segunda-feira, 30 de setembro de 2013

crônica remix- melhor assim

Sexo, mentira e vídeo teipe
Hoje o céu está fechado.  Há chuva fina molhando o dia.
Ele acha que é feliz. Sente o gosto adocicado de uma paixão antiga, ouvindo o som perolado de Miles Davis. Valorizando, apostando na felicidade de saber que o caso já está resolvido...Está na paz, olhando a chuva pela janela. Mas um dia já sofreu tanto...
Ela era da turma. Eram estudantes de Geologia, na UFPA. Descobridores, conquistadores. Destemidos. Estavam pro que der e vier, como se diz. Abertos para o mundo e livres das inquietudes chatíssimas dos adultos caretas.
Aniversário de Belém. O Espaço Cultural de São Braz estava sendo reinaugurado naquele dia. Na pauta, o Manga Verde. Imperdível. A turma da UFPA,  mobilizadíssima para logo mais à noite.
Mais tarde, muito samba rolando. Um sucesso poderoso do Gonzaguinha: “Com a perna no mundo”. A música já fazia parte da sua história. Ouviu pela primeira vez a canção, no programa A Feira do Som, do Edir e Edgar Augusto. Depois conseguiu o disco com um amigo do tempo da Escola Técnica. Adorava o verso “Pegou um sonho e partiu...”.
O Manga Verde botando pra chulear. Ela percebe a abstração em seus olhos e se aproxima acariciando-lhe a face fraternalmente. Instintivamente, abraçam-se (e eu nem posso afirmar que esses abraços, à época, não tinham um quê de ensaio, de dolo). E no calor da hora, beijam-se convulsivamente, violentamente.
Agora, concentrado nas gotas da chuva, sorvendo a paz dos tons e semitons de Miles Daves, equilibrado, sarado por completo, também tem dúvida sobre a espontaneidade daquele momento.
Mas não era sempre assim? Não estavam ali para chocar, para chamar a atenção dos burgueses moralistas? Para libertar o tesão? Para beijar de amor, de brincadeira, de paixão? Revolução. Gonzaguinha...Com a perna no mundo.
Naquela noite, amaram-se desesperadamente. Uma noite de carinhos, de prazeres, de suores nunca dantes navegados. Na casa daquela amiga mais velha que morava sozinha e era legal pra caramba. No tapete da sala, com a geladeira zunindo indiscreta, no quadrado contíguo. Noite clara de lua. Toda nua. Noite clara de amor. Toda flor. Noite clara desejo. Toda beijo. Noite clara licores, sabores, odores...
Da janela, ele se deixa levar por aquelas boas lembranças e uma lágrima, autônoma, responde insubordinadamente, o reviver daquele momento.
Dias depois, recebeu pelo correio um envelope delicado. Sem paciência, rasgou as bordas e descobriu na seda ingrata o sofrimento em inglês: “our friendship is more than a friendship, but just a friendship”.
Dias depois, todos reunidos, no bar do Ciro, em Nazaré. Ela toda fogosa, de beijos e abraços com um garoto ali da turma. Ele procurando manter a naturalidade. Investiu-se de um personagem durão, inabalável. Bebia alegremente. Contava piadas de sua lavra. Falava com todos da mesa (inclusive com ela), sobre qualquer assunto (inclusive sobre paixões e romances famosos). Era o mais animado do grupo. Olhava, com um olhar vivo, para todos, mas não via ninguém. Mas por dentro morria de raiva e de paixão. Por dentro desabava em prantos. E desespero. Maldita, mil vezes maldita! Feriste a minha alma. Ai, abatido coração, como és infeliz! A minha amada abriga-se em outros braços, beija lábios que não são os meus. Oh, mil vezes maldita! Por que não morres? Por que não sobes para o céu, só minha, só minha? Amor, amor. Mil vezes maldita!
Tomou um porre daqueles e saiu carregado do bar.
Hoje, da janela, curtindo a chuva fina, ele admite o bom de não amar ninguém (e eu poderia dizer que este bom, também dói). Melhor assim...Já sofreu tanto...

domingo, 29 de setembro de 2013

crônica remix - carnaval

E põe magia nisso
Não foi à toa que a Unidos da Tijuca foi campeã do carnaval. A Escola arrasou demonstrando que a mulher é capaz de executar a proeza de mudar de roupa em uns poucos segundos.
Animava-se em mim, um fio de esperança quando, a um piscar de olhos, as bailarinas trocavam os modelitos à frente da Escola e despontavam para o mundo, imediatas e gentis.
Só na cabeça do Paulo Barros e nas raias insondáveis da fantasia foi possível tal bênção. Só mesmo protegida pelos argumentos da magia é que se pôde sugerir tamanha graça se consumar. Porque aqui em casa...
No domingão, é um pé pra acontecer d’eu ficar tiririca com  ‘las linãs’ da minha vida. Mesmo que a gente combine tudinho, sempre emperra.
Destaco o domingo, porque é um dia relaxado, dia de ‘no stress’. Tem a praça da República, a feirinha de artesanato, um show no anfiteatro, água de  coco, Bar do Parque, almoço diferente...
A gente até que se avia logo, eu e o menino. Coloco a minha farda de domingo (uma camisa, uma bermuda e uma ‘percata’, conjuntinho renovável impreterivelmente a cada liquidação de janeiro). Passo rapidola o pente no cocuruto (sabe, vejo que sou um dos poucos a dar ibope àquele pente vendido ali na beirada do Ver-O-Peso, de plástico azul-bem-clarinho-que-dobra-chega-faz-curva- quando-arrastado- sobre- o- cabelo e que nem Flamengo é) e já tô pronto. O filho, nem pente usa, é da turma dos desgrenhados. Dispensamos o café e aguardamos lá na frente, num pé e noutro.
Mas as duas...
A mulher, pisa, pisa, abre gaveta, fecha gaveta, sobe, desce, sai pra fora, entra pra dentro e não tá nem aí para os vícios da linguagem ou do adorável gênero. Reclama com a menina, diz ‘já vou’, quando grito ‘umbora que já vai dar dez horas’, lá da frente. Procura o maldito par daquela sandalinha rosa, constrói estilo, pinta uma idéia, desfaz tudo ‘que estava até bonito’ segundo a minha opinião lá de longe; resmunga alguma coisa e afirma taxativa, que não entendo nada. Nessa hora faço uma incursão ao front para ver como estão as coisas. E fico passado.
A filha pega uma escova e fica, fica, dizque penteando o cabelo (sempre acho que o que ela faz é continuar um soninho deselegantemente interrompido), quando torna, abre gaveta, fecha...diverge da a mãe e me desmonta com um olhar ameaçador. Vou-me embora de novo lembrando que ‘se tiver rolando algum show lá na praça, a essa hora, já está no finzinho’.
Passo na cozinha e pego um bico de pão com café, porque ninguém é de ferro e procuro termo.
Quando enfim, está todo mundo etiquetado, e já no rumo da diversão, volta tudo. Cadê as carteirinhas da meia-passagem. Ninguém sabe aonde deixou e a casa é posta abaixo. No vácuo, a menina encasqueta com aquele shortinho bacaninha e opta por uma saia balonê (que eu, na minha ignorância, acho cafonérrima), mas segundo a mãe, ‘deixa, deixa, é coisa da idade’. Estranho, as duas usam um batom acetinado, sem cor.
Saímos na batida da campa. Da minha programação só acho possível o Bar do Parque e um almoço logo na sequência (porque os filhos na largada anunciam que estão com fome. Dou uma bronca dizendo que a culpa é deles, porque eu já estava pronto desde que tempo e a gente poderia ter aproveitado que acordamos nove horas da madrugada, para tomar um café reforçado lá na feira da Pedreira, mas agora não dá mais, e pôxa, o domingo já está indo). Dali até á praça, como houvéssemos comido abiu, ninguém fala mais nada. No stressssss.
Animava-se em mim, um fio de esperança quando, a um piscar de olhos, as bailarinas trocavam os modelitos e despontavam imediatas. Mas quite, pura magia. E põe magia nisso.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

crônica remix - TCC

Teretetê sobre Tê cê cê
Esses dias apareceu aqui em casa uma estudante do curso de Letras da UFPA de Abaetetuba. Veio me dizer do interesse que tem em fazer o seu TCC sobre a minha produção literária. Disse que me acompanha aqui na coluna já há algum tempo e que tinha vontade de me conhecer pessoalmente. Achou a minha casa se batendo aqui pela Vila dos Cabanos, perguntando, indagando, seguindo algumas pistas. A pequena varou na minha porta mais suada que tampa de chaleira e cansada às pampas da pernada, mas alinhavamos um bom papo.
(Tudo mentira! Só para criar um clima).
Na verdade, a estudante é a minha amiga Elielma Monteiro, que foi secretária do Sindicato dos Químicos na época em que eu me batia por lá como dublê de sindicalista. Nos conhecemos há pelo menos uns oito anos, freqüenta regularmente a minha casa e conhece o meu trabalho desde há muito, inclusive a produção que tenho de poesias. Tem o acervo completo na casa dela, de todas as minhas obras editadas e ainda algumas produções artesanais. Ah, e a Elielminha (somos íntimos), não é de tá se consumindo a pé por aí, é chique que só ela, charlando de moto pelos caminhos da Vila.
O resto é verdade.
Embora não me ache ‘merecendente’, me sinto lisonjeado em saber que o mundo acadêmico se interessou pela minha obra. Elielminha me explica que o eixo da pesquisa é a linguagem popular que utilizo, as variações semânticas, as interfaces eruditas e parari, parará...Coisas que entendo pouco.
Quis saber como é o meu processo de criação, de onde arrumo subsídios gramaticais, estilísticos, inspiração para construir os textos, se sou formado em isso, aquilo ou aquil’outro (é sempre assim, toda vez que alguém me inquire sobre este meu pendor literário, rola esta pergunta sobre a minha formação).
Dei a letra à estudante de Letras: quanto ao processo de criação, depende. Acho que parte se deve a um pouquinho de talento que tenho, um outro tanto, ao estudo e à pesquisa e uma outra dose, ainda, (and rock, diga-se), a um uisquinho que tenho ali guardado para os momentos de pouca inspiração. Alertei a jovem graduanda que não sou formado em Letras ou áreas afins, mas, em compensação, fiz o curso de Comunicação Oral e Escrita (mini-curso, dir-se-ia hoje) com a professora Cleide, na Escola Jarbas Passarinho, em 1977.
Acho que esta é a minha mais preciosa formação. Tenho até hoje, guardado, o certificado deste curso. O curso, ministrado pela professora Cleide, é tão relevante para mim, que, foi-não-foi, entra no meu currículo quando este é exigido para concursos de literatura ou para eventos culturais.
Então, o modesto acervo de bons modos que utilizo na minha escrita, tem, entre outras fontes, aquele curso com a professora Cleide. Foi um curso rápido, durou uma semana e foi promovido pelo Senac (que coisa interessante, né? Senac...). A dinâmica adotada pela professora foi a de explorar traços da língua apartando-os dos manuais gramaticais. Isso tornou as nossas aulas bastante atraentes: os mistérios dos porquês foram desvendados sem dor. A dúvida aonde/onde, foi dirimida cautelosamente (mas o sucesso, admito, foi só naquele dia. Até hoje me aperreio ao escolher um ou outro. Por mais que eu tente, para onde corro, sempre erro). Pormenores estilísticos me foram simpaticamente apresentados.

Espero que este teretetê que tive com a doce Elielminha lhe seja útil no TCC, mas o bacana mesmo, foi lembrar do meu curso de Comunicação Oral e Escrita promovido pelo Senac e ministrado pela professora Cleide, quando eu estava na 7ª série... E que até hoje me vale.

sábado, 21 de setembro de 2013

crônica da semana - a carta

A carta

Dia desses, recebi uma carta. Uma carta de verdade, escrita com cursivas habilmente traçadas, datada, subscrita e envelopada em envelope colorido e com gravura personalizada mimosíssima. Trazia palavras doces de carinho e de admiração pelas prosas que escrevo aqui no jornal. 
(Nessa minha vida cheia de desatinos e de débeis atenções. Uma horinha que me concentrei foi para colecionar coisas. Sempre fui dado a colecionar. Desde os tempos de menino. Pedrinhas, coquinhos, caixas de fósforo. Carteiras de cigarro, dinheiros antigos, figurinhas...
Uma fase que me vem agora na memória foi, quando mais taludinho, me danei a colecionar revistas. Como trabalhava na feira, não era muito difícil. Fazia rolo. Trocava, vendia, comprava. Era virado, me dava com a galera. No escapole-deixa das manhãs no mercado da Pedreira, sempre saía no ganho.
Uma das minhas mais valiosas coleções era a da Revista MAD. Ainda não pensei direito sobre a influência desta revista na minha vida...Mas era uma publicação diferente, escrachada, com traços ousados, um deboche aceso, piniquento. Tinha um ligeiro atropelo ideológico por causa da origem americana da edição...uma horinha dessas avalio este detalhe. 
Flertei também com os quadrinhos Hanna Barbera, tinha uma montanha deste tamanho de “Heróis da TV” em casa. Morri de amores pelos Herculóides, até topar com a “Chiclete com Banana”. Aí trairei feio, abandonei de imediato minhas prendas americanas e passei a cortejar os cartunistas da vanguarda paulistana. E até quando encontrei nas bancas, me alinhei aos traços de Laerte, Glauco Villas Boas, Angeli... Algumas tiragens clássicas e oportunos remixes ainda estão ali, guardadinhos à canforina, para o deleite de Flit, a barata doidona do Fernando Gonsales.
Tenho ainda uma luta diuturna aqui em casa para garantir a integridade da ruma de cartas que tenho guardada - porque minha mulher tá na ira para jogá-las fora, todas. Eu não deixo. Datam da época em que formei na Escola Técnica e passei a viajar pelos ermos amazônicos. O feixe mais legal de cartas que tenho, é aquele que escrevi pra mim mesmo. Foi assim: trocava correspondência com meu melhor amigo. Era mina de cartas todo mês. Escrevíamos que só. Falávamos sobre tudo. Os assuntos varavam aos montes. Eis que, depois de um tempo, quando voltei para Belém, bateu a curiosidade de saber o que escrevíamos ao longo dos anos de separação, então, combinamos e ‘destrocamos’ as cartas. Eu passei pra ele as que ele tinha me enviado e ele me retornou as minhas. Estas, estão ali, agasalhadinhas, protegidas, protegendo meus murmúrios de saudade e meus segredinhos que só, o hoje,  meu compadre sabe.
Não me desfaço das minhas cartas porque acho esta forma de se comunicar, uma das mais sinceras. Encerram sempre pareceres ajuizados, termos da mente e do coração que dificilmente revelaríamos assim no téti-a-téti - até revelaríamos, mas aí consumiria rubores, suores, tergiversações, sabe como é que é, né, a verdade demanda ensejos, ensaios. A carta não, a carta é nua e crua).
E ainda bem que este modelo de interação, esta conversa à distância, ainda persiste apesar dos avanços tecnológicos.
A mim me causou uma enorme felicidade receber uma opinião, desse jeitinho, por carta, e ainda mais sendo a inspirada remetente uma jovem que ainda nem completou 18 anos. Esta atenção mostra que minha prosa que no geral é memorialista, usa termos da antiga, e coisa e tal, ao mesmo tempo é suportada por uma energia que consegue sensibilizar os jovens. Que bom isso. Uma carta que me emocionou. Vai, obviamente, enriquecer a minha coleção. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

crônica remix - o pêndulo de

De perto ninguém é
Este ano comemora-se o Ano Internacional da Astronomia. Muita gente dá de ombros quando sabe disso. Afinal, é normal achar que essas coisas do céu têm mais a ver com uns incorrigíveis tantãs.
Nem tanto.
Esta comemoração baseia-se nos 400 anos da invenção do telescópio (ou da adaptação deste instrumento por Galileu).
Com a utilização do telescópio, Galileu pôde observar outros planetas e conseguiu perceber o movimento de pequenos astros em volta de Júpiter. Uma grande descoberta. Com aquela visão, Galileu balançou as estruturas medievais, as certezas imutáveis defendidas pela igreja. Ali, havia um testemunho claro de que nem tudo girava em torno da Terra (as luas de Júpiter giravam em torno de Júpiter). A Terra não era, então, o centro do universo. Aí já viu, né. Foi aquele quiproquó. Um para pra acertar que levou Galileu às barras da Inquisição.
A importância do telescópio, porém, vai além da simples observação do céu noturno. O telescópio inaugurou um momento histórico em que o homem se utiliza de intermediários tecnológicos para entender melhor o mundo. É a partir da utilização do telescópio (quando a gente começa a ver o infinitamente grande) que o mundo dos sentidos começa a ser questionado mais severamente. Começamos a desconfiar, a partir daí, que há cores, sons, texturas, sabores, odores que existem, nos rodeiam, mas não os conseguimos perceber somente com os sentidos. Desde então, o homem entendeu que para se integrar a este mundo que vai além das sensações, deveria admitir a necessidade de mediações, de instrumentos capacitados não só para localizar os fenômenos, mas também para medi-los (e o termômetro que usamos para medir a febrinha dos nossos filhinhos nos é revelador da validade deste entendimento).
Essa coisa de ultrapassar os sentidos me encanta. Não fosse por esta ousadia de Galileu, até hoje o sol estaria girando em torno da Terra. Uma questão deveras grandiosa porque, sem dúvida, é muito difícil de ser comprovada.
A teoria do heliocentrismo, aquela que diz que a Terra gira em torno do sol, não é propriedade de Galileu. Vem dos gregos, de Copérnico, Kepler e deu fogueira pra muita gente. Tinha indícios de verdade, mas demorou para ser confirmada (foi demonstrada apenas em 1851 por Jean Bernard Léon Foucault, com o famoso pêndulo). Sabe por quê? Porque subordina-se, inevitavelmente, a que os olhos vêem.
Todos os dias de manhã, o que vemos é o sol nascer no horizonte leste e depois, caminhar (andar, mover-se) obediente pelo céu até desaparecer no horizonte oeste. É isso que os nossos sentidos nos dizem. Se a gente for ver direitinho, não há como pensar o contrário. Pode reparar, fazer o teste. Difícil fugir desta sugestão, né? Por isso é que Galileu, que não era besta nem nada, abjurou. Não tinha como provar o heliocentrismo.
Às vezes, eu amanheço os dias vivendo o século 17. Olho o nascente e admito a Terra como sendo o centro de tudo. Não muda muita coisa, não. A vida segue normalmente, com as vérsias e as controvérsias rotineiras. O meu suor escorre do mesmo jeitinho nas lidas operárias e a minha conta bancária não se bandeia para o lado direito da reta real (muito pelo contrário: insiste em pertencer, em estar contida no conjunto dos números inteiros não positivos). Mas, no correr da luta, reconsidero. Ao anoitecer, apanho o meu telescópio, que vive encostado ali no canto, esperando um sinal dos céus e miro o infinito neste milênio cheio de surpresas e decisões.
Por estas lentes companheiras, ‘minhas retinas tão fatigadas’ têm esperanças de, um dia, descobrir outras e maravilhosas luas.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

crônica da sema - literatus

Drenus Literatus (a Augusto dos Anjos)
Semana passada quase que não rola a crônica aqui para o Bom Dia. Por dias, me vi de dor com uma nascida (que nasceu) aqui na minha costa. Começou com uma coceirinha, esquentou, avermelhou. Depois, égua-te, Como sofri! A irritação virou uma bifede poderosa que dava uma dor, mas uma dor tão grande que, da costa vinha descendo, se espalhando, chega refletia aqui na frente, em toda esta parte do peito.
Até eu perceber que a coisa tava séria, a bicha já tinha me consumido os ânimos. Aí arriei. Fiquei mofino, mas não fui ao médico, com medo d’ele me alvejar com uma penicilina no glúteo.
Preferi o inofensivo sebo de holanda...
Não deu resultado.
E a pinicação cada vez mais forte. A coisa latejando, ardendo, doendo. Decidi radicalizar e mandei ver na folha de pimenta.
Foi a minha derrota.
A pimenteira me derrubou. Até febre me deu. Aquela febre por dentro, sabe?
No dia seguinte, me recolhi à humildade e mais que depressa, corri, resignado, ao médico.
(Tá bom, tá bom, a sabedoria popular é importante. Os tratamentos caseiros têm o seu valor. Mas nós temos que estar atentos aos sinais. Se a coisa não está dando certo. Temos que ir atrás das melhoras).
Resultado: saí do ar por quatro dias.
Confesso que estava desacostumado com essas erupções (vai longe o tempo das marias-pretas), daí, logo de início, admiti ser aquilo, uma nascida. Nascida é uma definição legal para essas inflamações. Genérica. Descompromissada. Coisa passageira riscada da pele, sem maiores empenhos, com uma ou duas aplicações noturnas de sebo de holanda.
A coisa ganhou outra dimensão quando me disseram tratar-se de um furúnculo. Pô, aí ficou mais sério. Até Marx sofreu de infestações de furúnculo. O filósofo escreveu O Capital todinho se ardendo com os nódulos pustemados. Eu, como não tenho as pretensões de Marx, não escrevi nada. Tomei a decisão revolucionária, porém, de submeter aquele nozinho a uma noite de folha de pimenteira.
Deveria, como Marx, ter recorrido logo à ciência. Se eu tivesse procurado um médico no início, não teria sofrido tanto (não teria passado por tantas sessões de tortura impetradas por incautos amigos que, cegos na certeza de que ‘fazendo assim, ó, espremendo assim, ó’, achavam que logo, logo, dali, sairia um obediente carnegão). Ai, meu Deus, só de lembrar me dói toda esta parte...
Ainda bem que fui atendido por um médico que já conhece o meu limiar de dor (que, aliás, é baixíssimo), um entendedor das sensibilidades do operariado do pólo industrial de Barcarena.
Pelas precisas e serenas mãos do médico, me submeti ao procedimento de drenagem no local. Um momento que, da mesma forma que os outros, poderia ser doloroso, torturante, não fosse o médico, um literato.
Ao mesmo tempo em que manipulava os instrumentos cirúrgicos, no procedimento, o médico provia a cena com inquietantes, mas apropriados versos...
E, resoluto, enquanto concentrado cavucava a minha costa, recitava: “Tome, Dr., esta tesoura e... corte/Minha singularíssima pessoa/Que importa a mim que a bicharia roa/Todo o meu coração depois da morte?!/Ah! Um urubu pousou na minha sorte!/Também, das diatomáceas da lagoa/A criptógama cápsula se esbroa/Ao contrato de bronca destra forte!/Dissolva-se, portanto, minha vida/Igualmente a uma célula caída/Na aberração de um óvulo infecundo/Mas o agregado abstrato das saudades/Fique batendo nas perpétuas grades/Do último verso que eu fizer no mundo!

Uma cena alucinante! Coisa para filme de Coppola.  Naquela hora, sob os versos de Augusto dos Anjos, não senti dor. 

domingo, 15 de setembro de 2013

crônica remix - carta

Escreva uma carta, meu amor
Tava a fim de um teretetê de pé de ouvido com uma amiga. Umas informações, umas fofocas, uns lamentos. Anunciei a intenção por telefone. Ela de prima sugeriu: “porque não contas por carta? Acho tão legal receber carta. Tão respeitoso. Me sinto importante. Encontrável. Divago até mesmo em rasantes filosóficos. Ora, eu recebo cartas, logo, eu existo.”
Reconheço que existam pessoas especiais que mereçam efemérides personalizadas, datadas, e carimbadas, escritas em papel leve e macio. Eu acho muito bacana, também, receber cartas.
Acontece que para quem escreve, do cabeçalho até o carimbo do correio, a epístola é uma aventura voluntariosa. Remeter uma carta é uma intenção cega, surda e muda, concebendo momentos de realizações nobres como rabiscar um papel.
É de bom tom, que a carta seja escrita a mão. Assim a gente é reconhecido. A letra de próprio punho é a nossa identidade. O nosso estado de espírito. Exprime a nossa saudade nos parágrafos iniciais, quando a tinta desliza singela sobre a seda disponível. Nos parágrafos intermediários, é ansiosa e cambaleante revelando incertezas e pecados na coordenação motora. No final das contas, a tinta é um borrão só decifrável com preciosa boa vontade, dizendo do nosso cansaço e do desejo de desabar na cama. Enfim, uma carta escrita a mão, como deve ser, nos traz do passado o nome da palavra escrita e um adjetivo realista para ela: a minha caligrafia é tão feia (ou numa versão ginasiana, “égua do garrancho, moleque”).
Não tem problema. O que interessa é que a amiga receba umas linhas, no caso, umas mal traçadas linhas. E a gente se adianta na missiva. E ponto final, acabou o mingau. A gente data e assina. Mas o sofrimento só está começando.
O envelope eu sei, eu sei. A gente tem certeza que tem um envelope guardado por aí exatamente para essas ocasiões. Ali, na gaveta. Numa daquelas pastas em cima do guarda-roupa. No armário, pr’os meninos não pegarem? É fatal, a gente sabe que tem um envelope em casa, mas quando precisa, nunca acha. No quinto dia de buscas, a gente desiste, e num misto de revolta e preguiça, vai até a papelaria e compra uns dez envelopes. Um, para o uso imediato. Os outros, desaparecerão, por certo.
A carta está pronta. Novidades mis. Fofocas desconcertantes, lamentos consoláveis. Envelopada e cola... Não, a gente não organiza mais brigada de buscas nenhuma em favor da cola. Vai até a cozinha, avança na panela de arroz, esmigalha uns quantos grãos entre os dedos nervosos e com aquela massa do cereal recém cozido, lambregalha as bordas do envelope. Pronto, está colada.
Monta na bike e se manda para o correio. Caramba! Não sei o que acontece, mas por mais tarde que a gente chegue, pela manhã, a agência ainda não abriu, ou por mais cedo que a gente vá, à tarde, a agência já fechou. O horário deles nunca combina com o da gente. E tanta coisa pra cuidar! Enfim, a gente faz campana e consegue conciliar um instantinho. O moço pesa a nossa carta tão levinha e anuncia o preço. A gente estica o Real até ele, e ele fulminante denuncia a falta de troco. Ah! Que vontade de brigar, de evocar o nosso direito de consumidor, mas que nada, não podemos perder esta chance, o lugar na fila, olha o horário! A gente cata as moedinhas. E ufa! Despacha a carta.
A amiga, a partir daquele momento, já pode esperar o carteiro chegar e gritar o seu nome, do portão e mesmo sabendo “quanta verdade tristonha ou mentira risonha, uma carta nos traz”, verá no subscrito a minha caligrafia e se entusiasmará com meu esforço em chegar até ali.
Mas aí, ainda tem aquele lance de extravio, né.


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

crônica da semana - neguinha II

Eu sou neguinha II (Ciranda)*
Eu sempre fui comunista. Certa vez, em meio a uma acirrada luta por uma sociedade livre e igualitária, alguém sugeriu que raspássemos a cabeça e fôssemos para as ruas mobilizar as massas. Uma boa idéia. O povo unido jamais será vencido...A não ser pelo ilusionismo besta das vanguardas. Passou pela intenção do maluco que, para que melhor nos relacionássemos com o povaréu que liderávamos, precisávamos levar uma insígnia na testa nos identificando como os mensageiros da salvação. Alvo fácil para uma bala, a presunção, reflito hoje. A certeza absoluta. O desdém pelos revezes. A cega afirmação é sempre perigosa. Incerta. Me abate como presa fácil.
Eu sempre fui comunista. Mas nunca tive a face indistinta dos blackblocs, a valentia de uma estudante franzina, ou o destemor de um adolescente tutelado. Também, nunca usei da foice pra cortar um trançado de plantas altas ou de um martelo para dobrar os pregos que atapetam meu caminho. Não sei desenhar bandeiras. Nem colorir estratégias. Tenho dificuldades de decifrar enigmas desprovidos de finalidades. Busco a calma em cada alma vã. Penso isso ser em vão. A calma apodrece a alma. A paciência banaliza o tempo.
A verdade absoluta entorpece, depois, arde. Queima como fogo e destrói, enrijece sonhos, congela corações, põe a liberdade a torniquetes.
Eu sempre fui comunista, mas nunca amei ninguém. Nunca chamei por nomes e nem tateei corpos. Suspiros, transes, me são deleites fugazes. Vislumbres longes. Sou metálica, fria. Tenho a palma da mão estriada. Minhas escolhas...
 “Quando brincava de ciranda só pensava em quem seria o próximo no meio da roda, o escolhido. Hoje, permaneço acorrentada nos passos que não dou, nas decisões que deixo para amanhã, para daqui a 10 minutos. Nas indecisões sobre o escolhido.
Parei de ler, parei de perambular com o frio da madrugada, parei no tempo. Sinto que afundo cada dia mais e mais nessa solidão inquieta, uma solidão diferente, uma que não deixa os olhos sangrarem, não permite vômitos ao som do olhar...e as mãos agora aborrecidas, não desenham acorde que seja. Conformidade. Nunca o próximo. A quem escolher?
Dos amores que burlei, que deixei berrando serenatas em minha janela, sinto falta da paixão que emitiam. Devia ter guardado ao menos um na mesa verde do quarto, para que ninguém o tocasse, que poeira nenhuma repousasse sobre seu peito, só para ter algo em pronome possessivo (meu, só meu). E quem se torna objeto do outro? Mas perdi para a certeza da chuva que tilinta no vidro da janela todo dia.
Essa chuva traz silêncio e água para dentro de casa. Aumenta aquela solidão do peso de ser alguém na vida; descanso do corpo, no copo. Esqueço de viver alguém na vida e sinto dores tênues do dia-a-dia, sem vontade de sair e berrar o que sei, mesmo sendo pouco, mesmo sendo o normal. Porque não é normal estar do lado seco da chuva. 
Recebo conselhos abstratos, mal elaborados por corpos sem copos. Nunca pensados verdadeiramente. Vidas sem rimas. E submeto o clarão da vela ao esconderijo na luz do poste. 
Quando vaga na madrugada o silêncio veste o berro de agonia, que dança sonhos. Morte singela. Quem disse que morrer não dói, já viveu todas as mortes possíveis? E (morrer) não dói no peito de quem fica? 
Transformo em sorriso cada passo que não dou. Eles não podem saber que, na verdade, não vivo.  Sinto que estou no centro daquela velha ciranda, mas sem gema que se quebre, sem reza que me valha.
Eu sempre fui comunista. Hoje sou neguinha e minhas escolhas, vou largando para trás
*Em parceria com Caroline Brito (entre aspas)


terça-feira, 10 de setembro de 2013

crônica remix - encontros e

Encontros e Despedidas

Logo que saí da Escola Técnica, caí no trecho e passei dez anos cangando grilo nas distâncias dessa Amazônia de meu Deus.
No início foi um lida desafiadora. Ainda mais para mim que só havia saído da barra da saia da mamãe para ir bem ali, em Mosqueiro, nos encontros de jovem da Escola Salesiana, e olhe lá!
Mas gostava quando o tanto de desassossego que sentia socado pelos sertões se convertia em incontida alegria, a cada vez que eu tornava (de férias, de folga...) a Belém.
Nos primeiros anos, o retorno era sempre uma festa. Mamãe mobilizava os amigos, juntava a família, e organizava uma comitiva animada para me buscar no aeroporto.
E era legal, reconheço, chegar e ver uma turma entusiasmada, ali no piso superior do aeroporto, acenando para mim.
Eu, no desembarque, entrava no clima.
Na escada do avião, dava até aquela paradinha clássica, respirava fundo, centrava o olhar para o salão do aeroporto, procurava rostos conhecidos e acenava, agradecendo a acolhida.
Já na volta, menos, menos: os vôos eram, normalmente, de madrugada. Mas sempre havia uns fiéis companheiros, além da mamãe, que iam me deixar no aeroporto. E eu não tirava por menos. Reeditava a clássica paradinha na escada, antes de entrar no avião. Era o momento indispensável, para um último aceno comovido, saudoso, sofrido, de despedida.
Mas o tempo, heim!
O tempo foi passando e arrefecendo os ímpetos. Do meio pro fim, ninguém mais me dava ibope. As minhas ausências estavam menos espaçadas, e as minhas vindas a Belém ficaram mais freqüentes. O rito do regresso virou rotina e perdeu a graça:
Eu chegava no aeroporto, dava uma espiadela rápida pelo salão e, nada. Ninguém conhecido. Eu que não cuidasse de pegar um Perpétuo-Socorro, porque a comitiva, já era.
Mas não me entreguei. Mantive a pose. Arrumei um jeito de me sentir esperado. E isso vale para todos os lugares em que acabo me embrenhando. Mesmo aqueles em que eu não conheço ninguém.
Resolvi manter, em todas e quaisquer circunstâncias, a paradinha clássica na escada e o disparo de acenos, agora, no ‘qual pega’, afinal ninguém sabe mesmo, na hora, quem acena para quem. Por vezes utilizo de táticas oportunistas como tomar emprestado a ‘direção’ (que, como já adiantei, não representa, necessariamente, alguém) de um outro passageiro, e acenar vibrantemente, (com lágrimas nos olhos e tudo) para aquele lado.Todo prosa. Definitivo.
Esse foi um jeito anárquico que eu arrumei (e que utilizo até hoje) para não me sentir tão sozinho por aí. Uma defesa necessária, montada a peso de inverídicos encontros e imprecisas despedidas.


sábado, 7 de setembro de 2013

crônica da semana - ais e uis

Ais e uis

Gente, advirto: isso é uma piada, tá. 
Certa vez, cheguei de viagem, vindo de um encontro que se realizara no sul do país, exatamente no período do Círio. Morava em Barcarena e tinha que passar a noite aqui em Belém. Alta madrugada, zanzei por vários hotéis e nadica de vaga. Fucei, fucei e fui me arranjar num, digamos assim, hotel de trânsito, ali pelos escurinhos do centro. Estava baqueado, cansado. Havia atravessado o país, desde Porto Alegre. Tava na pira de cansado. Me arrumei num quarto, liguei a refrigeração, acendi a TV para chamar o sono e virei de lado tentando sossego... 
(As vogais são as letras que têm som. São as emissões articuladas pela vibração de ar, dentro da gente, que têm um sentido, despertam percepções sustentáveis no tino, assentam-se ao nosso juízo sem procrastinações. Ainda mais quando vêm dobradas, triplicadas - ditongos e tritongos, na formalidade da classificação. Aí, a gente intui que ‘ai’, é sinal de dor, de descontentamento e pesar. Do mesmo modo que ‘ei’, inspira atenção, repreenda. Enquanto que ‘ui’, expressa tanto um prazer quanto um chiliquito afetado. ‘Oi’, por sua vez, faz as vezes de cumprimento e sua derivação triplicada,  ‘oieeee’, pode significar um dengo virtual. 
As vogais vivem por si só, por exemplo, quando pronunciadas nos artigos de ‘a’ casa é de Ivo e ‘o’ bolo é de Eva. Agora, tentemos nós, que nem somos eslovacos, pronunciar um ‘eme’ da vida. Não dá, né. Um ‘pê’, necas. As consoantes não jogam no time dos timbres. Com exceção de alguns nomes próprios encontrados na Eslováquia, não são símbolos fônicos pronunciáveis. Precisam ombrear-se com as vogais. Por isso são consoantes. O nome já diz: existem, ganham sentido, junto daquelas que têm som, subordinam-se às vogais). 
Ainda a piada: 
Pois bem, estava eu tentando dormir, depois de uma semana fora de casa, num frio danado no Rio Grande do Sul; após o dia todo dentro de um avião comendo só barrinhas de cereal, o estômago, croinque, croinque, reclamando. Precisava apagar. Tava naquela de que, dormindo, essas coisas, essas pendências passam. Ia me ajeitando pra desmaiar quando me espantei com as vocalizações vindas do quarto ao lado. Era um ai ai ai , um ui ui ui, um oiiiieeeee. Todas as variações de vibração das cordas vocais  foram ensejadas com muita desenvoltura  e entusiasmo naquela noite, e o mais extraordinário, ininterruptamente. E olha, dizer que aquela regrinha dos sons foi quebrada, nessa noite, penso não ser uma bobagem, não. Arrisco dizer que além da sonoridade das vogais, contra todas as advertências da fonética, me chegavam esforçadas menções consonantais (abafadinhas, reconheço, mas audíveis). Juro que ouvi algo como mmffffggggxxxx, mmffffggggxxxzz. Uma superação linguística ocorreu ali entre aquelas paredes, naquela noite. 
(Nos tempos do primário, do abecedê, na hora da separação em sílabas, já prestávamos reparo. Quem dá individualidade a uma sílaba é a vogal. Não há, a não ser na Eslováquia, presumo, uma sílaba prudente, ortodoxa, legítima, que não se ampare no trinado eloquente de uma vogal. Não rola nem pra ‘pê’ de piriricas nem para o ‘agá’, que menos que uma consoante é. Na prosa nossa de cada dia quem dá a letra são as vogais). 
Não dormi que prestasse de tantas vogais que varavam a parede e iam me apanhar notívago, na cama daquele hotel de trânsito. De manhã, olhos olheirados e encavados, antes de fechar a conta, não resisti, bati na porta do quarto de ao pegado. A moça veio atender. Pedi o telefone do cara que estava com ela. O cara era bom. Tinha muito que dar ao mundo. 
Ai, ai, as vogais. Fim da piada. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

crônica remix - seu sabazinho

Seu Sabazinho e vovó Cocota
Houve um tempo em que tratamento para rasgadura, desmentidura e deslocação era andiroba, cabacinha e a milagrosa reza do Seu Sabazinho. Pra espinhela caída, então, não tinha outro.
(Era bater e ver, embora até hoje eu não entenda muito bem o que seja espinhela, não saiba a sua exata localização e não ouse especular sobre o seu real status anatômico. Sei apenas que dor no peito e falta de respiração eram sintomas do descaminho malsão da espinhela e que parte da cura vinha, também, do poderoso emplasto Sabiá, todo furadinho).
Certa vez, num dos meus atrevimentos pelos campos do Areal, peguei um cacete dum moleque que rebolei lá longe, dentro de uma lagoinha que tinha até peixinho. E quede que eu me levantei. Não voltei mais pro jogo. Do meu pé vinha um zunido dizendo não (é verdade, nessas horas a gente não sente dor. Ocorre uma espécie de arrebatamento, a cabeça fica longe e a gente só percebe aquela ondinha circulando o nosso enfastiado mundo. O que nos cabe é aquele embaraço sonoro que se assemelha ao barulho que vem do poste de energia, ali, perto do transformador. Um longínquo, esquisito e eletrizado zuuumm).
Voltei caxingando para casa e no outro dia fui bater com o Seu Sabazinho. O pé, por acolá, bem inchado e dolorido.
Sentei num banquinho e esperei apreensivo pelo rezador. Quando ele apareceu, trazia na mão um ramo de Vassourinha e uma combuquinha sortida de um óleo acetinado. Untou as mãos e iniciou uma ladainha numa frequência tal que não podia ser percebida pelo ouvido humano (desde então, alimento a vã missão de decifrar aqueles dizeres. Percorri mundos atrás de alguém que me reproduzisse, pelo menos em parte, as orações que são proferidas pelos benzedores. Sem sucesso. Ninguém abre. O dom da benzeção é uma herança guardada a sete chaves e ninguém dá um pio sobre este ou aquele versículo. O que é garantido é que o Pai Nosso não falta, sempre tem e depois, é um Bzzzzzz baixinho e misterioso).
Em poucas ocasiões da minha vida, senti tanta dor. Naquele dia, acho que Seu Sabazinho não estava inspirado. Havia um momento desolador, aquele em que ele imprimia toda a sua fé. Dispensava o raminho (que era o meu alento, que protagonizava os melhores momentos da sessão) e lançava as mãos vigorosas sobre o nervinho inflamado do meu tornozelo. E apertava, e espremia e esticava, e comprimia...E a dor vinha terrível e diretamente proporcional ao fervor de um Sabazinho estranhamente excitado (quanto mais ele se elevava aos céus, mais eu via estrelas). Mas quando saí de lá, caminhei aliviado o estirão de pontes que desenhava a baixada da Pedreira.
As rezas e benzeções não se limitam aos males físicos produzidos por encontrões deseducados nas peladas do subúrbio. Estendem-se aos males da alma. Meus pequenos, quando quedavam-se ao mau-olhado, era rapidola que a gente procurava a vovó Cocota da Passagem Bom Jesus. Não havia esmorecimento ou panemice que vingasse ante o raminho de Arruda e das silenciosas preces da vozinha. Houve, uma vez, d’eu executar uma prescrição da vovó Cocota que me fez garimpar até uma fé adicional (porque duvidei da receita). Tive que passar meu menino pelo meio das pernas de frente para uma porta. Passava de um lado, despassava do outro. Foram umas quantas sessões desta desobriga para que o menino desamofinasse. Tava o puro quebranto, o pequeno. Mas, sarou.
Agora, a história é diferente. Por qualquer coisinha os meninos recorrem à medicina tradicional e, em alguns casos de entristecimento, até à orientação psicológica.
Antes, os bons benzedeiros eram a nossa valência. A nossa salvação.