sábado, 15 de agosto de 2015

crônica da semana - São caetano de

O tec tec ameaçador e a providência
Pra gente ver só como a providência divina acontece... Ainda tinha o tec tec dos caranguejos.
Lá em São Caetano, naquela situação de cidade apinhada de gente, sem lugar pra dormir e o cansaço dando de dez a zero na gente, resolvemos nos ajeitar no estirão de calçada que limitava o mercado da cidade ao Mojuim. A galera namorava ali, fomos no embalo. Tivemos que tivemos nos assanhamentos, mas teve uma hora que a momó nos venceu. Minha namorada enchinou de prima, envolvida num lençol que a gente havia levado esperando noites melhores. Da mochila fez um travesseiro e entregou-se a Morfeu. Eu procurei um jeito também, pegando uma beiradinha do lençol e do travesseiro, mas não apaguei porque a cachorrada não dava um tempo, numa algazarra assustadora. Vadiavam,vadiavam, dava uma hora, sumiam na ladeira que levava ao furdunço do arraial. Nessa hora dava um alívio, a cabeça pendia desfalecida e eu saía do ar...Só por um pouquinho, porque na mesma dita hora que a cachorrada ia dar um rolé, uma tropa organizada de caranguejos se animava vinda das profundezas do mangue e saía em marcha ritmada: tec tec tec. Na minha cabeça, naquela antecâmara do sono em débil agonia, eu imaginava um ataque feroz de alienígenas gigantes com suas patas serrilhadas destroçando nosso lençol e nos dilacerando as partes em postas. Quando a vanguarda passou daquele jeito, faceiro, de ladinho sobre o meu peito, dei um pulo lá longe, saí enxotando tudo quanto era exoesqueleto que via pela frente e mandei aquele exército infernal de crustáceos alienígenas para os quintos do mangue donde vieram. Aí, uma breve paz amenizava meu sofrer. Brevíssima, posto que pareciam combinados. Mal os caranguejos desapareciam na escuridão da lama, os cachorros voltavam com latidos sádicos, intimidando, provocando, dando a dica que se eu vacilasse, fariam xixi em cima da gente. E foi assim a noite toda. Ora, o tec tec dos caranguejos, ora  risco iminente do xixi dos cachorros. Não preguei o olho.
Quando os primeiros fogos anunciaram o início da procissão, lembrei que o Círio estava na pauta. Chamei meu povo e nos juntamos ao cortejo, com fé, muito sono, e decisão tomada de juntar os meninos: 2, 4,6, e voltar no primeiro ônibus para Belém.
Aí a providência operou. Não contamos dois passos e nem duas Ave Marias, demos de frente com um amigo boa praça. Artista plástico, bem relacionado na barra. Quando soube dos nossos infortúnios, desenrolou a parada num trisca de hora. Nos retirou da procissão, nos apresentou como pessoas estimadíssimas aos donos da casa onde se hospedava, e arrumou quarto, banho como água friínha de poço, café da manhã, assento garantido na mesa mais tarde, para partilharmos (uma senhora d’uma corvina) no almoço. Resgatamos as crianças e nos fizemos felizes no aconchego daquele lar.
À tarde, um passeio na maré vazante até a foz do Mojuim com o biri-suco regando o dia, apagou as diferenças que tínhamos com aquela bebida. E nos fizemos felizes no paraíso que é São Caetano de Odivelas, o tanto que pudemos.


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