quinta-feira, 17 de novembro de 2011

crônica remix-alma não

Alma não tem cor (ou Axé, vovozinho do Triássico)

Neste ano tenho me batido com algumas provações. Meus ‘amigos se foram com pálidos sonhos e restos de amor’, a economia mundial submergiu às profundezas abissais das incertezas, meu computador bugueou umas quantas e dramáticas vezes, cortaram a minha água, minha pressão subiu, minhas esperanças declinaram...Vai-te! Tenho encarado umas pegadas que têm me dado uma canseira! Coisa pra Jonas, sabe aquele da baleia? Minha paciência, que por vezes me abandona (mas, graças ao bom pai sempre volta) tem sido o meu bastião de integridade. E haja paciência.
No meio deste turbilhão, me veio não sei de onde, a tranqüilidade para dar uma parada, para dar uma avaliada na vida. Fazer uma reflexão mais ou menos como fez aquele personagem do Vargas Llosa em Conversa na Catedral. Quis localizar no tempo, uma causa para estes reveses inesperados, superáveis, diga-se, mas complicadinhos de se varar, reconheço.
Aí vem logo aquela coisa, né, da personalidade. ‘Colhemos aquilo que semeamos’. Apresentam-se vaticínios e conformismo. Mas sou racional. Faço estas introspecções sempre com um olho no peixe e outro no gato. Prego uma realidade rés-ao-chão, sem muito floreado.
E eis que me vi como um sujeito normal. Moldado por incontáveis defeitos, umas raras qualidades, atento à boa vontade, crente nos princípios que consideram sempre a urgência e a onipresença dos conceitos de justiça e lealdade.
Valeu a varredura na alma porque descobri que, das coisas que de mim se aproveitam, o assentimento às diversidades se apresenta como um dos meus maiores créditos. Não tenho preconceito de io ou de chio. Principalmente de cor. Não tenho nada contra os brancos.
Mesmo porque além desta fachada que exibimos como um pacote composto de umas células algo versáteis, muita água e um sorriso cálcico, acho que nós, os seres humanos, nos adiantamos um pouquinho. Vamos à alma. E ‘alma não tem cor’.
Por outro lado, sei que muitos pensam que este pacote orgânico pode alterar as relações e admitem a superioridade de um indivíduo sobre o outro por causa da cor da pele. Lembro que somos ramos da mesma cepa.
Formamos uma comunidade de mamíferos que se caracteriza pela desenvoltura bipedal, pela presença do tele-encéfalo desenvolvido e pela sagacidade motora do polegar opositor. Mas somos, no frigir dos ovos, mamíferos. Ricos, pobres. Pretos, brancos. Mulheres, homens...Somos todos descendentes da ‘ânsia da vida por si mesma’ (eita frasezinha que me persegue, esta do Gibran, tão atual, tão profunda...Evolucionista...). Este sapiens que conhecemos, que inventou tudo o que tem de bom neste mundo, temperado pela alma (e pelo polegar opositor, observo), refinado pelo sopro da sabedoria, não é nada mais que uma variação temporal de um bichinho que lá na mais remota história da Terra, venceu o poderio desmedido dos dinossauros e se firmou como uma espécie extraordinariamente capaz de sobreviver e de gerar primos engalanados e metidões como nosostros. Somos um produto elaborado de um ratinho chamado Morganucodon, um nome pomposo, como requer a taxonomia, mas que aqui entre nós pode ser chamado simplesmente de ‘o ratinho do Triássico’, numa educada alusão a sua longevidade.
De lá, do alvorecer da vida, herdamos esta indispensável capacidade de lutar por cada dia, apesar das agressões naturais, dos répteis modernos, das provações (dessas que a gente experimenta num ano bissexto), do preconceito e da brutalidade de Domingos Jorge Velho. E ganhamos também, mais tarde, a confortante certeza elaborada pelo tele-encéfalo de que a alma não tem cor.
Axé.

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