sábado, 11 de janeiro de 2014

crônica da semana - a comunhão

A comunhão dos bichos
Antes de clarear, tateava pelos arredores da casa. Separava as vasilhas cada qual com o seu tanto e a sua qualidade. Quando entrava na casa, arrastava a sandália em silêncio para não acordar as crianças que dormiam nas redes atadas, na diagonal, pelo corredor. Apanhava sempre alguma coisa lá dentro. O ‘fós’soro’, um cotoco de vela, o abanador trançado de palha, uma caneca esmaltada com um gole de café. Aproveitou o vão da janela entreaberta e deitou lá fora, sobre a mesa, o bule e a carteira de Continental sem filtro. Aquela visita ao interior da casa era um resumo de todas as suas dúvidas e carências; uma síntese do vasto leque de riquezas e honras de que ela dispunha. De passagem pelo estreito corredor, apanhou do seio da pernamanca que marcava o meio da parede, o pente azul para se pentear enquanto rezava, bem baixinho, num quase sufocado assobio, num restrito e débil sopro, as matinas. Uma oração tecida num recitado bilabial restringido, uma cantilena fricativa reprimida: Ave Maria...bzzzz/Louvado seja...bzzzzzz.
Costumava, nessa hora, antes do sol surgir, adiantar as arrumações da casa. Dispôs-se um tempo diante da tramela que fechava a janela da sala e resmungou, reclamou porque ela era tão molinha, bastava uma ligeira perturbação no ambiente para que a chapinha de madeira rotacionasse e deixasse a janela só encostada.  Tinha que resolver aquilo. Deslizou pelo ladinho da rede avarandada, atada de parede a parede e por ali se demorou um tempo. Espreitou, campanou, sem descuidar da cantilena silenciosa: Bzzzzzz. E num átimo, com extraordinária precisão, esmigalhou um carapanã cheinho de sangue, no braço do filho mais novo que, inocentemente, dormia. Fazia parte da lida diária, proteger o sonho das crias. A ronda pela sala terminava no sofá, que disposto ao longo da parede, bem embaixo do quadro azulado do Sagrado Coração de Jesus, parecia tomar mais espaço que o necessário. Alinhou o imenso cortinado florido que cobria o móvel. Puxou pra cá, esticou pra lá, mediu e definiu a distância até o chão, passou a mão espalmada pelo assento, ordenou os vincos do tecido. Era um cuidado com aquele sofá! Era o seu bem mais estimado. Era local de receber visitas, de fazer as distinções da casa. À frente, a mesinha de centro suportava um pequeno emoldurado. Um contorno improvisado de madeira e metal acomodando uma fotografia. Um cartão postal. A luz do sol ainda procurava céu para reinar e assim, neste lusco fusco, não conseguia discernir o retratado nem os dizeres do cartão. Mas imaginava. Traçava a inclinação dos ônibus dobrando a Avenida Portugal; reconstituía, no ar invisível daquela sala, a simetria das torres do Mercado de Ferro. Por vezes, o olhar pesado, forçado, desviava do cartão e mirava breves feixes que já se anunciavam nas frestas da casa. Era o dia chegando. E a luz ainda tímida lhe trazia à memória o estirão de lâmpadas que tingiam de amarelo a fieira de postes que margeava a Tito Franco. Mas o seu olhar se abrandou, porque na verdade, não queria ver nada dali daquele cartão. Queria sentir. Cerrou os olhos, esboçou um sorriso de prazer e recordou com muito carinho as manhãs à beira do pequeno igarapé que corria por detrás da Pedro Miranda e que era cheio de pedrinhas preciosas arredondadinhas.
Quando o sol iluminou com vigor a copa das árvores mais altas, ela largou o cartão, sobre a mesa, escorou a moldura no bibelô da bailarina e saiu para o quintal.
E dia claro, de cada vasilha que estava ali no alpendre, tirava um punhado e jogava em rajadas densas no terreiro. E chamava: Thu thu thu thu thu! E vinham as galinhas, os patos, os pintinhos. Fosse milho, fosse ração. E vinha o carneirinho e o porco também vinha. Fosse farelo, fosse resto de comida. Até o cabrito e o burrinho, vinham. Pela comida e também pela algazarra, o papagaio e a picota, sassaricando vinham. Thu thu thu thu thu! Ela chamava.

E na legenda do cartão que amparado pela bailarina jazia, lá na mesinha de centro da sala, estava escrito; “Lembrança de Belém. Feira do Ver-o-Peso. Belém- Pará-Brasil”.

Um comentário:

  1. Parabéns pela bela crônica! Vamos para as 100mil visitas!!!

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