas.
A maré é uma corrente. Corrente é algo que corre. Werner explicava a dinâmica das marés pra gente ali na sala e a minha cabeça fervilhava, pensando na baia do Guajará. É o que acontece todos os dias aqui na frente de Belém. A água correndo prum lado, tomando as margens, afogando furos, elevando até lá em cima o trapiche feito com o tronco do Miritizeiro. Depois correndo pro outro lado, desbarrancando dobras, trazendo as rasas de açaí, adiantando a viagem do Fé em Deus IV. A maré estofa é o instante certo entre a maré enchente e a vazante. A água vai subindo, até cobrir a pedra do peixe, no Veropa. De repente para de subir e começa a vazar. Entre encher e vazar, há um tempo de corrente parada.Tudo parado (não sei exatamente este tempo. Acho que faltei a esta aula do Werner). Mas é um tempo fundamental para acontecerem espetáculos naturais que impressionam e nos valem.
Se tudo para, aquela correria de água enchendo, para. Nesse momento, o que quer que esteja sendo arrastado pela energia da corrente, se aquieta, procura um canto pra se acomodar. O que é mais pesado vai procurar o fundo do rio, aquele que é mais levinho vai flutuar até descansar num barranquinho e formar um lamaçal fértil.
Hoje, depois de ter perdido o meu diploma universitário e de, ao mesmo tempo, ter achado sentido em outras artes, fico imaginando uma baía do Guajará silenciosa e profunda. Um mundo de água sem movimento, apenas animado por uma laminha flutuando em busca de sossego. Penso que é ali, no seio da maré estofa, que está um trancelim, algum fim, o título e a idéia de uma crônica que iria escrever hoje. Eis que quando abro o arquivo, dou com o título: “Três em um” e o resto da página em branco. Ali, num tempo de letargia, que eu nem sei quanto dura, e que de repente, desperta para a vazante, está uma história da qual, não lembro absolutamente nada.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

crônica da semana - hebreus 11

Hebreus 11
Ano passado, falei aqui sobre uma vontade antiga que eu tinha de viver a jornada diária de um trabalhador belemense. Isso porque, durante muito tempo, fiz jornadas especiais, em cidades distantes, com horários e períodos de labuta diferenciados dos moradores de Belém. Daí este meu desejo latente de ter uma rotina radicalmente urbana. O símbolo desta lida seria a minha inclusão na massa que se desloca às seis da tarde, do centro para a periferia, de preferência apanhando o ônibus naquele vuco-vuco de aperreio que é Presidente Vargas, neste horário. Sonho realizado. Tô completando um ano nesta lida.
De aprendizado, ganhei o entendimento, a dimensão mais justa, um reconhecimento nítido e confortável, do que é a fé.
Bem que poderia, mas não tem a ver com o vuco-vuco, com ônibus lotado e as freadas bruscas para arrumar a carga, queima de paradas, ou feéricos engarrafamentos. Essas coisas a gente contabiliza como sendo os óbvios custos de desejos (meio estranhos, por certo) realizados. Tem a ver, sim, com a natureza humana, com pessoas comuns, seres mundanos, indivíduos diários e suas carências.
A mais convincente definição de fé, me foi repassada por um pregador que entrou no ônibus, no meu caminho de volta pra casa. E, segundo o pregador, pode ser encontrada em Hebreus 11.
Já acostumei com essas intervenções, durante a viagem. Sempre pelo comum, protagonizadas por vendedores. Tenho até uma cota diária para atender a este comércio transitório. Um trocado, sempre reservo para o ‘cocríssimo’ e salgadinho, para os deliciosos bombons de chocolate, para o beijo-de-moça maciínho, para o livreto de colorir ou de caçar palavras. Raros são os dias que não chego com um desses produtos em casa. Às vezes, a oferta é múltipla, mas a grana é pouca. Leva quem entra primeiro no ônibus. Pregadores são menos frequentes, mas quando estão, fico atento.
Este que me alertou sobre a fé, teve um peso especial. Primeiro que foi comovente no testemunho, discreto na oratória e simpático no trato (nada de ameaçar com o fogo do inferno, mesmo porque com o calor que faz em Belém, far-se-ia redundante). E depois, porque tratou a fé no campo filosófico, humano. Cuidou do tema como qualquer um de nós que tivesse uma vontade, estranha que fosse (como a de pegar um ônibus em horário de pico), cuidaria. E deu o endereço: Hebreus 11.
Em casa, fui ao livro sagrado. A Bíblia revela que a fé é “a certeza daquilo que esperamos”. Esta afirmativa para mim é límpida, otimista, aprazível. Não abona ou indica religião nenhuma, sinaliza apenas que nossas vontades têm força e razão de ser. Firme!
Não comprei nada do pregador, mas me dei com ele. Passou por mim, dei-lhe o Real que guardara para um ‘cocríssimo’ que pintasse, e acrescentei meu sorriso conivente.
Nem tudo é confortável, porém. Ainda em Hebreus 11, há um complemento que diz ser a fé, “a prova daquilo que não vemos”. Diferente do verso anterior, esta afirmação não alude ao humanismo, nem ao horário de pico, nem às carências humanas. Neste caso, meu Real iria, com toda fé, para o cocríssimo, se cocríssimo houvesse.


sábado, 11 de fevereiro de 2017

crônica da semana - relógio patrasmente

O relógio que marca hora patrasmente.
Aprender a ver hora em relógio de ponteiro foi um dos maiores desafios da minha vida. Uma luta pra mamãe inculcar aos meus tico e teco a lógica daquele raciocínio. E era tão titânica a missão, que apesar de seu dulcíssimo ser, de sua infindável paciência de mãe, e de sua inquebrantável generosidade, de quando em vez, perdia a conta; “Esse menino é desorientado, só pode ser”. Mandava eu treinar e voltava n’outro dia, tentando inculcar de novo.
Não era fácil. Na hora cheia, até que ia. Ponteiro pequeno aqui, ali, acolá; ponteiro grande, no doze. Essa eu acertava de prima e mamãe criava uma esperançazinha. Quando era na hora quebrada é que a coisa desandava. Não acertava uma. A mais drástica das combinações era o quinze pras três. Eu nunca dava uma forra. Ia direto para as duas horas. Mamãe reinava em me dar uns transpescos nessa hora. Não dava, mas mandava uns elogios daqueles que dá vontade da gente se enterrar. Também, quem manda! Muita informação. Velocidade diferente dos ponteiros, enquanto um fica numa lerdeza de passar de dois para o três, o outro vai com mais de mil, ao encontro do doze. Era demais para mim.
E até que o sofrimento não era tão avassalador. Lutávamos dentro da população dos números inteiros. Quer ver quando passei uns dias na Espanha e vi que lá eles contam no conjunto dos Racionais. Diz-se por lá: “Um quarto para as três”. Já pensou? É de baratinar total. Se no tempo da mamãe eu tivesse que me valer das frações próprias, das frações irredutíveis, das simplificações, tava era na roça.
Fui indo, fui vindo, recebendo um elogio aqui, inspirando um transpesco da mamãe ali. E não é que aprendi a parada! Virei craque. Quando os primeiros Casios digitais chegaram, não dei nem thum pr’eles. Continuei prestigiando os relógios de ponteiros. Usufruindo do charme, da precisão, e até de uma presunção em lidar com as horas no sistema sexagesimal. Firulando, até. Fazendo graça, usando a peça no braço esquerdo, com o pino pra frente; no braço direito, com pino pra trás. Trocando pulseira, trocando visor, trocando tudo. Fazendo a  conta e tirando de letra aquela, outrora, angustiante conversão que prega três ser quinze; seis ser trinta e o nove (o famigerado racional um quarto), ser quarenta e cinco.
O aprendizado da hora nos relógios de ponteiros, além de nos conectar ao tempo e às urgências da vida, nos orienta e nos propõe um sentido universal, aquele que mede a eficiência até na mexida do mingau: se não for no ‘sentido horário’, empola.
O que se dá é que, anos a fio dominando o caminho horário dos ponteiros, dias desses, tive que reiniciar no aprendizado. É que um relógio que ganhei do poeta Francisco Mendes, depois de uma semana operando no sentido e na precisão, do nada, começou a girar ao contrário. Cismou de contar o tempo para trás. Tipo relógio do Benjamin Button. Não desisti. Não se despreza presente dado de coração. Virei pino, reorientei a sintaxe de números e marcadores, refiz sentido de leitura. E ando, pra cima e pra baixo, charlando com o patrasmente do meu relógio de ponteiros.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

crônica da semana- Ipê

O conto do Ipê
O Ipê é árvore das mais bonitas. Copa ordenada, colorida. Tronco estiradão. Trata-se, sem um isso de senão, de uma árvore pra lá de elegante. Mas não marque um encontro tendo como referência um frondoso Ipê, no auge da florada...
Não fosse o compromisso assumido lá atrás, no lugar do Pau Brasil, a árvore símbolo do Brasil seria o Ipê. Muitos defendem esta possibilidade. Eu embarco na onda. Nada mais brasileiro do que um Ipê amarelo se mostrando presunçoso sobre a mata verde.
Também o conheci por nome Pau d’arco. Um nome mais pra fazer frente ao outro pau, o Brasil. Penso até, afinado com a sua utilização como madeira de lei.
É belezura que se estende por todo o território brasileiro. Aqui, acolá a gente topa com um mais bonito que o outro. Ocorre em cores variadas.
Exibe-se nas alturas. Um pé pode atingir 30 metros além do chão. É lindo de se ver e de se imaginar.
Até um dia desses, eu imaginava que as folhas é que compunham a parte colorida do Ipê. O colorido vem das flores. A altura da copa, que dificulta o discernimento, pode ser uma explicação para esta pequena confusão.
Aconteceu comigo assim: embrenhado nas matas, atuei, por diversas vezes em campanhas de pesquisa. Era no brabo. No bruto. Floresta robusta, tudo igual. Chance alta de desorientar-se. Tínhamos que desenvolver mecanismos de navegação. Havia um grupo de profissionais especializado nesta arte. Reconheciam determinada área de helicóptero, aplicavam a técnica deles, lá, e depois disso, não erravam mais o caminho. Podia passar um século todinho, mas se possível fosse atender à demanda, eles iriam varar no local pretendido certinho. Pra gente, que ia por terra, a navegação era no charme mesmo. Havia momentos caríssimos para que a orientação fosse a mais precisa possível. A hora do almoço, por exemplo, era hora sagrada e ao mesmo tempo, tensa. Saíamos do acampamento cedo, com uma área enorme a explorar. Um dos membros da equipe recebia a missão de levar o nosso rango. Era um desafio. Ele ia no nosso rastro e quando rastro não havia, a gente descascava um tronco de árvore, lavrava um cambito e atravessa na casca do pau, indicando a direção; dispunha pedras uma atrás da outra, dando um rumo. Eu só sei que a gente ficava meio desesperançado de almoçar. Toda vez que a equipe aceitava uma missão, era assim ao largo imenso e incerto da floresta. Mas quando a gente dava fé, lá aparecia o companheiro, com a fieira de marmitas alçadas ao ombro, cansado, suado, amedrontado dos barulhos da mata, mas fiel. Amigo. Era um alívio, quando ele aparecia.
O furo foi quando usamos para a navegação um exuberante Ipê amarelo. No início, foi facinho. Quando descia a serra, ele já divisava o colorido e definia o trajeto.

Um belo dia, nos dirigimos ao trabalho, e a árvore lá, vistosa. Antes do final da manhã formou um tempo. Vento forte, nuvens carregadas. Nesse dia, não almoçamos. Caímos no conto do Ipê. Nosso marmiteiro se perdeu. Na volta para o acampamento, azuis de fome, nos deparamos com as flores amarelas no chão, explicando por que a nossa navegação falhou.

sábado, 28 de janeiro de 2017

crônica da semana - suvela

Um mosquito que engoliu um boi
Se a gente mudasse a escala dos seres e das coisas, a ‘sovela’ seria o dinossauro da comunidade dos insetos.
Do jeito que a conheci, a conheci como ‘suvela’, porque era a pronúncia articulada na língua falada pela peãozada que batalhava comigo nas matas do Xingu.
No original, ‘sovela’ é uma peça perfurante usada por sapateiros.
Tudo a ver com a correlação. Ali, pra gente, a ‘suvela’ era uma perfuratriz eficiente, dolorida e indefensável. Ali naquelas margens do Xingu, a ‘suvela’ era uma carapanã das mais temidas pelo seu ataque certeiro, imponderável, humilhante. E pelo tamanho. Era mosquito de engolir boi. O dinossauro do micro reino dos insetos.
No período que trabalhei no Xingu, o rigor com a segurança era bem ralo. Muita coisa escapava aos olhares proativos de controle e cuidados com as tarefas e missões do trabalho.
Lembro, porém, de duas rotinas que não podiam faltar. A ‘retrete’ confeccionada ao largo do acampamento e à jusante dos cursos d’água, escavada e estivada para atender as precisões da equipe, bem postada, de cócoras sobre a estiva. E o mosquiteiro. Montado o acampamento, todo mundo tinha que armar mosquiteiro. Era lei.
Ora, lei...
Era obedecida quando estávamos na margem direita, que, diga-se de passagem, era o reino absoluto e farto das carapanãs. Tinha mina delas. Dava quatro da tarde, tínhamos que nos recolher aos mosquiteiros, caso contrário, havia o risco de sermos ascendidos, raptados e sugados em sugadas múltiplas no nosso sanguinho, pelas nuvens superorganizadas de carapanãs.
Já na margem esquerda, ao largo da Transamazônica, a gente dava uma relaxada. Não havia aquele exército voraz. Uma aqui, outra ali, de não fazer medo, aí, para amenizar o calor, dispensávamos o mosquiteiro, mesmo contra a lei. A proteção viria dos lençóis, na noite alta, quando a temperatura caía e a gente se embrulhava dos pés à cabeça. Adiantava para o ordinário, para o comum das espécies. Mas não para a perfuratriz, para o dinossauro das carapanãs.
A ‘suvela’ tem um tamanho anormal. Mesmo o maior indivíduo que a gente perceba aqui pelas paredes de casa, ainda é um anãozinho, diante da ‘suvela’. Não é preciso dizer que o bico da bicha é proporcional ao seu corpo. Um bicão. Então, não tinha lençol, não tinha trama de rede que nos salvasse. Quando embicava, não tinha bom. De frente, ainda dava pra gente sair no tapa. Agora quando vinha por baixo da rede, na maior vontade, na maior velocidade, desmontava resistências. Era só peão pulando, de susto e de dor. A ‘suvela’ varava qualquer barreira.
Se boi houvesse, boi engoliria.
O que foi? Um mosquito que engoliu um boi.
Um mosquitão, uma carapanãzão, a ‘suvela’ revisava nossa força, reativava um apreço apático pela nossa integridade, nos volvia a novos critérios sobre segurança e saúde no trabalho.
Vampirizava, mas não transmitia malária, dengue, zika, nada dessas doenças trágicas. Nos impunha gigantescas humilhações. O real dos fatos me sugere, porém, que trocaria um único Aedes desses que me espreitam, por 20 ‘suvelas’ das mais bicudas, furando minha rede. Na boa.


sábado, 21 de janeiro de 2017

crônica da semana - doce acre

Doce acre
Algo sacoleja dentro de mim fazendo cobranças e repreendas, quando tacho o mundo do trabalho como um mundo de dissabores. Justo. Talvez seja um mundo doce acre. Esta a regência nominal mais indicada.
Logo depois do desacerto no escritório da Santo Antônio, houve de mamãe ter aquele carinho de mamãezinha querida do meu coração, comigo. Baqueei. Pela amiga, que era secretária do escritório, o advogado, imagino eu, com a consciência pesadíssima, mandou um envelope pra mim. Era a minha quita. Uma indenização por aquela manhã incompleta, que não deu nem um traço, no meu tempo de contribuição previdenciária.
Fizemos coisas, com aquela graninha. Uma delas foi o investimento na minha nova lida. Uma geladeira para a venda de picolés.
Virando mundo por aí, percebi as diferenças que fazemos nas notações e identificação das coisas. Taperebá, por exemplo, é uma confusão. Um estica e puxa. Lá no Xapuri, a gente conhecia por nome de cajá. Viemos para Belém, tivemos que nos acostumar a chamá-lo de taperebá. Aí, fui morar um tempo em Rondônia. Lá voltei pro cajá. O nosso chope, aquele, antigo chope de groselha e uvita, por aí, é conhecido como sacolé, geladinho, dindim. Em outros cantos, a geladeira que mamãe comprou por aqueles dias, era conhecida como isopor, simplesmente. Agora, nos tempos de hoje, aqui em Belém, tenho reparado, tratam-na por isopor mesmo.
Pois bem: era uma geladeira. Ativo essencial para a realização do meu segundo trabalho. Vendedor de picolé. Tinha ainda, nove anos.
Contudo, era bem pequena, daquelas sem alça, que eu, mesmo pequenino, abarcava com uma volta de braço.
Saía cedo, passava na sorveteria que havia na Duque, apinhava a geladeira e me danava a bater perna. Vendia na rua. Acanhado e sem jeito, que era, acabei arrumando companhia. Alguns moleques da rua, por solidariedade ou porque não tinham nada pra fazer mesmo, passaram a me acompanhar. Eles é que faziam a propaganda. Pregoavam: “Picoleeeeee´, e tem do extra e do cremoso...”
Não era muito. Não resolvia os encalacres das contas, mas dava um trocado. Houve até um lucro que reinvestimos na compra de uma geladeira maior, com alça. Nessa ocasião, já tínhamos lugar (conquistado com muito papo, pelos meus parceirinhos) garantido na calçada do colégio Alzira Pernambuco. Aí, bamburramos. Todo dia voltávamos com a geladeira vaziínha da silva. E olha, com um monte de dinheiro de papel, no cós do short. Nada de moeda, Só no papel. Éramos ricos. Ricos!
Certo dia, naquela minha batidinha cedo, enchi a geladeira, na sorveteria, com meias partes do extra, do cremoso e lancei a alça sobre o ombro. Mas foi só a conta de eu dobrar a rua, a alça quebrou. Muitos picolés foram para a calçada. Seria um prejuízo enorme. Ainda pensei limpar um ou outro cisco, no short. Mas não. Juntei o perdido, voltei, negociei com o sorveteiro um crédito, e troquei o ciscado pelo limpinho. Terminada a negociação, alcei a geladeira à cabeça e rumei para o Alzira. Surpreso comigo mesmo. Quando estava tudo perdido, aos 9 anos, garanti, com uma negociação de gente grande, mais uma vez, a renda do dia.


sábado, 14 de janeiro de 2017

crônica da semana - caixinha de surpresa

Caixinha de surpresa
Estava eu bem fuçando meus teretetês literários semanais, no firme propósito de coletar um feixe de crônicas para o próximo livro, quando dei com uma candidatíssima a entrar no bolo da nova edição. O ícone do word anunciava um texto  abonado pela simpatia do título: “caixinha de surpresa”. Dei um rolé pelos outros ícones, certifiquei prosas conhecidas, igualmente selecionáveis, volvi à ‘caixinha’. Surpresa monstra foi a minha quando dei que só existia o título. Nada mais escrito havia na vastidão do word. A mais pura página em branco me recebia.
Fururuquei o cocuruto catando o dia em que ensaiei, fiz menção, dei título e não desenrolei a parada da caixinha de surpresa. Onde é que eu estava com a cabeça, meu pai, que não atravessei aquele Rubicão? Que apagão me deu, que não escrevi nadica de nada?
Mas umbora elucubrar. Hummm! O que poderia inspirar uma crônica com tão sugestivo texto. A vida, é uma caixinha de surpresa, diria o narrador da dramática história de Joseph Climber.
Por mim, pelo que me torna e pelo que me deixa, não carrego na bagagem fato ou passagem que eu possa definir como produto inusitado de uma caixinha. Do passado não vem uma lembrancinha sequer. Ah, vem sim...
Quando estava terminando a Escola Técnica, bem no finzinho do semestre e do curso, inesperadamente, para uma época em que as interações entre empresa e escola não eram tão fartas, fui selecionado para uma visita de cinco dias à Mineração Rio do Norte, no trombetas, (surpresa monstra e absoluta, porque, olha, não era top 10 da turma não). Bacana. Primeira viagem de avião. Pela TABA. Com direito a suco de maracujá com aquele cuizinho preto residindo no fundo do copo; e podia tomar quanto quisesse, bastava levantar-se e chegar à garrafa térmica localizada no final do corredor da aeronave.
A visita foi um sucesso. Conhecemos técnicas e processo. Também, claro, exercitamos nossa índole de estudante varando a última noite num bar chamado ‘Bauxitão’, abarcando baldes e baldes de gelada.
Mas a vida, a vida é uma caixinha de surpresa. Sexta-feira, na hora de voltarmos para Belém, a bronca. Não tinha avião. A TABA, inacreditavelmente, falhou no atendimento. No dia seguinte, sábado, seria a nossa cerimônia de formatura (18 de dezembro de 1982). Aí foi um fuzuê. Choramos, tiramos a calça e pisamos em cima, fizemos beicinhos e pirraças. Fretaram um avião, mas só para o dia seguinte. Pra encurtar a história, chegamos em Belém às duas da tarde e a colação começaria às seis. Correria com roupa, convites, formalidades, alguém para dar o nó na gravata, o padrinho...
Meu tio nos deu apoio com o fusquinha da família. Ocorre que, na mesma pisada que apanhou um panelão de maniçoba destinado à nossa comemoração doméstica, emendou e nos apanhou eu, mamãe e meu padrinho para a cerimônia. Não percebemos que a maniçoba tinha entornado um tanto, na beirada do banco traseiro. Mamãe toda arrumada, no seu longo acetinado, sentou em cima.
A vida é uma caixinha.... Ao desembarcar no ginásio, descobri naquele dia, para que serve o lenço que vem na lapela do paletó.


domingo, 8 de janeiro de 2017

crônica da semana- belém 23 graus

Belém 23 graus
Mas foi só as primeiras chuvas de dezembro arriarem na cidade, que as mídias se enxameram de testemunhos dramáticos sobre o frio intenso que invadiu, sem tomar conhecimento, as mais fininhas das fretas dos mais protegidos puxadinhos de Belém.
Penso que há uma lógica nisso tudo. Uma brecha sensitiva por onde o frio passa verossímil que é uma maravilha.
Vamos e venhamos que saímos de um novembro esturricante, com temperaturas beirando os 33 graus e sensação térmica de sei lá...400 graus, por aí. Então o barato deste caro destrambelho climático é exatamente a sensação. É aquele um tanto a mais catalisado pelo nosso caótico desenho urbano. Dependendo do calibre da pessoa, em novembro, o calor foi de calcinar mesmo, de quebrar a molécula de água da mais arquitetada combinação química orgânica que a gente possa ter dentro da gente. Tem gente que desfalece. Delira, baba, dá piripaques e grosopes assustadores.
Ocorre que no outro extremo, uma temperatura mínima de 23 graus, esta que nos visita desde o início de dezembro, é potencializada e ‘sentida’ como se fosse siberianos 22 graus, por exemplo. Dá-se naturalmente um choque térmico coletivo. Quem está acostumado ao banho de mar sabe o que significa esta sensação. Está debaixo daquele sol, pegando aquele bronze, fixando aquele brondor na mecha do cabelo, mas quando cisma de dar um mergulho, aquele resistente contado do dedo mindinho do pé com a pequena onda que se acaba na areia, ao corajoso banhista, lhe parece que o mundo o acutila a alma. No primeiro mergulho, então, é o céu que desaba sobre o empedernido veranista. A água é fria que dói.
Daí, da mesma forma que o corpo tem que se acostumar com a frieza da água da praia, numa tarde de sol de julho; o inverno amazônico reivindica, ao organismo, a mesma adaptação. As fartas reclamações que assistimos nas mídias, nos fazem crer que até o corpo tornar para as confortabilidades térmicas, exigidas a partir de dezembro, vai demorar um pouquinho.
O que vai nos valer é aproximar a dita sensação térmica, que transforma dóceis 23 graus em terríveis percepções de frio intenso, possíveis de serem medidas somente na escala Fahreneit; o que vai nos acudir é trazer a sensação para perto das temperaturas realistas, amigas e eficazes, que não fazem mal a ninguém.
Temperaturas inofensivas, realistas, mas que nos permitem sim, usar aquela camisa manga comprida, conservada à naftalina durante todo o ano, no fundo da gaveta. Nos abonam no uso daquele moletom com capuz e tudo. E nos permitem usar o ventilador à noite, apontando para cima, girando sem buscar a gente, na missão única de espantar os carapanãs.

Temos que desmistificar o frio total que nos assombra, mas, ao mesmo tempo, é coerente aceitar que 23 graus, para nós belemenses que vivemos na “cidade maravilha/purgatório da beleza e do caos” é sim, friozinho muito dos seus aquele, pai d’eguinha que só ele, gostosinho no prumo, no jeito para pôr uma meia, esticar o sono, puxar o pano de imaginar, nos cobrir dos pés a cabeça e...sonhar.