segunda-feira, 30 de maio de 2011

Geologia e poesia

Esta foto foi tirada em um afloramento na BR 316. Mostra uma rocha dobrada. É uma demonstração contundente das forças que atuam no interior da Terra...
E mostra outras maravilhas também ...

Uma bela foto
A energia refinada
Objetiva
Da natureza
Um traçado ondulado
De eixo elegantemente horizontal
Com ligeiro e sensual caimento
Flancos suaves
Deslizantes
Sem direção preferencial
Mas achável
Tateável
Oportunamente dúctil
Moldável aos esforços
Compressivos
Indizíveis
Impossíveis
Desejáveis, ao menos
Expostos à superfície
Iluminados pelo sol
Do Equador
Essência da natureza mais bela
Se mostra
Delicada
Delineada
Silente
Presente em boas
E belas imagens 
(Tô falando da Roberta,
aí no canto esquerdo da foto,
é claro)

domingo, 29 de maio de 2011

"Meu caminho é de pedras"

OLHE À SUA VOLTA, HÁ UM GEÓLOGO POR AÍ
"Só uns poucos tomam, por todos os demais, o encargo nobre e pleno de responsabilidade de custodiar a escritura sagrada da Terra, de lê-la e interpretá-la, pois o enlace consciente do homem com sua estrela está confiado a uma ciência em especial... GEOLOGIA".
Hans Closs-(1885- 1951)                                 

No dia 30 de maio comemora-se internacionalmente o Dia do Geólogo. Diferentemente de vários países do mundo, onde a atividade profissional do Geólogo é já entendida em sua enorme importância para o Homem, tem sido regra em nosso país que esse dia passe praticamente despercebido pela sociedade, reflexo do ainda precário conhecimento que esta sociedade tem sobre a atividade de seus geólogos. Diga-se a bem da verdade que esse relativo desconhecimento deve-se em boa parte aos próprios geólogos, em geral mais afeitos a seus círculos profissionais específicos e restritos e despreocupados em dialogar mais abertamente com a sociedade sobre as importantíssimas questões com as quais trabalha.
Simplificadamente, podemos dividir em três grandes planos a atividade profissional do Geólogo, todos eles, como se verá, com estreita relação com o cotidiano e com a qualidade da vida humana no planeta:
Fenômenos Geológicos Naturais, no âmbito do qual o Geólogo investiga fenômenos associados à dinâmica geológica do planeta, como terremotos, maremotos, vulcanismos, variações térmicas planetárias e suas conseqüências, processos regionais de desertificação, escorregamentos e avalanches naturais em regiões serranas, etc., definindo cuidados e providências que devam ser tomados pelo Homem para evitar ou reduzir ao máximo os danos que esses fenômenos, na qualidade de desastres naturais e riscos geológicos, possam causar;
Exploração de Recursos Minerais, plano em que o Geólogo estuda a formação de jazidas minerais de interesse do Homem (ferro, manganês, cobre, carvão mineral, petróleo, água subterrânea, urânio, alumínio, areia e brita para construção, argila para cerâmica, etc., etc.), localiza-as na Natureza, avalia-as técnica e economicamente e planeja, juntamente com o Engenheiro de Minas, sua exploração e a posterior recuperação ambiental da área afetada;
Geologia de Engenharia, dentro do qual o Geólogo estuda as interferências do Homem sobre o meio físico geológico. Dentro desse plano é importante entender que, para o atendimento de suas necessidades (energia, transporte, alimentação, moradia, segurança física, saúde, comunicação...), o Homem é inexoravelmente levado a ocupar e modificar espaços naturais das mais diversas formas (cidades, agricultura, indústria, usinas elétricas, estradas, portos, canais, extração de minérios, disposição de rejeitos ou resíduos industriais e urbanos...), o que já o transformou no mais poderoso agente geológico hoje atuante na superfície do planeta. Pois bem, caso esses empreendimentos não levem em conta, desde seu projeto até sua implantação e operação, as características dos materiais e dos processos geológicos naturais com que vão interferir e interagir, é quase certo que a Natureza responda através de acidentes locais (o rompimento de uma barragem, o colapso de uma ponte, a ruptura de um talude, por exemplo), ou graves problemas regionais (o assoreamento de um rio, de um reservatório, de um porto, as enchentes e escorregamentos, a contaminação de solos e de águas superficiais e subterrâneas, por exemplo), conseqüências todas extremamente onerosas social e financeiramente, e muitas vezes trágicas no que diz respeito à perda de vidas humanas.
Enfim, mesmo com a abdicação do consumismo tresloucado e do crescimento populacional descontrolado, a epopéia civilizatória de chegarmos a uma sociedade onde todos os seres humanos tenham uma vida materialmente digna e espiritualmente plena, exigirá, sem dúvida, a multiplicação de empreendimentos humanos no planeta: exploração mineral, energia, transportes, indústrias, cidades, agricultura, disposição de resíduos... A Geologia é uma das ciências sobre as quais recai a enorme responsabilidade de tornar essa maravilhosa utopia técnica e ambientalmente possível, sem que a própria possibilidade da vida humana no planeta seja comprometida.
Conclui-se, assim, que para se assegurar que a Humanidade tenha um futuro promissor e pleno de felicidade em seu planeta faz-se cada vez mais imprescindível conversar com a Terra. Para esse diálogo, os homens têm seu inspirado intérprete: o Geólogo.
De outra parte, a Geologia é uma geociência maravilhosa. E seu caráter maravilhoso liga-se à sua intrínseca relação com o movimento (Movimento = Matéria + Tempo + Espaço). O sentido maior da Geologia é apreender o movimento, os processos que definiram, definem e definirão o Planeta e seus fenômenos. O fator Tempo pode ser também importante em outras profissões, mas na Geologia é a variável permanente e onipresente em todas suas equações.
Dentro desse espírito, é justo rendermos um tributo ao Geólogo escocês James Hutton, que ao final do séc. XVIII, pela primeira vez rompeu documentada e corajosamente com os estreitos tabus e dogmas religiosos da época, para os quais o mundo atual  era exatamente aquele criado por Deus, cunhando então (o Geólogo inglês Charles Lyell logo em seguida deu primorosa e enérgica seqüência à sua teoria) as bases da teoria do Uniformitarismo ("o Presente é a chave do Passado"); a qual, por sinal, Darwin, dando todos os créditos a Lyell e Hutton,  aplicou ao mundo Biológico. Dizia Hutton: "Desde o topo da montanha à praia do mar...tudo está em estado de mudança. Por meio da erosão a superfície da Terra deteriora-se localmente, mas por processos de formação das rochas ela se reconstrói em outra parte. A Terra possui um estado de crescimento e aumento; ela tem um outro estado, que é o de diminuição e degeneração. Este mundo é, assim, destruído em uma parte, mas renovado em outra".
Ao Geólogo, portanto, com todo o merecimento, cabem as honras e homenagem por mais esse aniversário de sua tão bela profissão.
Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)
Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia 
Foi Diretor Geral do DCET - Deptº de C&T da Secretaria de C&T do Est. de São Paulo
Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Cubatão” e “Diálogos Geológicos”
Consultor  em Geologia de Engenharia, Geotecnia  e Meio Ambiente

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Crônica da semana


Lilás
A noite estava fria, a chuva havia estimulado o recolhimento e as preces. Aos pés da Virgem Santíssima eu rezava ajoelhada com um fervor desmedido (salve Rainha Mãe de Deus/És Senhora nossa mãe/Ó mãe clemente/ó mãe piedosa/Doce Virgem Maria). Pedia, desesperadamente, para que a santa o trouxesse de volta. Sentia saudades e meu peito amargava a solidão e a certeza mórbida de ainda amá-lo. Benzi-me, ergui-me e apeguei-me às lembranças.
O peso da idade já não me machucava tanto. Acendi uma vela para que a sala e o quarto, com a licença da porta entreaberta, ficassem igualmente iluminados. A outra, posicionei à entrada da casa como se a chama houvesse por  esperar alguém. Nessa época de chuva, a noite chegava mais cedo que o comum, avalizada pelos algodoados de nuvens plúmbeas e ameaçadoras: era o tempo apressando-se em escuridão.
Sob a dança vacilante do lume que escapava da vela, percorri um espaço que conhecia bem, um traçado decorado ao longo de tantos anos. E me dispus à frente de uma mobília velha. Tateei as mãos e fui agrupando os objetos de toucador que pude encontrar. Uma cápsula de baton oxidada, a caixinha de rouge que ganhei da minha filha no Natal passado, e uns frascos de extratos artesanais que eu mesma produzi.
Olhei-me no espelho e a penumbra fantasiou um rosto ante o meu. Um rosto ainda admirável de uma mulher madura que não precisa de nenhum cosmético para sorrir. Com um gesto decidido lancei aquela tímida coleção de cosméticos para longe e sorri para a minha louca paixão. Não mais o veria. Em fotografias, nos filmes descoloridos de minhas lágrimas, tampouco nos reflexos impiedosos do tempo. Não mais o quereria. Despejaria a minha angústia, agora, sobre a terra confidente.
Inadvertidamente, corri. Não posso justificar a urgência daquele ato, já que tudo era estático e inabalável naquele ermo. Mas algo me guiava para fora da casa com um quê de razão e pressa. Era uma réstia volátil de luz que suspirava em um horizonte lilás. (Teu nome/com gizes coloridos/escreverei/lilases vezes/na lousa desbotada/de minha memória...este é o meu castigo). A luz se fechou num poema e a vida ainda tentou me acudir no farfalhar aromático que o vento imprimia à roseira lá ao pé do alpendre. Aproximei-me e pus-me a remexer o solo junto à plantinha solidária. Não encontrei nada. Só folhas secas, vermes escarlates, argilas sombrias, gris ilusões, dor e umidade. A chuva passara, mas meu pranto...Não. Não posso esquecê-lo (teu nome...lilases vezes...na minha memória).
Deixei o fio de luz, os vermes encarnados, a rosa graciosa e o alpendre úmido para trás e reduzi-me ao sofrimento. Volvi ao espelho. Agora sem sorriso ou coragem. Só os cabelos prateados e reclamos débeis respondiam aos meus olhos. Injusto e infame este delator. Espelho, espelho meu. Dane-se. Apaguei a vela e fechei a porta do quarto.
Agasalhei os pés com meias grossas de bordados joviais; vesti-me com casacos bem cortados, ornados com ilhoses alegres e passadores anilhados; soltei os cabelos, sem charme, sem coquete, sem civilidade sobre o colo ressentido ; aproximei a cadeira da janela e busquei a luz de modos que, o que restou de clarão na sala, me proporcionasse uma leitura reparadora. Dane-se o espelho. Dane-se essa gente rude e fria sem nome...Danem-se a aurora e os arrebóis. Danem-se os trigais, os girassóis e tudo o que seja leve e colorido.
A ti, te consumi em todos os nomes impuros e sedutores que consegui ler naquela noite. E te li tantas e lilases vezes que, sem fôlego e exausta de tanto que te amei, morri feliz sob o fulgor indulgente de uma vela amiga.




Delcley

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Exposição do Ribba


*visite
a exposição de pintura e peças amazônicas
*Ribamar
Araújo
*"grafismo
amazônico"
*dias:
27, 28, 29 de maio de 2011
*local:
amazônia cacau
*Av.
Boulevard castilho frança s/n
*estação
das docas armazém 02
*mezanino-loja
01-belém-pará
*não perca

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ribamar Araújo


Um açude nos olhos
Agora no início de agosto, ganhei uma pasta com um monte de músicas legais. Tem Mônica Salmaso cantando Chico, tem Sérgio Sampaio botando pra ferver com ‘o bloco’ e ao mesmo tempo implorando para ser pregado na cruz, tem o Itamar Assunção e Naná Vasconcelos repercutindo a bossa concretista paulistana. Tô alegrinho com o meu novo arquivo de músicas, algo como um rico presente pelo dia dos pais. Já gravei as canções no meu MP3 e por onde ando, vou ouvindo as minhas joinhas. Tão belas e tão esquecidas as canções...
No arquivo encontrei uma sedutora fieira de canções paraenses também. Uma das mais belas começa assim com este inquietante verso “trago nos olhos o açude de Orós”. Esta volumosa verdade, esta confissão desbragada, despudorada, úmida e impetuosa é uma criação de Ribba, para mim, uma das personalidades mais autênticas da produção cultural paraense.
Como bom maranhense, Ribba é Ribamar. Menino (ironicamente) ilimitado pelas estivas incertas da Sacramenta, Ribba desafiou o conformismo e revelou-se bem cedo para as artes (como me relatou certa vez a professora Lindalva, querida e eterna diretora da Escola Salesiana do Trabalho). Era uma mente diferenciada. Enquanto lutava para alcançar as órbitas inalcançáveis que a bola fazia na brincadeira européia do spiribol, Ribba se juntava a Antônio Francisco pelos caminhos que se entrecruzavam no escuro do ‘beco do Gentil’ e compensava a dura realidade suburbana com uma múltipla, invejável produção artística que ia do teatro às artes plásticas. Esta combinação de talentos resultaria, no início dos anos 80 no fulgor do Grupo Hera da Terra e no espraiamento de uma consciência ética, poética, revolucionária, utópica e sonhadora pelos arrabaldes alagados. E com tal força e magnitude que me arrebatou da minha cômoda posição de centro avante do Internacional da Mauriti, me fez cruzar a (até hoje indefinida) fronteira da Pedreira com a Sacramenta e me levou a memoráveis celebrações etílico-musicais lá na Primeiro de Setembro, eu ainda um bebê iniciando o primeiro e inesquecível semestre na Escola Técnica sob a égide provedora de Cláudio Barradas.  
Reencontrei Ribba nestes versos. Saí à procura de novidades e dei com uma obra recente do artista plástico (aquele de quem a diretora Lindalva falava), de um traçado restaurador. Dei com a estética embrionária, primordial querendo, querendo... Experimentando o grafismo...Com sementes...Como se fosse um recém chegado... 
Pelas mãos de Ribba, o nascer poético amazônico se produz discreto, disciplinado, ordenado no ir e vir do traçado primitivo.
Conformado com a pouca luz.
Poesia visual, memórias rupestres, origens...
Estes são os condimentos que Ribamar Araújo mistura às suas tintas. Em sua obra, são os inefáveis pigmentos, aqueles invisíveis, intrínsecos da alma, que revelam a vida, ou “a ânsia da vida por si mesma”.
Até a grande explosão.
Até a grande erupção que se impõe jorrando florestas, sementes multiéticas saturadas de “ânsias”.
Ribamar Araújo redescobre esta explosão de vida profanando o silêncio primitivo, maculando o traçado ortogonal, esnobando o espaço obtuso e revelando uma textura densa, caótica, explodida, escondida na fertilidade das angiospermas.
Porém, luminosa, contraditória.
As sementes de Ribamar Araújo buscam sempre a luz (não são cheias de ânsia?). Flutuam sobre um manto ancestral expresso no grafismo fosco do artista, mas revolucionam, convulsionam o espaço com seu brilho.
Querem, enfim, poeticamente, nascer.
Como naqueles tempos né, Ribba, pelos alagados da Sacramenta (ou como agora, pelo alagado dos olhos).

domingo, 22 de maio de 2011

blog da Vera

Quando leio uma crônica como esta de hoje, da Vera Cascaes, me reconheço como uma pessoa de cinquenta anos...só que mulher. Chego até a abstrair esta lenda chamada delineador. Passe lá e confira.
http://veracascaes.wordpress.com/
 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Crônica da semana

Pedaço de mim
Sempre quis escrever alguma coisa que tivesse o amparo da palavra balaústre. Antes, me aviei para entender o significado deste termo estraninho. Não adiantou muito. Topei com esta trôpega ajuda: balaústre quer dizer ‘a  parte lateral da voluta do capitel jônico’. Vê-se que de pouco adiantou a minha visita ao dicionário. Depois, fuçando em outras fontes, achei uma definição boa de entender: é ‘uma coluna ou um pequeno pilar’. Fiz porque fiz de ir atrás, Porque quero falar da balaustrada que suporta o corrimão daquela escadinha que sobe a Presidente Vargas. Tá quebrada, sabia?
Aquele conjunto que margeia o prédio do Ministério da Fazenda, por sorte, ainda está preservado. Mas este daqui, que faz fronteira com o casario da Castilhos França... Tá estiolado. Falta-lhe as peças do pontal (que tem uma estrutura meio que piramidal pra lá de elegante, digna de ornar as refinadas margens parisienses do Sena) e uma fieira representativa de balaústres. Acho que só restou ali, um terço do compassado corrimão e este pouquinho, diga-se, tá pra cair no nosso pé.
(Sobre o balaústre, vale a pena, ainda, lembrar um amigo lá das matas transamazônicas que usava esta palavra, deduzíamos nós, como sinônimo de parapeito e quando a pronunciava, o fazia com categoria e arrogância, acho que porque sabia que ninguém sabia que diabos de palavra doida era aquela. E ele exagerava. Trocava o ‘u’ por um ‘o’ como o de ostra e estendia o ‘ésse’ assim “balaosssssssssstra”. Aquilo era um encanto compulsório para nosotros e era também, a realização de uma empáfia sem medida para ele. Hoje fico imaginando aquele amigo num tabuado elevado, na frente da casa dele, pressionando o ventre relaxado sobre um aparador moldado em tariscas de madeira, com pontas passantes e assuntando, lá ao longe, o Xingu a se enervar volumoso ante os ataques de diques, barragens, maquinário pesado, insossas idiossincrasias ecológicas e salgados oportunismos políticos. Receio que meu amigo vai ficar sem o seu mirante, e sem a emblemática balaosssstra).
Aquela subida da Presidente Vargas poderia ter sido construída de qualquer jeito. Rampada, escalonada em degraus desconcertados, em caracol de terra batida. Em talude suave. Em pedras falsas. Com descaso ou ócio. Mas não. Alguém resolveu dar um estilo àquela ladeira. Dispôs duas escadas cuidadosamente trabalhadas em ambos os lados da avenida com um corrimão em curva projetando-se discretamente sobre o leito da rua. Tenho a impressão que entre uma precisão ou outra ali no centro, o cidadão belemense preferencialmente utiliza aquele acesso. Talvez nem se dê conta das imponências que se encerram na simetria daquele recatado elemento urbano. Mas asseguro que elas existem. Exibem o orgulho de uma cidade engalanada. Ou pelo menos, outrora engalanada.
Parece uma viagem minha, né. A cidade indo ao fundo, lixo indo e vindo insigne e farto, subúrbios esquecidos e eu me preocupando com frios pedaços de concreto abduzidos de uma ladeirinha de nada. Patetice minha.
Perdoem-me. Rogo, porém, para que a Geografia me acuda e ratifique o centro da cidade como sendo um ponto de união. Um eixo de ligação entre os tantos vieses suburbanos. Como a alma coletiva viva e reincidente. Os bairros são livres articulações de propósitos, cores e identidades (eu sou da Pedreira, do samba, do amor; fulana é do Telégrafo, bairro dos artistas...). O centro, por sua vez é o espaço de imersão coletiva em um só corpo, em uma só alma (Somos todos Círio de Nazaré). Por isso me preocupo com o pedaço de história que falta na subida da Presidente Vargas, em mim e em vós.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Joelma Klaudia -poética- Um dia sol, outro dia chuva

Sextas de Junho: Armazém 2, Palco Deslizante (Estação das Docas) 20h.
09 de Julho, CA HALL em Altamira, 23h.

Joelma Klaudia - soberana

Sábados: Old School 22h e Municipal 00:30
 

Joelma Klaudia - triunfante

Sextas: Veneza 23h
 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

Morde e assopra a metalinguística 
  Quando vi o título da novela das sete, desconfiei de prima. Fiquei num pé e noutro. Pra mim, formalmente, só existia o verbo ‘soprar’. Essa forma aí, ‘assoprar’ não existia não. Tenho uns macetes pra entender por dentro certas palavras. Faço correlações, comparações, as aproximo, as distancio. Aos verbos, por exemplo, procuro termos ali perto, para ratificá-los. Priminhos substantivos, por exemplo (e a gente fala que o camarada tem um ‘sopro’ no coração ou um ‘assopro’?). Bom, mas achei nos compêndios respeitados: soprar e assoprar significam a mesma coisa e podem concorrer em uso e funções. Não posso fazer nada. Tenho que me acostumar com o morde e assopra no início da noite.
Veio bem a calhar, esta inquietação. O tempo é de reforma ortográfica. Estamos no limiar da tolerância para nos adaptarmos às novas regras. Daqui a alguns meses, ai de quem não se enquadre. Pode submeter-se a ralhos indefensáveis e incansáveis patrulhamentos. Roguemos, porém, por um descontinho, porque se a gente for reparar, a reforma ortográfica em si, é uma arte que morde e assopra.
Tenho me batido com esta dicotomia. Olhando assim de repente, pode parecer que eu seja fiel à reforma porque descartei o trema (lá em cima no título. Também, nunca usei mesmo). O certo é que sou mais atento que fiel. Pra outros tópicos da reforma, tenho críticas. Sou renitente. Sofro. Algumas supressões me doem. Ver uma ‘ideia’ sem acento provoca em mim um sentimento de perda imenso. Me contamina o sangue. É como se eu tivesse perdido um rim. A extinção do circunflexo nos ‘és’ e ‘ós’ dobrados (como em ‘vêem’ e ‘vôo’) me causam enfado, me deixam cego, pegajoso, preso ao chão. Dobro-me rastejante de insatisfação e tristeza. Sinto-me como um réptil kafkiano que tem os olhos delidos. Aos que me lêem agora, saibam que a esta nova regra, em especial, por vezes e sem culpas, serei desatento.
E o que será de nós sem o ecletismo de uma baiúca, sem os encantos da boiúna, sem a malícia lusitana de uma saiínha cheiínha de folhos, sem o legado paroxítono de Quintino? Vamos ter que nos conformar com a extinção dos charmosíssimos acentos nos ‘is’ e ‘us’ em nomes como o do republicano Bocaiúva, que muito sonoramente são antecedidos por ditongos. É chato, né, ofuscar os sons, mas é a lei.
Outro dia, numa conversa informal, um pequenozinho meio metidão, dizque escolado nas alquimias acadêmicas, corrigiu um outro bem mais humilde de graduação, quanto o uso do hífen, dizendo que este tracinho havia saído de circulação. Não é verdade. O hífen continua rente como pão quente, suportando as pérolas siamesas da nossa língua, espelhando a partícula reflexiva, transitando rés-os-objetos direto e indireto, organizando a separação silábica.  O hífen não morreu não. Tem muito, ainda, a nos dar.
Agora, nas palavras siamesas, o hífen ficou meio azuruote. Não sabendo muito bem pra onde ir. Algumas construções perderam o tracinho, em compensação, outras ganharam. A trajetória do hífen, nesta reforma, como diz a loira desavisada, deu uma volta de 360 graus. Não saiu do lugar. Mexeram muito para ficar do mesmo jeito. Eu vou fazer como dantes no meu mundo de Amarantes. Como eu sei que ele não caiu, farei como sempre fiz: vou ao dicionário ou a uma gramática atualizada, toda vez que precisar aplicar uma palavra composta. Há sempre o risco de errar.
A reforma tá na biqueira. Já há muitos textos adestrados. Há um sentido globali[z]ante nessa nova organização. Mas traz mudanças acanhadas. Quero saber quando é que vão mexer com o ‘zê’. Aí, sim, vai ser uma alteração substancio[z]a.

Vinho amigo


Hoje,

se a chuva deixar, traga sua amizade, um vinho de safra modesta (ali ao pegado

do custo de 5 Reais. Pode ser qualquer um, menos o bucólico porque este é de

safra arrogantemente farta), um poema pra

declamar, o seu charme inigualável... Arrume-se em panos despretensiosos

(porque aqui o que conta são os olhos) e compareça aqui no meu pedaço de Saigon

na Vila dos Cabanos para fazermos um brinde a mais um ano de vida


“O vinho reúne, liberta e faz amigos. Ontem, hoje e sempre”

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Marambaia

Idos de 1970 
Eu morava na avenida dalva
Todo dia eu ia a feira
Feira da marambaia

Oh marambaia
A minha vó sempre me dizia
Deixe de ser sem vergonha
Vê se aprender ler e escrever
Para de fumar maconha

Oh marambaia
O tempo foi se passando
Vejo agora onde estou
Nessa bela praça cantando um rock and roll

Oh marambaia
A minha vó sempre me dizia
Deixe de ser sem vergonha
Vê se aprender ler e escrever
Para de fumar maconha

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Simetria (Fortaleza de São José de Macapá)

"Apresenta planta no formato de um polígono quadrangular regular, com baluartes pentagonais nos vértices, sob a invocação respectivamente de Nossa Senhora da Conceição, São José, São Pedro e Madre de Deus, muralhas com oito metros de altura em alvenaria de pedra e cal, arrematadas por cantaria nos ângulos salientes, e um fosso seco pelo lado de Sudoeste. Pelo lado Oeste, em frente ao portão principal, ergue-se um revelim para proteção do seu acesso pelo exterior, originalmente projetado compreendendo duas pontes sobre um fosso..." (Wikipédia)

domingo, 8 de maio de 2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Crônica da semana

Ouça um bom conselho
Amanhã, aliás, só amanhã não. Todo dia. Isso mesmo, todo santo dia, assim que abrir os olhos e ganhar o termo da manhã, abrace, beije, tome a ‘bença’, acaricie os cabelos, peça um dengo, um chamego e faça uma declaração de amor a sua mãe. Mesmo que o despertar seja às seis da matina sob uma chuvinha belemense e uma morrinha compassada, faça isso. Este é o meu conselho.
A mãe merece. A mãe da gente carrega dentro de si o instinto e a divindade: protege e abençoa. Traz no coração o carinho e a bondade: aquece e perdoa. Cultiva na alma a beleza e a humildade: ilumina e se doa.
Mãe tem uma caixinha cheia de estrelas no colo e está sempre disposta a abri-la para nos fazer felizes com infinitos céus acolhedores. Silenciosos de soluços e das dores do mundo.
Por causa das minhas investidas acadêmicas (e, por conseguinte, de umas produtivas escapulidas lá pro boteco do Jorge), e também por umas interações culturais recentes, alinhavei francas amizades com uma pá de gente jovem. A galera me visita (a molecada fica horas namorando o meu três-em-um e devorando a minha coleção de vinil), me convida para passear na Praça da República aos domingos (e depois emendar para uns barzinhos lá da Cidade Velha), me cutuca para eu voltar a estudar ou para eu me inscrever num edital aí de Literatura que dá uma grana boa e vai me fazer ficar famoso que nem o Paulo Coelho. Já joguei malabares com eles, já assisti a um show de Rock em point alternativo, já tomei uma bebida verde numa taça chiquerérrima numa manhã de pouca grana e, por vê-los altaneiros além de mim, já reinei em pôr uma perna-de-pau (porque, olha, com metro e meio de altura, tem horas que até preciso). Temos uma relação saudável. Eu os admiro porque são criativos, inteligentes, responsáveis e eles me admiram porque sou um tiozinho legal às pampas. Temos também, confiança e respeito mútuos. Por causa dessas cumplicidades cultivadas, eles muitas vezes me segredam mal’ criações e me pedem opiniões. É sempre a mesma coisa: conflito de gerações. A mãe não entende. A mãe implica. A mãe não deixa. A mãe cobra. A mãe dá bronca, e isso, e aquilo e aquil’outro.
Vêm a mim, procurando o coroa gente fina pacas, moderninho, avesso às tradições, sem frescura. Acho que, nessas horas, os decepciono. Quando põe a mãe no meio, sou caretésimo. E isso, também aprendi com o meu amigo Edir Gaya, lá atrás nos anos oitenta: Mãe, sempre em primeiro lugar. Devemos respeitá-la e priorizá-la. ‘A tudo, seremos sempre atentos, antes, a ela’. Discutir, brigar, ficar de ponta com a mãe, Deus-te-livre-e-guarde. É pecado mortal. Deus ralha. Menino vai pra trás da porta da Sé tesinho com a língua pra fora. Falo isso pros meus amiguinhos. Eles ficam meio desapontados, retrucam, dizem que ninguém dá razão pr’eles, que não são ouvidos ou coisa e loisa-mariposa. Tudo aquilo que minha geração falava tempos atrás. Aí, é aquela coisa... Dou meus exemplos.
Não que eu fosse um filho destrambelhado. Tirando aquele sentimento de independência, compreensível, por ter começado a trabalhar cedo (tinha a minha grana, podia comprar minhas coisinhas e isso me tirou um tantinho de rota. Era uma rodada de chope de groselha todo dia pra molecada da rua. Aí, não tinha salário que aguentasse), não tive tantos atropelos na relação com a minha mãe. Muito pelo contrário, não perdia a chance de provar que a amava.
O exemplo que dou aos meninos é a minha saudade. Há dias que preciso tanto de minha mãe para abrir aquela caixinha de estrelas e me tirar os soluços da vida...Mas...
Conselho: ao raiar do dia corra pro colo da mãe...



blog

Quando quero saber das coisas e das artes Leio o Holofote Virtual da minha amiga Luciana Medeiros

http://holofotevirtual.blogspot.com/

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Alcyr Guimarães

SOLIDÃO !

É desgraçadamente amargo ter de voltar pra casa.
Quando minha alma sabiamente diz que lá,ninguém me espera.
Patéticos somos eu e este sábado onde a hora me atrasa.
E como é tarde ,se não imaginarmos flores e nem buscarmos a primavera.

Então ! por perversidade as horas me avisam que resido numa casa.
E que provavelmente na sala,apenas eu mesmo voltar se reclama.
Por ter perdido horas no alcool,em conversas fúteis e devassas
Lembrei-me que apaixonadamente meu coração quase me ama.

E no chegar ! quem sabe um banho e uma barba feita,
Me levarão à frente de algum espelho.
E sinto muito,mas a vida madrasta e imperfeita.
Ainda se arvora a me dar um delicado conselho.

Aí no momento solene, de não me achar mais perdido.
Já que foi por desgosto ou falta de tempo que me obriguei a voltar.
Na verdade da verdade ! se olhei e me vi menos bebido
Tive a nítida e gloriosa certeza, que era eu que esta
va a  me esperar.

convite para a poesia

terça-feira, 3 de maio de 2011

Salve 4 de maio

Naquela tarde à beira do Amazonas
Mãe

tipo assim: "eu só te olho, Sodré"

cores da Bossa Nova. Sorriso de Bossa Nova. Noite cheia de Bossa.

"Ao pôr do sol/eu vou te dizer..." é aquela que me tolera, aguenta a minha chatice, e chega a me amar. Minha companheira de 22 anos. Feliz aniversário, Edninha.