O prestação
Quando o cobrador aparecia lá fora no portão, o menino saía em disparada pelo corredor. Mãaaaaaeee-ê, o prestação! Na mesma pisada, o cachorro se abalava com mais de mil lá de dentro latindo grosso e enfezado. O pobre do homem torcia para que o cercado de gravetos retorcidos, atados com uma tira de borracha dura, dessas que capeiam o pneu de carro, resistisse à fúria do cão. A jovem dona da casa largava a roupa que estava espremendo no tanque e ganhava o rumo da rua enxugando as mãos no vestido de tecido barato e mentindo alto. Não precisa ter medo, ele não morde não. É só barulho. E o bicho possesso rosnando brabo com a cabeça quente de tanto martelar o vão entre os gravetos. Esta cena se repetia toda semana. E ela dizia, ah, moço, passe pra semana que meu dinheiro ainda não saiu. E lá o galego dava meia volta e desaparecia no final da rua com a cabeça protegida por um esturricado chapéu de couro, levando uma rede bem colorida dobrada no ombro, umas panelas de alça em umas das mão e na outra, um maço de Minister, um isqueiro e a ruma de cartões que iria cobrar naquele dia.
Era useira e vezeira em malinar assim com os prestações. Nas raras vezes em que tinha dinheiro, mesmo assim, não pagava. Era o calibre dela desgostar os outros. Fazer o mal.
Sempre foi assim. Quando criança, esnobava os coleguinhas. Na hora da merenda ficava ostentando o bico de pão que trazia de casa e fazia pouco dos outros que não tinham nem um isso pra comer. Vez ou outra, um mais descontrolado se aproximava. Espiava, fitava o lanchinho com o olhar pidão. Perguntava (mesmo sabendo que era um tantinho de pão). Qu’é isso? Pão com manteiga que mamãe me deu pra mim merendar, respondia ela, algo sádica. Me dá um pedaço, continuava o pequeno, já mundiado pelo passeio tentador daquele d’cumêzinho ali, bem na frente dele. Ela esticava o polegar até delimitar uma tirinha milimétrica e marcava com a unha a parte que cabia ao menino. Toma, ordenava, quase empurrando o pão na boca do coleguinha. No instante em que o moleque se animava com o bocão à vante, aí ela zombava do pobre. Se deliciava em movimentos de negação, trazendo o braço para trás, tirando o pãozinho do alcance do garoto. Aquele era um divertimento sem comparação. Sentia um contentamento, um gozo feérico. Agradava-lhe extraordinariamente tal aviltamento, vibrava com a humilhação que impunha ao amiguinho. Até que o menino abarcava com uma mordida o naco esmigalhado do pão e ainda uma boa parte da mão dela. Daí era uma reclamação só. Não te dou mais, vais ver. E saía, escondendo o sorriso cínico, em direção à outra vítima.
Na adolescência, infernizava os vizinhos nas brincadeiras de pira, ao anoitecer. Enquanto o moleque contava os 31 alerta com o rosto colado ao poste, ela se enxeria, se insinuava, encostava nele, cochichava o lugar secreto em que ela iria se esconder. Tinha o fogo da idade, mas fazia disso uma arma para submeter as presas. Assanhava os pequenos, esperançava com ios e chios naquela construção abandonada do outro lado da rua que ninguém maldava ser o esconderijo dela porque era um lugar escuro, soturno, e que todo mundo na rua tinha como a morada da Matinta. Fazia os rapazinhos vencerem o medo e atravessarem para ter com ela. Mas chegando lá, era só troça. Despistava com trejeitos salientes, se embrenhava pelos labirintos de tijolo cru, quando davam fé, já estava lá do outro lado, no poste, batendo 31 alerta! 31 alerta! e jogando o bobinho para ser a mãe mais uma vez.
Era o calibre dela, fazer o mal. Jovem mãe, pôs um cachorro no terreiro só para espantar o prestação.