domingo, 24 de novembro de 2013

crônica da semana - Andes

Mente livre
A gente se arruma todo, com antecedência, com todo o cuidado, provê e reserva. Mas na hora de viajar, a bendita da meia some. Acho que é a falta de costume. Não é coisa do meu eu, usar meia. Mas a meia sumiu. Na horinha de viajar aqui para o Peru. Sim, escrevo agora aqui da beira do Pacífico, na borda da grande cordilheira. Pois é, na horinha de ‘se aprontar’ e ir para o aeroporto, dei pela falta da meia. Tive que emprestar, rapidola, uma do meu filho (a outra perdida também era dele, porque eu mesmo, não tenho meia própria). Acontece que a que ele me arrumou era bem grossa, com um sanfonado tenso. Resultado: o que essa bicha me apertou na viagem, não foi brincadeira. Me tirou do sério. A primeira coisa que fiz, quando desci na conexão em São Paulo, foi tirar a meia. Não poderia, de jeito e maneira cruzar a cordilheira dos Andes, com os pés atrapalhando minha lucidez. Precisava, para contemplar melhor tanta beleza, estar bem comigo mesmo. Precisava da mente livre.
Foi o momento mais bonito da viagem. Desde que soube que viria para Lima, fiquei ansioso. A idéia de ver de perto uma das mais belas paisagens da Terra, me deixou num pé e n’outro de excitado e feliz. Uma noite sem dormir nada, os olhos ardendo e o embarque em São Paulo. Natural seria, logo ao entrar no avião, cair no sono. Mas quando! Não preguei o olho. Tinha garantido meu lugar na janela e não ia desapregar de lá até que vislumbrasse as cimeiras do mundo.
Sou fascinado pelas montanhas. Já escrevi aqui da admiração que tenho pelas aventuras dos alpinistas, e até declarei que se me houvesse mais um pulmão, arriscaria uma escalada num monte (modesto em altitude, porque não tenho esse pique todo, mas famoso, com nevinha nas ombreiras e cimos aplainados). Reconheço nas montanhas uma ânsia babilônica do planeta. Elas refletem a energia dos interiores pulsantes da Terra quando se rebelam, quando transgridem. Quando vencem as pressões e migram aos céus. As montanhas nos levam para bem pertinho de Deus.
E essa força incontida, esse impulso criador é a Terra viva nos Andes. É a nossa casa dobrando-se, vincando-se, elevando-se. É a fúria abissal reformando e rejuvenescendo a tez do planeta.
De São Paulo até Lima, atravessamos o Brasil. Cinco horas de viagem e uma diversidade de cenários que ajuda a espantar o sono. O sentido do vôo é meio enviesado, meio noroeste. Neste trajeto a gente vê todo o retalhamento agrícola do centro-oeste com fazendas enormes, traçados retos e coloridos. Floresta nenhuma; mata ciliar, apenas um reguinho. Estes são os sertões dominados do Brasil. Adiante, uma amostra do Pantanal. Uma planura alagada, aqui acolá uma fazenda e uma textura de solo  breado, melado.
Logo a frente um colorido verde e discretas elevações anunciam a cordilheira. Atenção. Muita atenção. Um momento de muita satisfação para qualquer cristão, que dirá para mim, apaixonado confesso. Fissuras, rasgos, encostas íngremes, rios retinhos e estreitinhos. A vegetação vai rareando até que a superfície vai ganhando cores mais estáveis, constantes, um prateado com marrons, vermelhos suaves. Um frio no cocuruto, um batucado no coração e os picos. Formas múltiplas agudizadas, arrogantes, seios de neve. Declives radicais. Rios de neve. Chega dá um arrepio de tão belos que são os desenhos que a natureza faz nas rochas. Depois dos picos, aquele relevo que sempre a gente ouviu falar e que agora se mostra de vera: o altiplano. Vilarejos, pequenas cidades, mineração, barragens. Somos nós, os homens, dominando as alturas. Na sequência um suave rebaixamento, Lima e o Pacífico. Demais!

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