sábado, 19 de setembro de 2015

crônica da semana -vira porco

Seu Vira-porco e a mata da Primeira légua
Eu tinha medo que me pelava de passar perto daquela mata que se estende além da Doutor Freitas. Mamãe dizia que ali era terra de encantados e que de tudo quanto era visagem, assombração e espírito havia por aquelas bandas. Jurava de pé junto que o manto verde que se erguia à beira da pista era a porta de entrada do desconhecido e do inacreditável. Éraste, chega só de falar me dá um arrepio!
(A área que fica à margem da Dr. Freitas demarca o primeiro limite urbano estabelecido para Belém, ainda no tempo das Sesmarias. Traçado em arco orientado por um raio de 6.600 metros, com centro no Forte do Castelo, compõe a extensão de uma légua. Ainda hoje, um marco de concreto sinalizando o máximo urbano da cidade está cravado ali, na Bandeira Branca; e com nome e sobrenome de Marco da Primeira Légua Patrimonial, é a origem do topônimo de um bairro residencial de Belém. Durante muito tempo, o que havia adiante da primeira légua era a mata densa, o rumo de Bragança e os medos coletivos).
A floresta se estendia desde Val de Cans até a margem do Guamá, lá pras bandas do Agronômico. Hoje, depois das pressões urbanas, apresenta rasgos salteados, desmatados, ocupados e redesenhados em novos bairros.
No final da Pedro Miranda ainda há o manto verde.
Só que de primeiro, não era assim como hoje. Antigamente os medos eram produzidos por menções e fantasias partilhadas. A molecada amofinava antes das dez da noite, só de pensar nos escurinhos do final da Pedro Miranda, e nos perigos que eles abrigavam.
Eu era menino impressionado, criança ainda, crente e ciente das criações do imaginário. Certa vez, tive que curar um golpe deste tamanho que eu tinha arrumado no pé quando pisei num caco de vidro, na bola que rolava em um aterro de caroço de açaí que tinha bem defronte de casa. Irmã Clara, que de todos cuidava, me recebia cedinho, no Centro Auxilium. Fazia o curativo, dava uma injeção pra não infeccionar aquela ferida beiçuda, e um ralho pela minha peraltice.
Aconteceu de uma chuva fina que tilintou ritmada durante a noite toda no telhado de casa, varar o dia. Tive que me abalar naquele chuvisco, me equilibrando nas pontes que remedavam um caminho para fazer o curativo. Manhã gris. Ninguém na rua. No que chego à esquina, vejo um vulto saindo da mata. Corri os olhos ao largo e uma viva alma que me valesse, vi pela rua. Firmei o passo em direção ao colégio das irmãs, e nesse momento notei um porco deste tamanhão se aproximando. Imenso, de movimentos lerdos, mas decididos. Veio em minha direção e estava em tempo de me pegar.
Minha mãe maldava de um vizinho solitário que virava porco. Havia história dele sumindo na mata e, coincidentemente, logo depois do sumiço, as pessoas ouviam um fuçado para além das matas da primeira légua.
Corri, corri, quando cheguei, me joguei nos braços da irmã Clara, em choque. Contei a história, ela juntou as irmãs, os funcionários e desceram para a rua. Lugar mais limpo. Ninguém. Nem porco, nem gente. Só a chuva fina, o eco e os causos.


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