sábado, 25 de outubro de 2014

crônica da semana - Jennifer

O caderninho
Eu ficava só no reparo quando ela entrava no restaurante naquele calorão da plena hora do meio-dia. Dava um tempo, me entretinha forcejando a faca cega na longitudinal do bifão, e era num repente que ela irrompia no salão e me desconcentrava no ato. Apressada, passos decididos, objetivos. Pegava o prato, salteava umas porções frugais, apanhava um suco. Largava o caderninho no canto da mesa e comia em paz, sem dar muita trela pro entorno.
Aquele caderninho dava o traço da pequena. Insinuava comprometimento, dedicação. Severidade na missão. Sabia que era jornalista. Tinha minhas fontes. E eu, pra frente que era, fazia uma cena, um coquete besta, puxava um livro da sacola, falava alto sobre um assunto polêmico com meus amigos. Intentava uma atenção, uma deixa para uma prosa intelectual e tal. Mas quite, a moça nem thum pra mim. Era de uma postura, de uma seriedade quando atada estava àquele caderninho aramado.
Uma profissional de primeira linha, constatei depois. E uma amiga espetacular daquelas que, como prega meu inglês de Maiami, dão um apigrêidi na vida da gente.
Acabei me achegando. Levei aquele papo que escrevia umas coisinhas, fazia uns versos. Emparelhamos umas simpatias. Dava de noitinha e eu me largava para o cafofo dela, lugar que conjugava lar e escritório. Passávamos horas resenhando fatos, resolvendo os problemas do mundo, criticando a gramática, elogiando as estéticas populares. Detonando o proselitismo acadêmico-burguês, prevendo a chuva, o futuro. Nos demos, afinal.
Na época eu já escrevia umas prosas para consumo próprio. Mostrei algumas pra ela. Não era de fazer elogios de grátis não. Disse que meus textos poderiam agregar à linha editorial de um jornal meio empresarial, meio comunitário, de nome despretensioso, mas auto-explicável: Jornal da Vila.
Me deu uma página. Sim, porque nessa época eu era meio destrambelhado. Não tinha controle. Ia escrevendo, escrevendo. Enquanto não me doía a falangeta, eu não parava. Ela, discretamente, reclamava do tamanho da crônica, mas ia lá que fosse, fechava a página comigo dentro. De início eu datilografava o texto na minha Olivetti e aí dava pra ela passar pro computador. Depois, ela, meio assustada com um troço chamado Olivetti e preocupada com o meu alheamento do mundo moderno, decidiu por me franquear o próprio computador para que eu mesmo ‘datilografasse’ a página. Coitada. Apoquentava-se. Me dava cada carão. Também, acostumado que estava com as teclas e com os tipos travados da minha máquina da datilografia, não tinha pena do teclado. Sentava os dedos (os dois catadores de milho dos quais me valho até hoje). Chega o coitado rangia. Estranhava porque não tinha o ‘carro’ pra puxar (uma das mais clássicas operações na arte de datilografar) e me exasperava sem uma borracha ao lado pra apagar quando eu errasse uma ou outra coisinha. Gramatiqueiro ortodoxo, teimava em hifenizar as palavras quando da passagem de uma linha pra outra ignorando o alinhamento do Word. Aliás, não fazia a mínima idéia de quem era este tal de Word.
Com toda a travanca, eu ainda tinha um cachê. Todo mês eu ganhava um litro de uísque (do bom) pelos meus préstimos literários. Das páginas do Jornal da Vila nasceria o meu primeiro livro.
No Círio deste ano, estive com a jornalista. A sintaxe de outubro proporciona reencontros, agradáveis reminiscências, rigorosas e necessárias constatações: se hoje tenho mais de 400 crônicas publicadas, quatro livros editados, nove fiéis leitores e algumas premiações, devo muito, mas muito que nem sei, à jornalista Jennifer Galvão. A ela, minha gratidão.


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