sábado, 31 de dezembro de 2016

crônica da semana -reveion

Reveion no Santa Cruz
Olha, pode tá aí bombando o foguetório, a Sidra da boa, a orquestra no tom, o pulinho nas ondinhas, a roupa alva, alva, que para mim, não tem nem comparação, Reveion muito dos seus paid’égua era o do Santa Cruz.
O Santa Cruz era um clube que existia aqui na Pedreira. Tinha o time de celotex, os meninos do caratê, um afamado escrete de futsal e a sede. Essa é que era maior atração do Santa: A sede dançante. Nós, os moleques da Mauriti, éramos muito chegados do alto comando do Santa Cruz. Nos dias de festa, a gente se montava nuns panos, passava um extrato contorrê, um maço de Hilton no bolso pra dar o charme e ficávamos só na bicora na porta da sede. Dava uma chance, e o Bendelaque colocava todo mundo pra dentro. Assim foi no reveion. O melhor, sem comparação.
Uma conversa puxa a outra e a outra vira a banca. Aí, me vem o texto de uma reportagem que li, por esses dias. O texto fala de uma pesquisa que afirma que uma pessoa, em média, mente 3 vezes a cada 10 minutos. Será, meu pai? Tomei foi um susto com esta revelação científica. Desde o dia que lia a matéria, fico me policiando. Aproveito que ganhei um relógio de ponteiro do poeta Francisco Mendes, e de vez em quando dou uma checada na hora. Faço as contas, revisito as conversas que tive no período (inclusive comigo mesmo), somo, divido, tiro a prova dos noves, a prova real, extraio a raiz quadrada. Contabilizo as minhas mentiras. E olha, a coisa vai que é uma maravilha no rumo das invencionices. Pode prestar reparo. As mentiras variam de tom e gravidade. Desde a quantidade de açúcar no café (que eu sempre digo que coloquei só pouquinho, mas coloquei foi muitão), até uma explicação insossa cobrada e reivindicada sobre aquela fatura do cartão. Tudo a gente inventa. Pode ver. Dá uma olhada aí em cima no texto que não dá nem dez minutos de leitura. Nada do que escrevi aí é verdade. A ciência não falha.
Outra prosa que me tirou um tempo contado em relógio de ponteiro foi uma cena que vi num filme nacional que rodou na TV dia desses. Duas garotas jogando tênis de mesa. Uma delas faz a pergunta fatal: “o que você nunca contou pra ninguém?” Nem vi mais o resto do filme. Aquela pergunta ficou martelando na minha cabeça e lá fui eu escacaviar o mais profundo do meu ser, os meus mais recônditos suplícios, os meus mais abissais prazeres, minhas soterradas dúvidas, meus medos intactos, minhas maldades retidas. Qual o segredo, ou o fato, ou o dado e  passado importante, ou irrelevante que seja, que eu nunca contei para o mais confiável dos amigos, nem para a mãe, nem para o padre em confissão jurada e confirmada? Vou virar o ano cascavilhando.
São inquietações que aparecem assim, de repente, na batida da campa do ano. Podem ser delírios, fantasias. Mas um desassossego assim, em tempo de resoluções e expectativas para o ano novo até que vem bem. Funciona como uma dica para que a gente, cientificamente, mapeie nossas mentiras ou intimamente descubra um segredo não revelado e sua insignificância. Ou sua severidade.
Nos vemos no reveion do Santa. Feliz Ano Novo.


sábado, 24 de dezembro de 2016

crônica da semana= sandoval

Amigo invisível
Vou dar um tempo na prosa (porque encasquetei de escrever um traçado encarreirado das minhas impressões sobre a vida de trabalhador, sobre o doce acre mundo do trabalho) e vou abrir um parêntese para falar do Natal. E olha só, na biqueira, porque hoje já é véspera.
Então é Natal.
E nem vou me enviesar tanto do rumo tomado, traçado decidido e encasquetado, visto que a prosa que me ocorre vem de um ano aí, quando trabalhava de empacotador de supermercado e fizemos lá entre nós, do baixo clero, uma brincadeira de amigo invisível.
Foi numa fase em que se estava desarticulando o trabalho dos garotos. Estávamos com os dias contados. Seríamos substituídos pelos ‘de maior’. Um deles operava já há um tempo. Estava adaptado. Era bem mais velho que nós, os boys, e bem mais velho também que os outros colegas mais velhos. Seu Sandoval.
O Natal era uma época boa. Ganhávamos muita gorjeta. A gente que conhecia os fregueses de olhos fechados, dava um banho no Sandoca. Ele dava uma patetada e pegávamos o freguês dele. Pra faturar um bom apurado no dia, seu Sandoval tinha que se aliar. Trabalhávamos em dupla, empacotando. Um selecionava o cliente, ia buscar o carrinho lá no corredor; o outro providenciava os paneiros, jornal pra forrar, flanela pra limpar o balcão do caixa quando um congelado descongela e pinga. Dias antes do Natal, tiramos os nomes no amigo invisível. Sandoca não era dessas coisas. Nem sabia como funcionava a brincadeira direito. Mas foi convencido. Meteu a mão no saco e tirou um nome. Dias antes do Natal, Seu Sandoval veio pro meu caixa. Aí, fomos nos conhecendo melhor, eu e meu concorrente.
Numa dessas, na hora da merenda, naquele sufoco de movimento, nos aviamos de umas fatias de presunto afiambrado, um pão com manteiga de duas passadas, duas Grapetes geladinhas, e fomos matar a broca na calçada do estacionamento.
Tinha cinco filhos. Morava numa estrada do Coqueiro ainda na piçarra e no matagal. Estudo muito pouco. Com o dinheiro da gorjeta, comprava arroz, feijão, açúcar, leite Girolei, sabão Regência. Todo dia levava uma coisinha. Reparei direitinho nele. Era bem velhinho. Tinha perto de 60, acho. Não ia aguentar muito tempo naquele trabalho braçal de carregar paneiros pelas ruas do Marco.
No dia 24, todo mundo bamburrado. Dinheiro só do graúdo de gorjeta. Minha dupla com seu Sandoval foi um sucesso. A loja fechando, os últimos fregueses saindo, portas baixando. Antes do último caixa encerrar, fomos à seção de brinquedos, eu e meu parceiro. Desacostumado com a brincadeira de amigo invisível, confessou haver tirado meu nome. Apanhou da prateleira cinco brinquedinhos baratos para os filhos, e um mais ajeitadinho para mim. Separou dinheiro pra pagar.
Tomei os brinquedos da mão dele e fui direto ao caixa. Paguei do meu apurado, os presentes dos meninos dele, e o meu.
No início de janeiro, nós, os garotos, fomos demitidos. Os grandes tomaram nosso lugar. Seu Sandoval ficou. Não ficou por muito tempo... O presente que ele me deu (um trenzinho de plástico), não foi substituído, durou um tempão, até ficar bem velhinho.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Parede vermelha
Quando o vermelho não basta
Quando o traço
É destroçado
O moço morre ou hiberna
Silencia nos dissabores
Escreve
Faz fogo da neve
Cria facho da escuridão
Engendra jeitos
Vermelho traço
Sangue de fundo
Abre um sorriso ocre
Crê que tudo passa
E ri de novo
Mas ri um riso vazio
Que é riso torto
Zonzo
Um riso de
Quando o vermelho não basta
Quando o traço
É destroçado

Escreve 

sábado, 17 de dezembro de 2016

crônica da semana- geladeira de picolé

Acre doce
Dessa época é aquela história que contei anos atrás e que virou título do meu segundo livro, “O dia mais feliz da Minha Vida”.
Dá conta da fase que a mamãe resolveu morar sozinha. Alugou uma casa de três cômodos na vila Três irmãos, na Visconde. Uma ousadia sem tamanho.
Ocorre que desde quando chegamos do Acre, moramos, toda a tropa dos Sodreres, com a vovó, mãe da mamãe. Éramos mais cinco bocas, mais cinco redes pra atar, mais cinco na fila do banheiro e por aí... Apesar da generosidade da vovó, era uma situação delicada. Orçamento apertado, receita fixa, despesa aumentada radicalmente. Mamãe segurou um tempo, mas depois, doeu na consciência. Juntou as tralhas poucas, os meninos, confiou no salário que recebia como operadora de Caixa na padaria Aveirense, perto do Museu, e lançou-se na vida sozinha.
Foi a nossa primeira experiência em Belém, independentes, assumindo a carreira solo. Para mim, que era danadinho, representou a conquista de um mundo fora dos domínios das quatro paredes de uma casa. Ficávamos os quatro, boa parte do dia, além dos olhos da mamãe. A rua era uma tentação. Logo arrumei uma parceirada, descobri a campo do Areal e o igarapé da Visconde. Daí a lembrança marcante que resultou no meu livro “ O Dia Mais Feliz...”.
Deixa estar que a parada não era fácil. Quando que a mamãe iria dar conta de todas as contas só com o ordenado da panificadora! Vivíamos no aperreio. Tivemos uma conversa séria, amarramos compromissos. A solução era todo mundo cair no batalho. Minhas irmãs saíram para as prendas nas casas de família e a mim, me coube a tentativa de arrumar um trabalhinho, também. Tinha 9 anos.
Belém para mim, ainda era encanto e segredos. A cada dia ia me reconhecendo na cidade. Estudava com uma bolsa oferecida pelo Estado, na escola da igreja Aparecida. No dia-a-dia, cortava boa parte do bairro. Frequentava a feira da Pedreira, me consultava no Centro três, assistia a uma vesperal do Paraíso. Ia explorando... Entendi os itinerários dos ônibus e quando dei fé, já ia sozinho para o Ver-o-Peso, dava voltas de ônibus. Assim, fui me espertando, me distanciando do menino de pés recatados, lá das terras acreanas do Xapuri, e ao fim, já era um pequenozinho que me virava em Belém.
Apostando nessa minha desenvoltura, mamãe arriscou me mandar para um trabalho lá na Sato Antônio, no centro, a dois passos da Carrapatoso. Até aonde a minha memória alcança, foi o meu primeiro, nomeado e denominado, emprego. Nem lavar as orelhas sabia lavar direito; contas de mais ou de menos da matemática, não precisava uma; e achava que podia ser o homenzinho da casa.
Queria ajudar a mamãe e como já fururicava pela cidade, fui trabalhar como Office boy em um escritório de advocacia, na dita Santo Antonio.

Não durei um dia. De certo, era um bebê. Os conhecimentos que eu tinha da cidade, me valeram apenas para voltar pra casa a pé, e em prantos, desde lá do centro, porque não resisti a uma amostra mínima, ínfima deste ambiente necessário (que depois defini como mais acre que doce) que conhecemos como o mundo do trabalho.

sábado, 10 de dezembro de 2016

crônica da semana - cena de cinema

Cenas de cinema
Cena 1: O cavalo seria sacrificado. Sofria desde o dia da queda. A pata dianteira quebrada era um suplício para o animal. O fazendeiro armou a espingarda. Consolado por familiares, amigos, dirigiu-se para a missão. O coração dilacerado. Um sofrimento atroz. Lágrimas inundavam-lhe os olhos. Mãos trêmulas, dor da perda. O desapego indelicado, a certeza da separação, um amor apartado. Somou-se em sentimentos nobres. Postou-se diante do animal. Com dramática contrafeição apertou o gatilho. À frente dele, denso e gelatinoso, o cavalo tomba morto.
Cena 2: O mesmíssimo típico cidadão americano arma novamente a espingarda. Concentra-se frio e decidido. Mais adiante, uma casa é saqueada, incendiada por um grupo de, igualmente cidadãos americanos, encapuzados. A família que estava sendo atacada não resiste ao sítio e, em desespero lança-se à rua em busca de salvação. Um homem negro consegue furar o cerco dos encapuzados e dispara pela rua margeada de pequenas árvores. O mesmíssimo cidadão que tem pena de sacrificar cavalos faz a mira. Dispara o tiro certeiro. À frente dele, leve e humilhado, o homem negro tomba morto.
As cenas são de um filme que assisti há alguns anos. Guardei na memória esta sequência, também porque ela expressa o sofrimento de um fazendeiro ao ter que sacrificar um cavalo de sua propriedade. Mas o motivo real de ter sempre em mente esta passagem do filme é que o dito fazendeiro, interpretado com muita competência pelo ator Tom Berenger, não expressa nenhum pudor, não revela nadica de nada de piedade ou dó, ao matar um homem negro. Para matar um cavalo, era um sofrimento só. Mas para matar um preto, era daqui pra’li.
Uma sincera narrativa da natureza humana, este filme. Dentro de nós, habitam seres diversos. Médicos, monstros. Anjos, demônios. Singelos passarinhos, víboras terríveis. Mundos entrelaçam-se nos meandros da alma e deságuam em atos, omissões. Revelam resistências, permissões. Tudo conforme e conveniente aos termos, à hora. Tudo de acordo com crenças e certezas. Vilões e mocinhos protagonizam nossa história, de acordo com os interesses, com as oportunidades. O bem, o mal relativizam-se nas nossas ações a partir das possibilidades de sucesso ou comodidades.
Me pelo de medo disso.
Nos últimos tempos, atento aos repentes sociais que grassam no Brasil, tenho olhado para dentro de mim tentando conciliar meus eus. Procuro apaziguar os embates. Tomar posição ou intentar uma obra pode daqui pra’li, ser registro de um ato intolerante, preconceituoso. Tenho o maior cuidado para não ser confundido com o fazendeiro que tem pena de sacrificar um cavalo, mas não hesita em derrubar um homem negro. Entre tantos caminhos, desvio do comportamento que prega ser contra o aborto, mas apoia a pena de morte. Nego veementemente a ideia de ser contra a violência, e por outro lado, defender o uso de armas pela população. Tento domar meus eus.
Cena 1: Então é Natal. Luzes piscando. Um clamor é solto ao vento. Paz. Amor. Felicidade.
Cena 2: O fazendeiro arma a espingarda. Posta-se diante do espelho...


sábado, 3 de dezembro de 2016

crônica da semana-exotérico

Exotérico
Olha só quem eu me atrevi corrigir, dia desses, o Eric Hobsbawm. Metidão eu, né. Ainda bem que logo fui obrigado a retroceder (como diriam os bons locutores esportivos de dantes).
Eric Hobsbawm é um dos maiores intelectuais do nosso tempo. Historiador, pensador. Nutria uma curiosidade sobre o Jazz (e até uma intimidade: compus com o jornalista Edir Gaya, a música “Pedreira ‘Jazz’ Pedra Noventa”). Daí, andei que só prestação em fim de mês, por esta cidade; me bati pelas poucas livrarias de Belém, atrás de um livro dele sobre o tema. Já estava desistindo, até que, pela luz divina, achei.
A linguagem do autor é aquela, entre o acadêmico e o informativo. Um traçado natural para escritores do top dele. O Raimundinho aqui, é claro, ralou, leu duas, três vezes, a mesma passagem para entender melhor. Desconfiou da tradução em encarreiramentos do tipo "Observadores eruditos ortodoxos muito esnobes", mas foi em frente, interessado que estava no som que ascendeu do delta do Mississipi. Por acolá, a bronca: no trecho em que se refere a “discos de nomes exotéricos”. Na hora liguei meu desconfiômetro. Estranhei a forma de ‘exotérico’ com ‘xis’. Cavuquei o cocuruto e achei uma música do Gilberto Gil com este título, mas não menos intrigante, na parte da escrita. Tem um som de ‘zê’, na pronúncia. A primeira reação foi pesquisar a letra da música (aí sim, armaria aquele fuá, aquela cena toda de correção e tal. Tudo bem, levaria a conta para a tradução, mas o Eric Hobsbawm entraria, na certa, como litisconsorte).
Comentei em casa. “Oh!”, nos horrorizamos todos. Achamos a música do Gil que grafa bem grafadinho em um dos versos da letra e no título, ‘esotérico’, desse jeitinho mesmo, com ‘ésse’. Taí, nem o senso comum pautado na fonética, nem o intelectualismo do historiador. Reinou a minha empáfia.
A primeira impressão, a primeira informação, conclusões imediatas, presunções ocasionais, um pouquinho de sadismo, bestice e pavulagem, essas coisas é que acabam com a gente, destroem posturas. Percepções imponderáveis estimulam o preconceito, regam a intolerância, modelam diferenças. Retrocedo e admito que a humildade deve sempre estar em pauta. A racionalidade há de ser a regra. Observar as versões, considerar as composições. Os lados vários de um tema ou objeto. Estes são os comandos para barrar as injustiças, os ódios gratuitos, os julgamentos vis. E também para dar conta das minhas besteiras e barrá-las a tempo. É claro que um livro como “A História Social do Jazz”, produzido há mais de trinta anos, com várias edições e em várias línguas, escrito por um pensador brilhante não iria abrigar em tão elegante tessitura, erros primários. Desconfiômetro de novo e, eis que me aprofundei na pesquisa.

No dicionário, achei duas formas: “esotérico”, como na música do Gil, e “exotérico”, como na escrita do historiador britânico. As duas, com significados até opostos coincidem na dedução: quebrei a cara ao querer ser metidão exatamente diante de palavras exóticas onde o ‘ésse’ e o ‘xis’ têm som de ‘zê’. Ao cabo e ao fim, boiei de tudo, como uma pessoa melhor.

domingo, 27 de novembro de 2016

crônica da semana: desfazecência

Desfazecência
A palavra que dá nome a esta crônica não existe. Não adianta procurar nos dicionários, que não vai encontrar. Fui eu mesmo, com meu próprio charme, que criei. E criei com a pretensa forma e com a intentada sonoridade para expressar este ato tão difícil de se desapegar da bregueçada que há anos nos acompanha. É um neologismo composto por aglutinação que tenciona expressar a dor (ou a sofrência) que sobre nós desaba quando nos desfazemos de nossas coisinhas.
Sou juntador de bagulhos. Tenho lembrancinhas, tercinhos, bonequinhos de petecas colombianas, chaveirinhos, lenços, caixinhas de fósforo, bregueços que datam de tempos tão distantes, meu pai! E tenho papel que só. Muito papel.
Meus meninos têm o mesmo baque. Quando me deixam visitar os quartos, percebo umas quinquilhazinhas espalha... digo, guardadas. Agora, minha mulher...Edninha, o que puder rebolar fora, ela rebola. O que puder deitar para a lixeira, ela deita. O que der para negociar nos postos de reciclagem, ela negocia. Não pondera. Não dá desconto, nem releva. Quando diz que vai dar uma arrumada nas coisas, aqui em casa, todo mundo treme. E haja argumento para segurar uma ou outra relíquia. E haja apelar para o valor estimativo, para o teor histórico, para as reminiscências que aquela peça traz. Se não convencer Edninha, amassa logo e joga fora, é que é, e sem chororô.
Nesta versão do desapego, que nos envolvemos neste feriadão, dei uma baixa na minha papelada. O acervo escolhido foi a minha rala e instável vida universitária, alguma coisa da ciência em linguagem popular e da multiarte. Os meus pontos, as minhas provas, trabalhos de campo, os meus desenhinhos coloridos, ai, ai! Tudo pra reciclagem. Foi de partir o coração. As minhas papeletas de consulta que usava na véspera das provas, e que me eram um exemplo de técnica para a boa decoreba. Lixo. Um mapa raríssimo da bacia do Xingu com registros de estruturas da atual barragem de Belo Monte. Deitado fora. Cartaz de uma exposição com peças do tamanho de um grão de arroz, atestado de meu envolvimento com outras artes, amassado e rebolado à companhia de outras preciosidades. E o que mais me doeu: abrir mão do meu catálogo celeste, uma publicação bem ilustrada, capa dura, com textos informativos e curiosos: “no planeta Urano, o ano dura 87 anos e 7 dias terrestres”. O que vale é que este catálogo está agora em boas mãos. Espero que olhos infantis percebam o céu, daqui pra frente com curiosidade e encanto.
A palavra que dá nome a esta crônica não existe. É um misto de dor e separação. Coisa que arde dentro de mim. Palavra que lateja. Saracoteia e vibra, e chacoalha tanto que só falta saltar pra fora em grito, em choro. É uma tradução para saudade. Para a saudade contida em pedaços de papel, em recortes de jornal. Desfazecência é o reviver enternecido de um aprendizado jogado ao espaço, largado a céus outros, estrelas frias outras. É palavra que não existe, mas surge da alma para explicar o inexplicável.

Sou um juntador de bagulhos, mas tem uma hora que dá o cupim e... não dá mais.

domingo, 20 de novembro de 2016

crônica remix- alma não tem cor

Alma não tem cor (ou Axé, vovozinho do Triássico)
Neste ano tenho me batido com algumas provações. Meus ‘amigos se foram com pálidos sonhos e restos de amor’, a economia mundial submergiu às profundezas abissais das incertezas, meu computador bugueou umas quantas e dramáticas vezes, cortaram a minha água, minha pressão subiu, minhas esperanças declinaram...Vai-te! Tenho encarado umas pegadas que têm me dado uma canseira! Coisa pra Jonas, sabe aquele da baleia? Minha paciência, que por vezes me abandona (mas, graças ao bom pai sempre volta) tem sido o meu bastião de integridade. E haja paciência.
No meio deste turbilhão, me veio não sei de onde, a tranqüilidade para dar uma parada, para dar uma avaliada na vida. Fazer uma reflexão mais ou menos como fez aquele personagem do Vargas Llosa em Conversa na Catedral. Quis localizar no tempo, uma causa para estes reveses inesperados, superáveis, diga-se, mas complicadinhos de se varar, reconheço.
Aí vem logo aquela coisa, né, da personalidade. ‘Colhemos aquilo que semeamos’. Apresentam-se vaticínios e conformismo. Mas sou racional. Faço estas introspecções sempre com um olho no peixe e outro no gato. Prego uma realidade rés-ao-chão, sem muito floreado.
E eis que me vi como um sujeito normal. Moldado por incontáveis defeitos, umas raras qualidades, atento à boa vontade, crente nos princípios que consideram sempre a urgência e a onipresença dos conceitos de justiça e lealdade.
Valeu a varredura na alma porque descobri que, das coisas que de mim se aproveitam, o assentimento às diversidades se apresenta como um dos meus maiores créditos. Não tenho preconceito de io ou de chio. Principalmente de cor. Não tenho nada contra os brancos.
Mesmo porque além desta fachada que exibimos como um pacote composto de umas células algo versáteis, muita água e um sorriso cálcico, acho que nós, os seres humanos, nos adiantamos um pouquinho. Vamos à alma. E ‘alma não tem cor’.
Por outro lado, sei que muitos pensam que este pacote orgânico pode alterar as relações e admitem a superioridade de um indivíduo sobre o outro por causa da cor da pele. Lembro que somos ramos da mesma cepa.
Formamos uma comunidade de mamíferos que se caracteriza pela desenvoltura bipedal, pela presença do tele-encéfalo desenvolvido e pela sagacidade motora do polegar opositor. Mas somos, no frigir dos ovos, mamíferos. Ricos, pobres. Pretos, brancos. Mulheres, homens...Somos todos descendentes da ‘ânsia da vida por si mesma’ (eita frasezinha que me persegue, esta do Gibran, tão atual, tão profunda...Evolucionista...). Este sapiens que conhecemos, que inventou tudo o que tem de bom neste mundo, temperado pela alma (e pelo polegar opositor, observo), refinado pelo sopro da sabedoria, não é nada mais que uma variação temporal de um bichinho que lá na mais remota história da Terra, venceu o poderio desmedido dos dinossauros e se firmou como uma espécie extraordinariamente capaz de sobreviver e de gerar primos engalanados e metidões como nosostros. Somos um produto elaborado de um ratinho chamado Morganucodon, um nome pomposo, como requer a taxonomia, mas que aqui entre nós pode ser chamado simplesmente de ‘o ratinho do Triássico’, numa educada alusão a sua longevidade.
De lá, do alvorecer da vida, herdamos esta indispensável capacidade de lutar por cada dia, apesar das agressões naturais, dos répteis modernos, das provações (dessas que a gente experimenta num ano bissexto), do preconceito e da brutalidade de Domingos Jorge Velho. E ganhamos também, mais tarde, a confortante certeza elaborada pelo tele-encéfalo de que a alma não tem cor.
Axé.


sábado, 12 de novembro de 2016

crônica da semana - bois mistério

Mistérios do planeta
Descíamos a ladeira, naquela manhã clara de sol. Ao longe, a estrada que vai dar no Gurupi, iludia a minha visão cotidiana com um tremeluzir aquoso, resultante da reflexão da luz no quente do asfalto.
Um vale alargado margeava um rego de água que escorria tímido no meio de um matinho rasteiro, lá embaixo. Dispersos, na planície, muitos bois pastavam concentrados, cabeça enfiada na relva.
Avistávamos os bois lá de cima, mas eles não nos viam. O corte na estrada formava um barranco alto e nos tirava da cena. Mas parece uma coisa, um mistério! À mediada que a gente foi se aproximando da parte mais suave da descida, e que o barranco foi se afinando numa linguinha de nada de terra, os bois começaram a sentir a nossa presença e iniciaram a formação. Foi impressionante! Parece que houve um estalo coletivo no miolo dos animais. Aquele que se escorava preguiçoso na encosta da serra, desceu para nos ver passar. O que ruminava distraído no barreiro amarelo, também veio. O outro que se mimetizava malhado com a folhagem fosca embicou decidido. Mais um que chapinhava brincalhão na água rasa do riozinho, se adiantou respeitoso. Vieram todos. Como se uma ordem severa vinda do misterioso grão líder dos ruminantes se espalhasse pelo baixão, todos os animais que ali pastavam, tomaram o rumo da estrada e se postaram disciplinadamente enfileirados à margem, a nos observar. Coisa que nos deu a pensar, olha. Nunca esqueci aquela cena tão inusitada.
Desde o início da descida, percebemos a movimentação, mas nem maldamos. Ao final do barranco, no estirão plano da estrada, uma cerca robusta, farpada, criava forma na lateral e se estendia até o outro lado do vale. Era o limite da manada. Pois eles ficaram rés à cerca. Certinho, simetricamente posicionados, um do lado do outro. Até onde a vista alcançava, tinha boi perfilado só na nossa bicora.
O que terá acontecido para que aquele ajuntamento se realizasse? Mistério. Enquanto nós que nos virávamos naquela pesquisa de campo, olhávamos pro lado e víamos ali, no máximo, futuros bifinhos, será que os bichinhos nos tinham como bípedes curiosos, depravados? Carnívoros nojentos e lascivos ou alguma coisa desse gênero, ou coisas além? Mistério.
Em outras aventuras, já me deparei com estes animais. Mas com outro perfil. Não tinham este comportamento marcial. Movimentavam-se em desordem, explodiam em carreiras, sumiam no braquiarão. Os bois que encontrei, num pasto na beira da estrada, já bem pertinho do rio Gurupi, aqueles que evoluíram em trajetórias bem definidas e ficaram ‘estaltas da silva’ de olhos tesos na gente, aqueles me são até hoje o mais intrigante dos mistérios.
Outros mistérios me envolvem.
A escuridão perto e certa. O suor cristalizado que brota e pesa sobre mim. A cor do medo e da dor que se define em borrões grises. O que sinto quando canto. Quando danço. Quando interpreto eus intensos e mentirosos. Mistérios de arte e verdade. Conhecereis a verdade e ela te comerá os olhos. Tantos mistérios céus e águas me rodeiam e me embalam a vácuo.
E aqueles bois, à margem, de olho em mim. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

crônica remix Ciroca

Depois a gente divide
Uma grande amizade é como se fosse um cristalzinho multicor que a gente acha em meio a um mundo de pedras foscas e que depois a gente guarda com extraordinário cuidado, com dedicado zelo no fundo de uma gaveta perfumada de canforina, afeto e carinho. E vez por outra vai até lá, sorver um pouco de luz.
Tenho umas pedrinhas que iluminam a minha vida. Tenho amigos insuperáveis, pródigos em lealdade, companheirismo. Comigo acontecem casos até raros. Tenho amigos que datam da minha tenra infância. Dos tempos da ‘primeira série adiantada’ na Aparecida, dos tempos em que eu pegava aquela fila de uma da tarde com os pés ardendo do emborrachado do meu sapato Vulcalite, do tempo em que eu tinha medo de chuva forte, de trovão e do Sinalzinho (um dos mais temidos meliantes da pacata Belém dos anos 70). Altair Rocha de Oliveira é desta época. Dos tempos em que a gente jogava bola no Areal, no campo do Asas e no Trabalhista e o único risco que corríamos era a mãe ralhar com a gente porque chegávamos em casa com o pescoço cheio de grossos cordões, digamos assim, orgânicos e fedendo só a moleque. O Altair é do tempo do padre Geraldo, e dos desfiles escolares que começavam lá no início da Pedro Miranda (que na nossa escala era um lugar muito longe), onde a gente ostentava os laços verde-amarelos no lado esquerdo do peito, alçava ao ar o cata-vento com a cor da pátria e caprichava na contramarcha (do centro para os alagados do subúrbio) com muito garbo, muito patriotismo, muita elegância, muita inocência, muitas dúvidas e muita sede ao final do estirão. Eu e Altair, lá, rente como pão quente puxando o último pelotão (dos alunos que desfilavam de farda), nos anos em que a benevolência do governo militar nos oferecia bolsas integrais para freqüentar uma escola católica.
Na Escola Técnica conheci o Ciro. Nome que, se declamado por extenso, alude a uma estirpe sobrelevada das terras nobres da Europa Oriental: Ciro Segtowick, mas que, contrariando a raiz nobiliárquica, traz a humildade, a gentileza, o humor e a generosidade do povo do Abade, lá das bandas de Curuçá.
Estes traços na personalidade do Ciroca (uma derivação pra lá de minimizada para a altivez de um Segtowich) eu os experimentei mais concretamente quando das nossas atividades em grupo para as disciplinas finais do curso de Mineração. Formávamos uma equipe controversa e enviezada, mas obstinada, inquebrantável. A legendária equipe ‘tumulto’, repleta de estrelas como Rafael Nascimento, Armindo Sérgio e Edson Luiz. Nos nossos trabalhos de campo, cizânia. Ninguém queria subir nos afloramentos, era mais quem se esquivava de entrar nos igarapés e quando alguém se arvorava para coletar uma amostra, quede que aparecia um com um saquinho plástico. Na confecção de relatórios e mapas, barraco. Material de desenho, lápis de cor, papel vegetal... Era um jogando pra costa do outro. Aí entrava o Ciroca com a sua natureza apaziguadora: “tá bom, eu compro e depois a gente divide”. Deu-se então que fizemos um dos melhores trabalhos da turma e trago a impressão de que até hoje ainda devo um numerário pro Ciroca por conta daquelas paradas.
Depois de formados, eu e Ciro Segtowich fomos juntos para Rondônia e ali naquelas paragens ocidentais descobri um irmão. Sofremos de saudade, tomamos todas ao cair da tarde para nos livrar da solidão das verdes matas amazônicas e não raro, dividimos a mesma insônia relembrando a nossa querida Belém, com os olhos marejados.

Na segunda-feira, vou abrir a gaveta de minhas conquistas e vou agradecer a Deus por mais um ano de tão rica amizade.

sábado, 29 de outubro de 2016

crônica da semana - picadinho com banana

Picadinho com banana
A casa tava um alarido só. Parentes próximos, agregados, a primaiada dos meninos. Um dia movimentado. Mês de Julho. Nossa casa na Vila dos Cabanos era foco. Dava o fim de semana de férias e haja rede atada... e haja feijão no fogo. Tínhamos uma tática para dar aquela economizada. Sabe como é que é...muita gente. Passava no supermercado, comprava um tanto de picadinho, e pelo menos quatro tantos além de carne de soja. Fazíamos aquela mistura, rolava um tempero mais aquele pra ilustrar e com isso a gente passava. A galera comia que era uma maravilha. E ainda elogiava o padrão do picadinho.
Sou ainda do tempo da máquina de moer carne. Consistia em artefato de metal leve, dotada de um bocal receptor traspassado por uma rosca helicoidal ligada a uma manivela. A gente cortava a carne em cubos, posicionava dentro do bocal, fazia uma ligeira pressão até a carne encostar na helicoidal, daí, girava a manivela. Este movimento fazia com que a carne fosse triturada e ao mesmo tempo transportada, até sair pelos orifícios de uma tampa montada ao final do compartimento onde a rosca atuava. A razão desta tampa ser perfurada era exatamente controlar a qualidade da moagem. A carne só passava pra fora, se estivesse no jeito em tamanho e forma. O esperado era que, moída, a carne fosse aparada por um prato ou uma vasilha, e chegasse ali sem dificuldades. Era inevitável, porém, que o processo perdesse rendimento porque a carne engatava na saída, havia o atrito, a redução da velocidade, uma quantidade de gordura mais viscosa que agregava. Rapidola, a gente passava o dedo indicador em toda a área perfurada, retirava dali o excesso e mandava ver de novo na manivela e empurrando carne bocal adentro. Não sei o tipo de carne melhor que mamãe usava. Sei que na hora de fazer o picadinho eu sempre me apresentava para operar a máquina de moer carne. E que depois, na hora do almoço, ficava todo pávulo dizendo que eu era responsável pelo cumê nosso daquele dia.
Nesse tempo ainda não havia carne de soja. A soja é originária da China. Chegou ao Brasil em 1882, começou a ser cultivada comercialmente em 1914. É rica em proteínas e o site que consultei não informa o início da produção industrial da carne de soja.
O picadinho é nosso velho conhecido aqui em Belém. É componente principal do famoso cachorro-quente de esquina. No carrinho de lanche, é oferecido o completo com cebola, tomate, queijo ralado, batata palha, maionese e catchup à vontade.
Desde os tempos da máquina de moer carne, me acostumei, ali no cumê nosso de cada dia, a compor o picadinho com feijão, arroz, um-isso-assim de farinha e uma banana.
E naquela arrumação toda de hora de almoço, nas férias de Julho, depois daquele picadinho/soja do jeitinho que eu gosto, um abençoado me chega com uma terrina têi têi de açaí. Eu, com um pavor pecador nos olhos, só lamentei: “Pôxa, gente, eu comi picadinho com banana, olha, que pena!”
Porque para mim, o canto é certo e vale o dito da mamãe. Banana ou qualquer outra coisa, com açaí, Deus te livre e guarde! Faz mal.


sábado, 22 de outubro de 2016

crônica da semana- a revolução dos bichos

A revolução dos bichos
Vou te contar. Das histórias de medos e assombros que ouvia por aí pelos ermos amazônicos, as versões que envolviam bichos, eram as que mais me apavoravam. Do menor para o maior no pavor de ataques: uma surra do macaco Gogó de sola. Uma ferroada fulminante da Tirana bóia. E um banho ácido de formiga Saca-saia. Este, o mais indefensável dos tormentos.
De um assalto da Saca-saia, não havia bom que escapasse. Tinha que evitar o encontro. Diziam as testemunhas, que quando as formigas saiam de dentro da terra, contava-se pra mais de milhão os famintos caçadores. Formavam um mar de pequeninos predadores que avançava pela floresta num chiado agressivo. Na frente, escapando de qualquer jeito, ainda segundo os ilimitados contadores de causos, pernas pra que te quero dos animais mais valentes, aos mais comedidos. Quem ficasse para trás, a nuvem de Saca-saia devorava num piscar de olhos. E daquele jeito: de não sobrar uma pontinha de asa, um ossinho sequer.
Eu me pelava de medo da Saca-saia. Qualquer ruído mais agudo que ouvia na mata, já imaginava aquela onda me diluindo em ácido fórmico e me bebendo quentinho. Não tinha escapatória. Eu seria uma presa fácil.
A Tirana bóia (que tem outro nome, mas uso este que acho mais simpático, mais popular), me causava uns ‘arrupios’ por causa, dizque, da ferroada que malinava de dor por 24h horas antes de matar a vítima. Tinha também o agravante da aparência e dos diz-que-me-disse da sua origem. Tem um corpo de inseto e a cabeça de réptil. Especula-se que é descendente de uma linhagem de jacarés. Já pensou. Uma praguinha que tem uma história ilustrada dessas só pode ter um ataque letal mesmo. Nunca vi uma voando, sonsa, ao largo. E nem quero ver. Só ouvi falar.
Desta meia fábula, quem vem por último em termos de espantos e calafrios é o macaco Gogó de sola. Mas não se pode dar mole pra ele. É pequenino, mas ataca em bando. Não é uma nuvem de milhares como a formiga e nem voa despercebido como a Tirana, mas age com estratégia e decisão. Digamos que a atenuação dos perigos que traz em si é a possibilidade de o bando sair perdendo. O Gogó de sola resolve a parada no muque. Desafia a vítima, parte pro soco. Procura a jugular. Se o alvo consegue se defender, estapear um ou outro; se ele perceber resistência, desiste. Não me contaram um único caso em que o bando de Gogó de sola desistiu de um confronto. Eu por mim, não vou me trocar. Quero distância.
Depois de anos longe dos riscos mais perturbadores da floresta (ou fantasiosos, afinal são causos), agora, habitante do asfalto e da selva de pedra, ouço um chiado se anunciando algures. Alevanta-se ao largo, uma onda, uma ferroada com muque e decisão. Os pequeninos estão se erguendo. Muito a fim de dissolver em ácido a malineza, a sordidez. É a revolução da Saca-saia. O mais indefensável dos tormentos, se aproxima.

É o que escuto por aí, pelas esquinas. Tem quem jure de pé junto: De um assalto da Saca-saia, não há bom que escape. A onda vem fervilhando e faminta. Na frente dela, em fuga desesperada, tudo quanto é bicho.

sábado, 15 de outubro de 2016

crônica da semana - manga

A manga tá minando
Nunca na história dos meus Círios aconteceu de cair tanta manga perto de mim. Muitas assim, tirando o trisca do meu cocuruto. Por certo a Santa me livrou de uns azuruozamentos das ideias e uns calombos em tantas e apreensivas vezes.
Há alguns anos, escrevi sobre estes aperreios aqui. Falei, na ocasião, de um evento justíssimo ocorrido: Comprei umas fitinhas do Círio, destaquei uma delas e caminhava pela Generalíssimo, enrolando a fita entre os dedos, numa displicência gostosa, aproveitando o ventinho geral que batia no final da tarde. As mãos que enrolavam a fita iam a uma distância mínima do meu peito. Pois a manga passou como um tiro, exatamente ali, naquele vão, fazendo um barulhão ao espatifar-se na calçada. À época, creditei o livramento à intercessão da Virgem, que me fez escolher uma fita e a distrair-me com ela, alterando assim o ritmo das minhas passadas. Fosse de outro jeito, fatalmente coincidiríamos o instante, eu e a manga.
Não vamos nem longe, hoje mesmo, esperando o ônibus que nunca passa quando a gente mais tem precisão, lá no Veropa, choveu manga ao meu redor. Tive que me abrigar na já estiolada cobertura do mercado pra escapar dos encontros. Não dá pra sobrecarregar a Santa nessa época. Segundo minha mãe, Deus disse: “faz por ti que te ajudarei”. No frigir dos ovos, temos que orar, mas também vigiar. Na cidade das mangueiras, ser previdente não custa nada e conserva a integridade da caixola.
A manga, benza Deus e Nossa Senhora, tá minando na cidade. É uma dádiva. Está na agenda de um cumê providente a cada dia. Aqui na Pedro Miranda, pelo menos cinco espécies de mangueiras oferecem diariamente uma opção para apaziguar o estômago na hora da broca. Os catadores já começaram a aparecer. Carrinho de mão pranchado, um saco armado entre os braços, só aparando. Às vezes, vêm em dupla. Um escala a árvore, recolhe a fruta e lança para o aparador. Há os catadores solitários. Estes, utilizam a vara. Cutucam o cacho. Fazem um malabarismo e combinam a queda da manga com o posicionamento do saco aparador. É uma tarefa!
Se eu recolhesse todas as mangas que me assustaram, nos últimos dias, já teria um bom acervo. Mas só peguei duas mesmo. Foi no domingo do Círio. Trouxe pra casa. Não como manga na rua.
É que sou totalmente descontrolado. De posse de uma manga carnuda não há civilidade em mim. Descasco todinha, lambo a casca e só largo dela quando a pele fica bem fininha. Esta é a primeira etapa. Depois passo para a polpa massuda, sem me importar com o incômodo dos fiapos entre os dentes. Rôo o caroço até ele descorar sequinho da silva. Me lambregalho todo. É como se rolasse um transe, nessa hora. A orelha, os olhos, a ponta do nariz, tudo fica numa breação só, mas eu, nem seu Souza. Tô nem aí. E ainda rola uma fariinha. Um prato, embora inspire uma certa cerimônia, sempre é bom, em presença despojada, no apoio ao descarte dos despojos. E a isso, nada além.

Nunca na história dos meus Círios aconteceu de cair tanta manga perto de mim. Uma ou duas trago pra casa. E aí...Não há civilidade em mim.

remix- e te efe pe a

É-TÊ- ÉFE-PÊ-Á!
Resisto ainda, em chamá-la de Cefet. Para mim ainda é Escola Técnica, ou, na intimidade, simplesmente Escola.
Entrei na Escola Técnica Federal do Pará em 1979, e mesmo em tempos de severa repressão, ali, encontrei as traduções possíveis para a liberdade.
Na Escola não tinha essa de fila para entrar, de ficar enclausurado na sala esperando bater a campa, de ser obrigado a assistir às aulas. A Escola era um território livre.
Sem nenhuma forçação de barra compreendi, na Escola, aquela máxima de ‘ter liberdade com responsabilidade’.
Tinha prazer em ir para a Escola (o que não quer dizer que não tenha declinado de assistir a algumas aulas). Os apelos eram muitos: a bola no campo; a reunião clandestina do movimento estudantil, lá na ceasa; o violão e um papo cabeça nos escaninhos sombreados pelos buritizeiros; a unha com chope de uvita, no portão da Estrela; os jogos estudantis, onde assombrávamos com o nosso grito de guerra : É-TÊ-ÉFE-PÊ-Á!
E, sim, sim, as substanciosas aulas construídas pelo talento cênico de Cláudio Barradas; Pela elegante sintaxe de Alfredinho e pelo humor cartesiano do Cascaes; Pelo rigor científico do Campbel e pela harmonia química de Olinda; Pela postura escandinava da Waldize e pela sensibilidade sociológica de Ana Aragão.
Especiais foram os ensinamentos oferecidos pelos meus mestres Teodoro, Maia, Cristino, Vilaça e pelo saudoso professor Alfredo, pioneiros e verdadeiros heróis na árdua tarefa de implantação (e sobrevivência) do curso de Mineração.
A minha turma, desde o dia em que chegamos para a primeira aula de Desenho, varando um corredor de vaias, por causa das nossas réguas tês cheias de penduricalhos, até o último, quando fizemos um beneficente pedágio, na Almirante Barroso,  à cata de recursos para uma justa comemoração inspirada por doces lapadas de Coquinho, continuou a mesma. Esta longevidade foi determinante para que ali fossem construídas férteis amizades.
Da minha turma guardo uma eterna gratidão. Naqueles Tempos difíceis encontrei, na PT-15-7C, braços fortes que me ampararam até o final do curso.
Por esses dias, recebi um e-mail que me emocionou. Foi enviado pelo Maia, meu professor, me desejando um feliz Círio. Li o seu e-mail, lembrei dessas coisas, senti saudades, e me voltei ao compromisso, que aprendi na Escola, de sermos solidários uns com os outros.
No domingo, roguei a Santinha para que um atrevido solavanco no coração não ganhe o poder de abater um herói de tamanha envergadura.

Saúde, mestre. Torço por ti: É-TÊ-ÉFE-PÊ-Á!

sábado, 8 de outubro de 2016

crônica da semana- rolezinho na pariquis

O Círio e o rolezinho pela Pariquis
Quando já estávamos demais entojados daquele passeio, o motorista, na boa, sem embaçamento, encostou o ônibus em frente a uma vendinha, desligou o carro, desceu, pediu um prato de maniçoba e fez ali, o seu, ao que me pareceu, previamente combinado, almoço do Círio, entre mimos de uma galerinha amiga; enquanto nós, passageiros da agonia, nos pegávamos com a Santa para que Ela nos desse a calma necessária, e a esperança de que uma horinha ou outra estaríamos junto aos nossos familiares, felizes, assim como o folgado motora do Pedreira-Condor.
A aventura se deu por causa de uma articulação entre as escolas de Belém que leva os estudantes a acompanharem o Círio cuidando dos carros que compõem a romaria. Ajudam a empurrar, recebem e acondicionam os objetos de cera, rezam, emocionam-se.
Nos anos de ensino médio de minha filha, a acompanhei nesta prenda. No primeiro domingo, cedinho, nós dois, que temos aquela severidade no cumprimento de horário, fomos os pri a chegar à concentração, organizada na Presidente Vargas. Localizado o carro que a escola dela ia cuidar, era só irmos nos preparando, observando os primeiros promesseiros, recebendo a orientações. Na hora que a corda é atrelada, lá no Ver-O-Peso, no mesmo instante, os carros iniciam o cortejo. É tudo sincronizadinho. O Círio, ali na cabeça da procissão, começa cedo e termina cedo. Em menos de duas horas, os carros já estão entrando no Santuário, os estudantes cumprem o objetivo, levam os carros e as ofertas para o estacionamento no Colégio Gentil e são liberados. Alguns esperam por ali, a chegada da Santa, outros voltam para casa. Foi o nosso caso, na primeira vez que participamos da jornada com os carros. Logo nos aviamos para a José Malcher na ira para chegarmos em casa. Pedreira Condor. Beleza! Esta linha nos deixa a dois passinhos da nossa maniçoba. Pulamos dentro.
E olha essa, logo que saiu do afogueado do Círio, naquela região da Praça da República, o coletivo ganhou o rumo da Doca. Éraste, molequinho, vai voltar pra Pedreira na mesma pisada, pensei eufórico. Vamos chegar em casa rapidola, em tempo daquele soninho. Quando dei fé, estávamos era na Pariquis. Minha filha cochilando, num ligeiro despertar interrogou-me onde estávamos, enquanto passageiros paravam o ônibus e perguntavam se o motora ia pro Círio. Ia sim. Círio? Como assim? Ganhamos a Padre Eutíquio. E desce romeiro! Se adiantou e pegou a Serzedelo... Praça Amazonas... E simbora de novo para a Cremação. Quando ele varou na 9 de Janeiro, estimei: vai passar direto, daí, só a Pedreira. Ledo engano. A menina acordou de novo. Estamos na Pariquis, me antecipei à pergunta. Meio contrariada, voltou ao soninho. Eu, inquieto. Já íamos pra mais de dez horas da manhã, e ainda neste tour...E sobe romeiro, desce romeiro...

Quando, enfim, despontamos na Marquês, despertei minha filha, expliquei a demora. Era Círio. Trânsito fechado... Ela que estava amofinada, reacendeu-se. Reavivou o olhar, reativou o ânimo... Foi aí que o motorista encostou o ônibus e desceu para degustar sua suculenta maniçoba...

sábado, 1 de outubro de 2016

crônica da semana - Diz que sim

Diz que sim, diz que não
Naquele dia, se aperreou, mas não perdeu a compostura. Entre nós, o Acir era o mais refinado. Tínhamos aquele jeito dele de ser como o de um fidalgo da Sacramenta. Era um erudito dos subúrbios.
Tenho dito: a arte, ela se manifesta independente dos grilhões em que esteja encerrada. Alheia às caras feias que a intimidam. Ela vem. Infiltra-se. Imposta-se. Mesmo que seja permeando interstícios, rompendo lacres.
Houve de, em plena vigência da Ditadura, a escola Técnica Federal do Pará ser, para mim, exemplo deste calor intenso que a arte emana. Lá, sob os mais aviltantes dos pesos autoritários, a arte se fazia. Libertando. Aquecendo a alma.
Uma das fontes mais ativas deste calor era o teatro. Comandado pelo professor Cláudio Barradas, o grupo da Escola foi responsável por momentos de grandes iluminações.
Recordo muito nitidamente, o conflito a que fomos estimulados administrar dentro da gente, quando as opções “Diz que sim,”; “Diz que não” martelavam nossa consciência, culminando a montagem sobre enredo de Bertold Becht.
Assistir àquela peça marcou a história da gente. Éramos alunos de Mineração. Nos batíamos com o sinal das funções trigonométricas, com o traço raso, com o lápis certo, com as semi retas flutuando no espaço, em aulas de Desenho Técnico; mas éramos atentos, também, à  subjetividade, à alegoria e à livre escolha brechtiana, entre as paredes do teatro Margarida Schivasappa.
Não tinha jeito. Quanto mais a pressão da Ditadura agia, mais a gente resistia (tecnicamente, a segunda lei newtoniana), com a mesma intensidade e sentido oposto.
Éramos uma turminha que transitava criticamente entre os conceitos que formatavam a Educação naquela época. E onde tinha uma brecha (brechtiana), entrávamos e desenhávamos a resistência.
Havia uma programação anual dedicada às criações artísticas, no calendário da Escola. O “Tecnartes”. Uma semana dedicada a apresentações de música, teatro, poesia, dança. Era um evento pleno. Naqueles dias o sistema colapsava e se quedava à franca insubordinação. 
Aconteceu que fomos, o nosso grupo de Mineração, participar de um papo com o poeta Max Martins.
Após discorrer sobre o processo de criação e depois de declamar versos de ‘O Risco Subscrito’, o poeta convidou a nós da plateia, para mostrarmos nossas poesias. E o Acir, que era do nosso grupo, o mais esteta, o mais refinado, clássico, foi lá. Subiu no palco e esmerando-se em dramaticidade, iniciou: “Como soldado/Afogado em si/Solitário de sóis/vagando a esmo/Nos escapares do vento/Vens... Como soldado...Como soldado...
E de repente ele, que era o nosso maior declamador, esqueceu os versos. Erguia os punhos, atritava os dedos no alto. Fitava Max com olhar trágico. Buscava que alguém soprasse lá do fundo onde se acomodava nosso grupo... E nada. Não perdeu a postura. Voltou-se para a plateia e inventou na hora: “Como soldado/vazio de ser/Semente servil/Mãos manchadas de sangue/Covardemente/ Vens.” Encerrou com um repúdio à Ditadura.

Foi aplaudido de pé. Ganhou um livro do Max e nós, ganhamos a certeza de que rompemos lacres.

sábado, 24 de setembro de 2016

O que será que me dá

O Ser 
no futuro do presente
de um ele coletivo
e o que me 

de um outro qualquer que fala e pretende agir
no instante mesmo imenso e vazio
no momento obreiro e vadio
no minuto cálido e incerto
este tempo tenso vivido
Em tempo de explodir.

crônica da semana - jacaré

Pois não é, jacaré
Eu amanhecia com aquela zoadeira longe piriricando meu ouvido e isso sugestionava, pesava na hora de decidir. Não tinha conversa, nem ponderação: O barqueiro ia pelo rio, atravessava a cachoeira e esperava no remanso lá embaixo. A equipe, faria o arrodeio.
Durante o inverno amazônico de rios têi têi e muita chuva, essa era a opção mais segura. E pra falar a verdade, nem sei. Acho que em termos de segurança, era ‘elas por elas’.
É que o arrodeio compreendia cruzar uma prainha que àquela hora da manhã era apinhada de jacarés. Não é história de pescador, não. Era assim, ó. Mina de jacarés, um do lado do outro, esquentando o couro aos primeiros raios de sol.
Quando digo que sou meio conforme de cabeça, é porque tomo decisões desse tipo.
O que torna é que, na época que trabalhei no Xingu, acampei, bem dizer, ao lado de uma das cachoeiras mais temidas do rio. Era um estrangulamento radical que tinha, de ombreira a ombreira, não mais de 70 metros. Acima daquele local, a largura do Xingu batia fácil os dois quilômetros. Avalie então toda a água de 2km lá detrás passando num estreitinho de 70m. Alta velocidade e profundidade assustadora, tinha esta cachoeira. Pela missão do momento, tínhamos que encará-la todos os dias. Ou não. A outra opção, eram os jacarés.
Quando, recém-contratado, cheguei ao local para trabalhar, ouvi a história de um grande acidente na cachoeira. Contava-se que numa das jornadas, a lancha voadeira foi sugada por um rebojo enorme, o barqueiro não conseguiu escapar e a lancha emborcou. Sete engenheiros que tinham vindo de São Paulo para uma visita técnica morreram. Foi o que ouvi, não procurei aprofundar os fatos e nem checar se era verdade mesmo. Mas na primeira travessia que fiz, da cachoeira, nem precisei de comprovações. A volúpia das águas falava por si. Desde o primeiro dia, a respeitei.
O pessoal da minha equipe, a maioria da região e conhecedor dos perigos, partilhava da minha decisão. E todos, ora, nadavam bem pra caramba. Então, era na bucha. A água começava a subir, a gente se ajeitava pelo arrodeio.
Caminhávamos sobre um pedral por boa meia hora até darmos na prainha. De longe, ao avistarmos o amontoado de jacarés, gritávamos, batíamos palmas, fazíamos a maior algazarra. Eles se assustavam e um após outro, ganhavam o rumo da lagoinha que se estendia à frente. Aí a gente passava na caté, cheios de poder.
Andávamos mais um bom bocado sobre um lajedo muito acidentado, descíamos uma pequena encosta, nos embrenhávamos por uma vegetação rasteira e espinhenta, até que, lá na frente, dávamos no remanso. Esperando e mangando, toda vez, da gente, o barqueiro. Nos taxando de medrosos, desconfiados. Tirando onda porque a gente evitava passar na cachoeira.
A cachoeira logo ali, em cima. Dava pra ver a espuma se formando e a água estrondando contra as pedras. Olhava para a minha equipe. Mais de 15 pais de família. Pensava na minha responsabilidade aos vinte e poucos anos...E aquela zoada, piriricando, agora, perto, bem perto. Me dando a certeza de que a opção pelos jacarés sempre foi a melhor.


sábado, 17 de setembro de 2016

crônica da semana - só pra dar o gosto

Só pra dar o gosto
Mas era conta batida. Todo sábado. Eu até que podia escambimbar os artelhos ou esfolar a cabeça do hálux no campo de serragem do seu Preá, mas antes da noite cair, tinha que estar inteirinho da silva, banhado e empoado, no jeito para fazer as compras da semana, nas estivas da Pedreira. Chegava em casa só fedendo a moleque, passava direto para o banheiro, enquanto mamãe preparava a lista. Nem precisava. Mamãe tinha precisão. Determinação. Constância. Eu já sabia de cor os produtos que deveria comprar, a sequência em que eles vinham listados, a falta de espaço e a separação silábica exatamente no mesmo item. As quantidades: uma quarta de cada. E a finalidade: o charque era só pra dar o gosto.
Minhas químicas, meu atavismo funcional, uma herança responsável ainda se animam em mim aos sábados, e meio que no automático, deu de tardezinha, me avio no banho, salpico um pó no pescoço, procuro a lista. O que me arde é que os sábados, acode-me a realidade, não são mais os mesmos. Não há mais lista, mamãe não está mais presente com seus padrões, as estivas da Pedreira transformaram-se em varejos refrigerados e caros.
Aceito estes tempos outros. Releituras, modernizações são necessárias. O grande eixo comercial da Pedreira, que antes se concentrava em atacados, secos, molhados e estivas em geral, se desintegrou. Partiu-se em segmentos, em variações e diversificação de produtos.
Um sábado, porém, sempre se anima em mim.
Então eu largo a missão ou o conforto e vou atrás de reencontros, listas e constâncias. Tiro no pé este estirão da Pedro Miranda, até lá no fim, perto da Eneida de Moraes. Em alguns pontos, me demoro. Tento localizar o prédio da Paragás, do café Século XX, do Pisco, da Casa do Bife. Desorientado, recorro às fachadas. Até um dia desses, ainda havia a exposição reliquiar da platibanda do supermercado Sandra (era lá que minha lista era aviada com zelo e qualidade). Não há mais. Uma pena não encontrar mais aquela tirinha da fachada do antigo Sandra. Também foi retrabalhada, destituída, substituída por um painel frontal colorido cheio de propagandas. Agora, das frentes originais de casas de comércio na Pedro Miranda, acho que nenhuma mais existe. Lá pro fim, além da Humaitá, em meio a um quadro de ruínas ainda resiste uma fachada residencial. Tem dias contados, estou certo. Meu bairro de desfigura, se transforma, se aparta dos afetos.
Mamãe fazia um esforço inominável para garantir aquela listinha. O tantinho certo para a sobrevivência e uma extravagância (algo para adoçar a boca, como dizia ela). Um biscoito ‘Champanhe’, uma goiabada.
Tinha uma seção, no Sandra, lá no fundo, que atendia no retalho. O pequeno de lá já sabia: uma medida e meia de óleo, duas viradas de faca de sabão em barra, três largadas de colher de manteiga, embrulhada no papel manteiga; duas bonecas de anil; uma quarta disso, uma quarta daquilo. O charque, não. O charque era um corte enviesado (como a mamãe mandou). Que pegasse uma parte de carne ‘muciça’ e outra de gordura. E não era na quarta não, era só um pedacinho. Só pra dar o gosto.


sábado, 10 de setembro de 2016

crônica da semana- Raimundo Nonato

O não nascido
A atendente do consultório chamou algumas vezes: “Raimundo Nonato, Raimundo Nonato...” E eu, nem aí. Até que, de repente, atinei. Ai meu Deus, sou eu!...
Um retângulo de um plástico duro, tingido com as cores da empresa, ilustrado com o desenho de um elefantinho com cara de boa gente, no cantinho superior. Atrás, um alfinete daqueles de fechar as fraldas de bebê, servia de atracador. No centro da plaqueta em destaque sobre uma discreta tarja branca, em letras pretas cursivas, meu nome: Raimundo Nonato.
A plaquetinha de identificação fazia parte do meu look de empacotador de supermercado. Tinha ainda uma bata, que sempre a mamãe tinha que ajustar porque ficava deste tamanhão em mim, e que era completada com dois bolsos laterais, já beirando o cós, que serviam pra gente descansar as mãos quando tava numa folguinha da lida e pra guardar o apurado da gorjeta. A calça era a da gente mesmo e o sapato, também.
O ano era 1975. Tá na plaqueta. Número do meu registro e a data de admissão, em foto antiga da minha primeira CTPS.
Vou buscar lá daqueles tempos em que os supermercados só recendiam a sabão e a cebola, este cenário comprovativo, para provocar uma constatação. Foi a primeira vez que tive que me atar com o meu nome assim, no regular, no compulsório. Estava, afinal, na plaqueta.
A gerente, quando vinha desfiando uma ordem, evocava: “Raimundo Nonato, vai passar uma vassoura no salão”. O freguês, quando requeria um serviço, agachava-se um pouquinho, pra compensar a minha pouca altura, e olhando de palmo em cima o Raimundo Nonato da plaqueta, me voltava com a ordem para deixar os paneiros ali, no táxi. Na chamada para receber o numerário da semana: “Raimundo Nonato...”
Em casa, na escola, não estava acostumado com a conjugação do nome. Ou era um, ou era outro. Ou Raimundo, ou Nonato.
Comecei a criar uma bronca do meu nome, não porque vinha assim, no todo, na plaqueta, mas, exatamente, porque em outras ocasiões, as pessoas teimassem em separar as partes. Parece que não era conveniente, simpático ou atraente, chamar de Raimundo Nonato.
O tempo passou. O supermercado, os paneiros, a plaquinha com o elefantinho com cara de gente boa, ficaram para trás. De lá para cá, houve uma redução para ‘Sodré’, que é a minha graça mais conhecida. Outros, mais íntimos e meu filho Argel optam pelo solitário Raimundo, largando pra trás o “não nascido”. Nas artes e nos dias, me apraz a conjugação Raimundo Sodré (daí a minha lerdeza no consultório).

Raimundo, o santo, tornou-se Nonato porque foi retirado do ventre de uma mãe já morta. Ordenado padre, lutou pela libertação de cristãos capturados pelos muçulmanos. Quando preso pregou para os pares escravizados. Para calar-se, houve de a boca ser perfurada e lacrada por um cadeado. Sofreu pra dedéu na mão dos algozes. Recebi o nome do santo porque minha avó paterna fez um rogo urgente e até hoje não sei qual foi o teor desta promessa. Pelo sim e pelo não, eu que falo muito, e por vezes, quando falo, firo; cuido para ficar a uma distância segura de cadeados e algozes, ou do silêncio dos dois.

sábado, 3 de setembro de 2016

crônica da semana- burrosnagua

Com os burros n’água.
A algumas prendas dos dias e das horas, me arvoro, todo prosa, estar passado na casca do alho. Não raras vezes, tenho dado com os burros n’água. Erro feio.
O estio do meio pra frente do ano é pauta que me enxiro dominar, e vou além, ensaio dele me aproveitar.
Agora, a partir de agosto, é tempo de adiantar aquele puxadinho, remendar a calçada, dar uma demão com tintas de cores vivas, nas paredes da casa. Os dias mais secos inspiram também para aquela tão anunciada caminhada matinal, com o sol saindo mais cedo. Estas tantas artes podem ser diligenciadas com toda a tranquilidade, sem aquele medo de a chuva vir e estragar tudo. De agora em diante, a chuva até pode vir, mas é chuva doce, daquelas que vêm só pra sentar a poeira.
A época é de empreender. De dar um empurrãozinho no processo produtivo. Fazer aquele capeamento no asfalto. Traçar planos, levantar barracos.
Foi o que fiz, há alguns anos, em Rondônia.
Trabalhava em pesquisa e no verão amazônico era a hora de investigar. Aproveitar as estradas transitáveis, o nível baixo dos rios e igarapés, o entardecer esticado. Era o tempo de correr atrás do minério.
Montamos uma senhora equipe. Reunimos o máximo de equipamentos. Escolhemos uma área com alto potencial. Tava fácil.
A mim, me foi dada a missão de ir à frente com uma pequena equipe a fim de ajeitar um local para montar acampamento.
Na primeira alternativa, uma boa perspectiva. Mas muito perto da estrada. Muito movimento. Risco de desconcentrar com as seduções que ecoavam do lado dali, da cidade. Era o caminho para os mais boêmios atrativos, para os largos folguedos.
Descemos no rumo do rio. Ali tava fácil.
Depois de uma subidinha bem inclinada, o barranco descia suave até se conformar num plano batidinho, limpo, com árvores baixinhas. Nem era preciso nivelar de tão certinho que era o chão. Limpar, bem pouco. Madeira mais aquela de forte, tinha logo ali em cima, depois  do barranco. Água, tinha mais adiante, no fim da planura. O rio pr’aqueles lados, corria farto de água doce e transparente. Tava na mão. O custo era acionar o restante do pessoal.
Em pouco mais de uma semana montamos quatro barracos, cobrimos com palhas verdes e amarelas, levantamos a cozinha, um pequeno almoxarifado, abrimos picada larga para o rio, para a retrete... para a estrada. Logo, caímos no trecho. Iniciamos uma grandiosa campanha que seria interrompida nas primeiras chuvas de Dezembro, porque tudo que parece fácil, no certo e no reto, não é. Há sempre a necessidade da ponderação e do discernimento.
Ao iniciar Fevereiro, a água já estava lambendo a estrada e o meu caminho por ali, só me permitia olhar de longe a cumeeira do nosso maior barraco lá embaixo, afogada nas águas muitas e alvoroçadas do rio. Fácil erguer um acampamento robusto, naquele plano. Difícil foi constatar que aquela área era daquele jeitinho exatamente porque era margem alagável, era planície periodicamente inundada pelo rio. Difícil foi reconhecer que, tão logo as chuvas chegaram, afundamos. Literalmente, demos com os burros n’água.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

crônica remix - chuva e frio

Frio e chuva, casamento de ninguém
Terminado o show ela deu uma correndinha desengonçada, expressando-se mais envergonhada que sedutora. Sem roupa, atravessou o salão, luziu à minha frente um instantinho só e apagou-se nos degraus que a conduziram para o sossego do quarto, marcado por uma porta com caixilhos dourados que se desenhava no fim do corredor.
Fazia frio por aqueles dias. Vestida, ela parecia bem mais alta. E, fora a certeza da friagem chegando, agora, todo final de tarde, em outros fatos não ponho fé. As imprecisões fincam-se em campos polarizados. Estendem-se entre o rubor do desejo e a palidez do descontentamento. Vestiu-se.Voltou para o salão.
Francesa. A única comparação mais justa, a definição mais pertinente que me ocorreu foi classificá-la em malícia e elegância. Francesa. Nessa hora chovia uma chuva fina. Daquelas que quase  a gente não sente os pingos. Mas eram gotas que pegando carona no céu cinzento esfriavam a pele, eriçavam os pelos. Induziam contato. Requeriam movimentos, afagos, esquentas. Nos apertamos na parte coberta e deixamos aquele turvo nevoento para trás do muro e das dúvidas. Ficamos frente a frente. Uma bebida quente. Sem gelo. A coragem ativada. Ângela. Chamava-se Ângela. Vestido preto de mangas compridas com um cerzido sanfonado apertando na cintura. Um chapéu de abas largas sombreando um sorriso provocante que eu percebia com certa atenção e nenhum medo. Um sapato de salto quadrado, afivelado à altura do tornozelo cadenciando o balançar das pernas cruzadas. Um cigarro descaído ao lado do corpo, postura algo desdenhosa desafiando o vento gelado que vinha lá de fora. Um batom básico carmim. Não resistiria por muito tempo com aquela pose. Em Rondônia tem disso. Em pleno mês de agosto! Até uns dias atrás, o calor estava da gente correr doido. De repente, o céu baixo. As nuvens velozes quase tocando na gente. Temperatura despencando. Ela sentenciou: Amanhã nos vemos. E saiu em direção à porta dourada esfregando as mãos avidamente. Alguém a esperava. Frio e chuva. Penumbra. Descontentamento. Casamento de...
Quando voltei no outro dia, ela não estava mais lá.
Tentei reencontrá-la. Retornei várias vezes àquele local, mas ela desapareceu dali. Na última tentativa, havia um rumor, um boato que ela apareceria. Uma das meninas me deu a certeza sobre a volta da Francesa.
Cheguei cedo. Muita gente. Homens apaixonados. Garimpeiros com saquinhos de ouro conquistadores. Pais de família vestindo calça de tergal com bolso em faca. Sapatos pretos, sem sorriso no rosto. Apreensões e ansiedade. Olhos vidrados vermelhos. Uísque em copos rasos. Luzes colorindo os corpos. Fumaça. Cigarro. Homens velhos. Pigarro. Rapazotes acompanhados do pai. A primeira e intransitiva vez. A esperança de a porta de bordas douradas se abrirem e ela surgir de vestido preto e chapéu de abas largas. Bêbados sonolentos caindo pelos cantos. As meninas de um lado pro outro atendendo, socorrendo, atiçado as vontades. Pratos, petiscos, cubinhos de queijo espalhados, caindo pelo chão. Piso grudento. Odores confusos. Show de dublagem. A sonoridade plástica. A lascívia, a concupiscência coletiva, desavergonhada. Libertinagem, sofreguidão. Êxtase. Tensão. Intenção. Mãos bobas. Axis e tira a mão daí, pequeno. Bolo de dinheiro amassado achando dona. Beijos babados na face. E ela não veio.

Desapontado, já alta madrugada, ocupei uma mesa na parte descoberta, próxima ao muro. A lembrança daquela pose, daquela elegância de Ângela. A minha eterna embriaguez. Era madrugada e chovia uma chuva fina, friinha de doer. E doía que só.

sábado, 27 de agosto de 2016

crônica - medalhas

Medalha de prata
Tenho um metro e cinquenta e um de altura (era isso, pelo menos, antes da discreta, mas já percebida perda de sais). Mas contabilizo sempre um metro e cinquenta, porque este um centímetro não me ajuda em nada quando tô no aparreiro do ônibus lotado; e alcançar aquela barra no teto que nos ajuda no equilíbrio, é um recorde olímpico para mim, inatingível, na hora daquela curva radical. Invariavelmente, rebolo pra cima do povo.
Sou baixolinha. O que, tirando o atropelo de ser passageiro em curvas fechadas, nos ônibus de Belém, nada mais de desconcerto me trouxe na vida. Ser pequenininho não me atrapalhou em nada. Muito pelo contrário, seguindo o critério de ‘do menor para o maior’, sempre me garanti como o primeiro da fila, na hora da merenda, lá nos idos do primário.
Reconheço, porém, que assumo descabida presunção e sem querer, estimulo a descrença total na minha prosa, quando relato que ganhei medalha de prata jogando Voleibol, pelo time do meu curso nos disputadíssimos Jogos Internos da Escola Técnica Federal do Pará. Ninguém acredita. Desdenham, fazem gracinha. Caçoam de mim e alguns, sentem-se até ofendidos por uma potencial mentira cabeluda. Mas, ganhei de verdade. E não foi culpa minha.
O esporte fazia parte da nossa grade curricular. Era disciplina que ia do primeiro ao último semestre. Tinha avaliações complexas. Reprovava. No primeiro semestre, a gente escolhia qual esporte praticar. Escolhi vôlei, que fora a linha esticada de um lado a outro e um rebate de bola convulsivo entre as meninas da vila em que eu morava, a mim nada mais significava, naquele início dos anos 80. A disciplina, na Escola, tinha método, tinha fim. Tinha os Sérgios (Serjão e Serginho), professores que colecionavam histórias vitoriosas em competições importantes, e na nobre tarefa de ensinar os segredos do jogo de ‘bola ao ar’.
Daí a minha presunção. Os caras ensinavam mesmo. Começava pela teoria. No primeiro semestre, ninguém via a bola. Era pesquisa. História, fundamentos, regras. A gente escrevia pacas. Eram horas e horas na biblioteca da Escola de educação Física. No geral, aprendi muito. A quadra veio como complemento, os mestres, claro, entendiam as nossas limitações. Eu tinha a coisa do moleque, né. Na hora do jogo, dava sangue. Cortava em parábola, dava saque neném, devolvia de manchete. Não concorria e nem me comparava com os grandes craques da minha turma, Jorge Porpino, Jeovam Barroso, Marco Jurandim. Estes já brilhavam nas seleções da Escola e até do Estado. Eu dava sangue. E nos jogos internos, pra defender o curso de Mineração, juntávamos o talento, o sangue, a força. E foi assim que entrei naquele time vice-campeão.
Não joguei um único jogo, na conquista daquela medalha. Mas estava inscrito. Era da equipe. Era aceito pelos craques. Os professores abonavam minha convocação, o que significava que eu tinha aprendido alguma coisa (horas e horas na biblioteca).
Não é mentira não. Com um metro e cinquenta, além das conquistas diárias me equilibrando nos corredores dos ensandecidos ônibus de Belém, dividi o pódio de prata com gigantes.