sábado, 3 de janeiro de 2015

crônica da semana - juliana ver rugas

Ver-rugas
Sei que a história se deu mais ou menos assim: Estudavam os dois no convênio. Toparam-se na hora da merenda e Argelzinho, meu filho, atleta da escola, usava uma camisa do time de basquete com o nome dele gravado nas costas. Eram de turmas diferentes e se conheciam assim, do recreio. Curiosa, não se conteve e perguntou se aquele sobrenome que  ele ostentava na camisa tinha alguma coisa a ver com o tal cronista dO Liberal de sábado. Ele confirmou. É meu papai.
Não me aprofundei sobre a questão, mas penso cá comigo que a partir daquele dia, ficaram mais próximos. Ela deve ter comentado algo lembrando uma pastinha que tinha com uns recortes, uma ou outra passagem de um texto que marcou e depois trançaram-se em missões objetivas na busca da elaboração do jornal deles, o Circulando.
Mais um tempo e ela surgiu na minha vida.
Argelzinho, que é coordenador geral e irrestrito do Sarau do Quintal, divertição lítero-etílico-musical, que realizamos aqui em casa, certa ocasião chegou anunciando uma atração especial para nossa reuniãozinha e adiantou o calibre dos convidados.
No dia do sarau, o quintal foi tomado por músicos dos mais aquilatados. Era o grupo Chove Choro, que tinha na sua formação, olha quem, Juliana, a amiga do Gegel, lá do convênio. Deram um show. Quando terminou de tocar, fomos apresentados. Em meio às arrumações de fim de espetáculo, ela se intitulou minha leitora e coisa e loisa e tal e coisa. Mas no meio daquele movimento do sarau, da arrumação, dos cumprimentos aos demais integrantes do grupo. Nem atinei direito pro fato.
Aí teve, teve, o tempo foi passando, eu fui percebendo brilhos nela. Até que um dia ela me enviou uma carta escrita à mão. Aquelas linhas me descobriram Juliana. Me revelaram o que era ela para mim. Juliana é aquela pessoa que me levanta a bola, que me engrandece, e se não encontro o porquê destas generosidades, digo que ela o faz porque ela sim, é imensamente grande. Não sou nadica perto dela. De lá pra cá, Juliana que já se mostrara para mim articulista de jornal, cavaquinista e amiga do Argelzinho, revelou-se poeta, artista gráfica, artesã, ciclista cidadã, e pra completar-lhe as boas propriedades, passou em Medicina e hoje faz tudo isso e ainda vislumbra ater-se às mesmas missões de Esculápio. Se eu ainda não disse que, pelo apreço que ela me tem, eu a considero um anjo, acrescente-se a esta assertiva, a possibilidade dela me livrar de um infarto, um dia. Minha amiga médica é meu alento, meu conforto.
O certo é que o bom Deus programou nosso encontro. Somos parceiros em tantos sonhos, estamos juntos no meu último livro e hoje inauguro nossa parceria também aqui na coluna. Senhoras e senhores, Juliana Silva:
    Vou pedindo arrego, desassossego, pedindo divórcio, pedindo demissão desse meu emprego. Vida-emprego essa. Cega, vejo um naufrágio frágil, na rima pobre, nos dias gastos, na louça suja, nos pratos rachados, na rotina comprida, esticada que nem esses teus olhos fundos, olhos fundos tão quebrados e gastos quanto tanto, quanto tanto.

   São essas luas que passam e pelas quais só passamos e nem sequer olhamos, observamos, atentamos, escrevemos. A palavra já é gasta, o silêncio é imperfeito, isso nem sequer percebemos, nos contemos. Temos saudade de um ócio que não fez parte de nós ainda, máquinas, projetos artificiais dos pacotinhos, das singularidades homogêneas, das porções únicas. Nossa vazão. Olhar pro céu e hoje ver esse ócio estampado no Cruzeiro do Sul, uma das poucas constelações que ainda sei reconhecer, tirei os dedos das estrelas, quem sabe mamãe não estava certa....

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