domingo, 20 de agosto de 2017


Natureza morta. Fachada mais flores lilases.Madrid,2012

sábado, 19 de agosto de 2017

crônica da semana - segundona

Segundona
Não me tenham, como tantam por inteiro, apenas vou na leva. Na média. E é cada marmota que a gente arruma, nessa vida louca...
O que se deu foi que em pleno domingo véspera de feriadão, minha mulher se surpreendeu de me encontrar todo ajeitado no meu cantinho da cama, embrulhado só com o nariz de fora. Espantou-se com a minha determinação já que não iria acordar cedo no dia seguinte. Aliás, por causa do feriado imprensado, só voltaria a madrugar, na quarta-feira. Me toquei nas paradas e a única coisa que me ocorreu justificar foi que aquele é o meu costume, o meu jeito de ser meio doidinho.
E é de espantar por inteiro. No domingo, o custo é aparecer o letreiro do Faustão que já vou programando meu despertador, bebo aquele golinho de água, rezo o “com Deus me deito, com Deus me levanto” e vou me ajeitando pra dormir. E é tão centrada a intenção, que eu, que gosto pacas de futebol, às vezes nem vejo ‘o gols’ de tanta precisão que vejo em dormir cedo para acordar cedo. Diga se não é leseira por demais.
Esta minha determinação vem se construindo ao longo do domingo. Falo brincando, mas é sério. Domingo, depois de meio-dia, pra mim, já é segunda. Segundona cheia dos ais e uis.Tudo pode acontecer no domingo até a hora do almoço. Toco um pandeiro no samba, tomo uma gelada, passeio, bato o ponto na Banca dos Escritores Paraenses, na Praça da República, espaireço e libero o cocuruto de compromissos. Mas deu aquela horinha, o dia volteou ali pelas doze badaladas do sol a pino, vai dando aquele tóim óim óim na cabeça, e já que me avio nos termos. E de tal forma é, que, antes que a noite caia, o meu uniforme já está passado, meu par de meia separado, a mochila com minhas coisinhas pessoais arrumada. Só não calço a bota logo porque dou uma forra à comodidade, à confortabilidade.
Desde que tempo sou assim. Faz parte da minha carteira de responsabilidades este exagero. Sou meio aperreado nas amarrações de compromissos, mesmo sem pressão.
Nos tempos que trabalhava no mato, em Rondônia, no Xingu, por aí pelo ermo amazônico, armava acampamento nas mais altas lonjuras, pra lá donde o vento faz a curva. E mesmo distante dos centros administrativos das empresas, dos chefes e dos cartões de ponto, não dava mole. Sete horas já estava tomado café e de boroca no ombro, pronto para a lida. Por estar longe, fora de foco, com a equipe na mão, controlada, bem que poderia variar a jornada. Sair um pouquinho mais tarde, deixar a neblina sentar, tomar um café mais sossegado. Mas quite! Fazia questão de cumprir horário. E ia na frente. A galera atrás, emburrada, alguns ainda bocejando, outros terminando de mastigar as bolachinhas do café, os mais atrasadinhos, se equipando, ajeitando um lado do meião sobre a bainha da calça, dando uma correndinha para alcançar o grupo, ajeitando o outro lado...

O tempo passa, as urgências mudam, algumas seduções, permito que apareçam imperdíveis, irresistíveis, no domingo. Eu vou ficando mundiado, me arredando pra perto. De repente...Tóim óim óim. Não tem escapatória, domingo, pra mim, depois do meio dia, já é segunda, a segundona.

sábado, 12 de agosto de 2017

crônica da semana - 22 anos

22 anos e lá vai poeira
Na terça-feira próxima passada, inteirei 22 anos trabalhando na mesma empresa. Para mim, um fato extraordinário. Mas antes de ter este aspecto portentoso, na minha carreira de operário, cria um caráter subversivo na minha trajetória de cronista. Nunca na história desta coluna, falei deste trabalho do qual vivo os últimos 22 anos. Hoje vou falar.
E como sou um narrador dos pretéritos nem tão perfeitos, começo com o primeiro de agosto de 1995.
Foi um choque. Uma atividade completamente diferente daquela que eu desenvolvia até então. A mim me destroncou totalmente, o momento em que recebi uma pá, como instrumento de trabalho. Eu tinha mais de dez anos de formado como Técnico em Mineração e, até ali, a única ferramenta que conhecia era a lapiseira. Éraste, sofri que só com aquele choque de realidade. Chorava pelos cantos, meu corpo reagia mal àquela lida, àquele regime bruto que me fazia duvidar da mais remota possibilidade de vingar naquele serviço, um mês ao menos (que dirá, 22 anos). A barra pesou pacas pro meu lado.
Não desisti. Encarei a parada. Dei o valor exato àquele trabalho. Achei argumentos para torná-lo digno e importante para o processo em que eu militava e, ora, ora, para a minha sobrevivência.
A terça-feira próxima passada se deu em branco para muita gente. Não para mim. Volvi aos primeiros dias e catei uma razão para meus momentos de infortúnios. O motivo, talvez, viesse até mesmo daquele processo de formação na Escola Técnica que penso, sem maldade, nos incutiu este temperamento arrogante, ao sair para o mercado de trabalho. Não admitindo reveses. Na Escola a doutrina pregava a liderança, a chefia de grandes hordas de peões indisciplinados. O salário ali em cima, o status de ser um capataz melhorado, a soberba dos iludidos. A cartilha em que rezávamos não vislumbrava em momento algum, um cenário em que nós seríamos os peões. Daí o sacolejo que me tirou de órbita.
Mas não me arrependo, ao olhar para trás. A vida de operário me apresentou outros desafios rigorosíssimos (daqueles que deixavam o ato de empunhar uma pá, lá atrás em termos de tensão e inquietação). Aprendi o sentido de coletividade quando me envolvi no movimento sindical (ainda hoje, apesar da alteração na diastólica, não sei pensar só no meu umbigo. Tudo que diz respeito ao ambiente de trabalho, mesmo que me seja alheio, dou pitaco, faço zangas, contesto, apoio).
Meio sem jeito, um tanto bambo, com uma vergoinha besta, rogo o perdão dos meus leitores por desvelar essa passagem recôndita, escondidinha da minha vida profissional ativa. Não poderia deixar passar em branco esta data. E nem admitiria um silêncio sobre a minha alegria em ter conquistado 22 anos como operário. Sim, sou feliz por isso. A família, meus livros editados, alguns prazeres a que me dou o direito, uma ou outra ajuda a quem precisa, a minha cervejinha. Parte do que sou, os amigos que conquistei são produto daquele dia primeiro de agosto de 95, em que tomei como instrumento de trabalho uma pá e a transformei na mais lustrada, refinada e precisa lapiseira que arrisquei empunhar.


domingo, 6 de agosto de 2017

fotopintura


Baía de Guanabara em Paquetá - Natureza morta - Julho 2017

sábado, 5 de agosto de 2017

crônica da semana- sou dos becos

Sou dos becos, sou das bocas
Foi um tempo bom que não volta mais. Essa coisa de pobre andar pra cima e pra baixo de avião já que acaba. E nem é pelo preço das passagens. A baixa participação do nosso povo vai ser por causa do preço das bagagens. Agora, se a gente não cuidar, corre o risco de, só para despachar as tralhas, pagar quase o triplo do valor das passagens compradas naquela promoção pai d’égua.
É, vai pesar mesmo no orçamento... Como tínhamos uma promoção boa que nos franqueava a bagagem e nos levava por um preço bem em conta, escolhemos novamente o Rio de Janeiro como destino de férias. A paisagem, o traçado geomorfológico do Rio, é encanto comum. Todo mundo que visita a cidade, espera conhecer suas belezas naturais. Da minha parte, tinha uma motivação especial. Fui atrás dos becos, das bocas. E achei.
O que chamo de becos, ou bocas, porém, vai além das vielas perdidas e escuras. São as referências marginais, são formatos subversivos de arte, são resistências culturais. Algo diferente de ‘um cantinho, um violão’. Embora aprecie a dupla, estava mais para “barracão de zinco”, mais para “lata d’água na cabeça”. O meu norte era o samba, mas seguindo o som dos becos, apaniguei  a balada singela e até o Jazz.
O começo de tudo foi na Pedra do Sal. Um lugar de manutenção e realização da cultura afro-brasileira. Um espaço que agregou e congregou a religiosidade e a arte dos negros. Era o que eu estava procurando. De repente, estava pisando no mesmo chão que pisaram símbolos da nossa história como Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres. Um ambiente que reunia o negro vindo da ‘Costa’. E que, hoje, reflete a trajetória do samba sob as bênçãos de Tia Ciata.
Atualmente, há um esforço muito grande para sustentar aquele lugar como um local de culto à memória. A roda de samba que acontece ali, além de pôr a turma para cantar e dançar, além de reunir pensamentos comuns, também é um nicho de conscientização. E por isso sofre, como sofrem por este Brasil afora as manifestações populares, quaisquer que sejam, de rua. Uma semana antes da minha visita, a roda de samba não se realizou por causa da ameaça de ser empastelada pela Guarda Municipal.
O vento frio, o ar seco, cortante me levou a lugares aquecidos. Uma ponta prateada de lua me indicou o caminho e fui dar em uma reunião embebida pelos mais concentrados fluidos de liberdade. Uma rua, até um dia desses, abandonada, ao largo da praça Tiradentes e que hoje se move excitada respondendo aos estímulos vigorosos do Jazz.
Mais uma voltinha no vento, e o encontro com a palavra de esquina, plena,vulcânica. A Lapa, na praça Luana Muniz, se iguala em opulência à mais extraordinária feição geomorfológica da cidade. O Sarau do Escritório é uma grande planície florada, com campos densos, e aqui, ali, escaninhos reluzentes, misteriosos, donde surge um Chacal a uivar versos livres.
Nas ruas do Rio de janeiro, encontrei a música (algo diferente do cantinho e do violão), a poesia, o traço, a cor, a história, a memória, corações e afetos, valores e conteúdos que me ratificaram como sendo dos becos. E das bocas.


sábado, 29 de julho de 2017

crônica da semana - santosdumont

Viagem de avião (com o pé direito)
Antigamente eu tinha uma roupa meio aquela de arrumadinha só para viajar de avião. Camisa manga comprida, calça social no mais alinhado vinco, lenço passadinho no bolso. Durante um bom tempo ostentei, também, um sapato em couro trançado que era um mimo. Durou, durou que só. Depois que aquele par de sapatos se acabou de vez, sei lá, minha vida ficou vazia (ou minhas viagens de avião ficaram de vera, sem jeito, menos engalanadas).
Era um acontecimento. Uma viagem de avião naqueles meus primeiros passos pelos céus era algo de garboso momento. E algum sinal: quem viajava de avião, ou era barão ou trabalhava em firma boa em Tucuruí. Eu não trabalhava na construção da hidrelétrica, mas era da parte da firma.
Tirando as formalidades que foram, de certa forma, abolidas (dispensei o lenço), com o passar dos anos, a sensação que tenho, ao viajar de avião, ainda é a mesma. Não chega a ser um desespero daqueles de encarreirar os mistérios dolorosos em recitações tensas do terço a cada decolagem, mas, me bate uma gastura, uma impressão de pequenez, de impotência.
Estar flutuando, aparentemente sem se apoiar em nada, sem se mover sobre qualquer matéria visível, me inquieta. Iniciados vão argumentar que há sim, um meio físico de suporte para a sustentação da aeronave lá em cima que é o ar. Mas a gente lembra disso lá nas alturas? O que a gente vê mesmo é só o vazio (ou umas doces nuvenzinhas entre o avião pesadão e o chão distante e certo).
Longe de mim descredenciar a ciência das coisas, mas lá em cima o buraco é mais embaixo. Não sei vocês, mas em voos com mais de uma hora de duração, já procuro o sol, uma estrela conhecida, o mar, pra ter certeza que o bicho está no rumo certo; crio referências para perceber se não está perdendo altura; tento, apesar das constipações no ouvido, discernir ruídos (não tem uma hora que parece que o motor para?). Fico ligado e, em que pese uma injustificada desconfiança acerca dos absolutos tratados sobre aerodinâmica, revisito mentalmente os conceitos da Física que mantêm aquela máquina porruda e pesada, no ar. O ouvido atento...
Pensando sobre isso ainda, já em terra firme, no Rio de janeiro, subi os quase mil metros de altitude da serra da Estrela e fui confortar meu coração na casa de Santos Dumont, em Petrópolis.
(Se eu estivesse na quinta série e, no retorno às aulas, tivesse aquela missão de fazer uma redação falando sobre as férias, escreveria contando estes detalhes, estas besteragens que permeiam meus pensamentos, não exatamente semeando pavor, mas talvez ativando uma pontinha de orgulho e encanto que tenho por uma humanidade criativa, revolucionária, que descobre matéria onde nada vemos, que usa das forças invisíveis, e que domina os mistérios gloriosos do céu. Continuaria reiterando este meu fascínio, principalmente por ser o Brasil, o berço do homem que pôs pra voar a primeira máquina mais pesada que o ar.  Admitiria a minha pequenez porque, não entendi a genialidade de Santos Dumont, patetei e ameacei  iniciar a subida na escada da casa do gênio com o pé esquerdo).

  

sábado, 22 de julho de 2017

sou dos becos
sou das brenhas
sou das bocas
putas nuas
sou das brechas
arte louca
sou dos nichos
sou dos guetos

batuque que bato
artes santas

momento que vivo
tempo bêbado
clima nu
sou do samba
das esquinas
sou do jazz
Pedreira paz
sou bate batera
sou da pedra
sou 90 

sou o som
que vem no vento
assobio

sábado, 8 de julho de 2017

crônica da semana - escadinha

Férias na escadinha
Alguns minutos de espera por uma carona me fizeram voltar muitos anos no tempo. O ponto de encontro era a escadinha do cais do porto, na praça Pedro Teixeira. Enquanto, minha carona não chegava, dei umas voltas para abelhudar  a produção da turma de pescadores que àquela hora da noite, mariscavam aproveitando a maré enchendo e a noite sem chuva.
Revisitei os tempos de traquinagens e peraltices de moleque rueiro, que eu era. O custo era a batida da campa anunciar o fim da última aula e as janelas das férias se abrirem amplas, gerais  e irrestritas  à nossa frente,  que num instante, a gente inventava uma pescaria na escadinha.
Antes, claro, vencíamos o asco, o dito nojinho e nos embrenhávamos pelos estirões de terra preta que dominavam os quintais da Pedreira, em busca de minhocas para isca. 
Mamãe sabia da aventura. Recomendava. Avisava sobre os ventos fortes nos finais de tarde, sobre o banzeiro certo quando o sol esfriava (o que quer dizer que, Deus te livre e guarde de descer a escadinha para desengatar linha. Esta arte ela não permitia de jeito e maneira). Nestes termos, me dava a bença, e eu estava liberado. Podia ir. Não tinha muitas opções para as férias. A pescaria na escadinha era, por certo, um divertimento, mas, também, me ocupava, me fazia desprezar aquela trava de menino besta de não pegar em minhoca, em terra molhada. Tirava de mim o medo de varar as cercas da vizinhança, de andar descalço pisando na terra nua, no úmido da beirada daquele igarapé que corria por detrás das casas ou na lama vasta quando ele se espraiava no (i)gapó.
Divertir, a gente se divertia a valer. Folgávamos com aquele deslumbramento, com aquele transe provocado pelas cores que modelavam o horizonte, no arrebol. Agora, pescar, não me ocorre ter fisgado um único peixe.
Divertir, nos divertíamos às pampas, com o vento que soprava com mais de mil de encontro a gente, e dava aquela sensação gostosa de muito ar, de muita vida, de um mundo de alegrias, distante, agitado, mas amistoso  vindo nos visitar. Por outro lado, pescar, pescar mesmo, puxar um peixinho daquele jeito de fazer um risco na água. Lembro não.
Na minha história de escadinha, não puxei um único peixe. Até que sentia o bichinho beliscando minha minhoquinha, mas patetava, perdia a puxada e ele fugia. Por outra, a minha linha engatava nas pedras (mamãe não deixava eu descer. Ralhava), eu quebrava bem na mão, e ficava sem, só ‘amucegando’ os outros moleques.
Quando as aulas voltavam, em agosto, todo mundo contava história de veraneio em Salinas, Marudá, Algodoal. Eu fazia a minha redação na mais pura mentira, botava pra chulear na imaginação (talvez venha daí o pendor para crônica). Dizia que tinha passado o mês todo em tal lugar maravilhoso assim, assim, com praia de água salgada e muitos coqueiros na areia. Mas quite! Pintava os canecos mesmo era na escadinha.

Na minha abelhudação, enquanto esperava a carona para casa, lembrava dessas coisas. E vi que os pescadores, naquela noite, até que estavam puxando. Uns peixes gititos assim, mas enfim...Puxando e se divertindo pacas.

sábado, 1 de julho de 2017

crônica da semana- biotônico

Biotônico Fontoura
Peguei todo mundo na mentira. Nem era par ser este Bê-á-bá...Bê-é-bé...Bê-í-bi...o-tônico Fontura o título desta crônica. O certo mesmo era esta historinha ter por título o outro suplemento famoso da minha época de moleque parrudo, o óleo de fígado de bacalhau. Mas é um nome grande, com sobrenome e subtítulo em versão erudita “Emulsão Scott” e em dito popular “Emulsão de Escote”, que era como eu conhecia. Por aí a gente tira, só no título eu consumiria boa parte dos caracteres que me são disponíveis nesta prosa.
Mas não vamos nos bater. Não há motivo pra gente ficar de ponta. Minha mentira é doce. Não é de fazer mal. Apela para uma imagem, para um gosto antigo e revigorante, abre o apetite, tira a palidez e, olha, é mentirinha cheia de afinidades, afinal, naqueles tempos, a Emulsão de Escote e o Biotônico Fontoura eram fortificantes que a gente tomava uma colherada dum; passava um pedacinho, e uma colherada doutro.
A dupla, me parece, ainda existe nas farmácias. Não tenho certeza. Perdi contato. Acho que por isso ando numa panemice, num desânimo só.
O que torna é que há um motivo pra este tema de hoje. E não tem lá a ver com a sustância e a boa disposição prometidas pelos elixires. Disse que era uma crônica surgida de uma imagem, num foi? E é. De um rótulo.
No vidro de óleo de fígado de bacalhau, o rótulo é ilustrado com a imagem de um pescador trazendo às costas, um peixe enorme. O bacalhau é fisgado e alçado de forma que, pendurado, dá na altura do homem.
Em mim, é marcante esta figura. Forte a idéia de um peixão fisgado. Elevado. Dominado. Uma cena anticonflito. Anti “O Velho e o mar”. Não sugere esforços exagerados do homem para pegar o peixe. E até me parece contradizer os benefícios da bebida, porque o homem representado não exibe aquele ar saudável, conquistador, vencedor. Na foto, tá mais pra Jeca Tatu que para Hemingway.

E foi no Veropa, que tal? Tava eu espairecendo da semana, tomando uma gelada, ao pôr do sol, bem de boa, só curtindo o ventinho terral, quando alguém, com um semblante entre o horror e a incredulidade, me levou a olhar além dos ombros. Atrás de mim, uma cena desconcertante para uns princípios conservadores que ainda cultivo. Uma moça estava sendo, literalmente fisgada. O arranjo consistia em mostruário de pano preto apinhado de brincos e piercings de tudo quanto é cor, tipo e qualidade, uma bolsa aberta, largada sobre um banco, uma moça dividindo uma cerveja com um parceiro e um rapaz (tatuador?) fincando um gancho deste tamanho um isso assim acima dos lábios dela. Esta sim, uma cena com o fulgor, com a energia e a força de um Hemingway. Na investida decisiva, acompanhei a zagaia varar a pele da menina. A bichinha chega ergueu-se da mesa (O rótulo da Emulsão de Escote se reproduzindo ali, de palmo em cima). Depois de perfurado o buço, a limpeza do pouco sangue derramado foi feita. Com o beiço meio inchado a moça olhou-se no espelho e aprovou o trabalho do tatuador (instalador de piercing?). Ali, em pleno Ver-o-Peso, a moça continuou com a cervejinha, e a prosa com o acompanhante. Fisgada e Feliz.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

crônica da semana- pai alterna

Pai alterna
Era um show de um rapazinho fofinho, gente boa pacas, adorado pela petizada. Por força das interações, convivência e conivências com minha filha, até sabia umas músicas dele. “Tempo de pipa” era a minha preferida. Fui junto. Fiquei lá espremido junto à grade, bem pertinho do palco, durante boa parte do show. Ao final, acompanhei o cortejo de fãs até o camarim, supliquei para o baixista chamar o cantor lá dentro, e quando ele veio, esperei pacientemente, a vez, para fazer o retrato dele com Amaranta. Foi tudo muito perfeito e prazeroso naquela noite. O desfecho feliz, autógrafo, quetais, coquetes e salamaleques. Mas o começo de tudo foi tenso.
Era noite. O local do show era uma mistura de casa de espetáculo e bar. Minha filha tinha pouco mais de dezesseis anos. Apesar de todos os papéis solicitados pela produção, na hora de mostrar as identidades, a menina foi barrada. Um segurança de uma envergadura monumental, que se fosse medido, bem medidinho, somaria uns três quilômetros de tórax e que se alçava a uma elevação comparável a um prédio de oito andares, nos impediu de entrar, sem papo e sem apelo. Pensa num pai pê-da-vida. Olhei pra cima, comparei nossas posses, ponderei que o paletó preto que encapava o segurança, poderia fazer alguma diferença em favor dele, na hora do vamos-ver-quem-tem-razão, já que, só de bermuda, camiseta e percata, eu estava. Relevei a afronta, desisti do enfrentamento radical e passei à conversa. Ele me cobrou uma autorização do juiz. Aí eu peguei o bacana na dobra. O que seria uma autorização do juiz senão uma autorização minha, do pai, autorizando o juiz a autorizar a entrada da minha filha naquele recinto. Estávamos pulando etapas, ora. Eu já estava ali. Estávamos economizando tempo, aliviando a carga de um servidor público aquilatado, desestressando a magistratura dessas coisinhas bobas. E dei o xeque-mate, anunciando a ele e aos passantes, que eu autorizava. O próprio pai estava ali para autorizar a menina. Fui aplaudido pela galera que fazia fila na roleta. Sem defesas ele capitulou, não ficou de todo convencido, não, mas vergou o corpanzil, ajustou a pulseira de plástico com uma tarja verde no meu braço, no braço da minha filha, e abriu caminho. Depois foi tudo as mil maravilhas. Showzaço do Cícero. Minha filhinha feliz.
E virei pai alterna. Uma marca surgida por causa dos lugares meio diferentes, em que eu era visto acompanhado dos meus filhos. Encontro de poetas, batuques em praça pública, arrastões de bois, e estes shows de cantores pouco conhecidos. Era comum eu levar as crianças para estas partes. Com o passar do tempo, eles é que passaram a me levar. E foi assim, no show do Cícero fofinho. Eu,  em muitos casos, ainda, chancelando a identidade e segurando a onda com seguranças porrudões.
Depois de amanhã, Amarantinha completa 19 anos. É dona do próprio nariz, responsável e programadora de si mesma. O lado bom é que já é ‘de maior’ e não precisa mover mundos para ter direito ao divertimento que lhe apraz. O outro lado, é que não convida mais o pai alterna para ir às partes com ela.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

crônica da semana - senhr,senhor

Senhor, Senhor!
Parça do meu convívio. De conversas repentinas, assuntos rápidos. Só que, infelizmente, dia desses, emendamos o papo.Vai daqui, vai dali, e ele foi desfiando vantagens. A água da casa dele era ligação direta do tubulão da rua. Paga só a taxa. Luz, toda noite, joga o bode na rede de alta para garantir os 220 volts do ar condicionado. Internet, tem pelo menos duas senhas clandestinas garfadas da vizinhança. Cai uma, usa a outra. TV a cabo, emenda cabos, conseguiu antena na feira do Barreiro e, em dias de jogos, declina da seleção de filmes para adultos e vibra assistindo aos jogos do Papão estirado no colchão de mola que comprou de um terceiro, sem nota. Tem uma carteirinha de meia-passagem, apesar de ter abandonado a escola há mais de 20 anos. Contava essas estripulias, digamos, pareadas à contravenção, com certo orgulho. Fazia caras altivas, presunçosas. Tipo eu sou o talzão. Olha, fiquei besta com aquele enfileirado de trambiques. Teve uma horinha, que me permitiu a palavra e eu indaguei se de nada lícito ele tinha em casa ou no uso para contar. Silêncio. Depois de uns instantes, lembrou que tinha o diploma de Pedagogia, mas sobre ele pairava uma pendência ainda. Pagou o curso direitinho, mas deu rolo no registro do MEC. Não soube explicar ao certo. Desconversou. Puxou o celular, buscou a foto e me mostrou a testa do rapaz tatuada.
Este mesmo parça, já o vi em novenas de rua, daquelas que acontecem ao pegado do Círio. No meio dos outros, aparentando fé ardorosa. Em certos momentos mais aquecidos, de mãos dadas com os demais devotos, olhos fechados, cenho franzido, é tradição chamar com voz suplicante: “Senhor, Senhor”.
Movimentava o celular à minha frente para que eu percebesse o detalhe, para que a humilhação do adolescente se mostrasse para mim em vários e grotescos ângulos. Enquanto manipulava o celular, fazia uma narração cheia de ódio. Declarava sem a menor prudência, que se fosse ele que pegasse aquele ladrãozinho, faria até pior. Arrancava as unhas dele, faria um furo na bochecha, lanhava as costas com cinturãozadas. Quebrava uns dentes. Senhor, Senhor!
Um choque, aquela cena de horror. Passei um tempo sendo submetido àquele transe selvagem. Dentro de mim, me questionava sobre esta coisa ruim, este instinto bruto que temos dentro da gente. Esta medida de uma única via que julga, condena, menospreza alguém que sequer sabe quem é, e, por outro lado, abstêm-se de culpas mínimas; salva-se a si mesmo de tatuagens ou penas leves, pela prática de delitos socialmente inocentes (como usar do gatonet). E além de tudo, posta-se de bem com torturas e vilipêndios.
Informações de várias fontes me chegam dando uma versão diferente para aquela barbárie. O garoto sequer era ladrão contumaz, padece de um desequilíbrio mental. Foi torturado por puro sadismo. Outras notícias dizem que uma vaquinha foi organizada a fim de patrocinar uma cirurgia plástica para remover a tatuagem.
Outubro se avizinha... Não adianta clamar “Senhor, Senhor” e acender uma vela para a tortura e outra para a brutalidade. A Santa, mãe de Deus, tá vendo.


sábado, 10 de junho de 2017

crônica da semana- recomeços

Recomeços
Éraste,  parece uma coisa, olha! Ô paradinha pra dar certo no jeito e na cor. A gente nem dá o particípio, nem corre nos intercâmbios, sequer recorta os entornos ou dobra as calendas e, tibum! Mergulhamos nas mais doces coincidências.
Calhou d’eu entender que este momento que vivemos, embora permeado de dramaticidades e extravagâncias, seja também de reviravoltas, de revoluções. Não que eu esteja sendo acometido de um otimismo vão, sem sal e sem aval. Também não sou assim, bestão, alienado. Tenho consciência de que o cenário é delicadíssimo. Ao mesmo tempo, porém, é de decisões.
Penso que segui um princípio de sobrevivência, um juízo inquebrantável. Vamos resistir. Pensando bem, algumas feridas abertas neste corpo-Brasil são reveladoras, expõem diferenças antes camufladas, exibem as hipocrisias. Assim, o caminhar até que é mais seguro, vamos reconhecendo as vilanias, e daí, criamos defesas, superamos as hostilidades com o combate da hora.
Isto, em todos os campos de relacionamento. Naqueles que atingem o bolso, ou em outros que nos esmigalham o coração.
Pois não é que calhou!
Vi olhos, neste início de junho, brilharem como antes não brilhavam. Vi horizontes se descortinando num comportamento múltiplo, em escalares desafios, e medo nenhum percebi, tecido ou trançado ao largo. Pai d’égua, isso! Vi passos decisivos no rumo de recomeços.
E eu que reitero, reinicio,  reeescrevo. E eu que meto meu bedelho no fundo do olho do mundo nesta arte de “reiterar o já dito, o já vivido, o já pensado”, acho muito dos seus pai d’égua essa história de ter serventia para que alguma paradinha aconteça e mude mundos, mundinhos, Raimundinho! Mundinhos, Raimundinho!
Vi também, sorrisos reeditados, exposição de encantos sazonais, humildade, afeto perto-longe, conivência. Vi na simpatia de D. Dora, leitora aqui da coluna que desde 2013 comparece às edições da feira do Livro, no Hangar, para ter uma prosa assim comigo.Vi naquele carinho, a dimensão completa e repleta de responsabilidades, que têm as palavras que digito todos os sábados aqui. E eu? E eu acho muito pai d’égua, esta cumplicidade!
Então calhou, que por causa do título do meu novo livro, eu desenvolvesse uma dedicatória, na hora dos autógrafos, que sinalizasse para recomeços. Por causa do mês de janeiro, por causa da sobreposição de temas. Uma explicação tecnicamente possível para a edição da coletânea, deste ano, enfim. Em outro sentido, não pensei, não maldei.
Mas o mês de junho começou ditando vieses que nem janeiros. E eles se desenharam no campo do amor à vida, na esfera do trabalho, no reencontro com D. Dora. No fortalecimento de velhas amizades. Na crença em revoluções e resistências.
Não era esta a intenção. Mas calhou, ora se calhou!
E minhas noites têm sido de sono profundo e reconfortante. E minha alma me anima doce e abrandada. E minha razão reconhece o mais concreto e certeiro que possa ser o futuro. Alcançável, ora.

Ô coisa pra dar certo! Assim, apontando os particípios, os tais intercâmbios, aqueles entornos, as ditas dobras e calendas. No rumo das mais doces coincidências

sábado, 3 de junho de 2017

crônica da semana- janeiros

Janeiros
É o quarto episódio de uma aleatória temporada da série que mais com pouco explico. Vai ter sessão de autógrafos hoje. Sei que aos sábados, tenho muitos leitores que me acompanham aqui na coluna. Em outros lançamentos, tive oportunidade de conhecer alguns de vós. Seria bom nos vermos. Apareçam.
Fosse outro o caso, eu poderia até oferecer um caldo de cana com pão doce, um Q-suco de groselha com broa polvilhada. Mas, Deus te livre e guarde! Não pode. O regulamento da Feira do Livro é rígido. Não permite seduções e nem prazerosos intermediários. A coisa é ali, entre o autor e o leitor. Ninguém se mete.
“Janeiros” é a realização de um desejo que venho cultivando desde 2013. Tô querendo guardar em livro, as crônicas que venho publicando no jornal. É uma missão. São quase quinhentas crônicas. Isso em uma única edição sairia uma fortuna, então, venho picando as publicações, em episódios, sempre que aparece uma graninha. Nesta leva de intenções, a série vai se ajeitando. Na sequência das edições vieram “O rio do meu lugar”, “A rainha do rádio”, “Corrente” e agora, este “Janeiros” que vos apresento. Por enquanto está tudo nos conformes. O bom pai tem me ajudado e meu projeto tá caminhando rente como pão quente.
As outras edições da série foram temáticas ou enquadradas em razões para se realizarem. Ora conceituais, ora sentimentais, ora estilísticas. “Janeiros” obedece a esta cobrança formal que me imponho.  A composição do livro é inspirada em uma dinâmica textual muito usada por Nelson Rodrigues, e evidente em “O Óbvio Ululante”, coletânea que terminei de ler dia desses. Arremedando a pegada do autor, “Janeiros” é formado pela repetição de temas. Nos meus escritos, encontrei eco no método abonado e assumido, por Nelson. Reparei que abordo o mesmo assunto umas quantas vezes. Mas dei, também, que este é o grande desafio, o grande barato. Dar movimento, tratar tramas constantes de formas variáveis, esta é a motivação. Sinto benzinho essa pressão nas crônicas que escrevo no mês de janeiro. É o mês de aniversário de Belém e há anos dedico a coluna à cidade. Com o cuidado de dar roupagens diferentes às histórias. Um ano falei da geografia, em outro mirei na arquitetura, mais outro e apontei para o coração de quem ama Belém. Uma versão que me deu muito gosto fazer foi a que expressei a relação com a cidade, do ponto de vista de alguém que está distante. Centrei a narrativa no Acre e criei uma personagem inspirada em minha mãe. Muitos segredos não vividos se revelaram para mim, naquela experiência.
Uma construção cíclica, tendo uma Belém inalterada sentimentalmente, e em contrapartida, travestida de incertezas, exige sempre um recomeço e uma guinada estratégica ao racional. Reescrever, reiterar o já dito, o já vivido, o já pensado, é sentir-se à vontade para nascer de novo e ver o cotidiano com outros olhos, com outra voz, com braços e pernas livres. Novos olhares são novos saberes, são novos prazeres. São janeiros.
A reinvenção de temas pauta o meu novo livro. Todo janeiro, me renovo.  Em “Janeiros” me reinvento. Borilá. Espero vocês à noite, no Hangar.


sábado, 27 de maio de 2017

crônica da semana- limousine

A limousine do ricaço
Tenho uma irmã que sempre que me visita, deixa uma prosa pra lá de especial. Domingo próximo passado, revelou que se considera uma pessoa pra lá de chique, porque, na vida, já andou de limousine.
Na reuniãozinha de família, todo mundo desdenhou desta pavulagem. Mas quando, já? Ora, limousine! A gente se ampara na sorte para pegar uma vaga sentado, no Sacrabala, agora avalie um rolé de limousine. Nem nunca!
Para mim, é um carro de ricaços, coisa de cinema. Não acreditava existir uma limousine em Belém. Até que um dia, aconteceu, num casamento.
Era junho, os meninos estudavam no colégio do Carmo e a noite era dedicada ao tradicional folguedo. Tem aquela hora que a festa ganha aquele ar intimista, os alunos procuram seus grupinhos, arrastam pé pelo salão e os pais são largados ao largo, só no mingauzinho de milho. Fiz um trato com os meninos. Podiam se divertir a valer que a gente ia bem ali, na praça tomar uma cervejinha porque ninguém é de ferro (pleno sábado!). Quando saímos, uma movimentação de gente bem vestida, só no salto e paletó, chamava a atenção. Encerrava-se uma cerimônia de casamento na igreja do Carmo. De repente, uma surpresa. Pelo canto da praça, vislumbramos uma reluzente aparição, um carro esticadão e maravilhoso Era sim, uma limousine exibindo-se em pomposa aproximação.
Foi lá em baixo, no beco, fez a manobra, o motorista encostou rés o portão da igreja, e desceu.Tão engalanado que mais parecia um major da RAF . Os convidados cercaram o carrão e lá de dentro, sob uma chuva de arroz, emergiram os noivos. Receberam homenagens, beijinhos e abraços rápidos. A marcha nupcial lá longe, tocada delicadamente por músicos refinados. Uma débil tentativa de organizar as mais animadas e a noiva lançou o buquê. Tão logo os providenciais conselhos da mãe foram guardados na memória da noiva, os dois entraram no carrão. Foi então que rolou o momento mais garboso do evento. Não é que a limousine tinha aquela abertura no teto! O motorista ligou o motor, mas não pôs o carro em movimento. Deu-se o suspense. Eis então que os noivos aparecem no topo da limousine, com sorrisos largos e metade dos corpos para fora, ostentando taças adocicadas de champanhe e amor. Aplausos, encantamentos, invejinhas discretas e sinceros rogos diluídos na turba e o carro desaparece na dobra da Dr. Assis.
Eu, que tomar uma cervejinha iria, fiquei bebinho da silva com aquela solenidade. E com a exuberância daquele carro esticadão com teto solar super útil em plena noite de São João.
A humanidade seguia assim, de limousine, no meu cocuruto, num mundo irreal, até que o vendedor de mingau que a tudo assistia ao meu lado, cortou meu barato revelando que não era de verdade, aquela limousine. Era uma imitação mal arranjada. Minha convicção foi destruída por aquela opinião. Voltei ao normal, desacreditando na existência de limousines, motoritas da RAF e chanpanhes.
Hoje, a única limousine que acredito é aquela que carregava minha irmã, quando ela trabalhava na casa de uns ricaços no Rio de Janeiro e nas férias, ia toda chique, no carrão com eles para Angra.



sábado, 20 de maio de 2017

crônica da semana - cai cai da estrela

Cai-cai da estrela
Não tinha aqueles sonhos que parecia que a gente estava caindo? Mamãe dizia que era porque a gente estava crescendo. Com metro e pouquinho de altura, conclui-se que... sonhei muito pouco.
Se não caí tanto nos sonhos, na vida real eu sou o próprio cai-cai da estrela. (nota para os mais novos: Brinquedos Estrela. Era uma indústria poderosíssima de brinquedos que dominava o ramo, no Brasil. A petizada se encantava com os lançamentos da Estrela a cada temporada. Uma outra galerinha tirava onda. Como o marketing sempre agregava o nome da empresa ao produto, em conjugações do tipo ‘o pula-pula da estrela’ ou o ‘bate-bate da estrela’, a molecada logo taxava aquele moleque meio azuruote que do nada, vivia caindo, fosse na bola,fosse nas brincadeiras de pira, fosse no simples caminhar pelos canteiros da Pedreira, de ‘cai-cai da estrela’. O meu caso).
Éraste, eu era campeão. Os meus estatelamentos mais comuns são aqueles de perda de chão. Acho que é porque sou pequenininho. Foi não foi, há aquela distância cruel entre a intenção e o gesto da pisada e tibei-te, lá vou eu ao chão.
(A mais extraordinária das quedas e aquela da qual emergi ileso e não bati o pacau por força de um milagre, ocorreu na Vila dos Cabanos por causa, ora, por causa de dóceis patinhos. Acontece que minha vizinha tinha uma criação que era um mimo. Uma noite de sobras em casa, raspei a panela e fui ao quintal fazer uma pré para os amarelinhos. Deixa estar que o quintal estava escuro e na ânsia de alcançar a cerca que dividia nossos quintais, nem dei que o alpendre era bem alto. Um passo em falso e desabei eu e a panela de petiscos. Até hoje penso que ouvi risinhos patéticos do outro lado da cerca, deixa eles. A queda foi feia, de alto risco. Um anjo me amparou e eu levantei sofrendo apenas de susto).
Ao pegado das quedas por perda de chão, vem o desaprumo por tropeção (ou tropicão, como dizem os mineiros bãos). Este é mais paid’égua. Não comporta tanto risco, e se destaca como um deslizamento algo cômico, algo trágico.
(Na minha passagem por Altamira, trabalhando com Geologia, experimentei longas caminhadas em mata fechada. Era o meu calvário. Eu me enganchava nas raízes, nos cipós, em troncos atravessados no meio do caminho e era tibei-te que não acabava mais. No início, os pequenos da minha equipe preocupavam-se, me acudiam, levavam a minha boroca pra reduzir os enganchos. Mas eu era pateta por demais. Não estava acostumado. Um piado ao largo, um ronronar longe, eu pensava que era uma fera da floresta prestes a nos devorar, desviava a atenção no caminho e enchinava chega fazia um rastro na floresta. Por fim a equipe me largou de mão e esperou que eu por mim, reagisse, que eu tomasse tento. Sei que riam risinhos a cada pouso forçado, mas sabiam que era uma queda doce. A floresta não machuca).

Pelo que se torna e pelo que se deixa, essa marmotagem de cai-cai da estrela me certifica como um homem normal, que se submete a uma lei formulada por Newton. Não sofro por isso. O que me enfeza é saber que tem gente que não se submete à lei nenhuma e só cai pra cima. Só cai pra cima.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

crônica remix- vestida de azul e branco

Vestida de azul e branco
Levando um sorriso franco pelos caminhos que iam dar no Instituto de Educação, Luzia encantava com os seus passos educados, o insubordinado seringueiro.
Pra frente que era, o homem do mato, mais velho e mais experiente, mas indiscretamente apaixonado, não resistia e acompanhava, com evidente interesse, o inocente caminhar da normalista de 16 anos rumo à Escola Normal.
No início da noite, enquanto as moças passeavam faceiras pela praça à beira do rio, ele juntava uns amigos, arrumava um violão e se declarava para Luzia cantando os versos de Nelson Gonçalves que tinham uma normalista como musa inspiradora.
Não conhecia limites, o coletor de látex, fazia e acontecia para chamar a atenção da jovem estudante. Aproximou-se da casa, conquistou os pais, os irmãos, superava-se em gentilezas para a família.
‘Mas a linda normalista não pode casar ainda, só depois que se formar’, alertava a poderosa voz de Nelson Gonçalves na canção. E ele esperou.
Nessa época, Luzia ainda não era a mamãe. Era uma estudante do curso normal querendo ser professora lá nas terras distantes do Xapuri e Manoel Sodré, atentado que só ele, ainda não era meu papai que tão pouco conheci, era um coração entregue, dominado, submetido aos caprichos da paixão.
O seringueiro, que de passagem se diga, era realmente um homem carismático, boa praça, fez porque fez que acabou ganhando a simpatia e o amor da doce normalista.
Casaram-se. E foi tudo direitinho, como manda o figurino. Com véu, grinalda, e lua de mel na capital do então território do Acre. Depois vieram os filhos...
Outro dia, coloquei o disco na vitrola, chamei os meus meninos e disse, olha aí, foi assim que a nossa história começou, com o Nelson Gonçalves fazendo a trilha sonora.

Luzia enviuvou aos 28 anos. Desde então, viveu apenas para as crias. Deu as costas para o mundo e dedicou a vida única e exclusivamente ao papel de mãe.
Neste ano de 2008, faz dez anos que Nelson Gonçalves nos deixou. Naquele dia, quando ouvi pelo rádio a notícia da morte do cantor, senti que os rastros deixados pela felicidade que um dia existiu, estavam por fim, se apagando.  Pressenti que a linha frágil, mas benéfica, útil que ligava a história da cândida normalista lá do interior do Acre com a mãe dedicada prostrada, agora, num leito de hospital em Belém, estava, a partir daquele momento, se rompendo.
Naquele instante, peguei a mão de minha mãe (as mãos mais lindas do mundo), e pedi que ela cantasse aquela canção do Nelson. Por quê? - perguntou ela surpresa com aquela idéia absurda. Porque, mamãe, respondi pausadamente, porque quero guardar a tua voz aqui dentro do meu coração cantando a canção que um dia te fez feliz.
A minha mãe não cantou. O ar lhe faltava para articular as palavras (e tanto que ela gostava de cantar!). E eu também não lhe falei que o Nelson Gonçalves havia morrido.
Por aqueles dias (como hoje, véspera do Dia das Mães), eu quis fugir, me perder no mar sem fim e chorar escondido. Mas no14 de maio, dia do meu aniversário, tive que ser forte. Não escapei ao último encontro com a bela normalista que, certa vez, se apaixonou por um seringueiro bruto. Comemos o bolo de caixinha que a minha irmã fez e cantamos um parabéns austero, como num ritual de despedida, até que ao final da tarde a luz que vestia de azul e branco o olhar da minha amada mãe foi se apagando...

No dia seguinte, o sorriso franco era apenas uma lembrança de uma canção ausente, e minha mãe, para o meu total desespero, descansava serena, para sempre em paz, em meus braços. 

sábado, 13 de maio de 2017

crônica da semana-fosfosol

Choque de realidade
Há muito tempo, lá nos meus primeiros dias de trabalho em Rondônia, ouvi de Rogério, bateador da minha equipe, que se eu não tivesse estudado um pouquinho, eu estaria ferrado.
É que lidávamos com um equipamento muito bruto, quase medieval. Uma parafernália de sondagem constituída de uma plataforma donde quatro homens percutiam uma peça de madeira super pesada sobre uma composição de tubos de ferro temperado, procurando introduzi-la terra a dentro. Era coisa pra macho. E não é que eu fui lá fazer uma forcinha pra ver como é que era a parada. Mas foi pá te aquieta. Como diz a galera da novela: empombaleci na hora. A vista escureceu, os esfíncteres relaxaram, a perna bambeou. Larguei do cepo e desci com mais de mil da plataforma. E haja abano e chuviscadinho de água na cara, pro homi tornar. Quando desanuviei, Rogério, com aquele jeito matreiro de caboclo de Humaitá, irônico, sapeca, chegou e sentenciou.
Aquilo ficou comigo, olha, não exatamente me angustiando, mas confirmando a mais pura moleza do meu ser e da minha mente para essas missões mais aquelas de exigentes. De certo mesmo, é que eu ficava logo verde e o passamento me consumia, ao menor esforço. A minha valência é que não era arte de morrer, porque se fosse, eu já tinha ido desde que tempo.
Não foi só essa vez na sonda medieval, não. Tem uma clássica que aconteceu logo que comecei a namorar Edninha. Quis me amostrar pra ela, dar uma de obreiro, cuidador dos teres e haveres domésticos. Inventei de capinar a frente de casa, pois que o capim já estava subindo o alpendre. Mas quando! O custo foi dar duas enxadadas. O suor desceu frio e farto. E olha que o sol estava devagarzinho quase parando. Sei lá, acho que foi o mormaço. Me joguei na calçada agonizando. “Ai, amor, ai amorzinho, me abana” (me ocorreu que foi assim que minha equipe me salvou, naquele dia em Rondônia com abanos e salpicos de água na cara). Coitada da minha pequena, deve ter perguntado ao pai eterno, muito preocupada, naquela hora, donde, ai ai ai, estava atando a mula dela.
Por causa dessas marmotas, pensei ter um mal gravíssimo, um troço degenerativo qualquer que fosse moer meus dons abstratos e concretos. Reza a lenda, porém, que esse negócio de andar dando pilora por aí tava mais pra dengo, uma artimanha para chamar a atenção, receber mimos e paparicos, dizque, porque eu era amamãezado. É...Poder ser, pode ser.
Outra versão conta que por ter estudado um pouquinho, me achava isento de missões mais brutas. Me achava um doutorzinho besta por causa de um segundo grau técnico conquistado a cinquinhos no boletim. Uma razão bem provável.

A prova é que a cura para as minhas panemices veio com o implacável choque de realidade. Foi só sair debaixo da barra da saia da mamãe, experimentar um período desempregado, ter que me aviar com a lista de material escolar de menino todo ano, que o cabo da enxada ou da pá, assentou como a mais encastoada lapiseira, na minha mão. Pelo sim, pelo não, andei tomando, também, umas doses de Fosfosol para prover Fósforo ao cérebro, Cálcio para os ossos e Ferro para os músculos.

sábado, 6 de maio de 2017

crônica da semana - eiras beiras e fulôs

Eiras, beiras e fulôs de laranjeiras
Vai longe o dia que arrumei minhas coisinhas e caí no trecho para viver de vera, o mundo do trabalho. Este um de carteira assinada, férias, décimo, que arrisca agora, ir pro beleléu.
A poesia, a escrita do coração, a febre lírica, sutilezas e devaneios, ombrearam-se às eiras, beiras e fulôs de laranjeiras; O certo é que nem termos, nem lei, vingam quando é chegada a hora de partir. Eis que as minhas roupas se encaixavam sem resistência dentro da mala na tarde molhada de uma segunda-feira do mês de fevereiro de 1983.
Lá do passado, retiro a mais clara dedução. O momento de arrumar a bagagem, olha, não é fácil não. É de inspirar versos dos mais certeiros, dos mais imbricados.
E trago de lá esta passagem. O cheiro canforinado das roupas que hoje, não me cabem mais. E, por outro lado, pelo lado indomável dos bens afetivos, é roupa que cabe arrumadinha na minha memória.
Naquela terça, fiz uma última caminhada pela Pedreira e Sacramenta. Como era um dia de semana, pouca gente estava em casa. Quem eu encontrava, era agraciado com palavras doces de despedida. Meu melhor amigo me acompanhou no estirão. Demos uma volta enorme, a pé, fazendo um traçado absolutamente emocional.
Quando chegamos em casa, o cansaço era grande, a fome maior ainda, e a comida pouca. Já havia passado a hora de comer. Mamãe ajeitou o que tinha e demos de pau numa farofa de ovo e um caldo de feijão. Foi a engalanada refeição da partida.
Esperamos um pedacinho, após o almoço, para fazer a digestão, e a seguir, eu me entreguei ao rito.
Minhas coisinhas estavam todas na estante que mamãe tinha comprado, mas só havia pago uma prestação além da entrada (dali a alguns dias o caminhão da loja apareceria na frente da vila para levar o móvel de volta por falta de pagamento).
Além das roupas, fui organizando na mala meus livros, a cópia do trabalho de conclusão do curso, que descrevia uma viagem de campo ao ramal das Canas em Ourém e que eu tinha como uma parte forte do meu raquítico currículo; alguns cartões com motivos católicos que meus amigos do movimento jovem haviam me presenteado na missa de domingo e meu troféu.
Na época eu era um campeão. Ostentava um troféu pelo primeiro lugar no concurso de poesia do colégio Souza Franco. Quando saquei do ponto mais nobre da estante o troféu e intentei lançá-lo num cantinho da mala, o coração disparou. Eu estava saindo da minha querida Belém, para uma terra distante; deixando meus amigos, minha mãe, minha poesia, o meu título de campeão. Não deu outra. Nessa hora, me danei a chorar. Foi um choro farto, pleno, um extravasamento que denotava toda a minha tristeza com a necessidade premente da partida. Com a necessidade urgente de trabalho (este um que agora arrisca desaparecer). Chorei que solucei.

Poderia ter estudado mais, tentando outros rumos, aprimorado minha escrita, elaborado minha poesia. Mas não! Tô aqui tomando fôlego, no passado, para garantir a continuidade do trabalho de vera (este um que conquistei, com carteira assinada, férias, décimo, farofa de ovo, eiras, beiras e fulôs de laranjeiras). 

sábado, 29 de abril de 2017

crônica da semana - ciapós

No céu como diamantes
As estrelas são os diamantes do céu.
E uma imagem de um céu riquíssimo, minado de cristais brilhantes me tem ocupado o cocuruto nessas últimas semanas, nas horas em que me envolvo com o livro “A Batalha do Riozinho do Anfrísio”, do escritor paraense André Nunes. Esta imensidão estrelada aconteceu para mim, em noite inesquecível às margens do rio Xingu.
A história que André conta no livro acontece também nas vastas paragens do Xingu.
Foi uma noite de entontecer. Estava acampado com minha equipe na borda sul do rio, em uma das lagoas formadas durante o verão. Depois do trabalho, eu normalmente me recolhia à rede e, debaixo do mosquiteiro, lia alguma coisa à luz de lampião, até o sono chegar. Por esse tempo, aproveitando uma trégua das carapanãs, que por ali, davam na canela, a turma se demorava um pouco, no dominó, no baralho ou numa prosa vã. Numa noite quente, desci para um papo com o pessoal, na areia, bem na beirinha da lagoa. O lugar era afastado e a pouca luz nos dava contemplar um cenário deslumbrante. Tão impressionante, tão inebriante, que se aproximava de um caos prazeroso, um transe letal. Centenas de milhares de diamantes brilhando no céu. Nunca mais vi noite igual. E aquela imagem, jamais esqueci. Para mim o maior tesouro, a noite mais bela está ali, nos céus do Xingu.
André Nunes narra no livro dele, as histórias que, em recortes salteados, eu ouvia, quando morei em Altamira. Os confrontos entre os índios e seringueiros eram passagens constantes nas noites do meu acampamento (cheguei a reproduzir em uma crônica aqui no jornal, o relato de um cozinheiro que trabalhou comigo e que, em tempos remotos, fugiu com a família de um ataque de índios. Fugiu atirando. O título que dei à crônica, anuncia a gravidade da aventura: “44 papo amarelo”); Sabia, já, das campanhas violentas de revides (no livro ele conta que em um ataque Caiapó, uma criança, da família do seringueiro é segura pelas pernas, por um guerreiro, é lançada com força e tem a cabeça estourada contra um esteio, fincado no meio do barraco. Conheço outra versão que conta que quem teve a cabeça estourada contra a tora de madeira foi um indiozinho Caiapó. Nas duas versões  versa a brutalidade). Aprendi também a substituir o didático tacape, que era o nome pelo qual conhecia, dos livros do primário, a poderosa arma indígena, por borduna. Uma peça de madeira cilíndrica, densa, de uma tenacidade tão bruta que, em batalha, tinha a capacidade de partir um cristão ao meio.
O desfecho do conflito, percebi, ao conhecer várias famílias construídas a partir da união de índios e seringueiros. Relação que me deu ter como companheiros de trabalho Pedro Cruz, o índio louro; Seu Zé, índio pequenininho; Chico, o arredio; Elcino, índio com sotaque. Todos ali se envergonhando, na roda de conversa, quando eu pedia que cortassem uma gíria caiapó.

Paisagens, trechos de praia, corredeiras, pedrais, rebojos e mansidões, índios amigos, são retratos ainda nítidos do grande rio. São histórias que se cruzam brilhantes no meu céu e no céu do Xingu, como diamantes.

sábado, 22 de abril de 2017

crônica da semana -fóssoro

A vela e o fós’soro
Agora, pela semana santa, me purificando das faltas e enfezos que me consomem durante o ano todo, nas águas fartas de Cotijuba, me vi repetindo, sem tirar nem pôr, as manias da mamãe.
É assim, uma esquisitice da parte de tramela, de trinco, de fechadura, essas coisas. E sempre mais aguçada à noite, antes de dormir.
Mamãe era muito cismada nas arrumações da casa, ao final do dia. Privilegiava a segurança. Ajeitava, ajustava, ia, voltava, tornava a ir. Até que tudo estivesse verificado e certificado, não se aquietava. Por fim, se acomodava, sintonizava a televisão no Sílvio e não dormia sem antes acomodar sob a rede, em posição logo à mão, um cotoco de vela e o fós’soro (mamãe, não sei por quais cargas d’água, declinava da correta loução para fósforo. Falava ‘fóssoro’, e eu pra estilizar o traço, reproduzo da forma que se lê no título desta crônica, com apóstrofo e tal). Dos pavores que tinha, acordar no meio da noite em plena escuridão era o pior.
Aconteceu que em Cotijuba, depois de um dia explorando a ilha, e de noitinha já se entregando aos reclamos do cansaço, todo mundo se recolheu cedo. Eu fui o pri. O custo foi tomar um leite morninho. Enchinei na rede roncando um ronco pra lá de turbinado, mas o povo, que também na baba estava, nem thum para o meu trovejar. Foi atrás. E mais com pouco cada qual em sua rede, estava dormindo.
Mas deixa estar, que no meio da noite, acordei meio zonzo. A casa estava o puro breu, o que me inquietou. Procurei o chinelo e já espertinho, pirei com a constatação de que todas as janelas do compartimento em que dormíamos, estavam abertas. Pronto. Acabou a tranquilidade. Fiquei num pé e noutro. Abri a porta, espiei longe. Procurei um céu especial de estrelas, mas nada. Um nublado frio e denso tornava a noite um tanto assustadora. Fiquei com medo de visagem, capelobo, vira-porco, matinta e mais que depressa voltei para a minha redinha. Bolei, bolei. Virei prum lado, pro outro, me embrulhei dos pés à cabeça. Mas quede sono? Cutuquei minha mulher e chamei baixinho pelo nome dela, pra não acordar os outros. Ela despertou atarantada, percebeu meu desassossego, mas adiante, entendeu meu medo. Levantou, fechou as janelas, passou a chave na porta e me liberou pra dormir um sono de paz.
Houvesse um céu salpicado de estrelas, o sono esperaria mais um pouco. A gente continuaria a explorar Cotijuba, agora de pescoço esticado esperando uma estrela cadente, adivinhando um formato de constelação, contando pontinhos brilhantes no espaço limitado entre os dedos em hashtag.
Os tempos são plúmbeos e frios. Penso que, antes, mamãe não tinha medo.Tinha mania, que é coisa diferente. Reflito tentando decifrar esta minha herança de costumes. Será que não transformei uma ronda prosaica de fim de noite em uma missão paranóica?
A cidade, e mesmo os arredores, os arrabaldes, as ilhas bucólicas me são desafios a enfrentar. Assim, da parte de tramela, de trinco de fechaduras...
Minha valência é que, questão não faço de um cotoco de vela e o fós’soro ao pé da cama. Meu celular tem lanterna. Tenho que resistir.



domingo, 16 de abril de 2017

crônica da semana:dordolho

Caso de amor, cólica ou dordolho
Primeiro: ajusto o fone de ouvido, sintonizo o celular na minha rádio preferida e daí ganho meu rumo no final da tarde. Uma rotina que há muito eu estava a fim, esta de interagir com o agito do centro da cidade no fim do expediente. E vou sacando. O cenário, as pessoas, os vícios, costumes e imperfeições.
Um sinal de como foi o dia, é o vendedor de coco que fica no largo das Mercês. Se ele ainda está ali, naquela hora, quer dizer que o dia foi frio (Belém 23 graus), o povo não se animou e a venda foi pouca. Por causa disso, vai aventurar até mais tarde. Enquanto bato o pé na praça Visconde do Rio Branco e interpreto o tempo e a temperatura, a moça da ótica passa por mim. Aparece sempre descendo a escada na outra quina da praça. Com a postura, elegância, cílios postiços e salto alto de vendedora de ótica. Outro dia, quando nos cruzamos, percebi que chorava. Imaginei coisa ruim, desemprego. Mas não. Nos dias seguintes, nos topamos de novo. Ainda bem que continua empregada. Deve ter sido algo de amor ou de cólica, ou mesmo de dordolho por causa dos cílios grandes.
Após a estátua do doutor Gama malcher, confirmo que a mureta que fica pros lados do belo casario, é um autêntico mictório público. Não tem um dia que eu não flagre um cidadão fazendo xixi ali. E sem cerimônia alguma. Na maior naturalidade. As pessoas passando, os ambulantes se desmobilizando, fregueses escolhendo coisinhas na feirinha ao pegado e ele ali, se aliviando na maior. Na Santo Antônio, me deparo com o relógio lá no alto da Paris N’América, que não funciona, e que marca a mesma hora toda a vida. Um trabalhador, como sem falta, recolhe as travas de uma porta metálica, acomodadas na calçada do prédio abandonado em frente. Barraquinhas cobertas com lonas azuis pingando o restinho de chuva da tarde entremeiam-se às calçadas falhadas, assentam-se sobre um trilho silencioso e rompem o paralelismo dos paralelepípedos, expurgados do leito da rua. A loja mais animada da cidade surge no meu flanco direito. Barulhenta que só ela, mas com certa graça. No final do dia, os vendedores se agrupam à entrada, ainda acesos. Dançam, sorriem uns para os outros, vivem um momento deles, de missão cumprida. Ainda vou comprar um isto ou um aquilo naquela loja. Talvez um pouco de ânimo com o futuro ou um fogão de seis bocas.
Ao despontar na Presidente Vargas, faço uma leitura da minha parada. Antevejo se meu ônibus vai lotar ou não. O sinal abre para os carros. Embora haja um estirão a percorrer até o ponto sinalizado, o ônibus para bem antes; um outro, para logo atrás e fecha o cruzamento, o meu que vinha abeirando, tira por fora e queima a parada. Dá uma raiva! Que povo é este que atrapalha o trânsito por birra, por opção. E que serviço é este que me deixa acenando em desespero, feito besta, para um ônibus que não está nem aí pra mim? Minha cidade descompensada, descontrolada. Agitação ao fim do dia. A chuva pingando. Os olhos ardem. Lacrimejam. Um olho chora de amor por esta cidade, o outro por causa de uma cólica, de um assombro, ou de um dordolho mesmo

sábado, 8 de abril de 2017

crônica da semana a cura tom cruise

A cura
Tô com um negócio com o Tom Cruise. Sabe uma cisma, uma inesgotável desconfiança? Para mim, em todo e qualquer flagrante, qualquer imagem que seja, captada do ator, maldo logo: não é ele. É um engodo, uma farsa (um disfarce). E tantos e quantos são os blefes e menções, que chego admitir que o Tom Cruise, de vera, de certo mesmo, não existe. O Tom Cruise é só uma máscara vil e traiçoeira.
Tô impressionado, já pensou? Desde que vi umas das edições de “Missão Impossível”, entro em parafuso quando a prosa envolve firmezas ou certezas.
No filme, as cenas deixam a gente abilezadinho. Uma hora o bandido vem com aquela cara de malzão, pronto para meter o bicho no mundo ocidental cristão, mas aí, de repente seus olhos vidram, ele dá um estrebucho, leva as mãos ao rosto, pressiona e engilha a cara, e da face, desloca uma máscara. Aí, a gente descobre aliviado que quem está na ação é o nosso herói, Tom Cruise, nos salvando a todos, e não o bandido. O mocinho, ora veja, tinha confeccionado uma máscara que nem, que nem a feição do meliante. Em outro momento, a confusão é grande. Quem tá com a cara do Tom Cruise é o  bandido e o Tom Cruise, de novo, tá com a cara do bandido, e de novo, a gente nem malda. Coisa de endoidecer. Ainda bem que a cena já é no final do filme e o desassombro vem quando uma máscara é largada ao chão, nosso herói dispara na carreira levando consigo a valiosíssima ampola de belerofonte e salvando a vida de milhões de pessoas.
Então, pelo que torna e pelo que deixa, o que me impressionou mesmo, foi a expressão de pavor na cara do Tom Cruise falso, nos estertores da morte, enquanto o verdadeiro corria para a glória, de posse do belerofonte salvador. Não foi o final feliz, o sorriso congelado, a musiquinha romântica que roubou meu apreço e envolvimento. Foi o semblante sofrido, desesperado. Foi aquela conotação dramática, a comoção dos olhos arregalados, do cenho tensionado, da boca travada. Um grito reprimido de dor que me persegue, que me consome, que me toma de sobressalto à hora mais inesperada, como litisconsorte de uma tragédia de mentirinha, mas chamuscada pelo calor que me queima como febre braba, que me arde quase que de verdade. O rosto do falso galã, agonizando, no frigir dos ovos, é mais verossímil, nas minhas reflexões que o sorriso insosso, fitando o final feliz de um mar azul. Um Tom Cruise cataclísmico, prostrado, de tez engilhada, estilhaçada de conteúdos, destroçada de forma. Uma máscara posta-se ante meu pasmado e silencioso lufar, me intimidando, me confundindo, me desafiando a demascará-la. Mas resisto. Insisto na crença. Embaixo da máscara, não é o Tom Cruise, ora,ora. É um usurpador de caras, caretas, caretinhas.

Não é o fim. A possibilidade de luta me reanima. Nada a temer. Por que temer? Fora, abaixo esse negócio de temer. Temer, não. Temer jamais. Apresento-me para o bom combate e imagino lá na frente, o antídoto, a preciosíssima ampola de belerofonte. O sorrriso verdadeiro do Tom Cruise, o mar azul, a quimera e a cura.

sábado, 1 de abril de 2017

O barranco fértil do rio Acre
A poronga ardia no alto da cabeça e o lume fino e quente o guiava. A terra úmida o prendia, atrasava a rota, atolava a vontade. Consumia o ânimo. Gotejos lembravam a noite perto, o sono querendo mais, o assanhamento com a mulher no leito falhado de pachiúba... e o quentinho do abraço.
Se não completasse a rua de seringa, não haveria olhares carinhosos e nem cumplicidades promissoras. Tinha porque tinha que vencer o lameiro. Nem sei dizer que período era aquele. Se era dia, se era noite, madrugada alta, alvorecer. Para o seringueiro o tempo não é contado em ponteiro de relógio. É medido em aviamentos, em cada palmo trilhado na escuridão, em instantes curtos de carícias, carinhos, prazeres ásperos e prestos. A poronga ardendo, o gotejo, a solidão. Os filhos, a mulher, dormindo em leito de pachiúba falhada. A sina.
A jornada do seringueiro começava cedo e tinha um motivo para isso, mas também, terminava cedo. Em 1992, quando visitei o seringal onde nasci, lá no Xapuri, experimentei a rotina do campo. Na ‘colocação’ ainda havia boa parte da família do meu pai. Tios, primos, os filhos dos filhos dos tios. Passei cinco dias lá, enfurnado. O ritmo é o mesmo, de tantos e tantos anos. O seringueiro sai para a mata, por volta das quatro da manhã. Tem uma meta de árvores pra cortar. As seringueiras são disseminadas na selva, mas tantas existem no Acre, que dá pra organizar traçados de colheita que são conhecidos como ruas. No início da jornada, no caminho de ida, ele vai riscando os troncos e posicionando a tigela, que fica aparando o leite. Nessa hora, a orientação que tem vem da poronga, daquela força vital de homem da floresta e de alguma esperança de vida melhor. Na volta, o clarão do dia já se anuncia. A seiva é coletada e dali, até o sol alto, o seringueiro se dedica ao defumo das bolas (pélas) de borracha. O tempo desmilinguindo, rareando, o dia indo embora. Quando o seringueiro se livra das desobrigas com o patrão, aí é que ele vai pensar na casa, nos filhos, catar o de comer (por isso sai no escuro ainda: para esticar o tempo, para arranjar uma beiradinha do dia em que possa ir atrás de uma caça fácil, um veado mateiro, uma paca gorda; usa o restinho de luz do sol, para chapinhar minhocas, tentar uns peixes, plantar algumas raízes no barranco fértil do rio Acre).
Nem bem anoitece, uma última descida ao igarapé para arear a panela ou para um banho restaurador sela o fim da lida. Um radinho, ainda insiste na pregação do Ângelus, mas o sono vem irresistível.
Fiz essas coisas quando fui ao Acre na tentativa de reviver o tempo perdido de meu pai. Sem certeza ou solidez porque o tempo para ele não se deu ao ritmo dos ponteiros do relógio. Idealizei um seringueiro.
Meu papai morreu aos 38 anos, num 31 de março. Era jovem. Muita árvore tinha pra riscar ainda. Minhas débeis tentativas de reencontrar meu pai, não deram resultado. Não o encontrei nas ruas de seringa. Mas não esmaeci não. Depois daquela viagem ao Acre, alegra-me a certeza de ter meu papaizinho abrigado esses anos todos, no lado esquerdo do peito.


segunda-feira, 27 de março de 2017

crônica da semana - A chuva de peixe

A chuva de peixe
Aquela era uma tarde tranquila do mês de Outubro, em Xapuri. Os seringueiros passavam em comboios procurando bons negócios para as pelas de borracha. Na Rua da Gaveta, as crianças brincavam soltas e corriam alegres. Ao pé da janela, vovó Marieta cerzia na moderna Vigorelli, uns panos de prato. Tudo na santa paz, a não ser aquela nuvem vindo-que-vindo. (depois do caso passado, minha avó reconheceria que havia sim, algo de estranho no ar: “lá pras bandas do campo de aviação, o céu era de um negrume só. Por cima da mata, o arco-íris tomava o céu de fora a fora, e no horizonte, uma luz fraquinha amarelava a tarde”. Tem também o relato de um comboieiro que naquela hora ao atravessar o Ina, percebeu o igarapé estranhamente mais raso, a correnteza pouca e um rumorejo veloz a animar as árvores da margem).
Quando o pampeiro arriou, o povo já se tinha aquietado dentro de casa, as crianças já estavam agasalhadas com os casaquinhos de lã e meias nos pés, e as lamparinas já estavam estrategicamente distribuídas pelos quatro cantos.
Os raios riscavam o céu um após outro. O estrondo dos trovões fazia balançar as casas e um mundo de água formava rios pelas ruas da cidade. Minha avó juntou as cianças em torno de si e rezou em voz alta para todos os santos, para que os guardassem.
De repente, o mais forte dos trovões soou ensurdecedor. E um clarão se abriu no céu, revelando o inacreditável...
O estatelar pesado no telhado, o deslizar truncado, e o estrebuchar sólido no chão, chamaram a atenção de minha avó. “ Meu Deus, o que é isso?” Vovó ajuntou as crianças num canto do quarto e num repente de coragem, abriu a janela pra ver. Era fantástico! Desesperou-se com o que viu e mais que depressa se danou a gritar pela comadre: “Joana, Joana, me acode, mulher, tá chovendo peixe! Tá chovendo peixe!”.
Apavorada, pegou os pequenos e atravessou o terreiro sob a chuva de piabas que caíam do céu, aos montes. Foi bater na casa da comadre Joana. (o que se conta até hoje, na cidade, é que na hora do grande trovão, a barriga do arco-íris se rompeu e as piabas que ele havia tragado do leito do Ina, naquela tarde, desceram como chuva, de volta à terra.
A vizinha, já acostumada com as coisas estranhas que aconteciam naquele lugar, acalmou a minha avó, que nascida em Belém, acompanhou o marido que foi fazer a vida lá pras bandas do Acre. “Que coisa esquisita, estranha, impressionante mesmo”, resmungava ela para a impassível comadre Joana.
Minha avó ficou por lá, sob a segurança da comadre, até que as últimas piabas ainda despencavam sobre as casas, árvores e postes de luz. Caíam num fio de água, serpenteavam nas valetas, varavam na rua Coronel Brandão e, de lá, eram levadas pela correnteza de volta ao rio.
Anos depois, nas tardes quentes de Belém, sentada na cadeira de embalo, minha avó repetia esta história pra gente, uma platéia de olhos arregalados e atentos, com tal seriedade e convicção, que não suscitava uma duvidazinha sequer. Nos olhávamos sem dar um pio. Égua, chega dava um arrepio na gente.