sábado, 30 de abril de 2011

crônica da semana

Na beira do Amazonas
O Amazonas é o maior rio do mundo. Em tudo. Em volume d’água (a vazão média, considerando a contribuição alternada dos afluentes, é de 200 mil metros cúbicos por segundo); em extensão (a última medição, utilizando a mais avançada tecnologia, levou a nascente do Amazonas até os paredões do nevado de Mismi, no Peru,   tecendo assim, uma tirazinha de lonjura a mais que o dadivoso Nilo); É grande também em encantos, descobertas, alegrias. Decisões.
Em Macapá, o rio Amazonas é majestoso. Desenha ao norte um braço que acaricia, pacifica, afaga os dias e as noites de Fazendinha, mas que também se agita em marés irrequietas e implacáveis lançantes.
Foi num final de tarde. De vento forte, ondas indomáveis, areinha saltitando aos olhos...sol se pondo lá longe...às margens mágicas do Amazonas, foi:
Os olhos da minha companheira algo oblíquos, como os de Capitu, fitavam um ponto no horizonte, ali pros lados doirados donde se punha o sol. Era um olhar distante e ao mesmo tempo perto. Um olhar que se perdia, ao léu, que se perguntava, que mergulhava nas profundezas da dúvida. Mas, logo se achava em certezas, se encontrava em futuros e me iluminava com aquela cintilação âmbar, com aquele fulgor rigoroso e comovente. Naquela tarde, tecíamos os delicados fios da nossa história.  Ponderações foram exercitadas. Estávamos no calor da juventude, cheios de desejos, ávidos por liberdade, apressados e irresolutos. Animados com uma fita K7 que tínhamos da Janis Joplin e que curtíamos, insanamente, entre quatro paredes; satisfeitos com a norma diária de não formalizar contas a ninguém e seguros de nos termos intensamente um ao outro.
Mas tínhamos a história, a tecer. Eu era ‘amamãezado’. E isso era um problema. Tinha um chamego com minha mãe. Era um grude, uma devoção. Minha companheira sabia que o compromisso assumido, provado e apregoado, iria impactar diretamente nesta relação, como de fato, ocorreu: minha mãe ficou enciumada que só ela.
Outros fatos nos aperreavam a alma. A idéia de constituir família, a formação de um lar, a lida diária para prover o sustento. Estes detalhes eram coisas longínquas para nós que, à época, éramos felizes com uma rede e um toca-disco, bens computados, exclusivamente, como as nossas mais estimadas posses. As coisas teriam que mudar.
Havia, porém, decisão naquele olhar que vagava mapeando os contornos do horizonte e desafiava o mosaico prateado do arrebol. Quando volvia a mim aquele olhar, depois de uma viagem por aquele lugar incerto onde o céu engole o rio-mar; quando minha companheira voltava para mim, aqueles olhos cor de mel, ela inundava meu coração com uma mensagem de carinho (e este doce olhar me vale até hoje, mais do que a pedra mais aquilatada que se possa lapidar).
Nosso primeiro filho começou a nascer naquele dia. A revolução das águas, a mística do meio do mundo, os grãozinhos de areia irritando os olhos e fazendo minha companheira chorar (pelo menos foi esta explicação que ela deu para as lágrimas que, aqui e ali, lhe caíam à face). Naquele tempo, não se usava dizer “discutir a relação”, de qualquer forma, estávamos às margens do extraordinário rio Amazonas, decidindo a nossa vida. Teríamos um bebê, nos apresentaríamos de fato e de direito à sociedade, contornaríamos uma ou outra cena de ciúme da mamãe, criaríamos vergonha e começaríamos a comprar umas coisinhas para o nosso lar. Isso foi há 18 anos.
Minha companheira Edna faz aniversário na próxima quarta-feira. Pensei num presente. Resolvi dar a ela, a lembrança daquela tarde maravilhosa.
O Amazonas é o maior rio do mundo. Em tudo.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Crônica remix- Perdão

Não se surpreendeu quando o carteiro chamou pelo seu nome, lá do portão, aperreando-se para salvaguardar o envelope dos chuviscos de uma manhã de abril.

Confirmou o subscrito. Rasgou, desregradamente, o envelope, acomodou-se no sofá. Reconheceu ali um pedido sincero de perdão e as marcas de um tempo perdido:
“A verdade é um beijo que tem o amargo gosto da dor. Então, perdão, mon amour, pelas deliciosas mentiras seladas com doces beijos. Perdão, mon amour, pelos reluzentes coquetes contabilizados pelo tempo, como frivolidades líricas.
Tenho saudade de ti. A minha boca que te falou febril em tantos sonhos, mas que, acordada, te faltou; a minha voz que tanto sofreu, ansiosa por dizer verdades, e que, reprimida, maldisse em silêncio tantas vezes, as vazias conveniências, agora livre das garras da mentira, te confessa: tenho saudade de ti.
Perdão, mon amour, pela vilania de tantos beijos doces porque, hoje é tudo silêncio e tédio na minha vida sem ti.
Vê o meu mal: meu violão desafina na tua ausência. Meu coração mente dizendo ter a paz. Meus passos forjam caminhos buscando um lugar seguro. Mas que nada! Para meu pesar, a saudade de ti vem ferina, em semitons, em guerras e lágrimas. A saudade vem por vielas atapetadas com as dores da distância.
Minha vida é hoje permeada de ausências. A solidão me abate... No coração, a lembrança triste de um dia em que as tuas mãos se eternizaram, cruelmente, num aceno...(que cena que me tortura,  que me corrói, que me condena a te procurar, arrependido, todos os dias num adeus).
Perdão, mon amour, se a mentira, por anos, se travestiu em enganosos doces sabores. Se o temor verdadeiro de um beijo te trouxe melífluas impressões (que eu sei, que eu sei não serem mais possíveis porque sempre foram irreais).
Tenho saudade de ti e minha canção na noite de lua te chama para um beijo perdido longe na lembrança de um dia feliz, em que me apaixonei pelo brilho  dos teus olhos de mel.
Deus!Quanto mal te fiz! E por que te fiz ser triste? Se eu sempre te quis...Eu sempre te quis.
Perdão, mon amour. Que a saudade me pegou em francês e a minha vida é brisa frágil agora, cuidando, cuidando para não se quedar ao tempo ruim.
Ai de mim que te perdi.
Pelo doce dos beijos que te dei, perdão, mon amour, Perdão.”
Largou a carta sobre o sofá e saiu para cuidar da vida. Ponderando, sim, as mínimas, as rarefeitas possibilidades de um perdão. Pesando, sim, as chances de um perdão, mas ao mesmo tempo, perguntando-se se algum dia iria entender um tantinho sobre essas coisas ininteligíveis do amor.

A galera da Geo

quarta-feira, 27 de abril de 2011

vale a pena acordar de madrugada (ou nem dormir)

"Nesse mês, alguns eventos astrônomicos que irão ocorrer dia após dia(...) vale contemplar e fotografar. Trata-se da aproximação dos planetas Mercúrio, Júpiter, Marte, Vênus e Urano (sendo somente esse último não visível a olho nu) após o dia 20 de abril. Para embelezar ainda mais o céu com as aproximações desses 5 planetas teremos a aproximação da Lua com os planetas Vênus e Mercúrio em 30 de abril e a aproximação da Lua com Marte e Júpiter em 01 de maio...contemplar num mesmo campo de visão 4 planetas visíveis a olho nu é caso raro. " (do astrônomo Marcos Callil no site Clima Tempo)



terça-feira, 26 de abril de 2011

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Créditos

O cenário que enriquece de beleza e cor este blog é uma beira-rio acreana que eu tomei emprestado do cantador Sérgio Souto artista iluminado daquelas terras. A foto é bela, harmônica, suave, interiorana e universal. Um poema bom de se ver.
A cara do blog, a sua personalidade, o jeitão do bichinho é uma idéia do meu sobrinho Victor Uislan. A Katyane foi quem criou o blog pra mim, porque eu sou pateta pra essas coisas.
Todo o resto é da alma, do coração ou de um povo amigo

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Crônica da semana

Tem culpa tu, Juraci

Mas, ô coisa pra dar certo!
Depois de uma semana e pouco com uma virose que me pegou pelo gasgo, cortou e arou o meu ânimo, e me pôs às quedas, me vem o alívio. Tava mofino, mesmo. Pródigo em chiliquitos enfadonhos, hios e chios insolentes, devastadoras angústias, espirros e constipações.
Era só a noite chegar que um gogo violento me atacava, uma tosse irritante me vencia. Era um tuco-tuco de estremecer as paredes. Uma desinquietação, uma desesperança. E haja exercício fonoaudiológico: nunca na história deste país, a palavra otorrinolaringologia foi pronunciada, por mim, com tanta desenvoltura, quanto nesses dias passados, de tanto que a garganta ardia.
Ainda bem que passou. Umas furadas na poupança e umas ‘piulas’ deste tamanho me ergueram. Ah, e ainda uma trova que recebi do meu amigo poeta Antônio Juraci Siqueira. E que diz assim: “Se a mão de Deus te conduz/pouco importa aonde te leva/quem anda junto da luz/não há de temer a treva”.
É por isso que eu digo: ô, coisa pra dar certo. Palavras amigas que chegam, assim, como coincidência, feito previdência, no instantinho certo que a gente tá precisando. Uma trova que fala de luz, de certezas e confiança na estrada da vida. Não foi intencional (Juraci nem sabia que eu tava dodói). Por isso tem um valor maior. Expressa uma emanação de energia positiva facultada, um bem arbitrário. Elevou-me a moral, o poema. Foi, sem errada, um caribé de versos bem chegados que me deram sustância e me abriram a janela (e os brônquios) para o dia.
Tô na convalescença. Ainda me recuperando com cuidado e zelo. Fugindo de qualquer respingo, da mais branda friagem, mas agora com o aditivo das palavras a me estimular. Vou tornar à luz. Culpa de fármacos caríssimos e do Juraci (que me veio sem ônus).
Aí, volto com o Juraci no tempo e o encontro nos varais de poesia, no Centur; nos corredores da pensão da Cotinha; nos circuitos de fotografia, na praça Ferro de engomar e na minha silenciosa tietagem. Era fã do cara. Acompanhava as andanças dele, mas ficava sempre de longe. Naqueles tempos, já o considerava um mito, de parelha em mistérios e encantos, com o boto.
Daí, houve a Feira do Livro de 1999. Foi o ano do lançamento do meu primeiro livro “O Operário em Verso e Prosa”, em parceria com o poeta José Miguel Alves. Éramos calouros na função. Acanhados. No estande dos escritores paraenses, as estrelas mais reluzentes da nossa literatura. Dentre elas, o Juraci. Nessa ocasião, descobrimos (eu e o Miguel), a face mais detalhadamente humana do boto. A acolhida que Juraci nos deu, àquele meio ilustrado, foi de todas as maneiras, generosa. Nos tratou como gente grande. Nos intervalos das programações, sempre se achegava, batia uma bolinha com a gente. Não dava tempo para nos sentirmos deslocados, eclipsados por tantos brilhos que dali irradiavam. Ele já era o Juraci, uma das pedras angulares da Malta de Poetas folhas e Ervas, e nós não éramos ninguém. Para ele, porém, éramos colegas de ofício. Fomos abonados e ganhamos um naipe literário na Feira daquele ano. Culpa do Juraci.
Tempos depois, aproveitei um Arrastão do Pavulagem, catei o Jura da multidão e entreguei a ele um pacotão datilografado com os originais do meu segundo livro “O Dia Mais feliz...”. O poeta fez a apresentação do livro em um texto grandioso, de uma nobreza, de uma elegância... Enriqueceu o meu livro, falou coisas tão legais que eu fiquei até meio metidão, enquanto durou a edição.
Agora, no início da semana, ele me trouxe a luz. Tô na convalescença ainda, mas com a ajuda de tão cintilantes versos, com certeza varo. Culpa do Juraci.

Porque te vas (eu, minha cunhada e Amaranta Maria na claque)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

crônica remix- poesia no ônibus

Borboleta, Lirismo e o UFPA-Pedreira
De 2004 pra cá, dei de estudar. Depois de 22 anos longe da escola (terminei o curso de Mineração na gloriosa Escola Técnica, em 1982), passei para Geologia, na Federal.
Uma nova situação, uma pegada que há muito eu não encarava: acordar cedo, dormir tarde, encarar os chiliquitos dos professores, partilhar inquietações com os meus jovens colegas, ter com a pesquisa, com o dever de casa...Ai, meu Deus, a prova na próxima semana! Com o trocadinho para o lanche no Ver-o-Pes’inho.
Soma-se agora, à minha lida diária, zelar para ser, daqui a alguns anos, um profissional que vai ‘cuidar das feridas da Terra’.
Uma batidinha rotineira que me revela a dor e a delícia de ser estudante. Principalmente a dor, quando tenho que andar de ônibus: é comum eu ser esculhambado por causa da meia-passagem. Acho que por causa de uns poucos, raríssimos cabelos brancos salteados entre o cabelo e a barba.
(E eu nem vou perder tempo dissertando sobre o direito que tenho sobre este benefício ou ratificando este direito com a minha participação nos movimentos pela conquista da meia-passagem na década de 1980 – eu estava lá na frente da casa do governador  me batendo com a tropa de choque da PM naquela noite de outubro - somente para atenuar o drama, porque o certo, é o mau humor do cobrador quando apresento a minha careta na carteirinha da CTBEL).
Vou considerar, então, que a marcação não é só comigo. Uns quantos estudantes passam aperreios nas mãos dos cobradores, todo santo dia.
Mas taí, dia desses, deparei com as delícias. Acostumado com uns balbucios enfezados que imagino (não procuro discerni-los) do tipo “Pô, tamanho um velho e pagando meia!” ou “vai te aquietar, coroa, vai tirar a gratuidade!”, dia desses, tive uma surpresa, no UFPA-Pedreira. Ao mostrar a minha carteirinha, fui recepcionado com o grunhido de sempre. E como sempre, pequei as moedinhas do troco e passei com mais de mil pela roleta sem dar trela pr’aquele ciscado. Eis, então, que, sentado ali, ao pegado da cadeira do cobrador, fui pouco a pouco, decifrando aquele zunido.
Ele dizia “bom dia, bom dia”. A cada um que, como eu, passava apressado pela borboleta. “Bom dia”. Sem discriminar ninguém. “Bom dia”. Todos eram afagados com o cumprimento matinal do cobrador. “Bom dia”. Só que ninguém percebia isso. Diluíam-se todos no interior do ônibus com a falsa lembrança do costumeiro esculacho. Mas ele, insistente (e acho até que consciente de sua inverossimilhança) “Bom dia!” ao trabalhador, a dona de casa, ao estudante...Legal, né?
Mas a verdade é que senti, no cobrador, um certo constrangimento (expresso no estribilho reprimido) como se estivesse subvertendo uma severa ordem. Enquanto que dos passageiros, me chegava o ar de pesada submissão: cicatrizes incuráveis de nossos dias. Pobres de nós tão familiarizados com a barbárie urbana, olha lá, quando de uma horinha abençoada como essa, passamos batido.
E lembrei de uma outra subversão de há alguns anos, no Pedreira-Nazaré. Havia por lá, um cobrador dado à poesia. Fazia as trovas e as espalhava pelos quatro cantos. Quando a gente entrava no ônibus e dava com os versos, o clima já ganhava uma leveza, uma paz. A cena apelava para a reverência quando ao final de cada quadrinha, a gente chegava ao subscrito “assinado, o cobrador”. E de pronto, a gente ligava o autor a obra. Ele, exibindo sempre um sorriso livre, sem culpas.
Esse, não durou muito. Depois de um tempo, sumiu das linhas de ônibus de Belém. Perturbou a ordem com seu lirismo. Uma pena, uma pena!


sábado, 16 de abril de 2011

crônica da semana


Amar e outros medos
Quando eu escrevi, na semana passada, sobre aquela prensa que levamos, na igreja das Mercês, por conta do julgamento dos 13 posseiros do Aragauia, quis fazer uma confissão de medo. Naquele dia, não era a fome nem o cansaço que me consumia. Era o medo mesmo que me empalidecia a face.
Não tenho vergonha de dizer isso. Não acho errado ter medo. Tenho pra mim que o medo é uma propriedade ancestral do ser humano e que aprimorada ao longo dos tempos, nos tem permitido perceber perigos ocasionais ou as cismas primitivos. 
Eu tenho três medos clássicos. Dois são de verdade. O outro, invencionice: um lance aí que me impressiona. É um medo meio patológico que sinto do Norman Bates (sabe aquela cena do chuveiro? Pois é).
Os meus medos autênticos têm marcas fisiológicas. O corpo dá sinal. O suor cai geladinho, vem um gosto amargo na boca, o ombro pesa. Fico meio anuviado, também. Tive estes sintomas salteados ou no pacote completo, naquele dia, na igreja das Mercês, e uma outra vez quando encarei um armário deste tamanho na minha frente querendo porque querendo tirar uma satisfação comigo por causa de umas questões, digamos assim, passionais.
O grandalhão era um ex da minha namorada, mas não largava do pé dela. Eu era um bebê, na época, e nem maldava que por amor, algumas pessoas se abalam a cometer loucuras. E o cara tava a fim. Num belo dia, eu estava de prosa com a pequena, na porta da casa dela, conversando socialmente, espairecendo, quando de repente, do nada, o camarada apareceu. Parou na beira da calçada e ficou ali se equilibrando ‘pouquista’, ameaçador. Encarando, como quem diz: “hoje vai ter”. Ele sabia, tinha lá suas fontes, que a pequena tava de prosa com um paquera novo. Mas não sabia que euzinho era exatamente o cara. A sorte é que estávamos comportados, namorando de porta, nada de pegação. Acho até que naquele momento, disputávamos, inocentemente, uma empolgante partida de Ludo, com as crianças da casa. Cedo da noite. Sete horas e uns caroços. Depois de uns instantes, a pequena que não era besta nem nada, disfarçou uma precisão, entrou na casa e levou as crianças. Fiquei eu, face a face com a fera. Ele, tentando pegar no ar (por isso, acho que balançava) algum triscazinho de certeza de que eu era o seu mais novo rival, e eu, me vendo com um gosto amargo a subir na boca, sentido o calor da noite fugir de mim, mas ali, agüentando, não sei como. Ficamos um tempo nos indagando telepaticamente, até que um dos meninos voltou com a recomendação da minha garota para que eu saísse dali o mais discretamente possível porque a coisa tava pegando. Ô, glória! Dei graças ao bom pai por ela ter me liberado daquele expletivo ato heróico e mais que depressa imprimi a retirada. Dobrei no primeiro beco que me apareceu às margens da Dr. Freitas e quando ganhei certa distância é que atinei o quanto tremia. Um amigo que passou por ali, naquela hora, chamou a atenção para a minha cara de espanto, já colorindo: “Ihhh, acho que estás ficando até verde!”, disse ele. Aí o estômago embrulhou e não vale a pena lembrar o que se sucedeu. Tudo, obra do grande medo que senti.
O meu feixe de medos (tirando o do Norman, que me atazana toda vez que puxo a cortininha do box) é até raquítico e explicável. No mais, tenho uma coragenzinha bem presente. Só que não falei daquele que incomoda. O medo que esmigalha a alma. O medo de amar. À natureza deste, acodem-me, pois, os versos do poeta quando proclamam que “o brilho nos olhos de quem ama/é um lampejo, é uma chama/que arrisca incendiar tudo em volta/mas e daí/ se o bom do amor é o risco?”.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O beijo de Capitu


“...Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto inesperado, pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava a recusar à força. Repito, a alma é cheia de mistérios.”
(Machado de Assis, em D. Casmurro)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Crônica da semana

Tomara que chova
Se bem me lembro, não foi declarado Estado de Sítio na cidade, mas deu-se tudo como se fosse. Era helicóptero dando rasante, carros pretos circulando amedrontadores, policiais despistados filmando todo mundo, ruas interditadas, olhares intimidadores em cada esquina. Era o julgamento dos 13 posseiros do Araguaia.
O caso ficou famoso, no início da década de 80, porque resultou também, na expulsão dos padres franceses Aristides Camiou e Fraçois Gouriou.
Na época eu defendia uns cobres como instrutor da colônia de férias na Escola Salesiana do Trabalho. Por causa deste emprego temporário não participei de todas as mobilizações. Só me liberei a partir do meio-dia e quando cheguei ao teatro de operações, parte dos manifestantes já estavam confinados (sitiados) na igreja da Trindade.
No dia anterior, o Movimento pela Libertação dos Presos do Araguaia (MLPA), reunido na sede do arcebispado (onde hoje está instalada a galeria Fidanza e o Museu de Arte Sacra), havia deliberado uma grande ação popular em apoio aos presos do Araguaia. Eu saí da reunião, já conhecendo todos os pontos de encontro. Mas o primeiro deles, caiu naquela noite mesmo (tínhamos infiltrados na reunião) e ao passar pela praça da República, fui logo preparando o espírito. A praça, do IEP até a sedutora esquina da Riachuelo, estava tomada de polícia.
A Trindade era a segunda alternativa. Chegando lá, encontrei com minha amiga Elza Fátima e nos postamos em frente ao prédio da OAB. A polícia controlava toda a parte anterior da praça, logo à frente da igreja. Era início da tarde, o sol ardendo e eu não tava gostando daquela história. Percebi que um comandante, do outro lado da rua nos olhava com olhos maus. Chamei Elzinha e propus a retirada. Mas foi batata. Um instante depois o comandante ordenou o ataque. Cães policiais excitadíssimos saíram abocanhando quem encontravam pela frente, inclusive o rapaz que estava bem do meu lado e que não quis correr com a gente. Varamos por trás das Lojas Americanas, entramos pelos corredores e disfarçamos por ali, olhando uma coisa ou outra. Na praça, o pau cantou.
Dali, rumamos para o outro ponto combinado. Igreja das Mercês. Boa parte dos remanescentes da ação já estava lá (os outros ou estavam presos na Trindade ou estavam machucados por causa do confronto na OAB). Na Mercês, havia uma infra. Água, comida, panfletos a ser distribuídos à população. Mas o governo não queria agito de jeito e maneira. Tão logo chegamos na escadaria da Mercês, despontou na esquina um ‘tomara-que-chova’ assim de policiais do Choque. Tudo de metralhadora na mão. A galera não arredou o pé. Eles então desceram e usaram as armas como calço para nos empurrar pra dentro da Igreja. Já pensou se um troço daqueles dispara? Aquilo foi demais pra mim. Dei um passamento. Suava frio, tava pálido. Alguém diagnosticou que era fome. Minha amiga Eliza Sena me levou pra sacristia e me atendeu com uma pratada de feijoada. Tomei um caldinho, mas na hora que eu ia atacar de vera, houve o comando para sairmos pra calçada novamente (ô, povinho de coragem!) e volvi à luta com aquela minha coragem glacial e descolorida. E o Choque de novo calçando... e todo mundo se espremendo dentro da igreja. E foi assim, a peleja, até terminar o julgamento.
No 31 de março próximo passado, tive a lembrança daquele dia. Não esqueço da imagem do cachorro mordendo meu companheiro, da nossa carreira desesperada pelo centro de Belém, do tomara-que-chova, das metralhadoras e dos meus passamentos. Não sei por que lembrei. Acho que por causa desses pampeiros que têm castigado a cidade.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Às crianças do Rio (um dia muito triste hoje)

" Quando cai a noite
sobre os Andes
vem a luz de mil estrelas
pra velar
pelo sorriso adormecido das crianças"
                                               (Edir Gaya)

A arte de Larissa

Loló

terça-feira, 5 de abril de 2011

crônica remix

Pedacinho de céu
Nessa última semana, eu passei os dias assistindo ao filme “Sete anos no Tibet”. Foram alguns dias, sim, porque voltei umas quantas vezes a fita, para apreciar as belas paisagens e para refletir sobre a sequência em que umas das personagens define o montanhismo dizendo algo como “escalar montanhas é um prazer muito bobo”. Esta frase é disparada contra o alpinista Heinrich Harrer (interpretado pelo aporcelanado Brad Pitt) que, imerso em gélidas vaidades, abandonara a mulher e um filho prestes a nascer, para escalar o Nanga Parbat, a nona montanha mais alta do mundo, cujo cume foi alcançado pela primeira vez em 1953, não sem antes enfileirar uma legião de vítimas.
O Economista David Correia Silva, meu amigo aqui da Vila dos Cabanos compartilha da opinião da tibetana com muita precisão. Em algumas das acaloradas discussões que travamos sobre essas coisas doidas da vida, o economista arremata: “os alpinistas são uns desocupados”. Aí a coisa pega fogo, e eu fico tiririca com o David, porque sou um admirador dos alpinistas. Sou um entusiasta do esporte e não fossem algumas óbvias limitações como a falta de um terceiro pulmão, por exemplo, eu já teria me abalado a uma aventura nas montanhas (mas não joguei a toalha ainda e tenho a maior fé que, mesmo que seja a última coisa que eu faça na vida, ainda vou escalar uma dessas montanhas famosas...Admito que, se eu for me enfiar neste meu preparo físico de jogador de Ludo, com certeza vai ser a última coisa mesmo).
Entendimentos diferentes sobre a arte de escalar picos gelados, concordamos, no entanto, que as montanhas exibem-se como um dos mais belos e fascinantes elementos da paisagem do planeta. Compõem os registros atuais das forças atuantes no interior da Terra. Traduzem a dramaticidade e a brutalidade dos conflitos entre as placas abissais. Elevam-se por imposições tectônicas, soerguem-se em relevos rebeldes, atrevidos, descontentes. As montanhas são a transcrição de um planeta inquieto.
Realmente, as montanhas atestam em si, a realidade de uma natureza enérgica, imponderável. Estes temerosos fatores genéticos, estes desafios, estes ruídos de uma história geológica que está sendo contada são componentes suficientes para ativar a adrenalina no coração de apaixonados aventureiros. Eu diria que além de expressar um inexorável enraizamento, um aprisionamento de corações e mentes, as montanhas simbolizam, também, a liberdade do espírito. Vão até pertinho de Deus. Um homem que sobe as montanhas, trava uma luta contra os planos da natureza, mas ao mesmo tempo, aceita, com obediência, entregar-se aos insondáveis desígnios dos céus.
Penso não ser somente a adrenalina que leva um alpinista às alturas. Um pedacinho do céu o inspira.
Nas montanhas, um herói pode virar uma vítima a partir dos 2.800m de altitude. Neste ponto o organismo passa a ter dificuldades para absorver o oxigênio e a conseqüência desta debilidade pode ser a morte. Para vencer os 8.125m do Nanga Parbat o indivíduo passa por várias fases de adaptação, em altitudes diferentes e cada vez maiores. A aclimatação demora. A escalada leva tempo. A pressa não existe (e como diria o David, se não há nada pra fazer lá em cima, pra quê pressa?).
No filme, o Brad Pitt não vence o  Nanga Parbat . Mas na vida real, eu já estive a alguma coisa perto de 1.200m de altitude, num lugar chamado Lavras Novas, nos arredores de Ouro Preto. Tava um friozinho lá em cima. Naquele dia, ganhei o meu pedacinho de céu.
Mas, embora eu não ache que escalar montanha seja “um prazer muito bobo”, fui de carro.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

crônica da semana

Blecaute amigo
Até a entrada em operação da hidrelétrica de Tucuruí, no início dos anos 80, faltava luz todo santo dia. Dava aquela hora xis, pluft, já era. Blecaute.
Eu até que não sofria com aquele breu. Era a hora da molecada da Vila Mauriti se juntar para exercitar as radiantes sensações dos primeiros beijos nas brincadeiras de ‘pó-rouge-baton’ ou ‘caí no poço’.
E, pensando bem, tirando o tipo de diversão e as marcas que o tempo nos imprime (na tez e na alma, e que deixam para trás rubros sorrisos e bitocas inocentes), hoje não tá muito diferente. De vez em quando cai uma barreta e a gente fica no escuro.
Por isso nem me bati para aderir à campanha pela Hora do Planeta, sábado passado. Se eu não apagasse as luzes de casa, com certeza a concessionária não falharia, quer dizer, para manter a rotina, falharia sim, e uma barreta, certamente, cairia por aí. Pluft!
A Hora do Planeta é uma idéia bacana, meio romântica, mas tem lá o seu termo. É uma campanha que atinge muita gente, ativa uma pá de mídias persuasivas. E acende uma luzinha na nossa consciência com potencial de prover nossos modos e intenções com modernos conceitos de civilidade e respeito ao planeta.
É um movimento liderado pela WWF. Consiste no ato de apagarmos, por uma hora, as luzes da nossa casa.  E a gente percebe que o entusiasmo pelo mundo afora está cada vez maior. Ao longo do tempo, algumas cidades importantes têm aderido à campanha e expõem formalmente o apoio desligando a iluminação de prédios públicos, monumentos, pontes. As imagens das imensidões de pontos luminosos se apagando são, absolutamente impressionantes. E podem ser interpretadas como uma mensagem: muita gente tá a fim de refletir sobre o aquecimento global e dar uma pitadinha de colaboração para salvar o planeta.
Daí a gente tira que, se depender da WWF, das pessoas de boa vontade e de, tão ecologicamente engajadas, concessionárias de energia elétrica, a Terra vai vingar, por muito tempo ainda. Ah, e da minha filha Amaranta Maria, também...
Não, falando sério, a menina se dedicou. A semana toda ficou lembrando, preparando a casa, a família; checando a programação mundial, os fusos horários; arranjando uma ocupação para a Hora do Planeta.
Não estávamos juntos, no momento do apagão. Eu, por motivos alheios à minha vontade, fiquei aqui em Barcarena e ela, em Belém. Pra quê! A menina, logo após o sol se pôr, se pôs a ligar lembrando do meu compromisso com o futuro. Foi-não-foi, tornava a ligação. Quando me conectei ao msn, lá s’estava ela alertando: “pai, tens que apagar as luzes, a tv, a lanterna do celular, tudo...”. Tá, tá, respondia meio que pressionado. E ela, de relógio ao pegado, medindo o tempo restante, de vez em quando dava um alô avisando.
Amaranta Maria é uma garota dada a essas coisas. Cuida, com zelo, das suas missões ambientais. Canso de vê-la chegar em casa com a mochila cheia de resíduos que ela não tem coragem de descartar por aí. Guarda o seu lixinho até dar a ele uma destinação mais correta.  Em casa, é cricri. Pega no pé. Lâmpada? Usou, desligou. Não estraga comida, lanchinho... e ai de nós quando nos despreocupamos escovando os dentes com a torneira aberta. É carão na certa.
As notícias contam que, em Belém, ela conduziu a hora de breu com mão de ferro. Pouco antes das oito e meia, fiz como ela mandou. Desliguei tudo, dei uns embalos na rede e adormeci.
Taí, se depender da WWF, das concessionárias de energia elétrica, e de Amaranta Maria, o planeta está salvo.
Mais tarde, quando acordei, vi, no celular umas quantas chamadas não atendidas e a inquiridora mensagem: “e aí, tás no escuro?”.