sábado, 23 de julho de 2016

crônica da semana - Bragança

Bragança é meu caminho
Tudo em Bragança custa o tempo máximo de cinco minutos. Daqui pra’li; de lá, pra cá. A pé, de ônibus, de carro, bicicleta. Este é um dos mistérios mais agradáveis, mais aprazíveis da cidade. O tempo não dói.
A mais próxima lembrança que tinha de Bragança datava de época da Escola Técnica. Esta lembrança marcava bem mais de cinco minutos no meu cocuruto. Este ano reativei meus apegos ao Caeté e renovei em incontáveis páginas, os mais belos sentimentos e cenários que Bragança exibe.
A expressão mais afiada do espírito bragantino me foi revelada pelo jornalista Edson Coelho, companhia imprescindível no aprendizado sobre a Pérola do Caeté. Inúmeras vezes, Edson deixou-se reconhecer apaixonado pela cidade. Discorreu sobre os encantos de Bragança, a história, a controvérsia saudável de ser mais antiga que a Belém quatrocentona e, certeiro, elencou as melhores inspirações: o melhor salgadinho, a melhor sopa, o melhor igarapé, a melhor galinha caipira, a melhor hora na beira, o melhor peixe, o melhor PF na barraca da Bacana e mais importante ainda: os melhores bares. Todos os atrativos devida e prazerosamente experimentados.
Uma benquerença instantânea e indiscreta aflorou de mim e o chamego com cidade não teve freio. Fiz o que mais gosto. Explorei, cavuquei os cantinhos. E encontrei uma cidade de traçado interiorano com ruas estreitas, calçadas mais estreitas ainda orientando um caminhar seletivo, pela sombra: ora de um lado, ora do outro. A ordenação arquitetônica surpreende pelo ecletismo, pela tolerância entre o moderno e o antigo. Na mesma rua em que encontramos construções coloniais com pé direito alto, azulejos portugueses ornando a fachada, platibandas escalonadas, e oratório de São Benedito à entrada; topamos também com fachadas em linhas ortogonais, alpendres ladrilhados, telhados multidirecionais, e vigas ornamentais flutuando sobre espaços silenciosos. O centro histórico de Bragança encanta. Como todos o centros históricos deste Brasil varonil, apresenta passivos graves, débitos imperdoáveis. Alguns prédios clamam por reparos, mas dá pra perceber o zelo e a vontade de preservar a memória da cidade. E a boa da hora: um silêncio! No trecho em que nos abrigamos não nos incomodamos com nada. Liquidificador do vizinho, vitrola tocando arrocha, cachorro ladrando sem quê nem pra quê, armador de rede gemendo. Nada dessas pechas da cidade grande a nos enfadar. Graças!
E se a gente tirar mais uns cinco minutos, chegamos em Ajuruteua. No caminho uma constatação: o mangue, à margem esquerda da estrada, arfa ainda. O investimento na recuperação não veio e a natureza, por si, tenta reerguer-se. Regenera-se, mas ainda timidamente. Na linha de praia, a natureza foi persuasiva. Ainda está na memória dos moradores os dias de grande devastação. Pousadas vieram abaixo. Bares foram arrastados. Uma onda daqui, outra dali. Vivas na memória. Ajuruteua tenta se recuperar. Os visitantes chegam ressabiados. As histórias me comovem. Quero ser amigo e solidário. Uma horinha dessas volto lá, porque agora Bragança é meu caminho.

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