sábado, 1 de outubro de 2016

crônica da semana - Diz que sim

Diz que sim, diz que não
Naquele dia, se aperreou, mas não perdeu a compostura. Entre nós, o Acir era o mais refinado. Tínhamos aquele jeito dele de ser como o de um fidalgo da Sacramenta. Era um erudito dos subúrbios.
Tenho dito: a arte, ela se manifesta independente dos grilhões em que esteja encerrada. Alheia às caras feias que a intimidam. Ela vem. Infiltra-se. Imposta-se. Mesmo que seja permeando interstícios, rompendo lacres.
Houve de, em plena vigência da Ditadura, a escola Técnica Federal do Pará ser, para mim, exemplo deste calor intenso que a arte emana. Lá, sob os mais aviltantes dos pesos autoritários, a arte se fazia. Libertando. Aquecendo a alma.
Uma das fontes mais ativas deste calor era o teatro. Comandado pelo professor Cláudio Barradas, o grupo da Escola foi responsável por momentos de grandes iluminações.
Recordo muito nitidamente, o conflito a que fomos estimulados administrar dentro da gente, quando as opções “Diz que sim,”; “Diz que não” martelavam nossa consciência, culminando a montagem sobre enredo de Bertold Becht.
Assistir àquela peça marcou a história da gente. Éramos alunos de Mineração. Nos batíamos com o sinal das funções trigonométricas, com o traço raso, com o lápis certo, com as semi retas flutuando no espaço, em aulas de Desenho Técnico; mas éramos atentos, também, à  subjetividade, à alegoria e à livre escolha brechtiana, entre as paredes do teatro Margarida Schivasappa.
Não tinha jeito. Quanto mais a pressão da Ditadura agia, mais a gente resistia (tecnicamente, a segunda lei newtoniana), com a mesma intensidade e sentido oposto.
Éramos uma turminha que transitava criticamente entre os conceitos que formatavam a Educação naquela época. E onde tinha uma brecha (brechtiana), entrávamos e desenhávamos a resistência.
Havia uma programação anual dedicada às criações artísticas, no calendário da Escola. O “Tecnartes”. Uma semana dedicada a apresentações de música, teatro, poesia, dança. Era um evento pleno. Naqueles dias o sistema colapsava e se quedava à franca insubordinação. 
Aconteceu que fomos, o nosso grupo de Mineração, participar de um papo com o poeta Max Martins.
Após discorrer sobre o processo de criação e depois de declamar versos de ‘O Risco Subscrito’, o poeta convidou a nós da plateia, para mostrarmos nossas poesias. E o Acir, que era do nosso grupo, o mais esteta, o mais refinado, clássico, foi lá. Subiu no palco e esmerando-se em dramaticidade, iniciou: “Como soldado/Afogado em si/Solitário de sóis/vagando a esmo/Nos escapares do vento/Vens... Como soldado...Como soldado...
E de repente ele, que era o nosso maior declamador, esqueceu os versos. Erguia os punhos, atritava os dedos no alto. Fitava Max com olhar trágico. Buscava que alguém soprasse lá do fundo onde se acomodava nosso grupo... E nada. Não perdeu a postura. Voltou-se para a plateia e inventou na hora: “Como soldado/vazio de ser/Semente servil/Mãos manchadas de sangue/Covardemente/ Vens.” Encerrou com um repúdio à Ditadura.

Foi aplaudido de pé. Ganhou um livro do Max e nós, ganhamos a certeza de que rompemos lacres.

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