segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Crônica da semana - coração brisa

Coração brisa


Na véspera de Natal, saímos, eu e minha filha, bem cedinho, a ‘andar Belém’. Mas foi bem cedinho mesmo, antes das seis. Pelo que os jovens nos mostram a cada dia, a alvorada não é, exatamente, um espetáculo natural da preferência deles. Pelo comum, o dia se realiza para a garotada, agora nas férias, após as 10, 11 da manhã. Mas naquele dia, a ordem foi subvertida e até com muito fervor e ânimo. Palmilhamos os canais da Pedreira, contemplamos o prateado do sol nascendo bem no declive da Itororó com a Pedro Miranda, ziguezagueamos pelo traçado triplo da grande avenida e baixamos para as docas do Ver-o-Peso, ainda com um vento friozinho do amanhecer nos tocando a pele e a alma. 
Cumprimos o rito, no Veropa. Fizemos o desjejum com um completo de salgado e suco no JR, uma tapioquinha com café na tia, corremos à pedra pra ver a chegada de uns peixões pra lá de Tebas, nos perdemos pelos corredores aromatizados das erveiras, descobrimos escondidinhos charmosos na Ocidental do Mercado, serpenteamos na escada de ferro dos talhos restaurados, nos equilibramos caminhando bem na beirinha do calçadão que limita a doca do Piry. 
Os barcos encostados, encalhados no seco da maré. 
Adiante, no largo da Sé, nos solidarizamos com as mangueiras remanescentes e prestamos uma homenagem àquelas árvores maravilhosas que não resistiram ao último vendaval e nos deixaram apenas uma cratera entulhada de lembrança. Lamentamos, ainda, a ausência do cruzeiro, na parte central da fachada da igreja, também subtraído dali, pelo temporal. Descemos para o Forte e, depois de tantos anos com essa vontade, satisfizemos a curiosidade de chegarmos bem pertinho da grande parede. Mirei de palmo em cima os encaixes das pedras e a imensidão da muralha. Naquele momento, nos fizemos bem pequeninos, simétricos demais (nós que somos tão assimétricos), diante daquela construção de pedras quinadas e descompromissadas, na gênese, de coincidências angulares. É como a edificação das gentes, pensei: sem pré-determinações fáceis, confortáveis. Há de se ter o gênio, a audácia, a oportuna oficina da natureza para que se forje a construção humana. Somos quase muro, quase parede. Quase fortaleza, quase ponte, quase correntes, quase mar, quase terra, quase canhões, quase portões, quase rochas sobrepostas, quase pólvora, quase silêncio, quase explosão. A ordem nos diz que se nos construímos robustos para conquistar, também nos construímos arrogantes, para sermos conquistados. 
A nossa volta para casa se deu pelo comércio. Resolvemos atravessar aquele mar de gente que se espalhava pela via dos Mercadores, para sentir de perto como acontece o fenômeno consumista do Natal. Não compramos nada. Não que não tenhamos nos entusiasmado com os pulsares pregoeiros. Eles são conquistadores. Dá até vontade de levar algo que a gente não precisa mesmo. Mas é que não rezamos na cartilha consumista. Resistimos, e reconhecemos que os espetáculos de convencimento do comércio são poderosíssimos. 
Meu coração brisa saiu cedinho na véspera de Natal, para celebrar. Saiu acompanhado da minha filha, que é portadora e herdeira de mim. Quis que ela percebesse como eu me entrego pra esta cidade, como sou feliz com ela. E entendesse que, se vivo mais e melhor agora, ainda ela pode me ajudar na remissão dos meus pecados, na supressão da minha pavulagem. Sei que tenho débitos. Por eles peço perdão. Sei que com o meu charme e que engolindo  uns grãozinhos de super-amendoins, posso vencer outras batalhas mesmo sem os perdões que me faltam, mas, reverentemente, rogo por eles. Para o ano, meu coração vai sair de novo ‘a andar’ Belém. Oxalá, mais leve, mais brisa. Feliz ano novo. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Crônica remix- incenso e mirra

Ouro, Incenso e Mirra

O céu é plúmbeo, uma simpática queda de dois graus na temperatura média anuncia o Natal. A garoinha fina (a nossa nevinha líquida equatorial) caindo a qualquer hora não interfere na normalidade das coisas, mas, sutilmente, ajuda a abrandar os espíritos, cuida de diluir a acidez cotidiana, refreia o desvario diário.
O clima produz na gente um ingovernável sentimento nostálgico. Capaz de buscar uma lembrança absurda, subversiva de um Natal distante em que, no lugar de um rutilante brinquedo, a gente ganhou de presente, uma desenxabida roupa nova.
Natal. Tempo de conversão, de apelo à amizade, de súplica pela paz. No Natal é evidente um chacoalhar gradativo de índoles: quem é muito mau, passa a ser só mau; quem é mau, verga-se a ser mais ou menos bom; quem às vezes é bom, queda-se a ser o tempo todo; quem é sempre bom, inclina-se a quase santo; e quem já é santo, vira luzinhas cintilantes a embelezar as noites.
E os sinais concretos dessas reviravoltas nos parâmetros que medem a personalidade pipocam, pelos quatro cantos, na forma de campanhas solidárias de arrecadação de brinquedos, cestas de Natal, agasalhos e roupas para os mais necessitados. E quando não têm caráter material, os esforços apelam para as concessões ou reconciliações. Rogam por resoluções urgentes para as pendências pessoais perdoáveis. Tudo em nome de um Natal feliz.
Então é Natal. Da tolerância (e cá pra nós, quanta tolerância, meu Jesus Cristinho, ao digerir a versão da Simone para os sonolentos versos de John Lennon). Mas, vá lá que seja, sem patrulhamentos estéticos ressentidos, é Natal. De blim blauns, de dingo bels, de merry christmas. De melodias harmoniosas, suaves, fluindo leves da arvorezinha montada num canto alegre da sala.
É Natal. Da compreensão. Toda a compreensão na hora da troca de presentes nas desconcertantes sessões de amigo invisível (secreto... oculto). Não raro, um presente mal dimensionado derruba o clima de tolerância vigente e acaba agendando um forçoso compromisso de reconciliação já para o Natal do próximo ano.
Então é Natal. Da imprescindível pitada de sensibilidade na hora de escolher os presentes. Principalmente, os presentes das crianças.
Para as crianças: brinquedo.
( Tá bom, tá bom, é certo que um par de sapatos da moda ou uma muda de roupa nova, são utilidades cotidianas, mas, de jeito e maneira,  substituem o apetecível brinquedo).
É Natal. Para as crianças: brinquedos. E pensando bem, pensando bem, se para sarar tristezas antigas, para os adultos também

sábado, 21 de dezembro de 2013

crônica da semana - num trisca

Num trisca, num piscar de olhos

Aconteceu aqui em casa. Tarde calorenta. Abrimos as janelas, escancaramos as portas, deitamos no frio da lajota e nos entregamos esperançosos, a família Sodré, às reconfortantes lufadas de vento que chegavam lá do igarapé do Zé. Ô, coisa boa! Chega dava um alívio. Induzia à malemolência, aquela circulação que irrompia, de quando em quando, pelo chagão e ia pegar a gente deitadinho no chão, pedindo um sono. De repente, um vuco-vuco cortou nosso barato. 
Um passarinho invadiu a casa e entrou num dos quartos. Todo mundo despertou e deram-se as manobras de resgate do bichinho. Ele tava meio atarantado, voava baixo, subia, sumia detrás do guarda-roupa, se batia por lá. Ia pro canto da parede, bem na quina mesmo, planava rés o forro. Embicava de novo para os entremeios da cama e da cômoda. A gente volteava com ele, tremulava um jornal, uma revista, como se indicando a saída, mas o passarinho, nada. Tava mundiado. Fez que fez, até que cansou. Aninhou-se ao pé da parede. Capitulou. Nós mamíferos, nutridos a proteínas e acúcares, estávamos bufando de tantos saltitos, avalie então a pequenina ave que não tem tantos aportes de energia. Não conseguia nem bater as asas. Limitava-se a um piozinho rouco. Resolvemos levá-la para o quintal, hidratá-la, dar um descanso para ela e para a gente. Minha filha ajeitou as mãos em concha e agasalhou o passarinho ali, depois, enquanto providenciávamos água e uns grãozinhos de arroz, a avezinha foi deixada sobre a mesa, deitadinha, ofegante, tornando as forças. Num trisca, num piscar de olhos, num lampejo instintivo, a gata, que por ali espiava em silenciosa atenção, lançou-se sobre ela, atracou-a entre os dentes e deu o pinote. Nova correria, agora atrás do passarinho que estava sendo devorado pela gata. Pega-não-pega, larga-não-larga, até que pressionada e submetida a enérgicos carões, a gata largou o bichinho. Tadinho. Tava só o endereço, desmilinguido, desasado, humilhado. Novamente, mãos em concha e redobrados cuidados. Um período de convalescência sob forte proteção da família e o bichinho ganhou forças, tornou animado e largou-se para a imensidão do céu, batendo as asinhas, chilreando feliz. 
Aquele livre despertar fez o clima da tarde arrefecer. Uma camada matizada de nuvens densas desmaiava o horizonte e enternecia o final do dia. A maciez da noite, a metade da lua prateada e um cintilado discreto de estrelas se anunciaram providentes ao quintal. 
Recebemos a noite com zelo e contemplação. A experiência recente nos mostrava que além dos esforços da paixão e da razão reinam sobre nossas vontades, os lampejos atávicos, o instinto ancestral. A correria e os atropelos da tarde se revelavam ali, no silêncio da noite, como exemplos de que a mediação racional, o labor altruísta, a filantropia rasa, estão subordinados a uns triscas imediatos, a instantâneos indefensáveis, a poderosos repentes. Explosões naturais. Irrefutáveis. Insondáveis. Sinal de que bondade e maldade são vizinhas nas tardes calorentas. Incompreendidas no limiar da varanda. São mixes tão naturais quanto infinitos, espreitando corredores de vento. 
E assim, com a alma mergulhada em meditações, o tempo passou e amanheceu de novo. A gata saiu do silêncio recôndito da noite e foi ter à manhã. Um passarinho, que poderia ser aquele mesmo do dia anterior, poderia ser outro de canto diferente, ou ainda de outra espécie e cor, fazia algazarra entre as folhas do jambeiro. E foi então que nos aviamos, aptos, ávidos para receber os raios de sol de um novo dia com zelo e contemplação. Humanos. Humildemente humanos. Feliz Natal. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Crônica da semana Pê efe

Pê-efe chique

Tenho percebido, nos últimos tempos, que há um novo modo de servirem refeições nos restaurantes. É mais ou menos o antigo pê-efe, só que metidão, quedado ao chique. Um prato único com um raminho de manjericão enfeitando o arranjo. E se tem um raminho verde, já sabe: o preço é por acolá. 
‘Disconcordo’, enfaticamente, dessa presepada de pê-efe elegante. Para mim, isso é uma ostentação besta, uma presunção reles, um desrespeito ao pão nosso (que a tantos falta). 
Tô na bronca com essa prática porque é um apelo ao desperdício. Esse negócio de fazer prato só pra um, sem a alternativa de partilhar a opção, provoca uma leva de comida jogada fora. 
Aconteceu comigo em algumas oportunidades, mas posso destacar o ocorrido em um restaurante de hotel ali pras bandas sudestes do Pará. O garçom trouxe o cardápio com as opções (todas muito caras, ressalte-se) e foi adiantando que era prato individual. Estávamos em alguns amigos e cada um pediu o seu. Tomei um susto quando a comida chegou. Eram pratos esteticamente admiráveis, fartos em rococós e cintilâncias. Tinham jeito e cor.  Um morrinho adamantino de arroz aqui; um cremezinho denso ali; um molho de um oleado amistoso, acolá. Um mimo de guarnição cuidadosamente dosada e distribuída. E, protagonizando o pedido, uma porção generosa da mistura. Carne, frango, peixe, o que fosse, vinha reluzindo em um tantão, no meio dos enfeites. Mas era, em qualquer das opções, um bom pedaço, mesmo! Tirando por alto, cada peça tinha ali seus 300 gramas, tranquilamente. A mistura mais a guarnição, devia somar no prato, pra lá de meio quilo. Esta composição, para mim, significa comida pra dois. A gente percebe que no restaurante há um mal disfarçado patrulhamento reprimindo a repartição do repasto. E os próprios comensais, seja por receio, seja por pavulagem ou esnobismo, não estão nem seu Souza para a super oferta. Fazem, aliás, a parte mais pecaminosa da encenação. Dão dois triscas de garfo no petisco, tiram uma lasquinha de carne, um fiozinho de feixe, um cubinho de frango e largam de mão a comida anunciando-se satisfeitos. Noto que esta injúria é tomada como ato de requinte, como um afeto de menininho mimado. Parece moda circunstante. Repente de novo-rico. Nas vezes em que me vi no calor dessa luta, pelejei com meu cumê até o fim. Fiquei empanzinado, empachado, com o bucho por acolá, mas não estraguei comida não. 
Eu, heim, não tô doido, não tô variando nas travessas. Sei muito bem o valor que tem um prato de comida. E nem me refiro ao valor monetário. Falo do valor fisiológico, do valor social, moral. Tenho na memória os apertos que minha mãe passava todo santo dia pra prover nossa mesa. Lançávamos mão de todas as sortes, na cozinha, para podermos varar os dias e as noites. E quantas e quantas vezes a mamãe, na ausência de outras artes, abastecia nossas canequinhas com doses alentadoras de água de arroz, argumentando que a gente tinha que se conformar porque dali é que a gente tiraria sustança e animação. 
Mas como já, que nessa altura do campeonato, vou pagar os olhos da cara, num restaurante e deixar boa parte no prato para ser jogada fora? Negatofe. 
Quero lançar aqui uma campanha. Vamos boicotar os restaurantes que usam deste expediente. Se as condições impostas não puderem ser revistas (como por exemplo, se houver apenas um restaurante aberto), vamos jejuar. Faz bem pra alma. Se por outra, as ofertas estiverem à mão, que optemos pelo bom e velho prato a La Carte para dois e umbora ser feliz dividindo a asinha de frango, o bifão, o raminho de manjericão. Assim de dois, quero ver sobrar. 

sábado, 7 de dezembro de 2013

crônica da semana- vermelho amarelo

Amarelo vermelho

Ela jogava vôlei lá em cima. A ladeira era um caminho de terra vermelho e solitário. Ligava o nosso alojamento à vila. Ligava os nossos corações. 
As lembranças chegam à mente, enevoadas, neblinadas de lonjuras e distâncias. Mitigadas pelo tempo, ainda me chegam gostosas; sublimadas pela saudade, me vêm friinhas e aconchegantes como as noites de dezembro em Rondônia. 
Era a estradinha que nos levava ao mundo. Cá embaixo, no nosso alojamento, vingavam as coisas do trabalho, registros formais, cordialidades, bem querências compulsórias, sono reparador, cumê na hora certa. A cama arrumadinha. A roupa lavada. Uma ordem perturbada aqui e ali por sessões dominicais de socialização argumentadas por muito álcool, cuidando sempre para que o decoro fosse preservado. Lá em cima, a paixão, a liberdade, o descompromisso e o desapego às normas e formalidades. Toques atrevidos, confissões indecorosas. Doces suores. Sensações permitidas. 
A ladeira ia dar na vila. Um lugar plural, um arremedo de cidade, um sítio que fazia menção de interiorzinho, com capela erguida em madeira, largo com brinquedos para criancinhas, sorveteria, discoteca para os jovens. Tinha a quadra de esportes onde a gente armava a rede de vôlei quando o pessoal do futebol-de-salão enjoava de jogar. Como era no topo de uma pequena serra, a neblina era comum ali naquela área e foi-não-foi, coincidia com o horário do nosso jogo, lá pra de noitinha. A gente cantava a jogada e a fumacinha se desenhava e volteava no ar igual aos filmes que têm neve e mocinhos agasalhados. A vila era um lugar de realizações, de fazeres densos, de escurinhos e escondidinhos cúmplices. 
Ela jogava vôlei lá em cima. 
Quando a cerração passava é que eu reparava direito naquela que mais me chamava atenção no time. Eu a procurava pelos quatro cantos da quadra. Admirava o jeito faceiro com que ela sacava; nem disfarçava em acompanhar o movimento ordenado e ligeiro que o cabelo curtinho dela fazia, quando respondia uma cortada de manchete. Aos meus olhos, ela encenava um balé sensual, em cada jogada. Nas vezes que usava vermelho, emanava vermelho. Sorria vermelho. Vibrava vermelho. Me entontecia com aquele vermelho juvenil, livre, indolente. E eu que gosto de amarelo sucumbia, absolutamente dominado, àquele encanto sem remorsos. 
A hora que eu voltava para a minha caminha arrumada, lá embaixo, as nuvens baixas já haviam se dissipado totalmente. O jogo de vôlei se encerrara há um tempo e os escurinhos da vila minavam de vontades mil a minha vida. Em silêncio, procurava no céu, agora ornado de estrelas, brilho igual ao dos olhos dela. Tentava sentir entre os odores que a mata dispersava na lateral da estrada, o frescor daqueles sussurros recitados ofegantes ao meu ouvido. Alguns cachorros latiam lá atrás por sobressaltos ou instinto. E eu sonhava acordado, imaginando pétalas de rosas ornando o meu caminho. Rosas inebriantes. Altivas. Fetiches e sedução. Voz e ilusão. Personificação. Pedaços de amores largados ao chão, perdidos ladeira acima. 
Antes de entrar para o meu quarto, debaixo de uma infindável cantoria de grilos e sapos, eu voltava o olhar lá para o alto da serrinha, para a vila, para o lugar onde morava a minha felicidade. E ficava pensando nela que jogava vôlei com tanta graça e beleza; que bordava uma excitante arte rubra naquele jeito serelepe de ser e tinha tal encanto aquela arte, que nem as artimanhas do tempo a deliram de minha retina. E, por uns instantes, me deixava compreender porque aquela ladeira, inevitavelmente, se perpetuaria como um caminho de terra vermelho e solitário. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

livro - oito

Oséas Silva – Suécia bacana
Loló – Durval
Angelina – Icoaraci
Juliana –amar a subversão
Alê – Aquém do horizonte
Suzana : Casas pernambucanas
Walda : Na beira o amazonas
Fernando : equnócio

Oito leitores já escolheram as crônicas do meu próximo livro. Mas sei que somos bem mais que oito. Vamos lá, só faltam 18. Enviem as sugestões para rsodrexapuri@yahoo.com.br

sábado, 30 de novembro de 2013

crônica da semana - Belém - Brasília

Belém-Brasília


O camarada errou por muito. Fico imaginando naquela secura do cerrado brasileiro, o topógrafo tentando achar a mira para dar o rumo. Um sol espetacular. A vista atrapalhada. O nariz ardendo, a garganta seca. Miragens, efeitos da luz complicando...e o ponto. Pronto. Foi dada a partida. 
A Belém-Brasília, o nome já está dizendo, é a estrada que liga a capital federal a Belém. Está nos tratados e arrazoados. No entanto, se desconsiderarmos os considerandos (que explicam a estrada como sendo um conjunto de rodovias, incluindo a BR 316), a gente deduz que chamar de Belém-Brasília para esta BR, é uma tradição, é costume generoso, porque a estrada deveria mesmo, era se chamar Santa Maria do Pará- Brasília. 
Do ponto que o marcador visou a vante, lá em Brasília, há mais de 50 anos, ele varou bem longe do alvo. A chegada da BR está a mais de 100Km a Leste de Belém. 
Santa Maria é uma cidade simpática. Fica na confluência da 010 com a 316. Tem aquele traçado típico de beira de estrada, com o eixo desenvolvido se estendendo às margens do asfalto. Para quem é ex aluno salesiano, como eu, é de prima que a gente se identifica com a cidade. A Santa padroeira do lugar é a mesma Auxiliadora que roga por nós, os meninos de Dom Bosco. Acho que de certa forma, foi até bom o estirãozão desembocar numa cidade que tem fé. A Santa, tenho pra mim, que cuida de quem encara a rodovia indo ou vindo. 
Como dizia a minha mãe, por onde se torna e por onde se deixa, Santa Maria é Brasília chegando a Belém. Vamos dar o desconto pro topógrafo lá dos tempos do Juscelino. Naquele tempo a tecnologia não era esta a peso do GPS e da fibra ótica (em contraste temos o exemplo daquele erro famoso que ocorreu recentemente nas obras do metrô de São Paulo, quando da coincidência frustrada de um túnel que vinha de lá com o outro que vinha de cá; um desencontro que foi inaceitável para o padrão das novas engenharias, e olha que foi ali na escala dos centímetros). Era tudo no muque, na década de 50, tudo na caderneta e na visada certa. E a bem da verdade, esse negócio de posicionamento global, de direção, a percepção do espaço não é coisa muito fácil não de compreender. Já perdi um tempão em discussões improdutivas com um amigo querido pra lá de gabaritado na arte dele, mas completamente desfocado, quando se trata dos artifícios de localização. Pra ele, Belém está no Norte e pronto. Quando eu dizia que Belém está a Norte de São Paulo, e ao mesmo tempo está situada a Sul de Macapá, ele pirava. Não entendia esta bipolaridade. O tempo fechava e a gente tinha que recorrer, mais que depressa, a um vinho amigo para celebrar a paz. 
É conflito recorrente entre as gentes este mundiamento. Temos zangas com as referências. Em cima, embaixo. Na frente, atrás. De cabeça pra cima, de ponta-cabeça. Ao norte, ao sul. Estes são conceitos que dependem mais de entendimentos e combinações; de diplomacias e interesses, do que das leis naturais. O poder, pelo comum, dá a letra (percebemos isso quando olhamos o mapa múndi e vemos os Estados Unidos, a Europa, no lado de ‘cima’ e nosostros, embaixo. Por que não é ao contrário?). 
Essa história com a BR-010 é uma implicaçãozinha minha. Não é pra criar arenga e nem menosprezar os topógrafos que alinharam a estrada. É apenas uma birra com a notação, com a nomenclatura, no frigir dos ovos, pelo que se torna, está explicado que a Belém- Brasília é um conjunto de rodovias, incluindo esta BR 316 que nos inferniza os dias no Entroncamento; e pelo que se deixa, Santa Maria do Pará é uma cidade simpática e devota. 

domingo, 24 de novembro de 2013

crônica da semana - Andes

Mente livre
A gente se arruma todo, com antecedência, com todo o cuidado, provê e reserva. Mas na hora de viajar, a bendita da meia some. Acho que é a falta de costume. Não é coisa do meu eu, usar meia. Mas a meia sumiu. Na horinha de viajar aqui para o Peru. Sim, escrevo agora aqui da beira do Pacífico, na borda da grande cordilheira. Pois é, na horinha de ‘se aprontar’ e ir para o aeroporto, dei pela falta da meia. Tive que emprestar, rapidola, uma do meu filho (a outra perdida também era dele, porque eu mesmo, não tenho meia própria). Acontece que a que ele me arrumou era bem grossa, com um sanfonado tenso. Resultado: o que essa bicha me apertou na viagem, não foi brincadeira. Me tirou do sério. A primeira coisa que fiz, quando desci na conexão em São Paulo, foi tirar a meia. Não poderia, de jeito e maneira cruzar a cordilheira dos Andes, com os pés atrapalhando minha lucidez. Precisava, para contemplar melhor tanta beleza, estar bem comigo mesmo. Precisava da mente livre.
Foi o momento mais bonito da viagem. Desde que soube que viria para Lima, fiquei ansioso. A idéia de ver de perto uma das mais belas paisagens da Terra, me deixou num pé e n’outro de excitado e feliz. Uma noite sem dormir nada, os olhos ardendo e o embarque em São Paulo. Natural seria, logo ao entrar no avião, cair no sono. Mas quando! Não preguei o olho. Tinha garantido meu lugar na janela e não ia desapregar de lá até que vislumbrasse as cimeiras do mundo.
Sou fascinado pelas montanhas. Já escrevi aqui da admiração que tenho pelas aventuras dos alpinistas, e até declarei que se me houvesse mais um pulmão, arriscaria uma escalada num monte (modesto em altitude, porque não tenho esse pique todo, mas famoso, com nevinha nas ombreiras e cimos aplainados). Reconheço nas montanhas uma ânsia babilônica do planeta. Elas refletem a energia dos interiores pulsantes da Terra quando se rebelam, quando transgridem. Quando vencem as pressões e migram aos céus. As montanhas nos levam para bem pertinho de Deus.
E essa força incontida, esse impulso criador é a Terra viva nos Andes. É a nossa casa dobrando-se, vincando-se, elevando-se. É a fúria abissal reformando e rejuvenescendo a tez do planeta.
De São Paulo até Lima, atravessamos o Brasil. Cinco horas de viagem e uma diversidade de cenários que ajuda a espantar o sono. O sentido do vôo é meio enviesado, meio noroeste. Neste trajeto a gente vê todo o retalhamento agrícola do centro-oeste com fazendas enormes, traçados retos e coloridos. Floresta nenhuma; mata ciliar, apenas um reguinho. Estes são os sertões dominados do Brasil. Adiante, uma amostra do Pantanal. Uma planura alagada, aqui acolá uma fazenda e uma textura de solo  breado, melado.
Logo a frente um colorido verde e discretas elevações anunciam a cordilheira. Atenção. Muita atenção. Um momento de muita satisfação para qualquer cristão, que dirá para mim, apaixonado confesso. Fissuras, rasgos, encostas íngremes, rios retinhos e estreitinhos. A vegetação vai rareando até que a superfície vai ganhando cores mais estáveis, constantes, um prateado com marrons, vermelhos suaves. Um frio no cocuruto, um batucado no coração e os picos. Formas múltiplas agudizadas, arrogantes, seios de neve. Declives radicais. Rios de neve. Chega dá um arrepio de tão belos que são os desenhos que a natureza faz nas rochas. Depois dos picos, aquele relevo que sempre a gente ouviu falar e que agora se mostra de vera: o altiplano. Vilarejos, pequenas cidades, mineração, barragens. Somos nós, os homens, dominando as alturas. Na sequência um suave rebaixamento, Lima e o Pacífico. Demais!

sábado, 16 de novembro de 2013

crônica da semana - pandeiro

Raimundinho-do-pandeiro


Um sábado desses fui cortar o cabelo num salão popular aqui da Pedreira e tive uma boa surpresa. Tava bem no meu cantinho, com minha senha na mão, esperando a vez, quando de repente, uma moça veio até mim. Perguntou: “É o Sodré, o Raimundo Sodré?”. Rapidamente na minha cabeça, listei os meus mais maliciosos credores, me certifiquei que não era arte de nenhum deles, confirmei. Sim, sou eu mesmo. A jovem se apresentou como minha leitora aqui da coluna. Fez-me elegantes elogios, comentou algumas crônicas que escrevi, deu realce àquelas que têm a Pedreira como tema. A nossa conversa tava animada. Tanto que foi logo juntando gente. Os clientes ali do salão assuntando quem era aquele neguinho que tirava fotos, autografava num lencinho uma lembrancinha para a leitora. Percebi e logo tirei uma casquinha da fama inesperada. Saí abraçando todo mundo, distribuindo beijinhos. Quando estava no meio da pequena multidão, eu já era o famoso Raimundinho-do-pandeiro, vocalista de um grupo de pagode aqui das quebradas. Curti pacas. Esbocei até um sambinha de minha própria autoria tamborilando na mão um descompensado um-dois. Foi a minha glória. A gerente do estabelecimento me ofereceu água, um cafezinho e ainda por cima me franqueou o corte. Tive ali meus 15 minutos de fama. 
É certo que parte do que escrevi aí em cima é invencionice. Faz parte da minha arte. Havia sim, uma leitora, no salão: a Deise. Talvez tenha me reconhecido de umas das matérias que fiz quando do lançamento do meu livro no início do ano. Conversamos um pouquinho, e muito discretamente. Agradeci a atenção que ela dedica à coluna e depois fui me sentar na cadeira do cabeleireiro. Já havia quitado a conta. 
O que ficou, porém daquele encontro, foi a certeza de que meu universo de leitores no jornal, vai além daqueles oito fiéis catalogados quando iniciei aqui na coluna, há quase 9 anos. 
Percebi isso na Feira do Livro. Lançamento de trabalho independente, a gente sabe. Vão os parentes, os amigos, alguns amigos dos parentes, outros dos amigos. Este ano contei também com a presença dos leitores do jornal. Conheci gente que me lê em silêncio: a filha que foi pegar um exemplar autografado para o pai que não pôde ir, mas que fazia questão de um livro meu. Aquela senhora que citou pelo menos quatro crônicas e as relacionou com passagens triste ou alegremente ocorridas na vida que ela levou junto ao marido recentemente falecido (aí choramos os dois). 
Sei que tenho a honra de ser apanhado no alpendre da casa do Seu Fernando, da Dona Walda, do Oséias Silva...da Alessandra Martins, da Juliana Silva, da Deise...logo na batida da campa do sábado. São os  leitores do jornal que comigo se batem há tantos anos. 
(E eu podia tá roubando, tá me prostituindo, tá errando na vida. Podia ser político circunstante. Mas não, tô aqui tentando lançar mais um livro para o ano. Quero montar os textos. Mas quais crônicas escolher? Um trisca de idéia me bateu: os leitores vão escolher as crônicas do próximo livro. 
Então, queridos e queridas, peço que me ajudem selecionando cada um de vós, a sua crônica preferida. As crônicas do meu próximo livro vão ser aquelas que vocês escolherem. Vocês me ajudam? Espero terminar a seleção, com as sugestões de vocês, até o final de dezembro. As mais mais dos leitores podem ser enviadas para o e-mail que está aí em cima). 
Isso pode parecer presunção, né, coisa do Raimundinho-do-pandeiro, mas não é não. É o meu agradecimento por estarmos juntos nesta batidinha semanal. Meu próximo livro será todinho de vocês. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

crônica da semana - anjo da


Exame de vista (santo anjo do Senhor) 
A gente sai de casa que nem malda, né, numa pose. Põe uma roupa leve, porque o calor em Belém tá de a gente correr doido. Uma bermuda simplesinha, chinelo, um dinheirinho no bolso para um chope de groselha, no semáforo, se a secura for tanta. Nenhum esquema especial. Articulação, aquela mínima: “se demorar muito, já almoço por ali mesmo”. Meninos na escola, patroa no trabalho. Despreocupação e normalidade. 
Sou um cara meio desatento comigo. Não me cuido, é vero. Vou ao médico uma vez na vida, outra na sobrevida. Dia desses, na fase sobrevida, dei uns bugs de pressão e, olha, logo que me aviei para umas coisas que me aporrinham em silêncio. Aproveitei e emendei em outras que gritam dentro de mim, mas não ouço assim, todas as horas, só de vez em quando. O certo é que se não der passamento, não rolar uma cara branca, uma dorzinha aqui, outra ali, não vou mesmo. Não sou dado a checape não. 
Ocorre que desde o início do mês, tô me batendo com médicos (menos cardiologista, este pelo qual meu coração clama, me parece que professa uma especialidade em extinção, não se acha em Belém unzinho que tenha tempo para este humilde servo do condado do Xapuri, o jeito, por ora, é apelar para a Coramina), consultas, exames, papeladas e diagnósticos. Tô levando a sério, ora, quero viver mais e melhor. 
Deu-se então que nesta última segunda-feira, cumpri o rito. Saí todo pintoso, banhado, entalcado, todo prosa-cor-de-rosa, para fazer um exame de vista (aí eu confesso: se recomendação alguma havia para levar acompanhante, não li. Uma, porque a vista tá pouca, por isso os exames; outra, porque não corri os olhos no prospecto que me deram lá no consultório, nem por curiosidade. Decorei o dia, o horário e só. Nem o nome do exame eu sabia). Dancei. Paguei pela minha sensaboria. 
A pupila da gente é aquela bolinha que fica bem no meio dos olhos. Funciona como se fosse o obturador de uma máquina fotográfica. Quando o ambiente tem pouca luz, ela se dilata buscando perceber toda a luminosidade do lugar. Se, por outro lado, o ambiente tem muita luz, a pupila se contrai, fica pequenininha e só deixa passar a luminosidade necessária para definir as imagens. Já viu um obturador de máquina fotográfica funcionando? É do mesmo jeitinho. No caso da máquina-homem, quem faz as demandas para a pupila é o cérebro. Ele é que comanda o abrir/fechar da forma que melhor lhe apraz. Isso quer dizer que a dosagem de luz através da visão está subordinada a uma regra natural. É uma propriedade seletiva do nosso cocuruto. 
Daí que quando a gente vai fazer um exame de vista, na maioria das vezes, fazemos durante o dia, com o sol por acolá de forte, distribuindo, aos quatro cantos, fótons pra lá de espevitados. E nossa pupila, obediente que só ela, nem se atreve abrir além da conta, fica ali, apertadinha que ela não é besta. Mas como temos que fazer o tal exame, o que a natureza não subverte, um bom colírio dilatador providencia. Dois pinguinhos, uns lacrimejos e as nossas bolinhas, contra a vontade, se dilatam, viram bolonas. 
Já dá pra adivinhar o desnorteio que me vi, quando saí do consultório, né. Me vi azuruotinho ali no meio da rua, com o cérebro dizendo fecha, o colírio dizendo não fecha e o mundo se mostrando para mim num amplo, isotrópico e inclemente clarão. 
Não tinha companhia, é certo, aquelas representadas por parentes, amigos ou aderentes. Mas sozinho, também não estava. Até que eu conseguisse discernir alguma coisa, fui guiado, com absoluta certeza, até em casa, pelo meu anjo da guarda, santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

crônica remix - Euclides

Euclides 
Não sei se estou sendo radical ou, de certa forma, extravagante. Mas tenho sustentado, para os meus colegas de escola, a opinião de que um geólogo, para ser um geólogo de verdade, tem que ler o Euclides da Cunha.
É claro que esta minha opinião não encontra eco na grade curricular do curso (outras matérias são consideradas mais urgentes). Abriga-se, porém, na conduta profissional, no perfil visionário, na articulação contextual que reconheci no geólogo Roberto Moscoso, lá pelos idos de oitenta e poucos, em Rondônia.
Moscoso faz parte de um grupo de geólogos que não se limita ao catecismo acadêmico (e neste grupo destacam-se escritores, músicos, pensadores, poetas, e ora vejam, só pra provar que nenhum modelo é perfeito, até políticos).
Roberto Moscoso é um dos meus ídolos até hoje. É do nordeste. Um amante do semi-árido. Puxava, naquela época a brasa pra sardinha dele. E assim, tendencioso, me indicava João Cabral, Patativa do Assaré, a estética ligeira de Capiba...Mas no fundo era um sentimental. E universal. Por causa do Moscoso, conheci Pablo Neruda, o pessoal do Planeta Diário (hoje Casseta e Planeta), o Angeli, Sartre... Percebi uma parte do céu noturno e criei em mim a necessidade de um Euclides da Cunha na minha vida.
E, engraçado, as coisas vão, vão acontecendo...
Houve uma ocasião, já aqui em Barcarena, que os peões mais saidinhos, naquela zombaria corriqueira e desmesurada, no caminho até a fábrica, cognominavam este ou aquele mais discreto ou retraído, de “Euclides da Cunha”.
Na época a rede Globo estava exibindo a série ‘Desejo’. A tragédia na vida do grande escritor se consumara e inspirara (ah, nosostros, peões, sabe como é) a galera no ônibus (depois de um tempo é que fui sacar que no entendimento dos operários do turno da noite, “Euclides da Cunha” era sinônimo de marido traído, no popular: o dito corno).
Passada a indignação e pesquisando um pouco sobre a vida do autor de “Os Sertões”, fui descobrindo aquele tempero angustiante que marca a vida dos grandes gênios. No caso de Euclides, um desenrolar insano que desandou para a descendência e para a nulidade de todo e qualquer senso no posterior desencanto amoroso de Ana (de Assis) ante o mito Dilermando (que depois de todas as derrotas impostas ao grande Euclides, dizem as más línguas, ainda propôs-se vilipendiar-lhe a obra).
Em 2004, comprei uma edição, das baratas, de “Os sertões”. Fui tomado de todos os medos e todas as objeções diante do precioso relato. Resisti à tentação de começar pelo fim, naquele momento impressionante em que o autor descreve a queda de Canudos (pra lembrar: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda história, resistiu até ao esgotamento completo. Expegnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”).
Comecei do começo e vi o quanto Euclides da Cunha é importante, não só para a literatura nacional, mas para a ciência, para o entendimento das interações homem-natureza. Muitas das coisas que estão sendo exploradas como temas contemporâneos, modernos já foram dissecados em Os Sertões, por Euclides da Cunha. (o próprio conceito de meio-ambiente está condensado nos três capítulos que compõem o livro : A Terra, O Homem, A Luta). Uma das melhores explanações sobre o processo de desertificação (tão amplamente aludido hoje em dia) é elegantemente desenvolvida pelo escritor. Para os amantes das ciências da Terra, o primeiro capítulo, vale por um bifinho.

Outro dia, um amigo, indignado com o eterno sofrimento do povo nordestino, questionou a razão daquele povo viver em lugar tão inóspito. A resposta, seja do ponto de vista sociológico, quando a obra esclarece sobre o surgimento dos jagunços e anuncia o fenômeno do cangaço, seja pela ótica antropológica, quando interpõe a crença à razão de viver, está em Euclides da Cunha, que se foi há 100 anos, vítima de um sentimento desconhecido que costumamos chamar de amor.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

crônica remix - bandola

Bandola
Li n’O PARAZÃO impresso um texto muito rico discorrendo sobre as regras do futebol de rua. Todas muito pertinentes e oportunas. Este humilde servo do condado do Xapuri se permite complementar, apenas, que o futebol de rua também tinha a sua versão compacta, meio que na onda da momó, tipo ‘hoje-a-gente-não-vai-formar-vai-ficar-só-na-calçada-infernizando-a-vida-do-vizinho’. A lei era basicamente a mesma, com alguns ajustes na concepção espacial. No futebol de calçada, por exemplo, ‘bola no ar, não dá’; a tabela com o muro (embora detestada e considerada desleal) é tolerada; gol de cabeça vale dois e a bola, logicamente, tinha que ser especial, de tamanho menor. Uma Dente-de-leite esvaziada, toscamente remendada com faca quente e com aquele fiofiozinho de ar vazando pelo remendo. A travinha era medida a pés juntinhos, num total de oito equilibradas pisadas.
Foi-não-foi, o futebol de calçada ocorria paralelamente ao futebol de rua com o pessoal que ficava na grade, mas era mais pleno e disputado nas férias de julho quando a molecada dava uma sumida e não rolava o quorum para formar no asfalto da Mauriti. A composição era minimizada e previdente. Dois pra cada lado, e um menino atrevido, pronto par enfrentar o seu Ernesto caso a bola caísse nos domínios dele.
O palco preferido para os grandes combates era a calçada do seu Cézar. Um valoroso paraense, doutor Cézar Bentes não bulia com a gente (fazia uma leitura generosa daquela situação). O muro da casa dele era alto, o gramado era amplo, a casa era recuada. Não fosse pelo embaraço no portão, quando ele chegava, lá pelas cinco e poucas, seu Cézar jamais seria incomodado com a nossa bola. Ele entrava com o carro, sumia lá pra dentro, na paz, e a gente ia até de noite, aproveitando as luzes de mercúrio.
O problema era o seu Ernesto, cujo muro baixo limitava a trave que dava pros lados da Marquês (condição que ensejou a regra que validava dois gols para quem intentasse de cabeça, porque, como a bola alta sempre varava pro outro lado, quando voltava inteira, era uma festa; e que também instituiu a figura do moleque atrevido, aquele que pulava o muro e recuperava a bola). Na maioria das vezes, porém, seu Ernesto vencia a contenda e devolvia a bola bandada. Puxava pelo remendo, separava as partes e jogava de volta. Aí não tinha festa, não.


domingo, 3 de novembro de 2013

30.000

Tá chegando, né...
Só lembrando que aquele que for o 30.000 visitante do blog
basta acusar-se como tal
para ganhar um monte de prêmios
dentre os quais
- um quilo de bombom
- 30.000 bitocas
- um prêmio surpresa
- um exemplar autografado de O rio do meu lugar
e outro de A Filha do holandês

sábado, 2 de novembro de 2013

crônica da semana - rádio


Nas ondas do rádio 
Eu ouço A Voz do Brasil. O programa vai ao ar justo quando chego do trabalho. Venho de Barcarena pela alça, e desço lá no Bosque. De lá até em casa, venho andando. Não sei se minto pra mim mesmo, mas acho que esta caminhada de 25 minutos me dá um plus à vida. No trajeto, reparo nas notícias que vêm de Brasília. 
Não é muito normal, em tempo de internet, alguém sintonizar n’A Voz..., mas este tipo de propagação já esteve muito presente na minha vida. O rádio foi desde antes um companheiraço meu. 
Em Belém, aprendi a ouvir rádio com a mamãe. Durante uns quantos anos, varamos os dias sem televisão. Aqui, ali, assistíamos a um capítulo de Xeque-Mate, na televi’zinha. Um desaviso e ela nos deixava ver algum programa depois da novela, mas depois tornava da liberalidade, fechava a janela e a gente se aviava em procurar outros termos. Íamos direto para o rádio. Mamãe atava a rede na salinha de casa, ajeitava a freqüência num programa de seresta e aí a gente ia embora, noite à dentro, só curtindo. Só s’embalando. 
Em Rondônia, dei com a Rádio Nacional de Brasília. Era a internet da época. Não exatamente daquele início dos anos oitenta. A Rádio Nacional dominou o espaço amazônico durante décadas. Por aqueles dias tinha um time de responsa. Edelson Moura e Márcia Ferreira eram as mais cintilantes estrelas da emissora. Faziam a chinfra das manhãs e os musicais animados. Artemisa Azevedo aparecia num horário pouco concorrido, mas dava seu recado com simpatia. O domingo nos trazia a graça e a docilidade de Tia Leninha: “hoje a Tia Leninha vai contar uma historinha muito bonita pra vocês”. Era o dia da petizada, e esta agradável atmosfera de programa infantil, anos mais tarde, já de volta a Belém, me faria acordar às 9 da madrugada do domingo, eu mais os meus meninos, para ouvir o Abracadabra da Linda Ribeiro. 
Comparo a Rádio Nacional como a madrinha boazinha do homem amazônico. Pega no mais escondido cafundó. Atualiza o preço do ouro, ratifica o valor das pelas de borracha, anuncia a chuva nas cabeceiras dos rios, alerta sobre o nível do rio Tocantins à jusante de Tucuruí, transmite recados dos filhos debandados que chapinham pelos garimpos do Cuiucuiú, do Crepori, do Creporizinho. Uma rádio obsequiosa, mas pragmática. Foi-não-foi seus locutores ganham o trecho para fazerem shows. Viram cantores e para mim, perdem o encanto. O bacana mesmo é quando eles pairam lá por cima, pelos céus, nas ondas do rádio. Invisíveis, misteriosos. Sublimes e inatingíveis ao longe, ao sonho e à imaginação. Lindas e poderosas vozes reverberando no ar verdades, mesmo que tristonhas; mentiras, ainda que risonhas. Saudades. 
Da Almirante até a Pedreira, tento ganhar mais uns dias de vida intentando fazer de uma caminhada funcional, uma providente atividade física. Passo a passo, vou me inteirando dos acontecimentos, dos pronunciamentos, das disputas partidárias, das reminiscências ideológicas, dos fisiologismos previsíveis, ouvindo A Voz do Brasil. 
Quando quebro na Marquês, varo na frente da casa de um cidadão, que, do mesmo jeitinho que eu, está sintonizado n’ A voz... Só que ele ouve rádio do jeito tradicional. Tem um aparelho daqueles de botão e com alça. Mas não segura pela alça. Põe a cadeira na porta da rua, senta, segura o Motorola por baixo e o posiciona a altura do ouvido. Sério, entretém-se com as locuções. Passo por ele, aceno com a cabeça (como se dissesse, também tô ouvindo aqui no meu fone). Ele me devolve o cumprimento como se respondesse: “eu sei”...E o efeito Dopller vai nos distanciando, apesar das nossas afinidades e proximidades. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Crônica remix - juraci

Culpa do Juraci
Mas, ô coisa pra dar certo!
Depois de uma semana e pouco com uma virose que me pegou pelo gasgo, cortou e arou o meu ânimo, e me pôs às quedas, me vem o alívio. Tava mofino, mesmo. Pródigo em chiliquitos enfadonhos, hios e chios insolentes, devastadoras angústias, espirros e constipações.
Era só a noite chegar que um gogo violento me atacava, uma tosse irritante me vencia. Era um tuco-tuco de estremecer as paredes. Uma desinquietação, uma desesperança. E haja exercício fonoaudiológico: nunca na história deste país, a palavra otorrinolaringologia foi pronunciada, por mim, com tanta desenvoltura, quanto nesses dias passados, de tanto que a garganta ardia.
Ainda bem que passou. Umas furadas na poupança e umas ‘piulas’ deste tamanho me ergueram. Ah, e ainda uma trova que recebi do meu amigo poeta Antônio Juraci Siqueira. E que diz assim: “Se a mão de Deus te conduz/pouco importa aonde te leva/quem anda junto da luz/não há de temer a treva”.
É por isso que eu digo: ô, coisa pra dar certo. Palavras amigas que chegam, assim, como coincidência, feito previdência, no instantinho certo que a gente tá precisando. Uma trova que fala de luz, de certezas e confiança na estrada da vida. Não foi intencional (Juraci nem sabia que eu tava dodói). Por isso tem um valor maior. Expressa uma emanação de energia positiva facultada, um bem arbitrário. Elevou-me a moral, o poema. Foi, sem errada, um caribé de versos bem chegados que me deram sustância e me abriram a janela (e os brônquios) para o dia.
Tô na convalescença. Ainda me recuperando com cuidado e zelo. Fugindo de qualquer respingo, da mais branda friagem, mas agora com o aditivo das palavras a me estimular. Vou tornar à luz. Culpa de fármacos caríssimos e do Juraci (que me veio sem ônus).
Aí, volto com o Juraci no tempo e o encontro nos varais de poesia, no Centur; nos corredores da pensão da Cotinha; nos circuitos de fotografia, na praça Ferro de Engomar e na minha silenciosa tietagem. Era fã do cara. Acompanhava as andanças dele, mas ficava sempre de longe. Naqueles tempos, já o considerava um mito, de parelha em mistérios e encantos, com o boto.
Mas daí, houve a Feira do Livro de 1999. Foi o ano do lançamento do meu primeiro livro “O Operário em Verso e Prosa”, em parceria com o poeta José Miguel Alves. Éramos calouros na função. Acanhados. No estande dos escritores paraenses, as estrelas mais reluzentes da nossa literatura. Dentre elas, o Juraci. Nessa ocasião, descobrimos (eu e o Miguel), a face mais detalhadamente humana do boto. A acolhida que Juraci nos deu, àquele meio ilustrado, foi de todas as maneiras, generosa. Nos tratou como gente grande. Nos intervalos das programações, sempre se achegava, batia uma bolinha com a gente. Não dava tempo para nos sentirmos deslocados, eclipsados por tantos brilhos que dali irradiavam. Ele já era o Juraci, uma das pedras angulares da Malta de Poetas folhas e Ervas, e nós não éramos ninguém. Para ele, porém, éramos colegas de ofício. Fomos abonados e ganhamos um naipe literário na Feira daquele ano. Culpa do Juraci.
Tempos depois, aproveitei um Arrastão do Pavulagem, catei o Jura da multidão e entreguei a ele uma pacotão datilografado com os originais do meu segundo livro “O Dia Mais feliz...”. O poeta fez a apresentação do livro em um texto grandioso, de uma nobreza, de uma elegância... Enriqueceu o meu livro, falou coisas tão legais que eu fiquei até meio metidão, enquanto durou a edição.

Agora, no início da semana, ele me trouxe a luz. Tô na convalescença ainda, mas com a ajuda de tão cintilantes versos, com certeza varo. Culpa do Juraci.

sábado, 26 de outubro de 2013

crônica da semana - amar e (subversão)

Amar e outros medos (a subversão)

Em 1977, eu trabalhava de caixeiro numa taberna, o Geisel não generalizava quando se falava em Abertura Política, minha professora Cleide Nascimento se entronizava no meu reino acudindo-me na arte da “Comunicação Oral e Escrita”, O Batista ganhava posição de volante na seleção canarinho, eu estava na sétima série e meu melhor amigo era o Eduardo Figueira de Farias Neto. 
Tinha 14 anos e me dedicava no trampo. Aviava os fregueses na caté, cumpria horário...Mas no sábado, dava nó. O glorioso Internacional da Mauriti me mundiava. Dizia pro meu patrão, pra mamãe, que tinha aula de Educação Física, mergulhava por detrás do muro da vizinha pra ninguém me ver, e ficava na bicora até completar nossa onzena. Com o time formado, boiava na rua, corria para pegar o Nova Marambaia- Telégrafo e ganhava o rumo do campo da granja Novo Livramento, na  Augusto Montenegro. 
Tinha o Eduardo como um ídolo. Era um garoto da minha idade, bem mais alto, esguio, um moreno jeitoso. Me contava das aventuras dele com as garotas (aventuras  bem mais avançadas que as minhas). Dizia que depois ...depois de tórridos momentos, atracado com as pequenas, num daqueles escurinhos do muro do Bosque, bom mesmo era tomar uma Coca-cola bem gelada... Mas não era garoto de viver só de amor. Foi não foi, tirava a cisma com um menino da sétima A, na saída da escola. Eu ali, de parceiro, segurava a camisa dele, os cadernos. Eduardo dava umas bicudas, pegava uns transpescos e quando a coisa esquentava, a turma do deixa-disso atuava. Passava, passava...e com uns dias, os dois se trançavam no pau de novo. Era uma eterna disputa, mas o Eduardo era o meu líder. O meu ídolo. Eu era assessor e torcedor dele. 
A Ditadura agonizava, mas nem tanto. As bombas ainda estouravam esperanças em bancas de revistas e tínhamos um professor de Moral e Cívica que era fã dos militares. Pelo que se torna e pelo que se deixa, ele era um entusiasmado com o conservadorismo. Com um calor de lascar, na cidade, ia dar aula todo empacotado, até de paletó ele ia. Se empinava todo porque era convidado a fazer parte de júris populares em julgamentos concorridos. Mas o que mais o animava era elencar os ministros do governo militar. Até hoje lembro. Tínhamos que decorar: Agricultura, Alysson Paulinelli; Educação, Ney Braga; Interior, Rangel Reis; Minas e Energia, ShigeakiUeki...No Exército, o insurgente Sylvio Frota. E assim por em adiante. E ai de mim que não soubesse. O homi era linha duríssima. Uma falhazinha assim de memória e ele reprovava mesmo. Tinha medo dele. 
Não tive medo de amar em 1977...Ela aparecia toda manhã na taberna ornada com o charme de uma remelinha pregada no canto do olho. Daí que eu me assanhei. Imaginei ‘tórridos momentos’. Propus. Havia uma casa desocupada na Rua Nova com a Estrela. Dispunha-se sobre um terreno úmido e era tomada lateralmente por touceiras enormes de capim. Nosso ninho. Setembro quente. O mesmo horário da aula. Dei nó. Às favas os ministros do governo Geisel e o meu professor sem pescoço. Às favas os escrúpulos com a concordância verbal. Eu queria amar ela. Eu queria ter ela. Às favas as dores na consciência e as penitências. Queria ser feliz. Encontrar pela primeira vez os jardins floridos em meio ao capinzal da Rua Nova; queria ouvir ela sussurrando no meu ouvido “pão e meio, pão e meio, e dez de manteiga”. Absurdamente excitante. Deliciosamente provocante. Ai, ai, a cara que o Eduardo fez quando contei os detalhes...   
Ah, sim, cumpri o rito: depois do caso passado, tomei uma Coca-cola bem gelada na padaria da Pedro Miranda com a Mauriti. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Crônica remix - som e fúria

To be or not to be
A gente até pode fazer caretinhas, soltar uns venenos críticos despeitados. Mas quando se trata de minisséries, há de se ter cuidado com os juízos. Nessas horas, a galera do plimplim capricha.
Neste formato, a Globo acumula um feixe admirável de competentes produções que, pelo hio ou pelo chio (para lembrar a memorável montagem de “Grande Sertão:Veredas”) ilustraram a história da imponente dramaturgia da emissora.
A minha preferida é “Agosto”, baseada no Romance de Rubem Fonseca e exibida em 1993. Posso explicar esta minha queda pela série porque acho que ela foi montada de forma a realçar a qualidade dos atores. Zé Mayer, a partir dali fez o nome comigo (e olha que naquele tempo ele nem era o tiozinho ‘lindo, tesão, bonito e gostosão’ preferido de dez entre dez moçoilas assanhadas).
E foi na direção do palco, mas disparando luz, luxúria, loucura, som e fúria para todos os lados, que a Globo apostou as fichas para preservar a gloriosa tradição das minisséries.
Baseada na produção canadense " Slings and Arrows” a minissérie “Som e Fúria” mira nas peculiaridades do mundo artístico. Assim, a série renova uma experiência da emissora que, na novela Espelho Mágico, de Lauro César Muniz, tentava mostrar o dia-a-dia de atores famosos.
Condensada numa metanarrativa acelerada, “Som e Furia” explora a porção humana dos atores, o ‘dark side’ da fama. Aquela faceta próxima a todos nós mortais que compete, que corrompe, que tem dívidas, que tem ambições e por vezes, atropela a ética para conseguir os objetivos (o ‘barzinho logo mais à noite’ é o cenário para vapores, baratos e papos-cabeça mas também, para articulações, ciumeiras e rasteiras desleais).
Por outro lado, as mumunhas que rolam em alto relevo no meio cultural são também contempladas. A história envolve um respeitável aparato teatral (com uma estrutura administrativa; um prédio grandiloqüente; um quadro estável e competente de atores e um severíssimo critério de seleção de pauta almejando sempre os clássicos) sob total ingerência do Estado. Suscetível, portanto aos vícios da corrupção, do clientelismo e das armadilhas do marketing de vanguarda (no caso, do estranhíssimo Santoro). Este perfil meticulosamente organizado, a ligação com o Estado e uma (não explícita, mas dedutível) preferência de público, dão uma descabida tonalidade elitista ao fazer teatral (e pelo caráter promíscuo na relação com o poder e, ainda, pelo status permitido ao alto clero da produção cultural, enseja uma narrativa que desmascara a utilização pragmática da arte como identificou, destemidamente, Klaus Mann em “Mefisto”).
Além da sobriedade temática, a produção se destaca pela forma. Para modelar o recado, a Globo pescou do cinema o premiadíssimo Fernando Meirelles. O diretor surpreende vestindo a narrativa de cores neutras e trazendo para a telinha uma imagem áspera, de textura porosa, dispersa e ponteada de intrigantes vazios (é como se em cada cena houvesse uma mensagem criptografada, um obscuro segredo. Uma simbologia alertando que há algo de podre no reino da ‘Vila da Barca’).
“Som e Fúria” traz a sofisticação do drama Shakespeareano num discurso metalingüístico em que a insanidade recorre a um fantasma para acudir-se dos conflitos do ser e do não ser. Volve à luz os valores que salvaguardam a nobre missão de interpretar, cristaliza e aproxima da gente a alma múltipla, santa e pecadora do ator.
Mas o melhor da série é que ela resgatou das profundezas da coxia, o esforçado Felipe Camargo e, para a minha indisfarçável felicidade, a Zelda Scott, minha eterna musa, no papel de Andréa Beltrão. Amei.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

crônica remix- carrusser

Meu Reino por Uma Rudada no Carusser
Há um tempão venho garantindo uma agenda estável para a quadra Nazarena. Uma programação retilínea que começava na sexta-feira com o Auto do Círio (e que numa ocasião coincidiu com a apresentação emocionada do insuperável Milton Nascimento) e culminava com uma volta no largo, no domingo de tardezinha (e desta prenda, em particular, reflito aflito, não dá para desobrigar-se. Todo ano tenho porque tenho de tirar um tempo pra’gente apreciar a iluminação da Basílica, se lambuzar de algodão doce, morrer de medo com a fuga da Monga e sair zonzo de uma ‘rudada no carusser’).
Na pauta, também, a aquisição dos brinquedos da época e nem só dos brinquedos tradicionais, mas também dos circunstantes. O roque-roque (agora também chamado de corró-corró, lá no calor do Arrastão do Pavulagem), aquele pássaro de madeira que, tec-tec, bate as asas e o indefectível barco de miriti são sempre objetos dos meus desejos.
Na outra ponta, os de plástico: a bolona colorida, um carrinho que faz um ronc ronc nas rodas quando friccionado na calçada, um barquinho descolorido e de superfícies fechadas, querendo ser uma lancha, sem graça que só ele (e quanto mais sem graça, melhor!) e uma boneca com o plastiquinho dos olhos azuis descolando, estes têm lugar certo na minha bagagem, contanto que sejam adquiridos nas exposições espalhadas pelo chão do arraial (atualmente conhecidas como comércio informal, mas que existem sem apelido, desde muito, muito tempo).
Há um bom tempo venho mantendo esta programação. Emoções e prazeres atualizados em cada dia:
A estética ribeirinha no Auto do Círio, o encontro sazonal no bar do Gilson, na sexta; os sentimentos indecifráveis na chegada da procissão fluvial, a alegria em alta temperatura do Arrastão do Pavulagem; o peixe frito com açaí, no Ver-O-Peso...Os imprescindíveis valores profanos na Festa da Chiquita, tudo no sábado; e no domingo, a remissão, a fé, a Corda ( a inquietante dúvida do corta, não corta), o rio de gente, na grande procissão; o almoço na casa do poeta José Miguel Alves e a alegria desbragada das crianças por entre os ecos pregoeiros do arraial.
Há tempos cumpro esta agenda, mas este ano, necas! Nem pro Círio deu para eu ir. Fiquei pegado no trabalho durante o final de semana do Círio, depois veio a antipática combinação falta de numerário/falta de tempo, e olha lá, já estamos indo pro final da quadra e nada.
Mas vou me virar para, antes da última noite do arraial (porque na noite do ‘fogos’, não tem combate!) dar um jeito para uma voltinha, com a mulher e os meninos, no largo...uma rudada no carusser...um algodão doce...Tenho fé.

sábado, 19 de outubro de 2013

crônica da semana - johnny

Johnny Vai à Guerra

Hoje amanheci sem nariz. O mundo se realiza a distâncias sem me dar conta de seus odores. Eu só tenho língua e sonhos. Língua para perceber poucos sabores. Sabores poucos. Sonhos muitos. 
(Nos meus devaneios, lembro os tempos em que ficava gripado e não sentia gosto nas coisas que comia, me enfastiava e mamãe ralhava pra eu comer mais um tiquinho. Vem à lembrança, também, aquele início dos anos 80, quando minha amiga Leila Paixão fez porque fez para que eu assistisse “Johnny Vai à Guerra”. Era o grande filme do momento. A trama girava em torno de um soldado americano atingido por um morteiro, na 1ª guerra mundial. Perde o nariz, a boca, os olhos, as pernas, os braços. Não morre. É mantido no hospital como objeto de pesquisa. Algo de aprendizado a ciência deveria obter daquele corpo subtraído de peças, largado sobre a cama. Apenas a consciência se anima sobre o leito estanque daquele hospital. O soldado não pode se comunicar a não ser com ele mesmo, com o oco de si...) 
Ficar sem nariz é ruim. A gente fica embotado. Perde-se nas lembranças. É como ficar sozinho. Cheio de buraquinhos permeados de ausências. É como se nos tornássemos um pulverizado opaco vagando ao vento, inerte, mas aquecido, abrasador. Então a gente se engole inteiro e vai pra dentro do eu, fuçar saudades (sem o nariz). 
No domingo do Círio, volvi meus pensamentos para meus amigos distantes, sem narizes pra cheirar os cheiros do Pará. 
Eu já me bati com esses reveses. Passei muitos Círios fora, por aí, por esses verdes amazônicos. Minha mãe, minha amiga, minha companheira sabia que eu sofria. Era conta certa. Em outubro, onde quer que eu estivesse, podia esperar pelo correio, um mimo. O mais comum deles, um roc-roc que eu ficava roc roc’ando o tempo que desse, pelos cantos com os olhos lacrimejantes até acabar o breu. Certa vez mamãe variou e mandou duas garrafas de Guaraná Garoto (só faltou o pastel folheado de queijo). Superou-se em ousadia, numa outra oportunidade, quando mandou em mãos, lá para as margens do rio Madeira em Rondônia, uma dose generosa de maniçoba. Sabia das minhas privações, minha mãe. 
Algumas joinhas do meu séquito passaram, compulsoriamente, o Círio deste ano, longe de Belém. Laila, a professora-poeta, que tanto me ensinou em desprendimento, liberdade e audácia com seus escritos, enfurna-se pelos estirões falhados do Xingu, experimentando os desafios do magistério. Rubem Neto, meu best friend do curso de Geologia e que, um dia desses me regalou (meio sem querer porque esqueceu o disco aqui em casa e aí, já sabe, já era...) com o indefectível Abbey Road em vinil, se bandeou pras bandas da Bahia a prospectar níquel, e  por lá ficou o último final de semana, só na vontade de ir na corda. Os dois muito jovens, integrantes da safra de amigos bem novinhos, bem beberes que tenho, que me honram com suas companhias e em noitadas mais animadas, partilham socialisticamente comigo, o último copo da mardita ao jambu. 
Vou buscá-los donde estiverem com minha saudade. Leila Paixão, inclusive, que fez porque fez para que eu conhecesse Johnny e depois ergueu-se na tez banhada pelo sol da Sacramenta, ajeitou os óculos redondinhos, aprumou a vista e partiu para conquistar a Holanda. 
Hoje amanheci sem o nariz, sem os olhos, sem as pernas, sem os braços. Constatei que 80% dos sabores que percebemos são captados pelo olfato. Mas hoje amanheci sem o nariz. Tô oco por fora, e por dentro só tenho os sonhos e a língua. Os sonhos e a língua. Os sonhos, a língua. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

crônica remix - salve rainha

Salve Rainha
Mãe de Deus, volvei para mim, teu olhar. Para mim que vivo num pé e noutro para atravessar a baía e descalçar o coração, com fé. Para mim, que não posso ouvir o teu hino que me dano a chorar, nem beijar a tua imagem na folhinha do mês, nem contemplar o teu semblante gravado na minha bolsinha de moedas, nem acariciar teu rosto desenhado na capa do livreto da novena, que o teu amor me arde, e me lacrimeja os olhos, ó mãe clemente.
És o meu auxílio, ó dadivosa, e te procuro debaixo deste sol das dez, mergulhado no fervor desta multidão, com tanta esperança, que nem importa qual promessa estou a pagar.
Se foi aquela quando te vi as pupilas agigantarem-se e descolorirem a tua íris explodindo o caleidoscópio da tua alma em mil pedaços de dor...
(E assim, lentamente, se foi para sempre a luz dos meus dias – Luzia – Foi assim, aos poucos, que o fogo provedor dos teus olhos foi se apagando, que o silêncio desbotado daquela hora foi sendo, compassadamente, transportado para além da minha compreensão. Foi então que, tragado pela escuridão, mergulhei no mar de insuportáveis sofrimentos. E foi assim que a minha fé fraquejou, cambaleou e largou-se às sarjetas frígidas da descrença - Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos, a nós volvei... Até que um dia, te encontrei novamente nos olhos graúdos de meus filhos: esperanças e motivos para recomeçar. Encontrei novamente a vida pulsando, querendo, voltando...Pelas ruas de outubro, de Belém, de revelações. Mamãe, mamãe...Mãezinha do céu, eu reaprendi a rezar).
...Ou a promessa foi por aquela outra vez em que eu caí sobre uma lata de conserva, quando eu era bem pequenininho, lá no seringal São Miguel, na planície do rio Acre, e um talho deste tamanho quase aparta a minha perna, e haja borra de café, pra sarar. E haja providência. E haja rogos e pedidos.  
E quantas outras promessas eu devo estar pagando agora, ó piedosa mãe!
Sei apenas ó dulcíssima, que, agora, não é a certeza da morte que me dói, e sim, a dúvida do desterro, da separação, da distância, da saudade. E eu, filho exilado, te procuro na tua canção (‘Salve Rainha, mãe de Deus, és senhora nossa mãe...’), no teu coraçãozinho de prata guardadinho na caixa de sapatos, na tua fotografia tão nítida, que a luz do dia me deu. Te procuro no mal secular que eu te fiz, no pouquinho de amor que eu te dei, no muito que é o desejo de te ter perto de mim. Te procuro na tua face serena de mãe como naquela noite em que a eternidade nos visitou...Aquela noite... Aquele silêncio, aquele silêncio meticuloso, cruel, torturante...Que apagou teus olhos e  te levou para sempre.
volta para mim, ó mãe, teu olhar confiante. Que eu quero me aninhar no teu colo (como um filhinho, como um filhinho). Que a emoção me consome quando os fogos te anunciam. Que eu quero afagar tuas mãos. (E minhas lágrimas escorrem pelo rosto  e se espalham e somem, e orvalham desertos e hidratam fervores, levadas que são pela brisa amiga que vem da baía). Quero que me guardes, ó misericordiosa, pois o tempo é de conversão e te vejo chegar, pelas águas, tomada pelas dores do mundo, no meio de gente de tanta fé.
Que eu não sei quantas vezes, nem tempos, nem anos, ficaremos juntos, rezando para que a dor da saudade, esta saudade sofrida, inclemente, que consome os meus dias, passe.
E depois deste desterro mostrai-me Jesus, Para que nunca mais eu me sinta tão só.
Ora pro nobis, sancta Dei Genitrix.
O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria.

Amém.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Crônica remix-eu era pequeno

Eu era pequeno, nem me lembro
Só lembro que desde aquele dia e por anos e anos, a minha mãe nos levava, a todos, a uma oração, antes de dormir. Rezávamos a Ave Maria de joelhos e cheios de fé porque minha mãe dizia que a santinha havia me livrado de um encalacre federal.
Eu era bem bebê. Tinha lá uns quatro anos. Minha irmã, Ana Valéria, é um ano mais velha que eu, naquela manhã friinha, lá na planície do rio Acre, contava com pouco mais de cinco anos. Virávamos, mexíamos e pintávamos os canecos, porém, pelo terreiro amplo que margeava o barracão do seringal São Miguel (e hoje eu até dou este desconto para as peripécias que fazíamos porque imagino como é que se divertiam os garotos naqueles ermos acreanos desprovidos de ruídos e modernidades. Lembro que eu, por vezes, era jogado numa caixa de sabão vazia e dela fazia de um tudo: carrinho sem rodas, caminha, lambretinha, peniquinho, ruinhas de seringuinhas... E varava os dias me divertindo quieto e sozinho, como era bom de ser. Mas quando me soltavam...).
Ana Valéria não contente em subir nos cajueiros para catar os frutos e depois comê-los com sal, chamou os pequenos (todos afilhados de minha mãe) e comandou uma descida estabanada para o igarapé que ficava um pouquinho longe do barracão, já no meio de uma mata rala (à época, já havia, meio que instintivamente, entre os seringueiros, o conceito de mata ciliar). E quem ficou para trás? O cabeçudinho aqui, com um andar tremelicante, meio cai não cai naquele declive radical que levava às águas do Ina. Minha irmã não contou conversa. Desacelerou, me pegou no colo e continuou a carreira rumo ao vale do igarapé. Aí, rolou a tragédia...
A seringa gerava uma grana boa na época. A borracha alcançava mercados distantes. E na proporção que se exportava, também se adquiria produtos de fora. E os enlatados faziam um sucesso! Sardinha da costa portuguesa, ervilhas francesas, presuntos italianos, almôndegas dinamarquesas. O seringueiro se endividava com o patrão adquirindo aqueles produtos alienígenas (não podiam praticar a cultura de subsistência, lembro. Tinham que depender sempre dos víveres oferecidos pelo patrão), alimentando-se daquelas massas transoceânicas e, como hoje (infelizmente) largando os resíduos ao tempo. Resultado: no caminho para o igarapé minha irmã escorregou no limo verde e eu rebolei sobre uma lata de conserva.
Minha irmã chorava mais que eu. Meu pai teve que vir às carreiras lá das matas (e como a presença do meu pai me confortou. Papai, papai, papai! Aquele abraço que papai me deu... Trago comigo até hoje a absoluta certeza da segurança que se fez real naquele instante em que meu pai me tomou no colo e me cuidou).
Depois de tantos anos, não é difícil de achar a cicatriz aqui no meu joelho direito (até hoje é uma teba!). Acho que varei mesmo.
De lá do seringal até à cidade, eram seis horas no caçuá. Não havia tempo para o transporte. Minha mãe cozeu o café, colheu o mais que pôde de borra e fez uma compressa no meu golpe com tiras de um lençol que quarava no quintal. Depois chamou os vizinhos, as comadres, a família. Pôs a imagem da Virgem de Nazaré no oratório e pediu que ela nos acudisse.
Daqui a pouco quando a santinha desembarcar da romaria fluvial, vou estender minhas mãos para ela (e este ano não tenho que erguer meus meninos no tuntum para ver a santa. Já passaram de mim). Vou sentir uma saudade danada do meu pai, da minha mãe. As lágrimas vão rolar. Vou agradecer porque um dia a mãe de Deus volveu os olhos para mim. Mas vou pedir perdão também, porque depois fui crescendo e ‘fui esquecendo nossa amizade’.