segunda-feira, 29 de outubro de 2012

crônica remix - sanduíche


Xis tudo de queijo
Poucas situações me deixam tão categoricamente desconcertado quanto comer um sanduíche em público. Para mim, é sempre um desafio, uma superação. Ainda mais estes de agora, grandões que não tem nem como a gente abarcar. Fazer um lanche, zelando pelos conceitos mínimos de educação é comprovadamente impossível, mas a garotada dá o maior valor num sanduichão e a gente que é pai, ó, embarca...
Tudo começa na hora do pedido. Aviso logo aos meninos, para nos determos nos despretensiosos. Nada de espécimes no superlativo. Se os simplesinhos já dão um trabalho no manuseio, que dirá os gigantões. Sugiro uns exemplares da família do ‘Xis’ (que, segundo a minha filha, quer dizer queijo em inglês, e não é xis, pai, é cheese). Ah, tá.
Então, mãos à obra. O arranjo, fumegante, me chega abrigado numa cestinha e vestido em um plastiquinho todo molenga. Examino, movimento o sanduíche entre as mãos buscando um lugarzinho menos quente para aprumar o tato e um espaço mais ou menos organizado, limitado pelas duas fatias de pão em que eu possa, com confiança, dar a primeira mordida. Dimensiono a amplitude da mordedura (nessa hora, lembro aos meninos a reportagem da TV que mostrava aquele bichinho da Tasmânia e contava que ele tem, proporcionalmente, a maior abertura de boca entre os mamíferos. Com os incisivos a postos, deduzo que esse povo da TV não, ainda não mediu um sapiens devorando um fast-food muito dos seus porrudo), inclino o xistanic uns 30 graus, assim, para bombordo, miro num vértice ornado por uma folhinha de alface e preenchido por um riozinho de maionese e ketchup, fecho os olhos e ataco.
O resultado desta primeira investida foi uma casquinha amarelinha de milho escorregando pela bochecha e se acomodando soberana, na parte mediana do meu queixo; uma pinta ridícula de molho rosé na ponta do nariz; um patético desenho de especiarias nas reentrâncias do bigode; e a boca cheia, tentando articular um pedido para que alguém, pelo amor de Deus me socorresse com um ‘lenfinho’ de papel.
Os meninos, nem aí.
Percebi que vigora um acordo tácito neste ritual bizarro de atacar um sanduíche. Os comensais, parece que reconhecendo a indelicadeza da coisa, fecham-se em si. Impõem-se o fim único de destruir aquele conjunto calórico. E, alheios aos anteparos sociais, retornam alguns milhares de anos na história e deixam-se dominar pelo instinto. Sucumbem aos tiques primitivos, aos lambuzeios neandertalenses. A palavra, falada, é claro, dá lugar somente a alguns grunhidos e todos, objetivando única e exclusivamente, mais um chumaço de ‘lenfinhos’. Eu, besta que não sou, segui o bonde. Baixei a cabeça e esqueci do mundo. O intervalo permitido nesta batalha é destinado somente a um gole de refri, para dar aquela força na ingestão. E depois, é vapt, vapt, vapt...
Uma reflexão, milagrosamente, de vez em vez, interrompe este sistema caótico e desperta a mente para um detalhe extraordinariamente lógico: há uma indicação nítida de que tem pouco pão, para muito recheio. E esta observação vai se avolumando quentinha, bem naquela quinazinha da embalagem plástica.
Ao final da aventura, não tive coragem, como fizeram os meninos e todos os outros que estavam na lanchonete, de virar o plastiquinho do avesso e, sem remorsos, comer aquele cuizinho acumulado na dobra (eu, hein! Sou um cara de responsa, mas que deu vontade de levar aquela sobrazinha pra casa e comer com farinha, ah, isso deu). Mas como os outros, estava todo breado, reivindicando uma redentora sensação de adstringência nas mãos. A fila do lavatório, por sua vez, estava um horror, e tive que me contentar com mais uns ‘lenfinhos’. Aliás, segundo uma pesquisa da Universidade de Harvard, comer sanduíche na rua é a atividade humana que mais consome lencinho de papel.
Não duvido, não. A cestinha ficou por acolá mesmo.


Um comentário:

  1. Eraaaaas...até bateu uma fome de se aventurar nessa agonia de novo!rsrs

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