terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

crônica remix- o primogênito

O PRIMOGÊNITO

Estávamos a quinze dias, segundo as previsões do médico, para o nascimento do nosso primeiro filho. Terça de carnaval. Os passistas e as mulatas ainda desenhavam os seus passos elegantes pela avenida. O sol anunciava um belo dia de samba, suor e cerveja...na Bahia. E aquele líquido insistia em apresentar-se discretamente. Não vinha porém, acompanhado de tal dor. Não sabíamos naquele momento, que os primeiros minutos da Terça eram minutos vitais para o nosso bebê.
A mãe na sala de cirurgia, ou como se dizia antes, na pedra  Eu esperando, parado, pensando sobre o mundo, sobre a vida,. Sobre as questões éticas, morais. Sobre as primeiras impressões do bebê diante de um mundo inebriado pelo poder do capital, pelas estruturas seculares vis... pela tecnologia que lhe traz à luz. Lá em cima, cinco, seis médicos. Eu ainda acrescentaria um psicólogo e um sociólogo. O bebê precisa de assessoria nessas questões prementes da nossa realidade. O mundo aqui fora é muito sério e o bebê precisa saber da genética, da estética e das artes.
Estava divagando ainda, quando a enfermeira perguntou:  “Já trouxe as roupas do bebê”? acordei da minha viagem. As roupas, claro. O bebê precisa de roupas; mamadeira; carrinho; uma literatura para dormir, talvez uma coisa do Gabeira; ou aquele artigo “O homem total do nascimento à plenitude etária, numa visão socialista do sucesso pessoal”, de Andrei Sukov; as roupas.
Quando o bebê chega, tudo já está providenciado. Nesta fase o bebê só precisa de algumas peças de roupa para aquecê-lo e do leite materno para alimentá-lo. E só. Sou um coadjuvante nesta história mas faço a minha parte. Troco fraldas, lavo isso, levo aquilo, trago aquilo’outro. A minha vontade era estar para tratar outros assuntos com o bebê. Aquelas questões...a sociedade de consumo...o existencialismo sartreano, mas nem inicio a conversa e o bebê chora. Quer mamar.
O bebê faz xixi. O bebê chora. Enfermeira socorro! O bebê faz cocô( e viva a sociedade de consumo que criou a fralda descartável) . O bebê espirra. Enfermeira ,me acuda! Oh  meu Deus, porque eles não vêm com um manual de instrução?!
Mais tarde a cavalaria americana aparece salvando a tudo e a todos. São os parentes e amigos. Ajudam a mãe que não pode se mexer. Levantam, amparam...O efeito da anestesia (milionária por sinal. Pelo preço o efeito deveria passar só no ano de 2550) passa e a mãe sofre um tanto. Num momento de alívio a mãe relata a aventura e deixa escapar:
_ Foi uma barra, gente. O bebê tava  passando da hora de nascer, o médico foi bem prestativo e rápido. Mas como dói! Não quero passar uma situação dessa outra vez.
Todos deixam escapar: o pai depois de ficar sabendo por uma japonesinha espevitada, o preço cobrado pelo anestesista:

_ Nem eu.
A  mãe da mãe que deixou tanta coisa por fazer, além do feijão no fogo, e que integra a comissão “levantar, amparar e levar a mãe ao banheiro”:
_Nem eu.
A melhor amiga que adiou compromissos importantíssimos, mas vale a pena porque sei lá, a gente se sente tão assim, e que é da mesma comissão:
- Nem eu.
A comadre que deixou a filha pequena em algum lugar conhecido da casa ( porque existem os desconhecidos) com não sei quem e que integra a comissão externa( compras de algodão, fraldas, chazinhos para o pai):
- Nem eu:
O compadre, que é pai de quatro, e discutia com o pai sobre a possibilidade de uma revolução do chadão, país do extremo asiático, e que não tem comissão definida:
- Nem eu:
A mãe do pai que não para de chorar de emoção desde que chegou, e que é da comissão de paparicos ao bebê.
- Nem eu:
No dia seguinte o inevitável: a alta.
- Vocês já podem ir.
- Como podem ir? Quem vai dar banho do bebê? E quando ele tossir ou espirrar? E quando não quiser dormir?
Sugeri ao médico que me emprestasse a enfermeira por uns oito anos, até que a gente aprendesse essas coisas. Em vão. Horas depois estávamos arrumados. Não satisfeito ainda, fui até a pediatria e dei um ultimato:

- Tudo bem, eu vou. Mas só saio daqui com o certificado de garantia.

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