sábado, 27 de dezembro de 2014

crônica da semana - antologia e Cláudio Cardoso

Crônicas para Belém
Tenho ouvido coisas...
Tinha o Cláudio Cardoso como romancista e poeta dos bons. Com um quê a mais: não é só do riscado, não. Tem uma pegada para a poesia falada. Um pendor ímpar para declamar poemas. Fico impressionado com a memória e o discernimento ao declamar poemas longos, principalmente aqueles pautados em cordéis ou rimas encarreiradas. Quando vem aqui no Sarau do Quintal, dá um show. Diga-se até, que Cláudio é sócio-fundador do Sarau que fazemos em casa há quase dois anos. Empresta seu talento, notabiliza-se pelo suprimento de vinho, e arrisca machucar o couro do tambor, nas nossas rodadas mensais de samba e poesia.
Desde 2013, estamos ombreados na produção literária, também. Meus dois últimos lançamentos, fiz com a editora do Cláudio. Para mim, foi um salto e tanto. A parceria me rendeu bons resultados.  Saí de umas tentativas amadoras, um tanto românticas, de produção, para um patamar mais aquele de elaborado. Montei times de responsa, busquei patrocínio; fiz divulgação, cacarejei sobre minhas obras, bati perna na imprensa, cisquei pacas nas mídias sociais. Sob a batuta do Cláudio, migrei de 10,  20 livros vendidos, para parentes e amigos, nos lançamentos que fazia antes, na Feira do Livro; para mais de 200, nas duas recentes edições. Alcancei um número bem maior de leitores, neste novo jeito de publicar. Não sou mais um traço na estatística literária doméstica, me acheguei aos bambambans, fiquei ali, bafejando o cangote dos mais lidos, dos mais queridos, graças aos talentos empreendedores de Cláudio Cardoso. E confesso sem nenhum remorso, que para este retirante do condado do Xapuri, ser mais conhecido, é muito bom. Ah, como é.
Tenho ouvido coisas que me deixam pávulo, pávulo...
Nas prosas que entabulamos pelos saraus da vida, descobri o Cláudio Cardoso, também como moleque pedreirense. Nos reencontramos explorando os corredores do Mercado Municipal e fazendo carretos de entregas pelas baixadas da Pedro Miranda. Reconhecemos nossas pegadas, nos caminhos sedutores que levavam às águas friinhas do igarapé do Zé, do Três Tubos. Nos descobrimos simpáticos às mesmas desobediências juvenis, como as sessões proibidas do Paraíso, ou uma errada noturna pelas esquinas boêmias da Angustura, da Lomas. Tudo escondido da mãe. Mas nossa conjugação, o nosso acerto de memória mais aprazível é aquele que nos coloca frequentando a piscina do Satélite, nas tardes distantes de uma Belém, ainda apegada à primeira légua. Cláudio é o testemunho fiel e inquestionável de que aquele ambiente molhado sacudido pelo Carimbó não é uma criação do meu cocuruto. A piscina do Satélite existiu mesmo.
Cláudio está totalmente empenhado agora, no lançamento de um livro em homenagem ao quarto centenário de Belém. A “I Antologia de Crônicas – Belém 400 anos” está no jeito. Conta com uma plêiade de escritores talentosos e que traduzem o amor pela cidade em textos encantadores e verdadeiros.
Tenho ouvido coisas que me deixam pávulo mesmo. No sarau que a gente fez no início de dezembro, Cláudio tomou a palavra, apresentou o projeto da antologia, e discorreu sobre os motivos que o levaram a pensar a crônica como forma literária de homenagear Belém. Quando acabou de falar, meus olhos estavam marejados. Muita emoção.
A crônica de final de ano é uma homenagem a este cara batalhador, competente, poeta refinado. Que me deu a honra de participar de um livro que homenageia Belém, a cidade que amo. Ao Cláudio Cardoso, desejo que o ano novo traga muita luz para a “I Antologia de Crônicas – Belém 400 anos”. Para todos nós, toda arte, saúde e paz.



sábado, 20 de dezembro de 2014

crônica da semana - corrente de natal

Corrente
Ana da dona Jucélia era dona do meu coração. Nos beijávamos beijos infantis, ao pegado das cercas de estacas ferpadas que separavam nossos quintais. Seu Paulo tinha um caderninho onde anotava os “por conta” e os “em a ver”, com letras e números garrafais. Enedina era morena de cabelo escorrido e Roseana, miss. Piroró era neguinho oxítona e danado. O mais novo de 8 irmãos. O pai, Seu Três por Nove, vendia picolé e criou os meninos, sozinho, assim, vendendo o extra e o cremoso. Chita, toda vez que caía nas garrras da policia, tinha as unhas arrancadas. Depois, posto na rua, chorava. Um homem daquele tamanho, chorava na esquina da Lomas, de dor e humilhação. Era um ladrão doce.
Maria de Jesus me ensinou o beabá. Minha fascinação. Usava shorts prafrentex e me chamava de Pequenino. “Pequenino, já fez o dever?”. Um encanto de fessora. Tomava bença dela. “Pequenino, pra que lado é a perninha do a?”. Manoel Josafá era saliente. Ficava lá atrás, fazendo coisas, pensando indecências. Todo mundo sabia. Na hora da merenda, custava a se levantar. Ivo. Ivo via a uva. E...
Dona jarina via a princesa dentro da garrafa de água benta. Nas tardes quentes de agosto, se arrumava, pintava os lábios espessos, se enfiava em colares de contas. Sobrepunha um turbante de azul bem clarinho sobre os cabelos ralos. Chamava a gente da janela, dispunha a garrafa contra a luz e descrevia uma floresta encantada, com cachoeiras, pássaros, lajedos inclinados e, lá no fundo azul, a sereia. A rainha do mar. Eu vi.
Otávio já era grande e não sabia ler. Não tinha, porém, substituto na ponta direita do Internacional da Mauriti pra ele. Não fosse ter que bater marreta na construção da Casa do Bife, pra sobreviver, seria um grande jogador de futebol. O irmão variava da cabeça e à noite perturbava a esquina boêmia da Pedro Miranda com a Angustura. Assustava as meninas que batalhavam ali pelo Shangrilá, pelo Rosa Vermelha. Tinha uma voz agressiva. Quando se esquecia de tomar o Gardenal era recomendável guardar distância dele. Roubava toca-fitas de carro e não bebia. Nunca foi preso por roubo. Por desordem sim. Era um desordeiro empedernido. Irrecuperável. Já, Demerval, não. Este, de vez em quando caía. Não de graça. Resistia. Liderava refregas. Tinha um bando. Roubava carros. O corpo era todo marcado de bala. Umas cicatrizes arredondadas enegrecidas. Era imortal. O pai, caminhoneiro.
Tarcila cresceu rápido depois que teve papeira. Aos treze anos endoidava a molecada com um corpo de entontecer, uma faceirice, um odor primitivo, uma sensualidade abrasadora. Mas não queria os meninos da rua. Um dia um carro estacionou na frente da casa dela e perdemos Tarcila para um boy da Bailique. A mãe de Tarcila era mais bonita que ela. Enviuvou três vezes, continuou bonita e virou sogra de menininho rico.

Vitório pichava muro com frases contra a ditadura. Era franzino, usava óculos fundo de garrafa. Ninguém dava nada por ele. Era um guerreiro, porém. Tinha carisma. Atraía as pessoas. Conquistava seguidores com aquele jeitinho, aquele caminhar ensimesmado, aquele ar ausente. O que todo mundo desconfiava, era que ele vivia maquinando. Queria porque queria derrubar o governo. Certo dia, apareceu para uma reunião importantíssima, acompanhado de uma loura pra lá de bonita. Mãos dadas, troca de olhares (e ele que era tão disperso, atento a ela estava a cada instante). Era Natal. Era Ana da dona Jucélia. Entrariam para a clandestinidade depois da ceia e da reunião. Quando deu meia-noite, sumiram por um buraco na cerca que separava nossos quintais e meu coração explodiu. Bummm!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Cronica remix- Bubuia

De Bubuia

A foto de capa d’ O Liberal, capturada de um cordial dia 25 de dezembro, mostrava uma garota flutuando nas águas do furo do Nazário, a rebocar uma boneca.
O furo do Nazário é um braço de rio que corta boa parte da Ilha das Onças, naquele dia, palco da campanha de Natal idealizada por um grupo de cidadãos bem intencionados.
A empreitada procurava levar a alegria do Natal às crianças ribeirinhas. Nobre atitude, mas com um tropeço grave no enredo: o direito aos presentes era, por vezes, condicionado aos mergulhos dos pequenos.
Quando o barco em que eu viajava cruzou com o do pessoal da boa ação, dei que os presentes estavam sendo jogados sem o exigido compromisso com a pontaria e, por isso, quase sempre, amerissavam. Isto fazia com que a garotada se abalasse a nado, ao encontro dos brinquedos cruzando o  banzeiro provocado pelas embarcações.
Uma cena que se repetiu de fora a fora pelos furos do Nazário, Piramanha e em outras tantas entradas de água daquelas paragens.
Naquele dia, topei com dois barcos da trupe filantrópica, eu, indo de Belém para Barcarena, eles, no sentido de Belém. E o que presenciei buliu com a validade da intenção.
O ato de deixar os brindes à deriva, tenho pra mim, não fazia parte das vontades dos organizadores, mas foi  determinante para evidenciar o caráter fluido, literalmente líquido, das relações possíveis entre os embarcados urbanos, e os outros, os ribeirinhos e, ainda, para revelar a duvidosa produtividade da tarefa (dava pena avistar, pelo caminho, de quando em quando, um pacotinho, de bubuia, sem criança para alcançá-lo).
Faço rotineiramente essa viagem que, forjada pela beleza da Ilha das Onças, deixa de ser uma viagem e vira, sempre, um agradável passeio.
Por estes dias, cruzei a ilha de novo, pelo furo, e a mim, me veio a imagem da garota emergindo com sua boneca pescada das águas, parecendo uma Iara vencida, um mito inocente, indefeso, abatido por plásticos encantamentos, dissolvido nos ácidos equívocos da benemerência.
Procurei, agora, longe dos humores natalinos, sonhos infantis pelos escaninhos da ilha, mas encontrei o arranjo utilitário dos açaizais, a funcionalidade dos matapis estrategicamente localizados, as criativas (mas impotentes) engenharias montadas contra a agressiva erosão que, implacavelmente, redesenha as margens. 

Dei que ali, são necessários mergulhos diários, não em busca de preciosidades impermeáveis, sem pontaria, largadas ao sacolejo da maré, mas em busca da sobrevivência e de um modo digno de encarar a realidade. Uma realidade diferente, especial, poucas vezes entendida, outras tantas, distorcida. Um modo de prover a vida, que longe dos sonhos estratosféricos inspirados pelo desvario consumista (aqueles sonhos relegados às veredas do aningal), está prudentemente subordinado às limitações impostas pelas margens dos rios, que, antes de serem uma provação (como, equivocadamente pensamos), são, por certo, uma bênção. 

sábado, 13 de dezembro de 2014

crônica da semana- lata de carne

Lata de carne de lata
Estávamos verdinhos em Belém. Recém chegados do Acre, trazíamos casaquinhos de lã, costumes, dizeres e perceberes praticamente incompreensíveis. Certo dia, fomos eu e minha irmã Ana Valéria, mais velha e já se desenrolando na comunicação belemense, providenciar o jantar, na taberna do ‘seu Manel’. Quando o português se aproximou do balcão e nos perguntou o que queríamos, minha irmã disparou: “uma lata de carne de lata”. Pasmo lusitano de esquina. Incompreensão e chacota. Manelis não entendeu aquela presepada. Um pleonasmo comum no Acre, desabando sobre o balcão do portuga sem muita cerimônia. “De cortar”, completou Valéria. Uma lata de carne de lata de cortar. Aí ele, tirando a intenção por um lado e dedução por outro, foi até a prateleira, pegou uma lata de carne em conserva, passou um papel de embrulho, cobrou os cabrales da conta, passou o troco, virou-se para a mulher e comentou algo como “esses indiozinhos do Acre são mesmo diferentes, ora pois, pois”. E nós demos para trás, pelas calçadas pouco iluminadas da Pedro Miranda porque mamãe já estava num pé e noutro para ajeitar o nosso de cumê.
Uma herança dos ermos da floresta, que aos poucos fomos deixando para trás, essa de comer enlatados. Perfeitamente explicada pela pesquisadora Cleusa Maria Damo Ranzi no livro “Raízes do Acre...”, que estou relendo e me assustando, me indignando com a peleja dos meus ancestrais por aquelas seringais.
“Entendia-se que o tempo consumido em caça e pesca era prejudicial à produção, prevalecendo, em conseqüência, a importação geral de alimentos...o extrator da selva, independente da fauna rica e saudável que o envolvia, era forçado a consumir conservas como ‘carne de bife, salmão, sardinhas portuguesas, queijos da Holanda, manteiga francesa’, o que era lamentável, pois a maioria dos produtos eram...prejudiciais à saúde, além de comprometer a sua qualidade nutritiva.”
O fragmento, que integra a dissertação de mestrado da pesquisadora Cleusa Ranzi (e que olha só, é gaúcha), sintetiza o perverso modelo de produção dominante no Acre, na extração da seringa, que se sustentou na exploração implacável do trabalho do seringueiro.
Esta relação de dependência gerou um fenômeno que, eu que nem sou especialista nem nada, identifico assim, de prima, como um desequilíbrio na balança comercial contra o seringueiro. Vendia um produto barato para o patrão, comprava um bem mais caro e o resultado disso era um “em a ver” sem fim. Uma dívida eterna.
Conta-se nessa fieira de domínio, que o homem da floresta não tinha gostos próprios, sensações próprias, desejos só seus. Corpo e alma estavam a serviço do látex. Um negócio, que além de malinar economicamente, trazia também a submissão ao supérfluo; o vício ao descartável. E às vezes, muita peia. Uma lembrança rala me traz meu irmão de criação subtraindo uma lata de leite condensado, dessas importadas, da prateleira, fazendo dois buraquinhos simétricos e tornando tudo de gute-gute, escondido do meu pai. Uma senhora surra levou, mesmo se reclamando de desarranjo e cólicas por conta do exagero. Papai não contou conversa. Baixou o cinto. Mas quem disse que o pequeno se emendou. Daqui pra’li era outra lata. Outra surra. Leite importado, ora.
Quando desembarcamos no galpão Mosqueiro/Soure, naquele ano que nem me lembro mais de tão distante que está na minha memória, éramos a extensão do seringueiro que não conhecia o tão indicado, hoje em dia, prato colorido. Éramos conhecidos distantes das hortaliças, dos tubérculos, dos frutos e das saladas. Nossa onda era mesmo a lata de carne de lata.


sábado, 6 de dezembro de 2014

Crônica da semana- Café Bolonha

O Porto é logo ali no Veropa
Agora tá bem mais fácil da gente ir pra Portugal. É só pegar o Jardim Europa ali na Jibóia Branca que chegamos lá rapidola....
Eita que piadinha sem graça essa, né, mas vá lá que seja, tinha que começar esta crônica de algum jeito. Fiz essa piada aqui em casa no meio da semana, peguei uma sonora vaia, de tão desenxavida que é, mas me valeu, e tanto, que a trouxe comigo para abrilhantar o sábado. E já que nem é tão descartável, a minha piada, vou usá-la como gancho para adiantar as semelhanças ou como dizemos tão graciosamente por cá, as parecências da beira da Guajará nossa de Belém com as margens requintadas do Rio Douro, na cidade do Porto em Portugal.
Em 2012, aproveitando um repente que a classe operária tava rés o paraíso, juntei meu charme, uns trocados e fui bater na Espanha. Em tudo por tudo, ficou bem mais perto e mais barato, descer na cidade do Porto e depois ir de carro para o litoral oeste da Espanha, região onde passaria minhas férias. De prima, logo na descida do avião, pautei minha passagem por aquelas plagas dando um rolé pela beira do Douro. Foi então que reparei nos traços que nos unem. A foz do rio Douro lembra, pela forma e pelo encanto, a foz do Piry, espaço que nós belemenses nos acostumamos a chamar de Ver-o-Peso. Guardadas as proporções pertinentes, o visual no encarreiramento de bares, e as ofertas de repastos estrelados por peixes e mariscos, são tentações comuns tanto na beira daqui quanto na beira de lá. Destoa da composição, porém, o calorão de Belém e nos distancia, de vera, do estuário lusitano, a ausência do bom vinho. Porto é uma cidade friinha em Julho e regada... do tinto ao branco, muito bem regada.
As semelhanças se dão, ainda, no franco congraçamento, no farto folguedo, no ir e vir dos turistas. No desce-desce dos barris do genuíno vinho do Porto, na mesma cadência que ocorrem as atracações e os desembarques das rasas de açaí da ilha das Onças.
Prestei muito reparo na arquitetura da cidade. Se eu fosse um paraense metidão e não desse trela para o desvelo do tempo, diria que o Porto tem o desenho de Belém, ali naquela orla. Mas não sou, e o tempo não me perdoaria pela indelicadeza. Ao que se torna e ao que deixa, Belém, sim, com seu casario colorido na outra  margem, com os azulejos de fachada; com casas de pé direito alto,  paredes geminadas e platibandas assinadas, Belém sim, é escritinha o traço e o jeito portuense de ser e de aparecer.
Uma parecência de destaque são os caminhos que levam à beira-rio. Ruas estreitas, de calçamento em lioz, margeadas por pequenos comércios. Movimentadas, mas nem tanto. Pelo comum, não exibem a claridade nem o alarido da beira. Há um silêncio relativo, uma sombra indefinível e surpresas boas no caminho perpendicular que leva ao rio...
Estive no Porto em Julho de 2012. Naquele final de ano, os amigos que me abrigaram por lá, vieram passar as festas aqui em Belém. Na véspera de Natal, eu os levei para bater pernas por todo o centro histórico. Viramos e mexemos por lá. Em dado momento, varamos na Ocidental do Mercado. Ao pegado do Mercado de Ferro, demos no Café Bolonha, lugarzinho diferente dos vizinhos varejista, com traços coloniais, decorado com azulejos e simpática disposição de balcão e móveis. Entramos para provar uns acepipes. Meus convidados apreciaram os sabores, mapearam o espaço, estabeleceram as relações, perceberam parecências e cravaram: “estar aqui é como estar em um restaurante do Porto”.
Não disse: Agora tá mais fácil da gente ir pra Portugal. É só pegar o Jardim Europa ali na Jibóia Branca e é rapidola que chegamos....


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

crônica remix - Michey Rouke

Salvo pelo gongo
Nos últimos anos venho me acostumando, perigosamente, com os confortos da tecnologia. Foi-não-foi me estiro na rede e fico pra lá e pra cá, de controle na mão, selecionando, voltando tudo ao começo, adiantando para um final feliz, dando uma câmera lenta (era assim que a gente chamava antes o tal de slow motion) naquela cena empolgante ou naquela seqüência mais eletrizante. Perigoso esse lance de ficar refém das comodidades que o DVD proporciona. Sinto muito, por esta minha pouca resistência, porque o que eu dou valor mesmo é no escurinho do cinema.
Gosto do clima, do ambiente climatizado, do som dolby stereo,   do gigantismo das imagens e, é certo, desta indisfarçável nostalgia que emana dos quatro cantos da sala escura.
Esta minha inclinação para a sétima arte vem lá dos idos de oitenta e poucos quando eu fazia de um tudo para entrar nas programações do Paraíso (ou numa alusão mais historicamente justa ao espaço, do “Cine Paraíso”, aquele que ostentava ao pé da telona a frase: “faça deste cinema o seu paraíso” e ao final dos dizeres exibia uma pintura pré-renascentista de Eva fazendo malabaris com a maçã e espezinhando a serpente). Desde lá, fico prestando reparo nos grandes atores, nos diretores mais geniosos, nas atrizes mais versáteis.
Dessas nuances da interpretação, acho  o caráter camaleônico dos atores, um valor dos mais impressionantes. Aquela interpretação do Robert de Niro em Touro Indomável é coisa para se perpetuar na história do cinema (também com a direção draconiana do Scorcese, interpretar um lutador que começa o filme como peso pena e termina como um obeso mal educado e desregrado era a missão única de de Niro. Perfeito. Perfeito). Para estes casos, o cinema tem reservado alguns insuperáveis talentos. Para outros...
Acho que o drama sobra para aqueles atores que têm que se superar. Para aqueles atores que ficam marcados por um personagem e que dele, não conseguem se livrar ou, se conseguem, demoram um tempão para apagar qualquer traço daquela interpretação. É clássico o caso de Sean Connery, o eterno 007 e o mais charmoso, aquele que mundeava qualquer vilã com aquele arrasador soerguimento de sobrancelha. Connery superou o estigma de Bond e reapareceu pleno, íntegro como o frei Guilherme de Baskerville em O Nome da Rosa, referendando uma brilhante carreira.
Um caso que merece destaque é o do ator Mickey Rourke. Ele arrasou nos anos 80. Mas sempre em papéis extravagantes. Restaurou a rebeldia em “O selvagem da motocicleta”, reinventou as funções do morango e do cubo de gelo em  “9 e ½ semanas de amor” nas tórridas cenas com a louríssima Kim Basinger e  fez o atormentado detetive Angel em “Coração satânico”  (com brilhante direção de Alan Parker).
Acontece que depois dessas estripulias todas, o pobre do Mickey Rourke se abalou pra fazer o papel de São Francisco, em “Francesco”. Aí rolou aquela coisa do estigma. Com aquele olhar pidão, com aquele cinismo e com aquele semblante animal, como o ator iria resistir a um papel límpido, puro de santo. E o diretor, muito amigo ainda inventou uma cena em que o pobre, tentado pela carne, se purga com uma aplicação impiedosa de um chumaço de gelo sobre as partes. Pronto, um pé pra reviver a história do gelinho com a Kim. Resultado. O homi abandonou a profissão e se meteu no boxe.

Passou um tempo sumido das telas. Soube que voltou agora com o filme "The Wrestler"  e com a cara toda remendada de boxer, arrancou aplausos no Festival de cinema  de Veneza. Dizem até que é sério candidato ao Oscar. É, podemos pensar que o Mickey Rourke foi salvo pelo gongo.

sábado, 29 de novembro de 2014

crônica da semana - maria preta

Presepadas, ziquiziras e afins
Né que dia desses eu tava num trançado danado de carimbó ali no Batuque de São Brás e num repente, num rodopio anti-horário alucinado, ascendi de banda, de banda, de banda, perdi o equilíbrio, de lado, de lado, de lado, volteei no ar porque sou rapaz, mas na aterrissagem, o santo me abandonou, pousei no falso pé  e destronquei o tornozelo. Égua da zica. Tava que tava animado, já com a mão na taça de tiozinho mais carimboleiro do pedaço e olha só, desabei. Vôte da zira. Pra lá ziquezira.
Não fiquei só, gemendo de dor na noite de carimbó, porque meus meninos estavam comigo, arrumaram gelo, um cantinho para eu me aquietar, me fizeram companhia e na hora de ir embora, me acolheram nos ombros.
E procura cartãozinho da Sociedade, na chegada em casa, e procura telefone de médico. De noitona assim. Fiquei só na minha. O povo em casa se aperreando atrás da carteira do instituto. O mocotó por acolá de inchado e o gelinho santinho, fazendo a vez dele. Quando estavam se aviando pra chamar o carro pra me levar na emergência do Centro três, eu acalmei a galera. Lembrei mulher e meninos, que fui um aguerrido centro-avante do Internacional da Mauriti e por atrevido que era, implacavelmente me via sendo caçado dentro de campo. Nos selvagens confrontos com os zagueiros, fui muitas vezes pra vala lateral do gramado. Engoli muito girino e ralei pacas o peito na piçarra. Expliquei em casa, que aquela desmentidura eu tiraria de letra. Bastaria conseguir, de manhã com a vizinha, uma medida de arnica e dois dedos de andiroba. O resto era comigo.
Foi bater e ver. No dia seguinte, fiz uma benzuntação, uma fricção que doeu que só. Vi estrelas, mas aguentei. Amarrei uma tira de pano de várias voltas no pé. E passei o final de semana na rede.
Na segunda tava inteiraço. Quer dizer, cachingando um pouquinho, mas nada que me impedisse dar aquela correndinha pra alcançar o Pedreira Lomas às 6 da manhã. Uma massagem de manutenção durante a semana, antes de dormir, e logo que a minha experiência de boleiro vingou. E o resultado foi que dois finais de semana depois, saradíssimo, eu já estava me acabando no carimbó de novo em São Brás, mas por vias das dúvidas, sem mais ascender de banda. Sem mais o rodopio anti-horário. Me contentei com o passinho miúdo e varei a noite folgando a valer.
É claro que tudo isso é mentira, né, gente. Rodopiei no carimbó? Rodopiei. Caí de banda? Caí. Dei um jeito no pé? Dei. Mas fui ao médico, bati chapa, tomei medicamento, fiz imobilização, repousei no fim de semana. As coisas não são mais como antigamente. Hoje em dia a gente tem que tratar de vera as precisões.
Estava dia desses de prosa fiada pelos corredores da vida, com meus companheiros e comentamos, exato isso. Como as coisas não são mais do jeito e forma de quando éramos moleques. Hoje em dia, por exemplo, a garotada não pega mais Maria Preta. Atualizando a zira: trata-se de uma erupção pustemada que dava geralmente na perna da gente. Começava com um pontinho avermelhado, avançava para uma bolha amarelinha quente com um olhinho preto no meio e daí para uma inflamação que dava até íngua. A mãe se aviava, esperava a bifede ficar no ponto de tensa, apanhava um espinho de laranjeira e era só um trisca pra bicha estourar. O incômodo além da dor latente era a marca que ficava. Uma cicatriz que parecia uma rosa dos ventos escurecida. Algumas pernas pareciam praças embandeiradas de tanto que as formas eram fartas. Não se vêem mais marcas de feridas nas pernas da meninada hoje em dia. Noutros tempos uma Maria Preta acabava com a carreira de miss.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Crônica remix - calma

Quando tudo pede um pouco mais de calma
O título da crônica de hoje vem da música “Paciência”, do Lenine. Mas embora os versos façam uma reflexão sobre o tempo e a relação respeitosa com tempo, seja um dos meus temas preferidos, não vou falar aqui sobre as inquietações, sobre os mistérios da nossa existência ou sobre a paciência.
Muito pelo contrário...
No caminho, enquanto a gente se apertava junto aos carros numa rua estreita da Cidade Velha, minha mulher me recomendava para ir com calma, não ralhar com ninguém, procurar resolver meu problema da melhor maneira possível e parari, parará. E eu, só no instinto: tá bom, tá bom, procurando sem sucesso uma sombrinha naquele meio dia abafado. Por dentro, ia ruminando. Havia ganhado de presente um celular simplesinho, mas dado com muito amor e carinho, no dia dos pais. Foi logo no início desta praga quando o celular ainda era um trambolho pesado e deselegante com aquele indiscreto display azul. Com cara de poucos amigos, ia me adiantando ali no sol, ouvindo um discurso que apelava para a paz e a harmonia entre os povos, ou no mínimo, para um entendimento possível entre mim e a galera da assistência técnica. A minha réplica, era sempre no automático: tá, tá bom. Deu-se que, com poucos dias de uso, o meu aparelho pifou. O display perdeu o azul e apagou. Isso não me apoquentou muito. Era fato batido pela praça que esta porqueira de display não estava dando conta e que a empresa o estava trocando sem muitos atropelos. Quando cheguei naquela loja bonita e confortável, numa das avenidas mais movimentadas do centro de Belém, sei lá, tive um pressentimento. Sabe aquela coisa que dá na gente? Tava muito fácil. Melzinho na chupeta. Peguei a senha, afundei no puff, e me aquietei, apreciando o movimento, me confortando com o ar refrigerado da loja, passando a vista numa revista de artistas famosos, olhando o vaivém da rua lá fora pelo transparente da vitrine. Mas com aquela sensação incômoda de que não era ali. Com aquela impressão de que estava bestando no lugar errado.  Quando chegou minha vez, que sentei de frente pra atendente, foi batata: não era ali. Por aí a gente tira como ficou o meu humor. Me mandaram para uma portinha, numa rua nos confins da Cidade Velha, fronteira com o arsenal de marinha. Lá eu me abalei pra assistência, piririca da vida, estoporando de calor e suando mais do que tampa de chaleira. 
Ao localizar o endereço, apressei o passo, deixei minha mulher lá pra trás exausta e apreensiva, e uma brisa tímida e quente ainda me trouxe algumas recomendações entrecortadas pelo vrummm dos carros passando rés à calçada, sobre o amor entre os povos ou coisa que o valha.  
Da feita que achei a portinha, pensei em bater a mão no balcão, dar uma pedrada no celular pra ele ir parar lá longe e ensaiei também buscar no léxico um palavrão deste tamanho em homenagem à operadora, ao fabricante do aparelho e até ao  ilustre Alexander Grahan Bell, reverentemente lembrado como litisconsorte destas aporrinhações modernas. Mas uma atendente doce e prestativa, não me deu chance para externar meus chiliquitos. Me recebeu com um sorriso deste tamanho, um ‘boa tarde’ restaurador, uma atenção comovente e uma água friinha que era uma beleza. Aplacou a minha fúria, a mocinha. Envolveu o meu celular num plastiquinho, pôs uma etiqueta com a indicação do defeito, me deu a ressalva e estimou uma previsão de quinze dias para eu passar lá e pegar meu aparelho funcionando. Deixei o trambolho lá e saí da lojinha sem reclamar de nada. Domado pela capacidade extraordinária da pequena de inspirar a paz (e olha que ela previu quinze dias para a devolução do celular, um tempo, que até eu por os pés dentro da loja, para mim era a mesma coisa que uma eternidade). 
Voltando ao Lenine: “o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência”.

sábado, 22 de novembro de 2014

crônica da semana - Ângela

Frio e chuva, casamento de ninguém
Terminado o show ela deu uma correndinha desengonçada, expressando-se mais envergonhada que sedutora. Sem roupa, atravessou o salão, luziu à minha frente um instantinho só e apagou-se nos degraus que a conduziram para o sossego do quarto, marcado por uma porta com caixilhos dourados que se desenhava no fim do corredor.
Fazia frio por aqueles dias. Vestida, ela parecia bem mais alta. E, fora a certeza da friagem chegando, agora, todo final de tarde, em outros fatos não ponho fé. As imprecisões fincam-se em campos polarizados. Estendem-se entre o rubor do desejo e a palidez do descontentamento. Vestiu-se.Voltou para o salão.
Francesa. A única comparação mais justa, a definição mais pertinente que me ocorreu foi classificá-la em malícia e elegância. Francesa. Nessa hora chovia uma chuva fina. Daquelas que quase  a gente não sente os pingos. Mas eram gotas que pegando carona no céu cinzento esfriavam a pele, eriçavam os pelos. Induziam contato. Requeriam movimentos, afagos, esquentas. Nos apertamos na parte coberta e deixamos aquele turvo nevoento para trás do muro e das dúvidas. Ficamos frente a frente. Uma bebida quente. Sem gelo. A coragem ativada. Ângela. Chamava-se Ângela. Vestido preto de mangas compridas com um cerzido sanfonado apertando na cintura. Um chapéu de abas largas sombreando um sorriso provocante que eu percebia com certa atenção e nenhum medo. Um sapato de salto quadrado, afivelado à altura do tornozelo cadenciando o balançar das pernas cruzadas. Um cigarro descaído ao lado do corpo, postura algo desdenhosa desafiando o vento gelado que vinha lá de fora. Um batom básico carmim. Não resistiria por muito tempo com aquela pose. Em Rondônia tem disso. Em pleno mês de agosto! Até uns dias atrás, o calor estava da gente correr doido. De repente, o céu baixo. As nuvens velozes quase tocando na gente. Temperatura despencando. Ela sentenciou: Amanhã nos vemos. E saiu em direção à porta dourada esfregando as mãos avidamente. Alguém a esperava. Frio e chuva. Penumbra. Descontentamento. Casamento de...
Quando voltei no outro dia, ela não estava mais lá.
Tentei reencontrá-la. Retornei várias vezes àquele local, mas ela desapareceu dali. Na última tentativa, havia um rumor, um boato que ela apareceria. Uma das meninas me deu a certeza sobre a volta da Francesa.
Cheguei cedo. Muita gente. Homens apaixonados. Garimpeiros com saquinhos de ouro conquistadores. Pais de família vestindo calça de tergal com bolso em faca. Sapatos pretos, sem sorriso no rosto. Apreensões e ansiedade. Olhos vidrados vermelhos. Uísque em copos rasos. Luzes colorindo os corpos. Fumaça. Cigarro. Homens velhos. Pigarro. Rapazotes acompanhados do pai. A primeira e intransitiva vez. A esperança de a porta de bordas douradas se abrir e ela surgir de vestido preto e chapéu de abas largas. Bêbados sonolentos caindo pelos cantos. As meninas de um lado pro outro atendendo, socorrendo, atiçado as vontades. Pratos, petiscos, cubinhos de queijo espalhados, caindo pelo chão. Piso grudento. Odores confusos. Show de dublagem. A sonoridade plástica. A lascívia, a concupiscência coletiva, desavergonhada. Libertinagem, sofreguidão. Êxtase. Tensão. Intenção. Mãos bobas. Axis e tira a mão daí, pequeno. Bolo de dinheiro amassado achando dona. Beijos babados na face. E ela não veio.
Desapontado, já alta madrugada, ocupei uma mesa na parte descoberta, próxima ao muro. A lembrança daquela pose, daquela elegância de Ângela. A minha eterna embriaguez. Era madrugada e chovia uma chuva fina, friinha de doer. E doía que só.


sábado, 15 de novembro de 2014

crônica da semana - Mariazinha

Mariazinha
Outro nome não tinha. Era só Mariazinha mesmo. Para a molecada, Dona Mariazinha. Aquela que tudo conseguia.
Ao menos três anos da minha vida, varei o Natal dentro da Escola Salesiana. Fazíamos a missa do Galo, nos estendíamos com a nossa peça de Natal e quando a gente dava fé, já era de madrugada. Uma passada rápida em casa, com a família. Uma rabanada farinhada de açúcar, um brinde com a Cereser, descanso pouco e, antes das oito, já estava de novo na Escola, para fazer o Natal dos oratorianos.
A pedagogia salesiana é pautada no lúdico. Para os discípulos de D. Bosco, uma estratégia de atrair os jovens é a evangelização ligada à diversão. Num passeio pela Escola, naqueles anos 80, a gente podia encontrar um enorme salão com mesas apropriadas para dominó, ludo, dama, xadrez, varetas...estruturas mais robustas para ping-pong, pebolim, jogo-de-botão. Na área livre, as peças mecânicas de rodopiar, a andorinha, o currupio; De balançar, a gangorra, o pula-pula. De descarregar as energias, o salesianíssimo spiribol. Mais para o interior da Escola, as quadras de futsal, vôlei, basquete, o campo de futebol, a piscina. Uma oferta vastíssima de recreação os garotos tinham ali, no oratório, domingo. Com uma condição: antes de folgarem na planada, tinham que carimbar a carteirinha na saída da missa. Ou seja, tinham que ouvir do início ao fim, a pregação do padre Lourenço.
Aí que Dona Mariazinha entrava. Um carimbo valia o ouro de Maria.
Deste o primeiro dia útil do ano, Mariazinha se abalava pelo comércio, pelas grandes casas de aviação, pelos empórios do centro, do entroncamento; pelos escaninhos do poder, pelos grandes depósitos, pelas lobrases da vida, pedindo doações.
Tudo que ela arrecadava durante o ano era arrumado no teatro da Escola no dia 24 de dezembro. Nós fazíamos a distribuição, cuidando para conferirmos valores justos a cada objeto disponível. E a natureza das doações variava de um super-mega-híper brinquedo da Estrela a uma lata de carne de desfiar.
No dia de Natal, era bonito de ver aquela ruma de coisas empilhadas pelos quatro cantos do teatro a espera de um dono. Tudo obra de Dona Mariazinha.
Não tive muito contato com ela. Poucas vezes a vi e não lembro se além de um ‘olá, como vai’, entabulei alguma prosa com ela. Era uma pessoa comedida, de poucas palavras. Tinha uma ligação fraternal fortíssima com o padre Lourenço. Assumia um compromisso, uma parceria com a Escola. Não era de muito marketing. Dedicava-se à ação. Durante o tempo que passei na Escola, Dona Mariazinha nunca faltou para os meninos.

Cada carimbo na carteirinha contava um ponto. Quantos mais pontos, maior a qualidade ou a quantidade dos presentes. A fila era organizada de forma que os primeiros a entrar serem os mais pontuados. A eles o direito de escolha. A gente orientava. Sugeria um utilitário que valia mais pontos, era caro. Um liquidificador, por exemplo, um rádio. Mas quando os moleques viam uma bola Dente-de-leite, uma Kichute, um Pocobol, endoidavam, queriam levar toda a fortuna de pontos em brinquedos. No geral, os arremates eram equilibrados, para os ricos em carimbos. A coisa ficava pensa era do meio pro fim, quando começavam a entrar os menos carimbados. Mas dava pra todo mundo. A missão de Dona Mariazinha era sempre cumprida. Vi muitos garotos voltarem para casa sem brinquedos, só com uma lata de Bordon e um pacote de macarrão número dois. Nada, nada era uma ‘intera’ para o almoço de Natal, pensava eu, do lado de cá do portão do teatro, sem certeza alguma sobre a minha felicidade natalina.

domingo, 9 de novembro de 2014

cr^nica da semana - Clara

Clara
Um desavisado se surpreenderia ao ver a alva figura num caminhar truncado, pelas estivas esculhambadas da Pedreira. Mas os moradores do alagado, não. Irmã Clara era visita desejada por uma quantidade assim de gente que se arrumava em palafitas no entorno do Centro Social Auxilium.
Fez parte, a freira alemã, do grupo que conduzia a pastoral das irmãs salesianas, no início dos anos 80. Tive o prazer de partilhar várias ações com as religiosas do Centro Auxilium. Cabe dizer que a interação não era muito fácil. Ao contrário do colégio dos padres onde as atribuições de cada um eram diversas; as coisas aconteciam, do outro lado da Alferes Costa, de um jeito bem divididinho. Lá, cada irmã com a sua causa. Irmã Lísia cuidava do semi-internato. Firmina, dos grupos de jovens, estas as freiras com quem eu tinha mais contato, principalmente irmã Lísia, que me cuidava quando eu chegava por lá cansado e na broca, me aviando um cumê e um alento embaixo do ventilador da cozinha. Mas conhecia também a irmã-educadora que dava oficinas de empunhar redes, a irmã-administradora, a irmã-diretora. Irmã Clara era a irmã-enfermeira e se algum dia, o povo da Pedreira for escolher os nossos santos domésticos, irmã Clara vai ter meu voto de prima, em caráter certo e irrevogável.
Certo é que as irmãs priorizavam a ação pastoral intramuros, assim como os padres do outro lado, adotaram a educação, como linha de evangelização. Natural então, que a freiras cuidassem mais das urgências que se mostrassem ali, em seus domínios. Instalações da escola, infra-estrutura, direção pedagógica inspirada em D. Bosco, formação cristã.
Por isso, quando um desavisado topava com irmã Clara varando as pontes da Pedreira e Sacramenta, estranhava. Não era comum ver as filhas de D. Bosco na rua. A vontade de Deus (acredito nisso), no entanto, aquela que subverte as conformidades e regras, para nosso bem e ajudando bastante para o bem de toda Santa Igreja, nos trouxe Clara, para os igapós.
Sempre acompanhada, porque a idade adicionada a compleição germânica agigantada exigiam cuidados, de uma ou duas meninas que ela mandava vir das Missões do Rio Negro, irmã Clara percorria as passagens, os chagões mais escondidos aplicando injeção, fazendo curativos, atendendo uma receita, prescrevendo um cuidado. Era incansável. Dava o expediente na escola, mas se um chamado houvesse, não contava conversa. Catava as meninas e se abalava. Muitas vezes era vista com seu hábito alvíssimo desafiando a noite para completar uma dose, adiantar um emplasto, realizar uma tapotagem num bebê catarrento.
Muito articulada com os pares europeus, Clara, naquele tempo,  conseguia com a freqüência e a quantidade suficiente, medicamentos que até hoje a sistema de saúde pública do Brasil peleja e não consegue, e se consegue, é daquela forma :falha aqui, ajeita ali, falta acolá.
Irmã Clara era a responsável, também, pelo suprimento de hóstias na celebração da Eucaristia, inspecionava o sacrário, contribuía para a sobrevivência da congregação como guardadora das sacolinhas que corriam o salão durante o ofertório, arrecadando o facultadíssimo dízimo e às vezes não entendia as novidades que nossa equipe de Liturgia inventava. Torcia o nariz, mas não ralhava não.
Chegava bem antes do início da Missa. Acendia as velas do altar, aprovava o vinho, o bordado dos guardanapos, lustrava a patena. Sentava bem na frente e toda vez que me via me chamava e dizia que tinha conhecido uma Sodré lá no alto Purus, eu lhe sorria e pensava nas pontes e palafitas do bairro. No altar,“O Senhor esteja convosco”. E a Missa começava.


sábado, 1 de novembro de 2014

crônica da semana - cipó do tarzan

Cipó do Tarzan
O local de trabalho, via de regra, é aquele ambiente frio, compenetrado. Há, porém, a variação, a conotação. Tanto do local como da natureza do trabalho...
Entrávamos na picada, num plano já um tanto varrido de tantas as vezes que a gente usava aquele caminho. Dali a alguns metros, percebíamos uma pequena inclinação no terreno. Uma suave ribanceira delineava um vale raso, que descia discreto para um leito seco e depois se erguia com a mesma delicadeza, do outro lado. Exatamente na junção das duas margens, no ponto mais fundo do vale, desenrolava-se um enorme cipó. Inteirado a um galho portentoso, o cipó desvelava-se soberano na estreita clareira que se formava no entorno da grande árvore. Pra quê! Era um pé para que a minha turma todinha, formada por pais de família, trabalhadores sérios, conservadores, dedicasse alguns momentos do dia para a prática libertária, de se balançar no cipó. Antes de pegarmos de vera, no trampo, a parada para o recreio no cipó do Tarzan, como assim o batizamos, em vôos alucinantes por sobre o talvegue, era lei.
O local de trabalho, via de regra é...Há, porém, a conotação.
E às vezes, uma impressão sobre o nosso local de trabalho, no lugar do gozo ou da curtição deixa gravada na memória um presságio. Um aviso. Um risco iminente. Uma valência, um milagre. Ou o destroçamento completo da fé estatística.
Contei, na minha lida, aproximadamente 1000 dias desbravando as matas que margeiam o Xingu. De incidentes, encontros indesejáveis, conto com pouca prosa. Uma canoa alagada, um esbarrão com uma onça mais medrosa que eu, um tropeção numa aranha braba. Um abraço de repente num espinheiro rodeado de talinhos amarelos afiados. Uma surra de carrapatos. A companhia indesejada de uma jararaca no punho da minha rede. Nada que me dê deferências de aventureiro na qualidade, muito menos de quantidade. Os sustos, se a gente for fazer um arme e efetue, espalhados pelos mil dias e poucos, resultam numa relação muito das suas sem graça de 1 caso a cada 100 dias, isso, já dando aquela exagerada. Digo, sem titubear, que o meião da selva amazônica é cantinho bem mais seguro que algumas esquinas de Belém.
Mas estas mesmíssimas picadas por onde varava todos os dias ao lado da Transamazônica e que logo na entrada nos recebiam com a folga do cipó do Tarzan, me aprontaram uma que parecia duas. Subverteram a probabilidade certa manhã.
Naquele dia, estava sem a minha equipe. Fazia um trabalho de mapeamento, algo solitário. Um companheiro apenas ia comigo como medida de segurança, e também, para trocar uma prosa, né. Demos uma balançada rápida no cipó e sumimos no trecho. Nem bem esquentamos na caminhada, meu ajudante deu o alerta. Bloqueou minha passagem por sobre um tronco caído, adiantou-se, puxou o facão da cintura, revolveu a folhagem à frente, e de lá saiu com mais de mil, uma teba duma cobra. Estava pronta pro bote. Acuada, fugiu. Cismei. Àquela hora? Nem bem começávamos nossa jornada! Mas continuei. Antes das 9 da manhã, já havíamos nos batido com mais duas cobras pelo caminho. E uma delas era deste tamanhinho, gitita que mal dava pra perceber a pele vermelha escamada. Meu acompanhante identificou: Surucucu de fogo. Veneno bastante pra derrubar cavalo só no trisca.
O susto que acontecia a intervalos de cem dias, aconteceu em menos de duas horas de trabalho. Em três exasperantes episódios. Não contei conversa. Ressabiado, suspendi a atividade do dia, me dei folga e voltei na mesma pisada para meu acampamento, não sem antes dar mais umas balangadas no cipó, pra tirar a angústia do peito... Conotações do trabalho.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Crônica remix - Juraci

Tem culpa tu, Juraci

Mas, ô coisa pra dar certo!
Depois de uma semana e pouco com uma virose que me pegou pelo gasgo, cortou e arou o meu ânimo, e me pôs às quedas, me vem o alívio. Tava mofino, mesmo. Pródigo em chiliquitos enfadonhos, hios e chios insolentes, devastadoras angústias, espirros e constipações.
Era só a noite chegar que um gogo violento me atacava, uma tosse irritante me vencia. Era um tuco-tuco de estremecer as paredes. Uma desinquietação, uma desesperança. E haja exercício fonoaudiológico: nunca na história deste país, a palavra otorrinolaringologia foi pronunciada, por mim, com tanta desenvoltura, quanto nesses dias passados, de tanto que a garganta ardia.
Ainda bem que passou. Umas furadas na poupança e umas ‘piulas’ deste tamanho me ergueram. Ah, e ainda uma trova que recebi do meu amigo poeta Antônio Juraci Siqueira. E que diz assim: “Se a mão de Deus te conduz/pouco importa aonde te leva/quem anda junto da luz/não há de temer a treva”.
É por isso que eu digo: ô, coisa pra dar certo. Palavras amigas que chegam, assim, como coincidência, feito previdência, no instantinho certo que a gente tá precisando. Uma trova que fala de luz, de certezas e confiança na estrada da vida. Não foi intencional (Juraci nem sabia que eu tava dodói). Por isso tem um valor maior. Expressa uma emanação de energia positiva facultada, um bem arbitrário. Elevou-me a moral, o poema. Foi, sem errada, um caribé de versos bem chegados que me deram sustância e me abriram a janela (e os brônquios) para o dia.
Tô na convalescença. Ainda me recuperando com cuidado e zelo. Fugindo de qualquer respingo, da mais branda friagem, mas agora com o aditivo das palavras a me estimular. Vou tornar à luz. Culpa de fármacos caríssimos e do Juraci (que me veio sem ônus).
Aí, volto com o Juraci no tempo e o encontro nos varais de poesia, no Centur; nos corredores da pensão da Cotinha; nos circuitos de fotografia, na praça Ferro de engomar e na minha silenciosa tietagem. Era fã do cara. Acompanhava as andanças dele, mas ficava sempre de longe. Naqueles tempos, já o considerava um mito, de parelha em mistérios e encantos, com o boto.
Daí, houve a Feira do Livro de 1999. Foi o ano do lançamento do meu primeiro livro “O Operário em Verso e Prosa”, em parceria com o poeta José Miguel Alves. Éramos calouros na função. Acanhados. No estande dos escritores paraenses, as estrelas mais reluzentes da nossa literatura. Dentre elas, o Juraci. Nessa ocasião, descobrimos (eu e o Miguel), a face mais detalhadamente humana do boto. A acolhida que Juraci nos deu, àquele meio ilustrado, foi de todas as maneiras, generosa. Nos tratou como gente grande. Nos intervalos das programações, sempre se achegava, batia uma bolinha com a gente. Não dava tempo para nos sentirmos deslocados, eclipsados por tantos brilhos que dali irradiavam. Ele já era o Juraci, uma das pedras angulares da Malta de Poetas folhas e Ervas, e nós não éramos ninguém. Para ele, porém, éramos colegas de ofício. Fomos abonados e ganhamos um naipe literário na Feira daquele ano. Culpa do Juraci.
Tempos depois, aproveitei um Arrastão do Pavulagem, catei o Jura da multidão e entreguei a ele uma pacotão datilografado com os originais do meu segundo livro “O Dia Mais feliz...”. O poeta fez a apresentação do livro em um texto grandioso, de uma nobreza, de uma elegância... Enriqueceu o meu livro, falou coisas tão legais que eu fiquei até meio metidão, enquanto durou a edição.
Agora, no início da semana, ele me trouxe a luz. Tô na convalescença ainda, mas com a ajuda de tão cintilantes versos, com certeza varo. Culpa do Juraci.


sábado, 25 de outubro de 2014

crônica da semana - Jennifer

O caderninho
Eu ficava só no reparo quando ela entrava no restaurante naquele calorão da plena hora do meio-dia. Dava um tempo, me entretinha forcejando a faca cega na longitudinal do bifão, e era num repente que ela irrompia no salão e me desconcentrava no ato. Apressada, passos decididos, objetivos. Pegava o prato, salteava umas porções frugais, apanhava um suco. Largava o caderninho no canto da mesa e comia em paz, sem dar muita trela pro entorno.
Aquele caderninho dava o traço da pequena. Insinuava comprometimento, dedicação. Severidade na missão. Sabia que era jornalista. Tinha minhas fontes. E eu, pra frente que era, fazia uma cena, um coquete besta, puxava um livro da sacola, falava alto sobre um assunto polêmico com meus amigos. Intentava uma atenção, uma deixa para uma prosa intelectual e tal. Mas quite, a moça nem thum pra mim. Era de uma postura, de uma seriedade quando atada estava àquele caderninho aramado.
Uma profissional de primeira linha, constatei depois. E uma amiga espetacular daquelas que, como prega meu inglês de Maiami, dão um apigrêidi na vida da gente.
Acabei me achegando. Levei aquele papo que escrevia umas coisinhas, fazia uns versos. Emparelhamos umas simpatias. Dava de noitinha e eu me largava para o cafofo dela, lugar que conjugava lar e escritório. Passávamos horas resenhando fatos, resolvendo os problemas do mundo, criticando a gramática, elogiando as estéticas populares. Detonando o proselitismo acadêmico-burguês, prevendo a chuva, o futuro. Nos demos, afinal.
Na época eu já escrevia umas prosas para consumo próprio. Mostrei algumas pra ela. Não era de fazer elogios de grátis não. Disse que meus textos poderiam agregar à linha editorial de um jornal meio empresarial, meio comunitário, de nome despretensioso, mas auto-explicável: Jornal da Vila.
Me deu uma página. Sim, porque nessa época eu era meio destrambelhado. Não tinha controle. Ia escrevendo, escrevendo. Enquanto não me doía a falangeta, eu não parava. Ela, discretamente, reclamava do tamanho da crônica, mas ia lá que fosse, fechava a página comigo dentro. De início eu datilografava o texto na minha Olivetti e aí dava pra ela passar pro computador. Depois, ela, meio assustada com um troço chamado Olivetti e preocupada com o meu alheamento do mundo moderno, decidiu por me franquear o próprio computador para que eu mesmo ‘datilografasse’ a página. Coitada. Apoquentava-se. Me dava cada carão. Também, acostumado que estava com as teclas e com os tipos travados da minha máquina da datilografia, não tinha pena do teclado. Sentava os dedos (os dois catadores de milho dos quais me valho até hoje). Chega o coitado rangia. Estranhava porque não tinha o ‘carro’ pra puxar (uma das mais clássicas operações na arte de datilografar) e me exasperava sem uma borracha ao lado pra apagar quando eu errasse uma ou outra coisinha. Gramatiqueiro ortodoxo, teimava em hifenizar as palavras quando da passagem de uma linha pra outra ignorando o alinhamento do Word. Aliás, não fazia a mínima idéia de quem era este tal de Word.
Com toda a travanca, eu ainda tinha um cachê. Todo mês eu ganhava um litro de uísque (do bom) pelos meus préstimos literários. Das páginas do Jornal da Vila nasceria o meu primeiro livro.
No Círio deste ano, estive com a jornalista. A sintaxe de outubro proporciona reencontros, agradáveis reminiscências, rigorosas e necessárias constatações: se hoje tenho mais de 400 crônicas publicadas, quatro livros editados, nove fiéis leitores e algumas premiações, devo muito, mas muito que nem sei, à jornalista Jennifer Galvão. A ela, minha gratidão.


sábado, 18 de outubro de 2014

crônica da semana - encontro marcado

Encontro marcado
O foguetório anuncia a Romaria Fluvial se adiantando lá na baía. Trânsito engarrafado. O ônibus chega na biqueira da Doca e, sem quê nem pra quê, dá uma guinada rumo não sei donde. Estávamos tão perto! Os fogos espocam alhures. O som agora está mais distante. Varamos na José Malcher. Vou perder a descida da Santa, profetizo esboçando um desespero indisfarçável. Sinal vermelho. Me bato com umas contas rápidas. Recomponho em retalhos assimétricos as fórmulas da Física. Velocidade, o estirão a ser percorrido, tempo. Atrito. Onze e pouquinho. Faço uma simulação da maré. Se estiver na vazante ainda dá tempo. A corveta vai encontrar resistência da corrente lá na desembocadura do Guamá. Éraste, em compensação quando embicar para a escadinha, vem que vem somando vetores, reconsidero. Pensando assim, botando fé na Física, não vai dar tempo. Sinal fechado. Trânsito não anda. Decido. Umbora, gente, chamo a mulher, os meninos. Peço pro motora abrir a porta e saio em desabalada carreira pelas calçadas de lióz da antiga estrada de São Jerônimo. Nem dei que estava com uma sandália de passeio e que ela, de vez em quando fugia do meu pé, indo dar lá longe e me atrasando mais ainda...
Durante muitos anos, passei o Círio longe. Em Porto Velho, Altamira, Manaus, Macapá. Embora na Amazônia a devoção seja tanta e em todos esses lugares a fé também se manifeste de forma tão ardente quanto em Belém, eu me ressentia desse distanciamento, inquietava-me a ausência, reivindicava o termo, o jeito paraense, o aconchego do lar. Requeria o clima generoso e dócil que grassa em Belém.
Eis que a Santinha olhou por mim e, há pelo menos 5 anos, a lida, os afazeres se organizaram na minha vida de tal forma que me permitem estar em casa por ocasião do Círio.
E o meu grande momento, aquele instante em que percebo melhor a devoção é exatamente a chegada da Romaria Fluvial lá na escadinha. Ali somos louvores indizíveis, emoções libertas, sintaxes fervorosas de outubro. A graça se faz em fartos cachos de manga, em sombras acolhedoras e brisas confortantes, em lágrimas doces e vozes agradecendo, em olhares de contemplação e preces. Na subida da escadinha, até o estrondoso rumor das motos é tido como se fosse delicada bênção. Há 5 anos, tenho um encontro marcado com a Santa, ali, na subida da escadinha.
Só que eu ainda estava na subida da José Malcher catando a sandália aqui e acolá, na carreira. Procurava entender a situação. O cortejo adiantou ou nós é que demoramos pra sair de casa? Estava tudo tão combinadinho. Ofegante, não desistia do encontro. Minha mulher e meus meninos, perdidos da vista, lá atrás. Tive um forte pressentimento. Chegou!
Logo adiante do palacete Bolonha, meu joelho começou a doer. Uma herança do glorioso Internacional da Mauriti. A rua se encontrava aos sábados, no quintal do Seu Preá. Era um campinho aterrado com serragem. Piso macio que permitia até um balançar ondulado nas partes mais densas e úmidas. As partidas eram disputadíssimas. Dez minutos ou um gol. Cara ou coroa em caso de empate. Pra lá migravam todos os matizes de atletas da Mauriti. Os grandes, a molecada da base, os senhores casados, os mais aquinhoados, os mais pobres. Sábado à tarde celebrávamos a diversidade no campinho de serragem. Na época, tinha um teste marcado no Paysandu. Um vizinho, que se passava pra minha bola, havia me indicado. Mas quando! Foi muito rápido. A disputa foi leal. Dei um encontrão e caí pra frente, sobre o joelho. Não senti nada. Um choque, eu acho. Uma resposta diferente do corpo. Quando levantei, não consegui mais esticar a perna. A turma fez pouco caso, afinal, era comum ali, a gente esmigalhar a cabeça do dedo, partir supercílio, ganhar uma desmentidura. Naquele sábado, no campinho de serragem do seu Preá, acabou minha carreira de jogador de futebol...E muitos anos depois, correndo ao encontro da Santa, o joelho ainda se magoa e me avisa que temos pendências a resolver.
Apesar da sandália e da dorzinha chata no joelho, cruzei a Praça da República como um bólido (diriam os narradores de futebol, aos microfones das difusoras de rádio, fosse o caso, a minha solitária peleja).
Mas foi eu bater o pé na Presidente Vargas, e a Santa passou.
Estar aqui contando essa história no jornal, para mim, já é uma graça. Havia uma vontade em mim de dizer, alguma vez, com muita alegria e gozo, que o nosso encontro naquele dia, apesar dos reveses, aconteceu. A providência desacelerou o cortejo. A Santinha parou na minha frente, parece para me ralhar: “mas tu, heim, pequeno, quase, quase”. Eu apaguei do mundo. Durante a eternidade daqueles segundos, o universo fez-se em nós dois apenas. Reverente, aceitei o puxão de orelha e fiz o mesmo dos últimos encontros. Ergui as mãos em direção a Santa e agradeci. Poderia pedir. De mil coisas, preciso. Mas não, o que me ocorre toda vez que nos encontramos, é apenas agradecer. Pelos meus meninos, pela minha companheira, pela minha família, pela sintaxe de outubro, pela maniçoba mais co’pouco, pela mãe que tive, pelos amigos que me toleram, pela brisa da baía que sopra lá embaixo no Geral, pelo meu joelho reclamão, mas inteiro. Pela minha saúde e por ser um sujeito produtivo. Agradeço pelos cachos de manga e pela graça de ter sempre o de cumê dentro de casa. Agradeço à doce Virgem Maria pela esperança que ela deposita em minhas mãos a cada Círio.

A Santa passou. Os meus meninos, minha mulher apareceram e me pegaram a chorar um choro de felicidade. Tomamos as mãos uns dos outros e descemos para a escadinha fazendo combinas e amarrando compromissos de, para o ano, não nos atrasarmos de jeito e maneira, para este abençoado encontro.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

crônica remix- mãezinha do céu

Mãezinha do céu
Caminhávamos pela calçada da Generalíssimo, no adiantado daquela noite de outubro, Regina e eu. Regina de saia plissada, sapato boneca, um fichário, com desenhos coloridos e muitos chaveiros pendurados, colado ao flanco direito do corpo, na mais perfeita tradução de aluna do Paes de Carvalho. Eu, com a minha velha bata azul-clarinha, da Escola Técnica, um inexpressivo bloquinho de papel almaço e uma Bic escrita grossa, no bolso detrás da calça. Estávamos de emendada. Direto do colégio pra’li. Jovens e militantes de grupos católicos, encerrávamos naquela hora, a nossa participação no programa que se realizava na concha acústica do CAN, e acelerávamos em direção à São Jerônimo pra pegar o Cristo. Um vento! Um vento forte assobiava ascendente e se ajeitava compacto pelo túnel de mangueiras da avenida, revolvendo minha fé.
Estalidos e quebradeiras nas alturas. Mas a vida seguia decidida, ‘severina’, naquela pisada que nos levava até à parada do ônibus. Comentávamos sobre as apresentações, comparávamos a esquete do nosso grupo de jovens com a dos outros, confirmávamos encontros para os outros dias da quadra nazarena. Repetíamos precisamente a prece criada pelos meninos moderninhos da PJ: “Ave tu que és mãe/cheia de dor/ por gerar a humanidade/ em forma de rios não navegáveis/O Senhor cuida de ti/e tu te encontras no meio do mundo/chorando pelos filhos desaparecidos/ou fortemente armados/Bendita és entre as mulheres tuas irmãs/ e bendito é o leite de teu seio (que faz o milagre de alimentar o bem futuro)/ó, mãe da criação/o teu poder torna possível o meu/te peço que me resgates/do fundo de um poço escuro/para que eu não me sinta/tão só/embora eu não seja digno/de ser levado por tuas mãos/sei que assim tu queres/amém”.
A primavera já havia chegado ali pelo meio de setembro. As mangas já começavam a aparecer. Eu sabia que os cachos  estavam carregados, mas não as maldava maduras, de cair assim, numa lufada mais afoita de ar. Proseava e caminhava deslumbrado com aquela noite especial. Encontrava com gente amiga, trombava num romeiro desatento, mirava os brinquedos estirados no chão pelos camelôs sazonais. Percebia a rua iluminar-se pelos loiros cabelos da Regina e não tinha medos, naquela noite.
Foi num segundo. Um instante mínimo, um nadinha de tempo, um momento quase que inexistente. Um barulho e uma luz (pra falar a verdade, não houve luz nenhuma. O brilho ficou por conta do sobressalto. Pra mim, aquilo foi um trovão. Um relampejo, um faiscado chocante).
O vento, tanto que deu na copa das árvores, que a manga despregou-se do cacho, atravessou o robusto trançado de galhos e espatifou-se aos meus pés. Caiu, como se fosse um impreciso meteorito, a coisa de milímetros do meu cocuruto. Com uma velocidade estonteante (por isso a luz) e uma força de afundar o chão (daí o barulho espetacular).
Fiquei estático, completamente paralisado. Demorei um tempinho pra tornar. Quando dei por mim, só tive reação para dizer “Regina da minha alma, o que foi isso?”. A Regina (que aliás se chama Regina Coeli, um nome que numa oportuna tradução do latim quer dizer ‘rainha do céu’), reduziu-se à uma perplexidade igual, ou até maior que a minha, e o máximo que conseguiu foi apontar para a manga esbandalhada no chão, com as alvas mãos trêmulas e incertas.

Passado aquele momento de extrema tensão, nos aviamos ligeiros para casa. Comigo foi a certeza de que nossa mãezinha do céu nunca nos deixa só. Sempre nos encontra, nos resgata, nos livra de todos os maus, todos os perigos (até de uma paraensíssima manga em errante queda livre). 

sábado, 4 de outubro de 2014

crônica da semana - francisco

O Santo dos pobres
Um violão Giannini Trovador. Vinte e seis exemplares do Asterix, que representavam até então, a coleção completa dos episódios criados pelos geniais franceses René Goscinny e Albert Urdezo. Um Pau de Chuva, instrumento percussivo que arremeda o som de água caindo, originário dos Andes chilenos e que comprei, numa exposição, como sendo artesanato dos Cintas-Largas. Uma caixa com muitos quadrinhos. A linhagem inteiriçada dos cartunistas paulistanos. Revista Circo. Chiclete com Banana. Geraldão. Níquel Náusea. Piratas do Tietê; De carona, a vovozinha revista MAD, já nos estertores, fazendo o contraponto; e uma pilha de PQP que mamãe mandava pra mim, todo mês. Somando no acervo, os primeiros números de O Planeta Diário e Casseta e Planeta. Noutra caixa, as aquisições capa dura, feitas junto ao Círculo do Livro e também adquiridas na livraria da, revolucionária, Rose. Sartre. Veríssimos, muitos Veríssimos e as minhas, até hoje, iluminações literárias, Zero e Feliz Ano Velho. Na mala, uns vinis ‘emprestados’ de Mercedes Sosa, Zé Geraldo, Ana Belém, Maria Betânia...e preciosas amostras de cassiterita, columbita, topázio, quartzo-dente-de-cão, quartzo rosa, uma fagulhinha, quase invisível de diamante industrial, meus quase nada de vestir, um frasco de Contouré  e...só. Esta era a minha bagagem franciscana quando embarquei em Porto velho, de volta para Belém, num dia 4 de outubro, como o de hoje. Dia de São Francisco de Assis.
Operou um milagre, o Santo dos Pobres, naquele dia. Depois de quatro anos longe, estava difícil de voltar. Uma greve poderosíssima dos aeronautas tirou do ar uma leva de aviões. Os vôos liberados eram um aqui, outro ali. Esta situação fez com que, naquela terceira vez, eu me visse deixando Porto Velho sem ninguém para me dar um tiauzinho, antes do embarque. Estava sozinho. Mas deixei estar, não queria incomodar os Borges Guimarães, a minha família rondoniense, com mais uma tentativa. Antes, nas duas incursões, toda a galera. Lencinho branco de despedida, lembrancinhas, emoções, saudades antecipadas, e, olha só, os vôos foram cancelados. No dia 4 de outubro, havia uma chance mínima, para que a viagem desse certo. A providência, um milagrezinho tinha que acontecer. Combinei com meu povo que iria sozinho, afinal, milagres não acontecem assim, na vida da gente, quando a gente bem entende. Não botei fé.
O avião que me trouxe marcaria certinho o final da greve. Desde ele, tudo voltaria ao normal. Desembarquei em Belém, já de tardinha, com a certeza da ajuda do Santo Francisco.
Sempre fui fã de São Francisco (meu filho tem Assis no nome). Isso, se não causou conflito, gerou um desconfortozinho na minha vivência dentro da igreja. Sou ex aluno salesiano. Atuei na pastoral da Sacramenta, nas comunidades de base, nos movimentos de jovens, levando a mensagem de Dom Bosco, mas não escondia a minha inclinação franciscana.

Um ser humano admirável, Francisco. Em plena idade média, num cenário irrefreável da ascensão burguesa, rebelou-se e optou pela pobreza. Talvez essa reviravolta na vida seja, realmente, o maior atrativo na historia de Francisco. E esta visão, um tanto romanceada do santo, de prima, me arrebatou. Mas depois, conhecendo mais sobre a opção de Francisco (e ajudado pelos cenários históricos dramáticos envolvendo os Fraticelli, descritos por Umberto Eco em O Nome da Rosa), tomei pé do quanto o Santo de Assis foi sábio e corajoso para superar a suntuosidade da Igreja, a soberba do clero, a ânsia dos pobres... séculos mais tarde, a greve dos aeronautas, e operar milagres. Salve, Francisco!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

crônica remix - borracha

Quinta dimensão
Eu tava aqui na ira, rolando a barra pra cima e pra baixo, no tempo e no espaço, pra ver se achava uma postagem muito bacana que apareceu no ‘Feice’, mas quite, dancei. Patetice minha. É aquela coisa: neste mundo da internet, não deixe para daqui a pouco o que se pode fazer já, já. É um universo sem freio este virtual. Deu-se, então, que alguém postou, eu gostei, não gravei e perdi. Mas tenho uma tênue lembrança e vou usar do meu charme para repassar o riquíssimo conteúdo da mensagem. Trata-se de uma pergunta: qual o destino que a borracha que a gente tá usando toma, quando caí no chão?
Algumas alternativas são apresentadas e eu me alinho com aquela que diz que a borracha some completamente, passa para uma outra dimensão, e no meu caso, acho que é a quinta, aquela mais difícil de ser intuída pela nossa vã filosofia.
É, ocorre que, agora, na modernidade, carece de lembrar aos mais jovens, que tipo de objeto utilitário era esta tal de borracha. Numa linguagem afinada com a tecnologia, eu poderia dizer que era a mesmíssima coisa que esta função aí do teclado onde está grafada a palavra ‘delete’. Tinha a mesma nobre missão de delir as bobagens que a gente escrevia ou desenhava.
Só que ao contrário da tecla do computador, que não arreda pé do nicho, a borracha era dotada de teimosia. Tinha a propriedade elástica do látex e quando caía no chão, não tinha pra ninguém. Dava uns dois quiques ainda no raio da nossa visão e depois, pluft,  escapulia pra quinta dimensão. Aí, não tinha combate. Nem São Longuinho resolvia. A gente passava horas, naquela posição que Napoleão perdeu a guerra, esfregando o nariz no chão, procurando a bichinha. E nada.
Sofri muito com esses desaparecimentos. Num dos meus trabalhos aí, por esta Amazônia de meu Deus, eu me aviava diariamente com uma ruma de mapas. Tinha que copiar, transferir, traçar, apagar...às vezes manobrava com três, quatro ao mesmo tempo, combinando informações, definindo programações. Uns sobre os outros, outros sobre uns. Em muitas e tensas ocasiões, a danadinha da borracha se enfurnava entre os vincos do papel e cedia ao descaminho. Volvia a mim somente lá pra de tardezinha, ao final do expediente, branca e inocente enquanto eu era uma pilha de desconsolo, de tanto relar o nariz pelo chão e não encontrar nada.
Perder coisas, esquecer objetos importantes em algum lugar não sei onde, quedar-se a desatinos e apagões são infortúnios que nos acompanham nesta longa estrada da vida. Não há o que temer nem envergonhar-se. Todo mundo já esqueceu um celular (sempre aquele mais caro e chique) pra nunca mais; já deixou a carteira com todos os documentos (e só documentos, porque dinheiro é raro, sabe-se) em cima do balcão de uma lanchonete; enfiou entre as páginas de um dos livros imexíveis da estante um endereço que ninguém podia saber (e são tantos os imexíveis, que ninguém jamais soube mesmo) e se desfez completamente da única pista que tinha sobre aquele ser tão amado. Quem nunca deixou uma sombrinha no banco do Pedreira Lomas?
São os mistérios da quinta dimensão. Aquela mais distante e cruel. Aquela da qual nem toda a ciência dá conta. E assim se fortalecem as lendas e as crenças. As lembranças e as desesperanças. Como agora, esta que sinto.

Mesmo depois da revolução tecnológica, ainda insisto. Hoje, no trabalho, faço minha fé nos traçados em computador. Mas não largo meu esquadro, minha régua, meu transferidor, minha escala, meu compasso e minha borracha. Só que a borracha, faz umas duas semanas que não a vejo. Tá por aí, charlando branca e inocente, pela quinta dimensão.

sábado, 27 de setembro de 2014

crônica da semana - tatu

Aquela do tatu
Da minha fase em Rondônia a área que passei mais tempo acampado foi aquela de Ariquemes (a cidade de 300 mil casos de malária). Tinha uma equipe grande. Uma peãozada diversa. Gente de tudo quanto é canto do Brasil. Aprendi coisas ali. Não fazer muitas perguntas, por exemplo. A conta foi eu me animar numa conversa com um baiano. Prosador. Gingador. Uma simpatia. Tinha uma cicatriz que cortava o lado esquerdo do rosto de fora a fora. E eu, menino besta que era, caí na leseira de perguntar a origem daquele talho. Pra quê. O camarada emburrou. Me deu uma dura naquele estilo, “essas coisas não se perguntam pra ninguém”. Rapidola que entendi a parada e mais cuidadoso fiquei com os meus repentes curiosos. Um belo domingo, tive que interromper a minha folga na vila que eu morava e correr para o acampamento. Passaram um rádio de lá dizendo que o baiano tinha tomado umas catuabas e virado cavalo do cão. Pegou um terçado de uso da equipe de topografia, amolado não! E saiu dando planada no qual pega em meio à galera. Acertou uns dois. Foi contido pelos acreanos macetudos, amarrado e jogado num pé de árvore até que a polícia foi buscá-lo. Passei a noite no acampamento e na segunda fui à delegacia negociar com o delegado a soltura dele. Quando cheguei lá, já com o termo de demissão dele assinado e com a cachorra (mala) dele arrumada, qual não foi aminha surpresa. O baiano estava no maior flozô com os investigadores. Era um quiquiqui, uma atenção. Fazia mandado, passava um café, comprava cigarro na esquina. Preso, preso, não estava. Quando foi liberado, saiu dando tiauzinho pros policiais e sumiu no trecho. Figuraça.
No rol dos transcendentes, figurava o Geléia. Era acreano. Dividíamos o barraco dos graduados. Ele era chefe de acampamento, o líder da turma e também, uma espécie de guru. De conselheiro, sábio. De noitinha juntava a turma no barraco e, à luz de velas, enveredava por filosofias, testemunhos. Tinha uma hora que rolava um transe e ele disparava frases do tipo Deus é oligirei dinun’olium vertegno. Eu, da minha rede só ficava ouvindo aquela presepada. Não dava um pio. Creditava aqueles arrebatamentos a uma herança do Daime acreano, sei lá, ao fervilhamento das idéias remanescentes de um passado de Ayahuasca e Mariri. Refeito, voltava ao mundo dos mortais contando que tinha 14 mulheres, 25 filhos e que o irmão era intendente de um lugarejo encravado nas montanhas bolivianas.
Mas o que me chamava mais atenção nos acreanos, nem eram as esquisitices do Geléia. Era o uso redundante que eles davam às consoantes alveolares /s/ e /z/. Um grupo grande de conterrâneos, tínhamos na equipe e todos revolucionavam a fonética. Três, era Treis’zi. Vocês, voceis’zi. Tempos depois, tivemos uma arrumadeira acreana, na vila, que se desesperava dizendo “meu Jesuis’zi não passei a roupa do João de Deus’zo”. Fenômenos lingüísticos riquíssimos grassavam pelos arredores de Ariquemes.

E teve aquela do tatu. Final de tarde. Os cachorros acuaram o bicho na toca. A turma foi até lá e trouxe o tatu amarrado com sisal para o barraco. Foi aquela latomia, lá pras bandas da cozinha. Colocaram o tatu sobre a mesa e ficaram especulando sobre a esperteza do animal. Alguém assegurou que ele tinha uma fraqueza nas reações se amarrado pelas orelhas. Ficava como se mundiado. Paralisadinho. Os incrédulos descartaram a possibilidade, mas uns mais afoitos resolveram testar. Desamarraram as patas do bichinho, seguraram na carapaça, e amarraram as orelhas. Soltaram. Foi um tiro só. O tatu deu um pinote e sumiu na mata. O peão que deu a idéia, claro, pegou um samba.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

crônica remix - ediício

Pra riba
Estive fazendo umas continhas aí. Classificando, distribuindo, restringindo, alargando, desconfiando, confirmando, descobrindo. Certifiquei-me, inconformado, de que não conheço ninguém que mora em edifício. Verdade. Não contabilizo um único amigo que more nas alturas. Digo, prédio mesmo, de verdade, daqueles que dá pra ver a baía lá de cima (Natália Lins, afins ou blocos geminados que permitem acesso somente  por escadas, não vale. O que conta ponto pra mim, é elevador, mesmo que seja daqueles do Jurássico, com portas pantográficas). O meu séquito limita-se ao povo que se vira ao rés-do-chão. É todo mundo habitante do térreo (alguns, é verdade, ‘terráqueos’ de esquinas chiquerérrimas tipo Doca...Quer dizer, não exatamente  Doca, e nem, absolutamente, esquinas, mas perto, perto, aquele perto que já dá pra se incomodar com o som dos carros tunados, com o chiliquitos de playboys amantes do tecnobrega baiano e com o mix de aroma floral de detergente nos fins de tarde, início de noite).
Minha turma não se animou a subir pra riba.
E antes que eu me desembeste no texto, vou tentar explicar que diabos vem a ser ‘porta pantográfica’. Bom. É um tipo de porta de elevador que a gente encontra, com muita freqüência naqueles prédios mais antigos da cidade e que tem o formato de pantógrafo.
Hum...
Se não ajudou, esta explicação, é só lembrar a última vez que a gente se dignou a responder a uma ‘notificação extrajudicial’ e teve que se dirigir a um escritório de cobrança para limpar o nome por causa daquela continha desprezível que a gente ‘esqueceu’ de pagar, do natal passado (e que virou um contão impagável). No geral estes escritórios instalam-se em salas precedidas pela sinistra (ameaçadora, imprevista, angustiante. E quem acompanhou o sobe-desce do Angel Heart, personagem vivido pelo ator Mickey Rourke em “Coração Satânico”, sabe muito bem do que estou falando) porta pantográfica.
Houve uma época em que os produtos vendidos pelos camelôs da cidade tinham pouco de eletrônico e muito de mecânico. Quem nunca comprou, numa esquina na João Alfredo um multi-utilitário Kimbar? Que era ralador, descascador e cortador, ao mesmo tempo, de frutas e legumes (que hoje seria comparado ao microprocessador, mas que na época era tudo no manual mesmo, no muque e, olha que pecado, tive a deselegância de presentear a mamãe com um desses, numa data comemorativa importante). O mesmo camelô enveredava pelos mistérios da química e vendia uma gosminha que era lambuzada no desenho (em qualquer desenho) e depois passava para o tecido (qualquer tecido), para os cadernos...funcionava como um decalque e que ficavam feinhos que só. E, este mesmo vendedor (lembro dele até hoje, porque tinha umas falhas de dente flagrantes que lhe alteravam a dicção), nos oferecia, também o pantógrafo.
O pantógrafo seria o pai do AutoCAD. É um instrumento de madeira, meio que sanfonado, que serve para alterar as dimensões de um desenho (pode torná-lo maior ou menor), ou seja, mexe com a escala da imagem. Cheguei a usá-lo, quando trabalhei nas minas de cassiterita do Amazonas. Só que aquele do camelô, só nos trazia dor de cabeça. Não traçava, muito menos modificava o tamanho, a envergadura, o volume, de nada. Tive um também (falo deste instrumento para o meus amigos da geologia, e eles, hoje com o auxílio luxuoso da tecnologia, se abrem...).
Belém, não é uma ilha. Temos o rio Guamá cercando por cá, a baía do Guajará, abraçando por lá, mas temos a 316 integrando acolá. Mas é bonita que dói, vista de cima. Sei disso, porque, com a graça do divino, pousei várias vezes pela Taba, neste berço aconchegante que me inebria. À noite, então, Belém é uma planície de luz.