terça-feira, 28 de outubro de 2014

Crônica remix - Juraci

Tem culpa tu, Juraci

Mas, ô coisa pra dar certo!
Depois de uma semana e pouco com uma virose que me pegou pelo gasgo, cortou e arou o meu ânimo, e me pôs às quedas, me vem o alívio. Tava mofino, mesmo. Pródigo em chiliquitos enfadonhos, hios e chios insolentes, devastadoras angústias, espirros e constipações.
Era só a noite chegar que um gogo violento me atacava, uma tosse irritante me vencia. Era um tuco-tuco de estremecer as paredes. Uma desinquietação, uma desesperança. E haja exercício fonoaudiológico: nunca na história deste país, a palavra otorrinolaringologia foi pronunciada, por mim, com tanta desenvoltura, quanto nesses dias passados, de tanto que a garganta ardia.
Ainda bem que passou. Umas furadas na poupança e umas ‘piulas’ deste tamanho me ergueram. Ah, e ainda uma trova que recebi do meu amigo poeta Antônio Juraci Siqueira. E que diz assim: “Se a mão de Deus te conduz/pouco importa aonde te leva/quem anda junto da luz/não há de temer a treva”.
É por isso que eu digo: ô, coisa pra dar certo. Palavras amigas que chegam, assim, como coincidência, feito previdência, no instantinho certo que a gente tá precisando. Uma trova que fala de luz, de certezas e confiança na estrada da vida. Não foi intencional (Juraci nem sabia que eu tava dodói). Por isso tem um valor maior. Expressa uma emanação de energia positiva facultada, um bem arbitrário. Elevou-me a moral, o poema. Foi, sem errada, um caribé de versos bem chegados que me deram sustância e me abriram a janela (e os brônquios) para o dia.
Tô na convalescença. Ainda me recuperando com cuidado e zelo. Fugindo de qualquer respingo, da mais branda friagem, mas agora com o aditivo das palavras a me estimular. Vou tornar à luz. Culpa de fármacos caríssimos e do Juraci (que me veio sem ônus).
Aí, volto com o Juraci no tempo e o encontro nos varais de poesia, no Centur; nos corredores da pensão da Cotinha; nos circuitos de fotografia, na praça Ferro de engomar e na minha silenciosa tietagem. Era fã do cara. Acompanhava as andanças dele, mas ficava sempre de longe. Naqueles tempos, já o considerava um mito, de parelha em mistérios e encantos, com o boto.
Daí, houve a Feira do Livro de 1999. Foi o ano do lançamento do meu primeiro livro “O Operário em Verso e Prosa”, em parceria com o poeta José Miguel Alves. Éramos calouros na função. Acanhados. No estande dos escritores paraenses, as estrelas mais reluzentes da nossa literatura. Dentre elas, o Juraci. Nessa ocasião, descobrimos (eu e o Miguel), a face mais detalhadamente humana do boto. A acolhida que Juraci nos deu, àquele meio ilustrado, foi de todas as maneiras, generosa. Nos tratou como gente grande. Nos intervalos das programações, sempre se achegava, batia uma bolinha com a gente. Não dava tempo para nos sentirmos deslocados, eclipsados por tantos brilhos que dali irradiavam. Ele já era o Juraci, uma das pedras angulares da Malta de Poetas folhas e Ervas, e nós não éramos ninguém. Para ele, porém, éramos colegas de ofício. Fomos abonados e ganhamos um naipe literário na Feira daquele ano. Culpa do Juraci.
Tempos depois, aproveitei um Arrastão do Pavulagem, catei o Jura da multidão e entreguei a ele uma pacotão datilografado com os originais do meu segundo livro “O Dia Mais feliz...”. O poeta fez a apresentação do livro em um texto grandioso, de uma nobreza, de uma elegância... Enriqueceu o meu livro, falou coisas tão legais que eu fiquei até meio metidão, enquanto durou a edição.
Agora, no início da semana, ele me trouxe a luz. Tô na convalescença ainda, mas com a ajuda de tão cintilantes versos, com certeza varo. Culpa do Juraci.


sábado, 25 de outubro de 2014

crônica da semana - Jennifer

O caderninho
Eu ficava só no reparo quando ela entrava no restaurante naquele calorão da plena hora do meio-dia. Dava um tempo, me entretinha forcejando a faca cega na longitudinal do bifão, e era num repente que ela irrompia no salão e me desconcentrava no ato. Apressada, passos decididos, objetivos. Pegava o prato, salteava umas porções frugais, apanhava um suco. Largava o caderninho no canto da mesa e comia em paz, sem dar muita trela pro entorno.
Aquele caderninho dava o traço da pequena. Insinuava comprometimento, dedicação. Severidade na missão. Sabia que era jornalista. Tinha minhas fontes. E eu, pra frente que era, fazia uma cena, um coquete besta, puxava um livro da sacola, falava alto sobre um assunto polêmico com meus amigos. Intentava uma atenção, uma deixa para uma prosa intelectual e tal. Mas quite, a moça nem thum pra mim. Era de uma postura, de uma seriedade quando atada estava àquele caderninho aramado.
Uma profissional de primeira linha, constatei depois. E uma amiga espetacular daquelas que, como prega meu inglês de Maiami, dão um apigrêidi na vida da gente.
Acabei me achegando. Levei aquele papo que escrevia umas coisinhas, fazia uns versos. Emparelhamos umas simpatias. Dava de noitinha e eu me largava para o cafofo dela, lugar que conjugava lar e escritório. Passávamos horas resenhando fatos, resolvendo os problemas do mundo, criticando a gramática, elogiando as estéticas populares. Detonando o proselitismo acadêmico-burguês, prevendo a chuva, o futuro. Nos demos, afinal.
Na época eu já escrevia umas prosas para consumo próprio. Mostrei algumas pra ela. Não era de fazer elogios de grátis não. Disse que meus textos poderiam agregar à linha editorial de um jornal meio empresarial, meio comunitário, de nome despretensioso, mas auto-explicável: Jornal da Vila.
Me deu uma página. Sim, porque nessa época eu era meio destrambelhado. Não tinha controle. Ia escrevendo, escrevendo. Enquanto não me doía a falangeta, eu não parava. Ela, discretamente, reclamava do tamanho da crônica, mas ia lá que fosse, fechava a página comigo dentro. De início eu datilografava o texto na minha Olivetti e aí dava pra ela passar pro computador. Depois, ela, meio assustada com um troço chamado Olivetti e preocupada com o meu alheamento do mundo moderno, decidiu por me franquear o próprio computador para que eu mesmo ‘datilografasse’ a página. Coitada. Apoquentava-se. Me dava cada carão. Também, acostumado que estava com as teclas e com os tipos travados da minha máquina da datilografia, não tinha pena do teclado. Sentava os dedos (os dois catadores de milho dos quais me valho até hoje). Chega o coitado rangia. Estranhava porque não tinha o ‘carro’ pra puxar (uma das mais clássicas operações na arte de datilografar) e me exasperava sem uma borracha ao lado pra apagar quando eu errasse uma ou outra coisinha. Gramatiqueiro ortodoxo, teimava em hifenizar as palavras quando da passagem de uma linha pra outra ignorando o alinhamento do Word. Aliás, não fazia a mínima idéia de quem era este tal de Word.
Com toda a travanca, eu ainda tinha um cachê. Todo mês eu ganhava um litro de uísque (do bom) pelos meus préstimos literários. Das páginas do Jornal da Vila nasceria o meu primeiro livro.
No Círio deste ano, estive com a jornalista. A sintaxe de outubro proporciona reencontros, agradáveis reminiscências, rigorosas e necessárias constatações: se hoje tenho mais de 400 crônicas publicadas, quatro livros editados, nove fiéis leitores e algumas premiações, devo muito, mas muito que nem sei, à jornalista Jennifer Galvão. A ela, minha gratidão.


sábado, 18 de outubro de 2014

crônica da semana - encontro marcado

Encontro marcado
O foguetório anuncia a Romaria Fluvial se adiantando lá na baía. Trânsito engarrafado. O ônibus chega na biqueira da Doca e, sem quê nem pra quê, dá uma guinada rumo não sei donde. Estávamos tão perto! Os fogos espocam alhures. O som agora está mais distante. Varamos na José Malcher. Vou perder a descida da Santa, profetizo esboçando um desespero indisfarçável. Sinal vermelho. Me bato com umas contas rápidas. Recomponho em retalhos assimétricos as fórmulas da Física. Velocidade, o estirão a ser percorrido, tempo. Atrito. Onze e pouquinho. Faço uma simulação da maré. Se estiver na vazante ainda dá tempo. A corveta vai encontrar resistência da corrente lá na desembocadura do Guamá. Éraste, em compensação quando embicar para a escadinha, vem que vem somando vetores, reconsidero. Pensando assim, botando fé na Física, não vai dar tempo. Sinal fechado. Trânsito não anda. Decido. Umbora, gente, chamo a mulher, os meninos. Peço pro motora abrir a porta e saio em desabalada carreira pelas calçadas de lióz da antiga estrada de São Jerônimo. Nem dei que estava com uma sandália de passeio e que ela, de vez em quando fugia do meu pé, indo dar lá longe e me atrasando mais ainda...
Durante muitos anos, passei o Círio longe. Em Porto Velho, Altamira, Manaus, Macapá. Embora na Amazônia a devoção seja tanta e em todos esses lugares a fé também se manifeste de forma tão ardente quanto em Belém, eu me ressentia desse distanciamento, inquietava-me a ausência, reivindicava o termo, o jeito paraense, o aconchego do lar. Requeria o clima generoso e dócil que grassa em Belém.
Eis que a Santinha olhou por mim e, há pelo menos 5 anos, a lida, os afazeres se organizaram na minha vida de tal forma que me permitem estar em casa por ocasião do Círio.
E o meu grande momento, aquele instante em que percebo melhor a devoção é exatamente a chegada da Romaria Fluvial lá na escadinha. Ali somos louvores indizíveis, emoções libertas, sintaxes fervorosas de outubro. A graça se faz em fartos cachos de manga, em sombras acolhedoras e brisas confortantes, em lágrimas doces e vozes agradecendo, em olhares de contemplação e preces. Na subida da escadinha, até o estrondoso rumor das motos é tido como se fosse delicada bênção. Há 5 anos, tenho um encontro marcado com a Santa, ali, na subida da escadinha.
Só que eu ainda estava na subida da José Malcher catando a sandália aqui e acolá, na carreira. Procurava entender a situação. O cortejo adiantou ou nós é que demoramos pra sair de casa? Estava tudo tão combinadinho. Ofegante, não desistia do encontro. Minha mulher e meus meninos, perdidos da vista, lá atrás. Tive um forte pressentimento. Chegou!
Logo adiante do palacete Bolonha, meu joelho começou a doer. Uma herança do glorioso Internacional da Mauriti. A rua se encontrava aos sábados, no quintal do Seu Preá. Era um campinho aterrado com serragem. Piso macio que permitia até um balançar ondulado nas partes mais densas e úmidas. As partidas eram disputadíssimas. Dez minutos ou um gol. Cara ou coroa em caso de empate. Pra lá migravam todos os matizes de atletas da Mauriti. Os grandes, a molecada da base, os senhores casados, os mais aquinhoados, os mais pobres. Sábado à tarde celebrávamos a diversidade no campinho de serragem. Na época, tinha um teste marcado no Paysandu. Um vizinho, que se passava pra minha bola, havia me indicado. Mas quando! Foi muito rápido. A disputa foi leal. Dei um encontrão e caí pra frente, sobre o joelho. Não senti nada. Um choque, eu acho. Uma resposta diferente do corpo. Quando levantei, não consegui mais esticar a perna. A turma fez pouco caso, afinal, era comum ali, a gente esmigalhar a cabeça do dedo, partir supercílio, ganhar uma desmentidura. Naquele sábado, no campinho de serragem do seu Preá, acabou minha carreira de jogador de futebol...E muitos anos depois, correndo ao encontro da Santa, o joelho ainda se magoa e me avisa que temos pendências a resolver.
Apesar da sandália e da dorzinha chata no joelho, cruzei a Praça da República como um bólido (diriam os narradores de futebol, aos microfones das difusoras de rádio, fosse o caso, a minha solitária peleja).
Mas foi eu bater o pé na Presidente Vargas, e a Santa passou.
Estar aqui contando essa história no jornal, para mim, já é uma graça. Havia uma vontade em mim de dizer, alguma vez, com muita alegria e gozo, que o nosso encontro naquele dia, apesar dos reveses, aconteceu. A providência desacelerou o cortejo. A Santinha parou na minha frente, parece para me ralhar: “mas tu, heim, pequeno, quase, quase”. Eu apaguei do mundo. Durante a eternidade daqueles segundos, o universo fez-se em nós dois apenas. Reverente, aceitei o puxão de orelha e fiz o mesmo dos últimos encontros. Ergui as mãos em direção a Santa e agradeci. Poderia pedir. De mil coisas, preciso. Mas não, o que me ocorre toda vez que nos encontramos, é apenas agradecer. Pelos meus meninos, pela minha companheira, pela minha família, pela sintaxe de outubro, pela maniçoba mais co’pouco, pela mãe que tive, pelos amigos que me toleram, pela brisa da baía que sopra lá embaixo no Geral, pelo meu joelho reclamão, mas inteiro. Pela minha saúde e por ser um sujeito produtivo. Agradeço pelos cachos de manga e pela graça de ter sempre o de cumê dentro de casa. Agradeço à doce Virgem Maria pela esperança que ela deposita em minhas mãos a cada Círio.

A Santa passou. Os meus meninos, minha mulher apareceram e me pegaram a chorar um choro de felicidade. Tomamos as mãos uns dos outros e descemos para a escadinha fazendo combinas e amarrando compromissos de, para o ano, não nos atrasarmos de jeito e maneira, para este abençoado encontro.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

crônica remix- mãezinha do céu

Mãezinha do céu
Caminhávamos pela calçada da Generalíssimo, no adiantado daquela noite de outubro, Regina e eu. Regina de saia plissada, sapato boneca, um fichário, com desenhos coloridos e muitos chaveiros pendurados, colado ao flanco direito do corpo, na mais perfeita tradução de aluna do Paes de Carvalho. Eu, com a minha velha bata azul-clarinha, da Escola Técnica, um inexpressivo bloquinho de papel almaço e uma Bic escrita grossa, no bolso detrás da calça. Estávamos de emendada. Direto do colégio pra’li. Jovens e militantes de grupos católicos, encerrávamos naquela hora, a nossa participação no programa que se realizava na concha acústica do CAN, e acelerávamos em direção à São Jerônimo pra pegar o Cristo. Um vento! Um vento forte assobiava ascendente e se ajeitava compacto pelo túnel de mangueiras da avenida, revolvendo minha fé.
Estalidos e quebradeiras nas alturas. Mas a vida seguia decidida, ‘severina’, naquela pisada que nos levava até à parada do ônibus. Comentávamos sobre as apresentações, comparávamos a esquete do nosso grupo de jovens com a dos outros, confirmávamos encontros para os outros dias da quadra nazarena. Repetíamos precisamente a prece criada pelos meninos moderninhos da PJ: “Ave tu que és mãe/cheia de dor/ por gerar a humanidade/ em forma de rios não navegáveis/O Senhor cuida de ti/e tu te encontras no meio do mundo/chorando pelos filhos desaparecidos/ou fortemente armados/Bendita és entre as mulheres tuas irmãs/ e bendito é o leite de teu seio (que faz o milagre de alimentar o bem futuro)/ó, mãe da criação/o teu poder torna possível o meu/te peço que me resgates/do fundo de um poço escuro/para que eu não me sinta/tão só/embora eu não seja digno/de ser levado por tuas mãos/sei que assim tu queres/amém”.
A primavera já havia chegado ali pelo meio de setembro. As mangas já começavam a aparecer. Eu sabia que os cachos  estavam carregados, mas não as maldava maduras, de cair assim, numa lufada mais afoita de ar. Proseava e caminhava deslumbrado com aquela noite especial. Encontrava com gente amiga, trombava num romeiro desatento, mirava os brinquedos estirados no chão pelos camelôs sazonais. Percebia a rua iluminar-se pelos loiros cabelos da Regina e não tinha medos, naquela noite.
Foi num segundo. Um instante mínimo, um nadinha de tempo, um momento quase que inexistente. Um barulho e uma luz (pra falar a verdade, não houve luz nenhuma. O brilho ficou por conta do sobressalto. Pra mim, aquilo foi um trovão. Um relampejo, um faiscado chocante).
O vento, tanto que deu na copa das árvores, que a manga despregou-se do cacho, atravessou o robusto trançado de galhos e espatifou-se aos meus pés. Caiu, como se fosse um impreciso meteorito, a coisa de milímetros do meu cocuruto. Com uma velocidade estonteante (por isso a luz) e uma força de afundar o chão (daí o barulho espetacular).
Fiquei estático, completamente paralisado. Demorei um tempinho pra tornar. Quando dei por mim, só tive reação para dizer “Regina da minha alma, o que foi isso?”. A Regina (que aliás se chama Regina Coeli, um nome que numa oportuna tradução do latim quer dizer ‘rainha do céu’), reduziu-se à uma perplexidade igual, ou até maior que a minha, e o máximo que conseguiu foi apontar para a manga esbandalhada no chão, com as alvas mãos trêmulas e incertas.

Passado aquele momento de extrema tensão, nos aviamos ligeiros para casa. Comigo foi a certeza de que nossa mãezinha do céu nunca nos deixa só. Sempre nos encontra, nos resgata, nos livra de todos os maus, todos os perigos (até de uma paraensíssima manga em errante queda livre). 

sábado, 4 de outubro de 2014

crônica da semana - francisco

O Santo dos pobres
Um violão Giannini Trovador. Vinte e seis exemplares do Asterix, que representavam até então, a coleção completa dos episódios criados pelos geniais franceses René Goscinny e Albert Urdezo. Um Pau de Chuva, instrumento percussivo que arremeda o som de água caindo, originário dos Andes chilenos e que comprei, numa exposição, como sendo artesanato dos Cintas-Largas. Uma caixa com muitos quadrinhos. A linhagem inteiriçada dos cartunistas paulistanos. Revista Circo. Chiclete com Banana. Geraldão. Níquel Náusea. Piratas do Tietê; De carona, a vovozinha revista MAD, já nos estertores, fazendo o contraponto; e uma pilha de PQP que mamãe mandava pra mim, todo mês. Somando no acervo, os primeiros números de O Planeta Diário e Casseta e Planeta. Noutra caixa, as aquisições capa dura, feitas junto ao Círculo do Livro e também adquiridas na livraria da, revolucionária, Rose. Sartre. Veríssimos, muitos Veríssimos e as minhas, até hoje, iluminações literárias, Zero e Feliz Ano Velho. Na mala, uns vinis ‘emprestados’ de Mercedes Sosa, Zé Geraldo, Ana Belém, Maria Betânia...e preciosas amostras de cassiterita, columbita, topázio, quartzo-dente-de-cão, quartzo rosa, uma fagulhinha, quase invisível de diamante industrial, meus quase nada de vestir, um frasco de Contouré  e...só. Esta era a minha bagagem franciscana quando embarquei em Porto velho, de volta para Belém, num dia 4 de outubro, como o de hoje. Dia de São Francisco de Assis.
Operou um milagre, o Santo dos Pobres, naquele dia. Depois de quatro anos longe, estava difícil de voltar. Uma greve poderosíssima dos aeronautas tirou do ar uma leva de aviões. Os vôos liberados eram um aqui, outro ali. Esta situação fez com que, naquela terceira vez, eu me visse deixando Porto Velho sem ninguém para me dar um tiauzinho, antes do embarque. Estava sozinho. Mas deixei estar, não queria incomodar os Borges Guimarães, a minha família rondoniense, com mais uma tentativa. Antes, nas duas incursões, toda a galera. Lencinho branco de despedida, lembrancinhas, emoções, saudades antecipadas, e, olha só, os vôos foram cancelados. No dia 4 de outubro, havia uma chance mínima, para que a viagem desse certo. A providência, um milagrezinho tinha que acontecer. Combinei com meu povo que iria sozinho, afinal, milagres não acontecem assim, na vida da gente, quando a gente bem entende. Não botei fé.
O avião que me trouxe marcaria certinho o final da greve. Desde ele, tudo voltaria ao normal. Desembarquei em Belém, já de tardinha, com a certeza da ajuda do Santo Francisco.
Sempre fui fã de São Francisco (meu filho tem Assis no nome). Isso, se não causou conflito, gerou um desconfortozinho na minha vivência dentro da igreja. Sou ex aluno salesiano. Atuei na pastoral da Sacramenta, nas comunidades de base, nos movimentos de jovens, levando a mensagem de Dom Bosco, mas não escondia a minha inclinação franciscana.

Um ser humano admirável, Francisco. Em plena idade média, num cenário irrefreável da ascensão burguesa, rebelou-se e optou pela pobreza. Talvez essa reviravolta na vida seja, realmente, o maior atrativo na historia de Francisco. E esta visão, um tanto romanceada do santo, de prima, me arrebatou. Mas depois, conhecendo mais sobre a opção de Francisco (e ajudado pelos cenários históricos dramáticos envolvendo os Fraticelli, descritos por Umberto Eco em O Nome da Rosa), tomei pé do quanto o Santo de Assis foi sábio e corajoso para superar a suntuosidade da Igreja, a soberba do clero, a ânsia dos pobres... séculos mais tarde, a greve dos aeronautas, e operar milagres. Salve, Francisco!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

crônica remix - borracha

Quinta dimensão
Eu tava aqui na ira, rolando a barra pra cima e pra baixo, no tempo e no espaço, pra ver se achava uma postagem muito bacana que apareceu no ‘Feice’, mas quite, dancei. Patetice minha. É aquela coisa: neste mundo da internet, não deixe para daqui a pouco o que se pode fazer já, já. É um universo sem freio este virtual. Deu-se, então, que alguém postou, eu gostei, não gravei e perdi. Mas tenho uma tênue lembrança e vou usar do meu charme para repassar o riquíssimo conteúdo da mensagem. Trata-se de uma pergunta: qual o destino que a borracha que a gente tá usando toma, quando caí no chão?
Algumas alternativas são apresentadas e eu me alinho com aquela que diz que a borracha some completamente, passa para uma outra dimensão, e no meu caso, acho que é a quinta, aquela mais difícil de ser intuída pela nossa vã filosofia.
É, ocorre que, agora, na modernidade, carece de lembrar aos mais jovens, que tipo de objeto utilitário era esta tal de borracha. Numa linguagem afinada com a tecnologia, eu poderia dizer que era a mesmíssima coisa que esta função aí do teclado onde está grafada a palavra ‘delete’. Tinha a mesma nobre missão de delir as bobagens que a gente escrevia ou desenhava.
Só que ao contrário da tecla do computador, que não arreda pé do nicho, a borracha era dotada de teimosia. Tinha a propriedade elástica do látex e quando caía no chão, não tinha pra ninguém. Dava uns dois quiques ainda no raio da nossa visão e depois, pluft,  escapulia pra quinta dimensão. Aí, não tinha combate. Nem São Longuinho resolvia. A gente passava horas, naquela posição que Napoleão perdeu a guerra, esfregando o nariz no chão, procurando a bichinha. E nada.
Sofri muito com esses desaparecimentos. Num dos meus trabalhos aí, por esta Amazônia de meu Deus, eu me aviava diariamente com uma ruma de mapas. Tinha que copiar, transferir, traçar, apagar...às vezes manobrava com três, quatro ao mesmo tempo, combinando informações, definindo programações. Uns sobre os outros, outros sobre uns. Em muitas e tensas ocasiões, a danadinha da borracha se enfurnava entre os vincos do papel e cedia ao descaminho. Volvia a mim somente lá pra de tardezinha, ao final do expediente, branca e inocente enquanto eu era uma pilha de desconsolo, de tanto relar o nariz pelo chão e não encontrar nada.
Perder coisas, esquecer objetos importantes em algum lugar não sei onde, quedar-se a desatinos e apagões são infortúnios que nos acompanham nesta longa estrada da vida. Não há o que temer nem envergonhar-se. Todo mundo já esqueceu um celular (sempre aquele mais caro e chique) pra nunca mais; já deixou a carteira com todos os documentos (e só documentos, porque dinheiro é raro, sabe-se) em cima do balcão de uma lanchonete; enfiou entre as páginas de um dos livros imexíveis da estante um endereço que ninguém podia saber (e são tantos os imexíveis, que ninguém jamais soube mesmo) e se desfez completamente da única pista que tinha sobre aquele ser tão amado. Quem nunca deixou uma sombrinha no banco do Pedreira Lomas?
São os mistérios da quinta dimensão. Aquela mais distante e cruel. Aquela da qual nem toda a ciência dá conta. E assim se fortalecem as lendas e as crenças. As lembranças e as desesperanças. Como agora, esta que sinto.

Mesmo depois da revolução tecnológica, ainda insisto. Hoje, no trabalho, faço minha fé nos traçados em computador. Mas não largo meu esquadro, minha régua, meu transferidor, minha escala, meu compasso e minha borracha. Só que a borracha, faz umas duas semanas que não a vejo. Tá por aí, charlando branca e inocente, pela quinta dimensão.