sábado, 31 de dezembro de 2011

Crônica da semana - resoluções


Resoluções
Diante dos pliques que grassam pelas mídias anunciando o fim do mundo agora para 2012, minha querida mãe Luzia, se ainda conosco houvesse, replicaria com toda a sabedoria: “O mundo não se acaba. Quem se acaba é a gente”.
Sempre cri no animus materno e assim, amamãezado que sou, acredito na longevidade do planeta. Até hoje guardo este ensinamento de Luzia (abonado inclusive, pela Geologia e por ciências afins: mamãe não dava ponto sem nó). Certo é, que pelas evidências deixadas nesses bilhões de anos pretéritos, o mundo tá garantido; enquanto a gente, ó, a gente vai levando, né, até quando Deus quiser.
Temos tempo. Considerando mais uns bilhões de anos daqui por adiante (pelo menos 7 bilhões, né, que é a expectativa de vida do sol), vamos tocando em frente. E nos aviando para as resoluções que temos que providenciar neste ano que está aqui, na biqueira.
(Antes de revelar quais as minhas metas para 2012, confesso um mico: há muitos anos, folheando um gibi, dei com uma historinha do Peninha. Era uma briga dele para cumprir as resoluções de ano novo. Até aí, tudo bem. Só, que  há muitos anos, eu era um moleque meio raquítico de palavras, de pouca envergadura no vocabulário e não sabia o significado da palavra ‘resolução’. Conhecia ‘revolução’, porque sempre fui comunista, agora estazinha, não. Mas li os quadrinhos até o fim. Intuindo, tomado por desafios e descobertas. Até que saí deles entendendo que, o que o Peninha fazia era listar e admitir alguns objetivos a serem alcançados no ano novo. De lá pra cá, melhorei bastante. Hoje eu já sei o que quer dizer ‘resolução’. Numa linguagem mais moderninha, pode-se traduzir por ‘ater-se a um foco’. Por outro lado,  nem me mordo, por um dia ter sido raquítico nos dizeres. Quando não se tem haveres e saberes, o instinto cuida).
A minha listinha é distinta. Separo desejos, de missões, de urgentes e impreteríveis decisões. Destas, vou falar aqui das pessoais que são as mais graves, porque sem elas, nada feito. Tenho um compromisso comigo de perder uma arroba e meia. Ontem quase dei um chiliquito quando subi na balança. O ponteiro tomou distância e se lançou no rumo das dezenas de milhares de gramas. Sessenta e nove mil, para ser mais exato. Vale dizer que tenho suficientes, mas, no caso, perigosíssimos 15 decímetros de altura. Estas coordenadas indicam que minha massa está tão isotropicamente distribuída (tipo: sou baixinho e tô barrigudinho e larguinho), que se eu cair eu rolo, feito uma esfera de aço num jogo de corre-atrás na tabatinga lisa da antiga Marquês. Não bom, isso. Então, para o ano, o meu foco é viver uma vida mais saudável, fazer algum esporte (fora o levantamento de copo e o embalo na rede), comer coisas que valham e, por tabela, ficar saradinho. Vou cuidar da cabeça, também. Quero escrever mais e melhor, e ler mais do que este ano que se encerra. Pro lado do aconchego, quero aproveitar este momento maravilhoso da adolescência dos meus meninos e varar muitas madrugadas interagindo com eles. Percebendo os anseios deles, descobrindo inofensivos segredos, contando causos, ouvindo Amaranta Maria cantar "Someone like you" e Argelzinho, entre suspiros, declarar-se apaixonado. Ah, o amor. E por falar em amor, vou comprar um paletó nos trinks, também. Quero estar lindão na festa da minha companheira Edna Nunes, que agora, nas calendas de março, celebra a vitória, colando grau em Matemática.
Já a minha lista de desejos é grande. Mas o principal deles é viver os anos novos crendo, assim como creu minha mãe, na eternidade. Minha mãe não dava ponto sem nó.




sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

crônica remix - de bubuia


De Bubuia

A foto de capa d’ O Liberal, capturada de um cordial dia 25 de dezembro, mostrava uma garota flutuando nas águas do furo do Nazário, a rebocar uma boneca.
O furo do Nazário é um braço de rio que corta boa parte da Ilha das Onças, naquele dia, palco da campanha de Natal idealizada por um grupo de cidadãos bem intencionados.
A empreitada procurava levar a alegria do Natal às crianças ribeirinhas. Nobre atitude, mas com um tropeço grave no enredo: o direito aos presentes era, por vezes, condicionado aos mergulhos dos pequenos.
Quando o barco em que eu viajava cruzou com o do pessoal da boa ação, dei que os presentes estavam sendo jogados sem o exigido compromisso com a pontaria e, por isso, quase sempre, amerissavam. Isto fazia com que a garotada se abalasse à nado, ao encontro dos brinquedos cruzando o  banzeiro provocado pelas embarcações.
Uma cena que se repetiu de fora a fora pelos furos do Nazário, Piramanha e em outras tantas entradas de água daquelas paragens.
Naquele dia, topei com dois barcos da trupe filantrópica, eu, indo de Belém para Barcarena, eles, no sentido de Belém. E o que presenciei buliu com a validade da intenção.
O ato de deixar os brindes à deriva, tenho pra mim, não fazia parte das vontades dos organizadores, mas foi  determinante para evidenciar o caráter fluido, literalmente líquido, das relações possíveis entre os embarcados urbanos, e os outros, os ribeirinhos e, ainda, para revelar a duvidosa produtividade da tarefa (dava pena avistar, pelo caminho, de quando em quando, um pacotinho, de bubuia, sem criança para alcançá-lo).
Faço rotineiramente essa viagem que, forjada pela beleza da Ilha das Onças, deixa de ser uma viagem e vira, sempre, um agradável passeio.
Por estes dias, cruzei a ilha de novo, pelo furo, e a mim, me veio a imagem da garota emergindo com sua boneca pescada das águas, parecendo uma Iara vencida, um mito inocente, indefeso, abatido por plásticos encantamentos, dissolvido nos ácidos equívocos da benemerência.
Procurei, agora, longe dos humores natalinos, sonhos infantis pelos escaninhos da ilha, mas encontrei o arranjo utilitário dos açaizais, a funcionalidade dos matapis estrategicamente localizados, as criativas (mas impotentes) engenharias montadas contra a agressiva erosão que, implacavelmente, redesenha as margens. 
Dei que ali, são necessários mergulhos diários, não em busca de preciosidades impermeáveis, sem pontaria, largadas ao sacolejo da maré, mas em busca da sobrevivência e de um modo digno de encarar a realidade. Uma realidade diferente, especial, poucas vezes entendida, outras tantas, distorcida. Um modo de prover a vida, que longe dos sonhos estratosféricos inspirados pelo desvario consumista (aqueles sonhos relegados às veredas do aningal), está prudentemente subordinado às limitações impostas pelas margens dos rios, que, antes de serem uma provação (como, equivocadamente pensamos), são, por certo, uma bênção.

sábado, 24 de dezembro de 2011

crônica da semana- natal

Tô pensando sobre (a lógica do bem)  
O cenário é de uma tragédia. Retrata um grupo de pessoas em fuga. Carinhas orientais. A foto mira em dois garotos atravessando o rio, com água pela cintura. O menor, atracado às costas do maior. A busca pela salvação, pelo pão, por um pouquinho de amor ou de paz. Um caminhar no ermo, afundado nas águas das incertezas. Sabemos como são as tragédias. Uma escuridão sem fim. Um destino sem dono ou espécie. Fome, frio, perda, desilusão. Sabemos como é a crueldade dos reveses. Humilhação, desterro, pena, solidão, desesperança, saudade.
(Somos seres surpreendentemente fascinantes. Evoluímos. Dispersamo-nos. Sobrevivemos. Conquistamos espaços. Adaptamos faculdades. Surpreendentes somos, porque alcançamos estas vitórias meio ao acaso, nos esgueirando por  obsequiosos entrementes da natureza. Fascinantes, porque construímos a lógica nos insinuando por entrejeitos, entreformas, entrecrenças, entrefés, entremortes, entrevidas, entreamores e ódios).
A imagem correu mundo aí pelas redes sociais.
 (Esta é, por fim, a lógica do Natal. Penetrar nos hiatos dos sentimentos, nos poros dilatados do sem sentido, nos insterstícios lassos do não percebido. Ativar sensores. Acender luzinhas do juízo. Envolver-se. Deixar-se levar. O que assusta, o que intriga, o que encanta, na natureza humana é esta capacidade que temos de surpreender. Lá na Grécia Antiga, o filósofo esquematizava os impulsos, os gozos e martírios humanos: tudo acontecia como produto de uma condição. Todo homem é mortal).
Não sei ao certo em qual acontecimento foi obtida aquela foto. Mas a gente pode inferir. Uma guerra em um lugar lá do oriente desconhecido. Uma enchente poderosa, nos arredores de Pequim. Tempestade tropical em alguma ilha escarpada do Pacífico Sul. Uma tsunami devastadora no litoral do Japão. Tirando um pelo outro, o que a gente entende da imagem é a linguagem universal da dor. Os dois garotos lutando pela vida, com a água pela cintura.
(A atenuação do fardo, é por fim, a lógica do Natal. A remissão. A circunstância. O Natal é um momento de reparos. Sensibilidades são aguçadas. E a gente se verga a detalhes do nosso dia-a-dia. Percebe carências pelas calçadas de um ano todo, desdobra-se em humanidades. Enfeita a casa e a alma com motivos contrastantes. Vermelhos conflitantes: porque surpreendemos para o bem e para o mal. Sócrates é homem, alerta o filósofo).
O garoto carregando o menino nas costas. Um abraço-esperança. Penso eu, que havia por ali, algumas equipes de reportagem. Jornalistas...o próprio fotógrafo que fez a imagem. Com certeza aqueles movimentos estavam sendo acompanhados. Imagino que em algum momento perguntaram ao maiorzinho se ele não estava cansado, se aquele não era um esforço exagerado para ele. Encarar uma região alagada com o peso de um outro garoto nas costas.
(O que é lógico pra gente? Que tipo de esforços, de condições, de situações impomos às nossas condutas para que elas resultem naquelas propriedades que garantiram o fulgor da natureza humana? Sócrates, então, é mortal, deduziu o pensador).
A frase que faz a legenda da foto é atribuída ao garoto e sugere a resposta sobre o desafio de carregar um companheirinho nas costas: “Não é pesado...É meu irmão”. Pode nem ser dele, a frase. Pode ser uma montagem. Tem a possibilidade de ser uma intenção de cunho religioso posta exatamente para comover, para impressionar. É, porém, em todos os sentidos, sublime. Um belíssimo exercício de lógica pela vida. A lógica do bem. ‘Irmão não pesa’. Tô pensando sobre. Feliz Natal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

crônica remix- arvorinha


A ‘Arvorinha’ e os Belengodengos Natalinos
Este ano, a minha filha encasquetou por uma árvore de Natal. Fez porque fez, e tanto, que na última sexta-feira, se submeteu, comportadíssima, a me acompanhar nas incompreensíveis (incompreensíveis para mim, observo) aulas na Federal, só para garantir, depois, uma busca por ofertas e promoções pelas lojas do centro.
A mim, me surpreendeu esta vontade desregrada da minha bebê, por uma árvore de Natal, mais porque, aqui em casa, a gente não tem esta tradição. O máximo a que a gente se abalou foi uma guirlanda exposta à porta, sustentada por um multiético preguinho retorcido e, na fachada da casa, largado em voltas assimétricas, um estressante jogo de luz acendendo e apagando (ou acendendo e acendendo e, às vezes, só de mal, apagando e apagando).
Adianto que a ausência de motivos natalinos aqui em casa, nada tem a ver com a pirangagem doméstica imposta pelo raquítico montante financeiro destinado mensalmente à classe trabalhadora, o qual, alcunhamos despudoradamente de salário. Não, nada disso. Se a gente apertar aqui, esticar ali, cavucar mais embaixo, espremer no ladinho, até que dá pra fazer uma graça no Natal. Enfeitar a casa, comprar uns agrados importados...Rola até um peru, se bobar...Tem o décimo, o abono, né?
O certo é que essas árvores de loja, é que não me animam muito. Sou das coisas mais simples, minimizadas, fiéis às nossas aptidões, às ofertas naturais.
Daí que a minha idéia de árvore de Natal sempre foi a de um galho bem formado catado na mata, envolto em algodão com bolas coloridas pendentes (daquelas que quebram, sabe? Que dão uns caquinhos brilhosinhos. E que depois a gente coloca no pé da lindinha, e ficam parecendo estrelinhas no chão...Pô, fica no jeito!), uma estrela purpurinada grandona no alto (que não resiste à menor brisa incidente, e sempre cai) e uma lata de leite (de qualquer marca) escondida sob papel laminado para sustentar a bichinha. E pronto, depois é só esperar a noite dos dingobéus e mericristimans.
Esta minha idéia encontrou eco, por aqui. Meu menino, por exemplo, assinou embaixo e diante dos arroubos da irmã, disparava indignado, suspiros racionalistas, pelos cantos “égua, não tem combate querer uma árvore de Natal, de plástico, com todos aqueles belengodengos pendurados, aqui em casa”.
Mas sabe como é que é, né...
Naquele dia, voltamos para casa com a árvore e uma vuca de penduricalhos natalinos. Minha filhinha não quis nem almoçar. Largou-se ao chão e pôs-se a montar, alegremente, a ‘arvorinha’.
Assessorada, diligentemente, por todos nós da oposição, diga-se.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Verão

"Viagem, né. Mas a eterna sinfonia do universo continua. Estanque, ordenada. Te convido: vira-te pra baía do Guajará, abre teus braços. Hoje, exatamente, o sol se pôs no ponto mais longe de ti, lá na tua mão esquerda. Acompanha comigo, que ele vem a ti. Em março, estará no meio do teu peito. Depois, em junho, será tocado, ao se pôr, pela tua mão direita. Longe do tuco tuco vivo do teu coração, de novo. É a eterna sinfonia, bebê. O eterno caminhar. te convido a viver. E viver essa maravilha na paz." 
(para Tatyane Alvez, que fez aquela foto linda da chuva no telhado e que publiquei aqui, dia desses)
 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

crônica remix- solstício


O dia em que o sol pára
Tá uma quentura, num tá? Eu já nem me enxugo mais. Da feita que tomo banho, fico por ali um instantinho na frente do ventilador, passo a toalha rapidamente pelo corpo e  me visto logo. Assim, meio úmido, vou tirando o dia, na peleja para vencer o calor.
Eita que nesses dias de julho, o sol tá no capricho. Quando dá d’agente já amanhecer bebendo água, é que o abafado tá  demais. Tem hora que a gente só falta correr doido, éraste!
Embora esta época do ano nos deixe um pouco atarantados e transforme as nossas toalhas em um acessório a mais da geladeira (uma após outra estendida lá atrás no serpentinado quentinho), temos que manter a calma e aproveitar para conhecer melhor as afetações do planeta.
Afetada pelo plus nas radiações ultravioletas, uma internauta, dia desses, não conteve a empolgação e mandou uma mensagem para nossos amigos que moram na Espanha dizendo que aqui o verão estava quentíssimo e concluiu a mensagem perguntando como estava o clima lá na Europa.
Alô-ô, lembremo-nos que habitamos a Terra, o terceiro dos planetas, um astrinho que dá voltas e voltas em redor do sol, e que numa horinha destas está na maior distância do astro-rei, coisa de uns cento e cinqüenta milhões de quilômetros. Atinemos também, que por estas alturas, a Terra está com a sua metade norte virada para o sol, isso quer dizer que é verão na Espanha.
No Brasil austral, é inverno e na Amazônia, os dias fervem e a estação não tem nome.
E por falar nisso, vale acrescentar que lá pelo meio de junho vivemos um dos momentos mais fascinantes e importantes para a história da humanidade.  Acabamos de passar pelo solstício. É fascinante porque, para ser bem simplesinho, é o dia em que o sol pára.
O solstício acontece duas vezes por ano. Uma agora em junho, quando ratificou o verão no hemisfério norte e outra, em dezembro quando o sol se bandeia pra cá, para o sul. Nas duas ocasiões, o evento proporciona o dia mais longo do ano.
Em termos de deslocamento o solstício significa o ponto de maior afastamento do sol em relação à linha do Equador, ou seja, no hemisfério norte, é quando o sol se impõe sobre o Trópico de Câncer, e no sul, ocorre quando o sol posta-se soberano sobre a linha imaginária do Trópico de Capricórnio. Se a gente for olhar no mapa- mundi (que eu acho que é um material didático que nem existe mais) vai entender porque se diz que é um momento em que o sol pára. É que a partir deste ponto, o sol “interrompe” seu percurso de afastamento do Equador, “pára” e a seguir volta a movimentar-se para o meio do mundo, novamente.
O solstício, no norte inspirou algumas crenças e estimulou a curiosidade dos homens. O exemplo da reverência a este evento é a edificação dos círculos de pedra erguidos na Inglaterra, o enigmático monumento de “stonehenge”. Uma construção datada de pelo menos 3.000 anos e que além de ser cultuada pelos druidas (um misto de sacerdote e curandeiro dos bretões), guarda em seus contornos os conhecimentos astronômicos daquela época: a junção entre as duas pedras que limitam o círculo está alinhada exatamente ao ponto em que o sol nasce no dia mais longo do ano. As pedras indicam o solstício de verão.
Aqui no Brasil, também temos o nosso “stonehenge”. Fica em Calçoene (que já está no hemisfério norte), no Amapá. É um arranjo de pedras, também. Não sei se este nosso monumento já atrai peregrinos para celebrar o solstício, mas não acho uma má idéia. Uma dose de magia e mistério serve também para que a gente entenda melhor as afetações do planeta, este julho sem chuva, este sol de rachar e o verão na Espanha.

·       A crônica é de 2008.
·       Agora, no dia 21 de dezembro de 2012, viveremos os solstício de verão no hemisfério sul. É o dito verão que traz a nossa nevinha belemense no dia de Natal.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

crônica remix- diálogo

Diálogo
- Eu sei que dizem por aí que a minha vida é tesourar, mas eu não tô nem vendo. Olha, mana, meus filhos já estão criados. A minha casa está arrumadinha, a roupa lavada e engomada, o jantar tá pronto. Eu é que não vou ficar enfurnada dentro de casa. Deu de tardezinha, ponho a cadeira na calçada e fico apreciando o movimento. Olha, olha, tás vendo? Tás vendo? Não é querer falar mal da vida de ninguém, mas aquela ali não é mais moça. Espia, espia aqui nessa parte, tás vendo? Não une. Conheço só pelo andar, maninha. A mãe coitada, acha que ela é uma santa. Mas tá, cheirosa! Pra cima de moá! Conheço. Só pelo andar. E lá vai Flor. Olha, mana, tô te falando. Quero que um raio me cegue se eu estiver inventando, mas a Flor tá enfeitando a cabeça do marido. O pobre tá que não entra mais em casa de tão espaçoso que tá (aqui na testa). Um homem tão bom! Mas é assim mesmo, mulher não dá valor a homem muito manso. Mas aquela ali não é Verinha? Eu quero cair durinha com doze facadas, se eu estiver enganada, mas é certeza que Verinha está grávida. Tô sabendo que tá de partida pra São Caetano. Vai pra lá, pra ninguém saber. Mas não adianta esconder. Menina nova com aquela cara pálida de doente, eu já sei: emprenhou. Mas também, égua da pequena foguenta. Vivia aqui em casa atrás do meu menino. A mãe num desespero só. Dizia até que eu acoitava. Eu avisava: prenda a sua cabra que o meu bode tá solto. A mulher fez porque fez, que os dois se desencegueiraram. Num adiantou. Olhaí. Não se perdeu com este aqui, se perdeu com outro que ninguém nem conhece. Eu vou te contar essa, mas pelo amor de Deus, não conta pra ninguém: Dica está com uma doença feia. Era uma bifede que ela tinha na orelha. Passou pra dentro do ouvido e furou o tímpano. Infeccionou. Anda pra cima e pra baixo, tomando tudo quanto é remédio, e a inflamação, nada. Dizem que foi um trabalho pra ela deixar do marido. Coisa braba, mana. Axi, lá vem a ricaça. Pensa que eu não sei. Toda emperiquitada, nariz empinado, mas tá pior do que a gente. Verdade, mana, por essa luz que me alumia. Anda toda emplastada de maquilagem, cheia dos michelini, mas tá no fundo do poço. Dizem até que vão vender a casa da Arterial, pra pagar dívidas. Tu viste este que desceu do carro verde? É o caso da Dora. Dizque é cheio da grana. Ele chega uma horinha dessa e larga só lá pra de noitinha. É casado, com certeza. Agora a verdade seja dita, ele faz todas as vontades dela, mas tá certo, comendo da fruta todo dia, o homem tem mais é de ficar mão aberta mesmo. Na casa dela tem de tudo em quanto e do bom e do melhor. Ele vai até mandar reformar a casa. E o Silva, menina! Todo de carro novo. Eu vou te contar, não sei onde esse povo arruma tanto dinheiro. Um homem que não tem nem o ginásio, menina, com um casarão desse, um mulherão, que é a Margarida (e ele que ainda é feio que dói ), e festa todo fim de semana. E a gente só aqui, sentindo o cheirinho do churrasco. Pra mim é trambicagem das boas. Olha, menina, eu vivo a minha vidinha aqui com os meus filhos. Eles não me trazem problema. Mas aqueles mau elementos ali da esquina, eu heim! Eu já armei o meu pé-de-cá-te-espera pr’eles. Cuidado, eles têm mau-costume. Aquela televisão deles, hum hum, se me perguntarem eu digo como eles conseguiram. Não sou baú. E não é só isso (ôxa! ), e esse povo de carro que vive batendo na porta deles (ai meu pai! ), uns bacanas arrumadinhos (mas que coisa chata! ). Pra mim ali é um ponto. Argh, como é que a gente fala pra gato, mesmo?
- Sap, bichano!
- Sap, gato!    

sábado, 10 de dezembro de 2011

crônica da semana- quinta

Quinta dimensão
Eu tava aqui na ira, rolando a barra pra cima e pra baixo, no tempo e no espaço, pra ver se achava uma postagem muito bacana que apareceu no ‘feice’, mas quite, dancei. Patetice minha. É aquela coisa: neste mundo da internet, não deixe para daqui a pouco o que se pode fazer já, já. É um universo sem freio este virtual. Deu-se, então, que alguém postou, eu gostei, não gravei e perdi. Mas tenho uma tênue lembrança e vou usar do meu charme para repassar o riquíssimo conteúdo da mensagem. Trata-se de uma pergunta: “qual o destino que a borracha que a gente tá usando toma, quando cai no chão?” Algumas alternativas são apresentadas e eu me alinho com aquela que diz que a borracha some completamente, passa para uma outra dimensão, e no meu caso, acho que é a quinta, aquela mais difícil de ser intuída pela nossa vã filosofia.
É, ocorre que, agora, na modernidade, carece de lembrar aos mais jovens, que tipo de objeto utilitário era esta tal de borracha: numa linguagem afinada com a tecnologia, eu poderia dizer que era a mesmíssima coisa que esta função aí do teclado onde está grafada a palavra ‘delete’. Tinha a mesma eminente missão de delir as bobagens que a gente escrevia ou desenhava.
Só que ao contrário da tecla do computador, que não arreda pé do nicho, a borracha era dotada de teimosia. Tinha a propriedade elástica do látex e quando caía no chão, não tinha pra ninguém. Dava uns dois quiques ainda no raio da nossa visão e depois, pluft,  escapulia pra quinta dimensão. Aí, não tinha combate. Nem São Longuinho resolvia. A gente passava horas, naquela posição que Napoleão perdeu a guerra, esfregando o nariz no chão, procurando a bichinha. E nada.
Sofri muito com esses desaparecimentos. Num dos meus trabalhos aí, por esta Amazônia de meu Deus, eu me aviava diariamente com uma ruma de mapas. Tinha que copiar, transferir, traçar...Apagar. Às vezes manobrava com três, quatro ao mesmo tempo, combinando informações, definindo programações. Uns sobre os outros, outros sobre uns. Em muitas e tensas ocasiões, a danadinha da borracha se enfurnava entre os vincos do papel e cedia ao descaminho. Volvia a mim somente lá pra de tardezinha, ao final do expediente, branca e inocente enquanto eu era uma pilha de desconsolo, de tanto relar o nariz pelo chão e não encontrar nada.
Perder coisas, esquecer objetos importantes em algum lugar não sei onde, quedar-se a desatinos e apagões são infortúnios que nos acompanham nesta longa estrada da vida. Não há o que temer nem envergonhar-se. Todo mundo já esqueceu um celular (sempre aquele mais caro e chique) pra nunca mais; já deixou a carteira com todos os documentos (e só documentos, porque dinheiro é raro, sabe-se) em cima do balcão de uma lanchonete; enfiou entre as páginas de um dos livros imexíveis da estante um endereço que ninguém podia saber (e são tantos os imexíveis, que ninguém jamais soube mesmo) e se desfez completamente da única pista que tinha sobre o ser amado. Quem nunca deixou uma sombrinha no banco do Pedreira Lomas?
São os mistérios da quinta dimensão. Aquela mais distante e cruel. Aquela da qual nem toda a ciência dá conta. E assim se fortalecem as lendas e as crenças. As lembranças e as desesperanças. Como agora, esta que sinto.
Mesmo depois da revolução tecnológica, ainda insisto. Hoje, no trabalho, faço minha fé nos traçados em computador. Mas não largo meu esquadro, minha régua, meu transferidor, minha escala, meu compasso e minha borracha. Só que a borracha, faz umas duas semanas que não a vejo. Tá por aí, quicando branca e inocente, além da minha filosofia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

crônica remix- o presente

O presente
Ver-o-Peso. Três da tarde. O sol botando pra ferver. Uma nuvem de fumaça maldosa paira sobre as cabeças e martiriza narizes e pulmões. Ali no abafado escaninho histórico, Belém é desvairado movimento.
O homem aproveita a folga no trabalho e providencia aquele mato cheiroso para banhos descongestionantes. Ele é trabalhador do comércio varejista. Corre contra o tempo. Já já é hora de voltar aos clientes.
Sua em bicas. É o efeito de tresloucados movimentos. Atravessa a rua, acelera o passo. Ali, do outro lado da feira, barracas mal armadas fazem frente a empórios e armazéns seculares.
Tem o passo apressado e distingue ritmadamente os produtos expostos ali. Cantarola uma canção cadenciada por tabuleiros e prateleiras. Tem o passo apressado. Passam redes franjadas. Passam baldes coloridos e bacias de alumínio. Passa o pote altaneiro e a bilha modestíssima. Passam as sandálias de couro cru. Passa a loja de umbanda e o índio de gesso a te olhar. Tem o passo apressado. Passa a casa de fechaduras e cadeados. Passa a Ocidental do Mercado. Passa o portão do prédio de ferro. Tem o passo apressado. Passam os espelhos artesanais, as peças de elástico, os montes de ‘canforina’, as panelas de alça. O Candeeiro. Candeeiro? O homem desacelera o passo.
Naquele instante, inerte, o homem sente um desejo fulminante, voraz. Uma vontade subversiva de ter um candeeiro.
Nós, os comuns, mergulhados na rotinização dos deleites, entendemos pouco um desejo tão alucinante. Mas há o justo motivo para o comerciário. Há motivos para todos nós. Todos ansiamos por um candeeiro. Não percebemos, não nos entregamos arrebatadoramente a esta vontade como o homem ali no Ver-o-Peso. Mas, efetivamente, o candeeiro cativa as simpatias de todo homem comum. É a vontade mais discreta a percolar o inconsciente coletivo. Eu, tu, ele, não nos damos conta, mas cobiçamos sutilmente a posse de singelo e delicado candeeiro.
Talvez pela construção do vocábulo com um dê super responsável a equilibrar os audaciosos és, numa belíssima acrobacia da língua. Ou pelo objeto em si: peça estética e quase sagrada ao emanar a chama beneficente.
Por causa do êxtase manifestado pelo cidadão e mesmo pelos justos motivos que encontramos pelo caminho, ainda não dá para sair por aí comprando tudo quanto é candeeiro exposto no Ver-o-Peso, mas é um caso a se pensar. A felicidade do homem em ter um candeeiro só seu, nos diz que vale a pena...Naquela mesma noite o homem confidencia à mulher o seu comichão por causa do candeeiro. Há um vazio naquela casa, ambos sentem isso. Não dormem direito. Não são felizes, falta-lhes um candeeiro.
A mulher não se apoquentou. Conteve-se. Mas precisava agir para salvar seu casamento. Para trazer de volta o brilho aos olhos do seu companheiro. Um belo dia pegou as crianças, catou a féria semanal da costura e foi bater no Ver-o-Peso. Preparava uma surpresa para o domingo...
O almoço, especial. As cervejinhas do papai, geladinhas. Uma música de ocasião. Feliz dia dos pais, diz a mulher entregando-lhe um embrulho um tanto quanto delator. O homem já adivinhava o que vinha por ali. Abriu o presente e emocionou-se. Obrigado! Agora eu tenho um candeeiro. Abraça os filhos, feliz. Volta-se a mulher e beija-lhe a face. Um beijo com a força da luz que emana sagrada, de num canto da casa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

crônica da semana- Roger

Valeu, doutor
Conheci o Dr. Roger pela internet. Fez uma visita no meu blog, comentou. Trocamos figurinhas. Ele faz umas sessões legais de literatura em família.Tem dado vaga para a obra deste humilde servo do condado de Xapuri, nos saraus que realiza na casa dele. Bom de ofício e nas artes também. Outro dia, experimentou emboletar o texto dele com o meu e produziu esta bela crônica que partilho agora convosco. Senhoras e senhores: Dr. Roger Normando.
Ambição: quem não as tem?
Vez por outra fico me iludindo que não tenho ambição. Tenho sim. Descobri recentemente. Tanto é que deixei de fora essa idéia de não tê-la e mergulhei no tal pecado. Mas confesso que uma delas, a mais doída, foi difícil de desatarrachar da alma: comprar um segundo carro alemão, pois já tenho um fusca e um violão.
Mas toda ambição é uma fruto da outra, de outra, d’outra... até que: pimba! Lá saio eu dirigindo o meu sonho ambicioso pela BR.
Os anos se contaram, a minha formação familiar e profissional foi tomando outra cintura (mais coerentes com o meu status de pecador) até começar em mim esse sentimento esdrúxulo e bem próximo das palmadas de minha mãe. Foi coisa de dois anos atrás, quando fiz uma revisão desses conceitos e comecei a juntar dinheiro. Entendia que o melhor seria pagar à vista, como realmente fiz. Admiti que a mudança não pudesse ser na marra, no torniquete, tão radical, até por que nada em mim caiu do céu ou foi da noite pro dia. Primeiro comecei a plantar na consciência que uma ambição desta nem faz tanto mal assim. É, aliás, necessária para compor melhor o espírito de quem, a passos de cágado, vislumbra as conquistas materiais, pois as espirituais, sentimentais e educacionais, graças ao Bom-Pai, estão bem ajustadas. O materialismo ajuda a romper alguns grilhões que ainda nos comprimem os pulsos e apertam os pulmões. Por fim entendi que era apenas uma gota no vasto mar da luxúria.
Nas conversas com filhos explico que a ambição que me embrulha não é a mesma de “MacBeth”. Neste caso, defendo esse argumento: Calce os meus sapatos e percorra o caminho que percorri, pois se ando devagar é porque um dia eu já corri descalço e me sobraram apenas calos. Foram inevitáveis os calos. Levo essa ambição porque os prantos foram tantos que molharam minhas roupas.
Assim, desconstruo “MacBeth” que existe em cada um de nós. Não fui esta santidade toda, confesso. Dei ratadas incontáveis vezes e ainda me deixei encantar pelos apelos da vida hollywoodiana. Tive surtos de cobiça. Também comichão. Vontades incontroláveis de ter coisas e se coçar. Um apartamento de frente para Baía para nebulizar os meus brônquios com os ventos do norte; uma casa no campo ao melhor estilo Zé Rodrix, para degustar um Malbec; e ainda comprar muitos livros. Que eu me lembre, estas foram as minhas principais demandas, não sei se exatamente nesta ordem. Todas atendidas e com testemunhos para comprovar. Os livros, inclusive, os da minha ciência preferida e da literatura clássica e regional, são os mais caros, mas é para curar minha compulsão machadiana. Foi um custo conquistar tudo isso na casa do 40.
Mas tenho uma ambição, a maior de todas, meio-material-meio-imaterial que não podia excluir de mim e destas linhas: minhas viagens. E viagem nunca é barata, mas ao retornar, sempre alegre, parecido menino besta, não paro de vangloriar. Só para esquecer os custos.
Os filhos cresceram com todo protecionismo dos dias atuais, mas as viagens faço questão de falar. Desde a ida (com eles) ao Tucumanduba e Capitão Poço até o Muro de Berlim (sem eles), tudo me faz lembrar Fernando Pessoa: “para viajar basta existir.” É verdade, a gente passa a existir mais quando visita uma estação, pega um po-po-pô ou uma estrada ou se encontra nas nuvens. Um exemplo foi quando assisti recentemente “Meia-noite em Paris” (Wood Allen, 2011). Senti-me um protagonista de todos aqueles devaneios, onde se misturavam literatura, paisagismo e viagem. Meu enorme entusiasmo se transforma ainda mais quando viajo com os filhos, a esposa e os amigos de erudição e de bar. A minha mulher, confesso também, fica mais bela quando se torna espanhola, italiana, belga, alemã, holandesa, macapaense, carioca, paulista, salinense, cabofriense, enfim, tudo isso, mesmo que seja só por uma tarde fria no velho cais dourado.
Aqui e acolá fico repetindo que não tenho ambição. Pura leseira minha. Tenho sim. De Mosqueiro a Moscou, viajar é ambição insuperável. Chispar com carro novo é ambição fútil.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

10.000

Por falar em biqueira,  
o blog tá na biqueira de completar 10.000 visitas
é certo que vão dizer (e já ouvi isso) que tem gente que entra mais de uma vez, que o próprio autor vive acessando e coisa-e-loisa-maripoisa
Tá certo, tá certo
Não esqueçamos, porém, que o blog é dedicado à Literatura e outras artes
e a gente sabe como é o Brasil pra essas coisas.
Valeu então pela companhia de todos os que abelhudam por cá
Como escritor só tem malemale sua obra
o décimo milésimo visitante vai ganhar um livro de presente
Para isso, basta acusar-se como visitante 10.000 e dizer como posso entregar a prenda. Beijão a todos e fiquem na paz.

sábado, 26 de novembro de 2011

Crônica da semana- o louco do

O louco do Xingu
Eu fiquei impressionado com a arrumação do atleta doidão que desceu uma cachoeira de 30 metros num caiaque. Pai d’égua! É o meu sonho fazer uma peraltice dessas (em contrapartida, quem deve ter torcido o nariz para a presepada do canoísta foi o meu amigo David Correia, um crítico contumaz dessas aventuras radicais. Até imagino o comentário que ele fez: “são uns desocupados”).
A verdade é que as cachoeiras, pela beleza que exibem, exercem um fascínio sobre uma pá de gente. Nas artes e na vida. Num dos rituais realizados pelos índios Gaurani, no filme “A Missão”, o diretor Roland Joffé  elabora uma alegoria fatalista rodando uma cena com um corpo despencando de uma caudalosa cachoeira. Usa também esta poderosa queda d’água como uma barreira geográfica na defesa das missões jesuítas. Deste mesmo argumento limitador, a literatura histórica também se nutre. Ao descrever os processos que resultaram na construção da ‘Ferrovia do Diabo’, o pesquisador Manoel Rodrigues Ferreira introduz a narrativa apresentando as cachoeiras dos rios Madeira e Mamoré. E vai além: faz um mapa registrando os acidentes da bacia amazônica, tanto de uma margem, quanto de outra.
É aí que entra o Xingu.
A razão do historiador traçar os contornos da bacia é que os rios, a partir de um certo ponto começam a subir o terreno, encachoeirar e a dificultar a navegabilidade. E este era o grande motivo para a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, evitar a fúria das corredeiras.
O Xingu, não foge à regra. Nas proximidades da foz, é largo, canal único, navegável, corre sobre leito rebaixado e sofre a influência, mesmo que acanhada, da maré (na travessia de Belo Monte a gente percebe esta dinâmica do sobe-desce diário das águas). Agora, mais adiante, subindo um pouquinho e já adentrando à volta grande, o bicho pega. Neste ponto o Xingu sai de cotas próximas de 10m para elevações acima de 100, ou seja, dá um salto. É o início das cachoeiras, e barco, já era. Até Altamira, este trecho é denominado de Volta Grande (e é mesmo. O Xingu tem uma direção constante até Altamira, mas quando chega na cidade, o rio dá uma guinada drástica num arco de aproximadamente 180 graus que se desfaz lá em Belo Monte). O curioso neste trecho é que, mesmo realizando em grande escala, uma curva, o leito do rio, numa escala menor, se desenha em segmentos primorosamente retos e intensamente recortados em ângulos próximos de 90 graus. Em derivações certinhas, dotadas de grande energia, sobre o leito de rocha cristalina (este cenário para uns meninos que eu conheço, é mamão com mel. É o beabá da Geologia Estrutural).
Eu estive numa dessas cachoeiras, mas a patetice e as intempéries fotoquímicas me impedem de provar com fotos minha aventura. As lembranças estão só no cocuruto. Foi na localidade de Juruá, acima de Belo Monte. O Xingu ali é uma provação. Verte em 70m de canal toda água que corre acima numa largura de mais de um quilômetro. Por aí a gente tira a pancada. Essa é uma cachoeira braba. De dar medo. Acima dela, vêm as interligações retas. Na maior delas, outra cachoeira. Ali, as exposições de inscrições rupestres. Mas ora, se não fui lá. Desci na praia, fui me ajeitando e vi os hieróglifos misteriosos, as mensagens que nossos ancestrais deixaram. Não resisti. Fui me equilibrando embaixo da cortina de água alvoroçada, e me postei herói, sobre um lajeiro. Meu companheiro de aventura clicou com a minha Olimpus Tripp, um dos momentos mais eternos da minha vida. Não foi assim, coisa de louco do caiaque, né...A foto já era, mas acreditem em mim. Era um deslumbrante mundo de água, pedra e segredos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Crônica remix- Ribba

Um açude nos olhos
Agora no início de agosto, ganhei uma pasta com um monte de músicas legais. Tem Mônica Salmaso cantando Chico, tem Sérgio Sampaio botando pra ferver com ‘o bloco’ e ao mesmo tempo implorando para ser pregado na cruz, tem o Itamar Assunção e Naná Vasconcelos repercutindo a bossa concretista paulistana. Tô alegrinho com o meu novo arquivo de músicas, algo como um rico presente pelo dia dos pais. Já gravei as canções no meu MP3 e por onde ando, vou ouvindo as minhas joinhas. Tão belas e tão esquecidas as canções...
No arquivo encontrei uma sedutora fieira de canções paraenses também. Uma das mais belas começa assim com este inquietante verso “trago nos olhos o açude de Orós”. Esta volumosa verdade, esta confissão desbragada, despudorada, úmida e impetuosa é uma criação de Ribba, para mim, uma das personalidades mais autênticas da produção cultural paraense.

Como bom maranhense, Ribba é Ribamar. Menino (ironicamente) ilimitado pelas estivas incertas da Sacramenta, Ribba desafiou o conformismo e revelou-se bem cedo para as artes (como me relatou certa vez a professora Lindalva, querida e eterna diretora da Escola Salesiana do Trabalho). Era uma mente diferenciada. Enquanto lutava para alcançar as órbitas inalcançáveis que a bola fazia na brincadeira européia do spiribol, Ribba se juntava a Antônio Francisco pelos caminhos que se entrecruzavam no escuro do ‘beco do Gentil’ e compensava a dura realidade suburbana com uma múltipla, invejável produção artística que ia do teatro às artes plásticas. Esta combinação de talentos resultaria, no início dos anos 80 no fulgor do Grupo Hera da Terra e no espraiamento de uma consciência ética, poética, revolucionária, utópica e sonhadora pelos arrabaldes alagados. E com tal força e magnitude que me arrebatou da minha cômoda posição de centro avante do Internacional da Mauriti, me fez cruzar a (até hoje indefinida) fronteira da Pedreira com a Sacramenta e me levou a memoráveis celebrações etílico-musicais lá na Primeiro de Setembro, eu ainda um bebê iniciando o primeiro e inesquecível semestre na Escola Técnica sob a égide provedora de Cláudio Barradas.  
Reencontrei Ribba nestes versos. Saí à procura de novidades e dei com uma obra recente do artista plástico (aquele de quem a diretora Lindalva falava), de um traçado restaurador. Dei com a estética embrionária, primordial querendo, querendo... Experimentando o grafismo...Com sementes...Como se fosse um recém chegado... 
Pelas mãos de Ribba, o nascer poético amazônico se produz discreto, disciplinado, ordenado no ir e vir do traçado primitivo. 

Conformado com a pouca luz.
Poesia visual, memórias rupestres, origens...
Estes são os condimentos que Ribamar Araújo mistura às suas tintas. Em sua obra, são os inefáveis pigmentos, aqueles invisíveis, intrínsecos da alma, que revelam a vida, ou “a ânsia da vida por si mesma”.
Até a grande explosão.
Até a grande erupção que se impõe jorrando florestas, sementes multiéticas saturadas de “ânsias”.
Ribamar Araújo redescobre esta explosão de vida profanando o silêncio primitivo, maculando o traçado ortogonal, esnobando o espaço obtuso e revelando uma textura densa, caótica, explodida, escondida na fertilidade das angiospermas.
Porém, luminosa, contraditória.
As sementes de Ribamar Araújo buscam sempre a luz (não são cheias de ânsia?). Flutuam sobre um manto ancestral expresso no grafismo fosco do artista, mas revolucionam, convulsionam o espaço com seu brilho.
Querem, enfim, poeticamente, nascer.
Como naqueles tempos né, Ribba, pelos alagados da Sacramenta (ou como agora, pelo alagado dos olhos).    

terça-feira, 22 de novembro de 2011

coisas que Briela faz

Raio râyne baby

parece uma pintura, nessa tela e
fotografia
só parece porque pelas bençãos dos céus
ela é real
e tanto, que
ela veio asim:
negra índia cabloca
nortista amazônida
mulher
guerreira - com flores no cabelo
menina
doce - com urucum na maçã do rosto

mas parece uma miragem
uma tela
uma paisagem
uma pintura
é real
e inspira além desses versos
o gosto pela luta
dos dias melhores
a graça da farra do sorriso grato
à vida
por ser real sua beleza
por se forte, sua natureza
ela tem flores no cabelo, urucum na maçã do rosto
e olhar pr'além do horizonte

é tão real, que ñ podiam deixar de brincar com ela
como brincaram os Céus, qdo nos fez a todos aqui - brasileiros
E ja na certidão acharam bonito tirar onda com ela
e não bastasse ser mulher índia cabocla da pele preta
É Rayneia, o nome dela.
É lindona ela, lindo é o nome dela.


(Briela Salgado)

domingo, 20 de novembro de 2011

crônica da semana - o nome da

O nome da rosa
Agora, na modernidade, meu escritor preferido é o Luís Fernando Veríssimo. É certo que outros monstros da literatura me assombram, mas, o Veríssimo é, como posso dizer..mais ao pegado, feito vizinho de porta, xícara de açúcar, punhado de farinha, telhado platibanda. Com ele aprendo coisas complexas de modo muito simples. A natureza das coisas, dos termos, que por outras vias necessitariam de uns dois diplomas para compreendê-los, com o Veríssimo, é no trisca, assim de repente.
Tem uma crônica dele que não esqueço jamais. Reflete o grau de serventia que o filho do Érico Veríssimo pode assumir na vida da gente. Ele tira uma onda com o verbo ‘defenestrar’. No texto, o escritor gaúcho revela o significado do verbo. Explica que o verbo quer dizer jogar algo ou alguém pela janela e expõe algumas circunscrições para o ato. Não é desfazer-se de qualquer coisa, simplesmente. O arremesso tem que ser, necessariamente, pela janela. Uma bolinha de papel, sim; um sonho, sim; um cara chato, sim. Mas tem que ser pela janela (e eu pondero apenas que, excetuando-se o sonho, embora consoantes com a gramática, todos os outros lances são práticas ambientais condenáveis; penso que o verbo defenestrar, agora pelos nosso dias, para o bem do planeta, deve representar uma ação exclusivamente abstrata).
Nos últimos anos, o termo vem designando baixas nos variados estratos do poder. A grande imprensa assumiu esta conotação e adora noticiar que ‘fulano de tal foi defenestrado do cargo’ (fico imaginando um ‘empalitado’, com desesperados olhos de Frajola, despencando das janelas inglórias da política). 
Só pra gente perceber o cenário, o campo minado em que o Veríssimo se meteu, essa coisa da palavra, das designações, do significado, do significante e do realce, vem da Grécia. São vielas intrincadas, ramificadas da língua, que formam as partes do discurso ou, para o terror da garotada, integram as tais das classes de palavras.
Riobaldo, o sábio personagem de Guimarães Rosa espreita esta ordem de colocação e percebe: “muita coisa importante falta nome”.
Mesmo com a inventividade dos gregos, com o humor criativo do Veríssimo, com a versatilidade funcional engendrada pela grande imprensa, há ainda coisas que não fazem parte do discurso. Dentro do grande baú que guarda o nosso vocabulário, ainda há coisas sem identidade (atos, substâncias, fenômenos). A internet taí mesmo, carecendo de dizeres significativos.
Mas antes do mundo virtual, alguns aperreios já me consumiam. Por exemplo: ainda me bato com a ausência de uma palavra que signifique “pegar algo ou alguma coisa do chão”. Andei aí, de tocaia, assuntando. Vi que a gente recorre ao verbo ‘juntar’ (ou ajuntar). É só cair o pão (com a manteiga pra baixo, caso este incidente hipotético ocorra num cenário de classe econômica menos favorecida), que a mãe dá o carão e ordena “anda menino, ajunta, limpa no short e come. Pensa que é assim, é , do derruba!”
E assim por em adiante. Quando a gente quer pegar alguma coisa do chão, acode-se aos empréstimos dos significantes verbais ‘juntar’ ou ‘ajuntar’. Só que, nos dicionários que consultei, estes verbos são dados como expressões de união, de reunião, agrupamento. Não fazem nenhuma menção, não dizem nada sobre a urgência de recuperar o pão que cai com a manteiga para baixo (até que achei, na internet, algum coisa no sentido que a gente conhece, este mesmo de pegar do chão, mas é visto como um regionalismo português, coisa de padaria d’além mar).
Tempos modernos... ora, ora...Ora, pois pois... é hora de dar nomes às rosas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

crônica remix-alma não

Alma não tem cor (ou Axé, vovozinho do Triássico)

Neste ano tenho me batido com algumas provações. Meus ‘amigos se foram com pálidos sonhos e restos de amor’, a economia mundial submergiu às profundezas abissais das incertezas, meu computador bugueou umas quantas e dramáticas vezes, cortaram a minha água, minha pressão subiu, minhas esperanças declinaram...Vai-te! Tenho encarado umas pegadas que têm me dado uma canseira! Coisa pra Jonas, sabe aquele da baleia? Minha paciência, que por vezes me abandona (mas, graças ao bom pai sempre volta) tem sido o meu bastião de integridade. E haja paciência.
No meio deste turbilhão, me veio não sei de onde, a tranqüilidade para dar uma parada, para dar uma avaliada na vida. Fazer uma reflexão mais ou menos como fez aquele personagem do Vargas Llosa em Conversa na Catedral. Quis localizar no tempo, uma causa para estes reveses inesperados, superáveis, diga-se, mas complicadinhos de se varar, reconheço.
Aí vem logo aquela coisa, né, da personalidade. ‘Colhemos aquilo que semeamos’. Apresentam-se vaticínios e conformismo. Mas sou racional. Faço estas introspecções sempre com um olho no peixe e outro no gato. Prego uma realidade rés-ao-chão, sem muito floreado.
E eis que me vi como um sujeito normal. Moldado por incontáveis defeitos, umas raras qualidades, atento à boa vontade, crente nos princípios que consideram sempre a urgência e a onipresença dos conceitos de justiça e lealdade.
Valeu a varredura na alma porque descobri que, das coisas que de mim se aproveitam, o assentimento às diversidades se apresenta como um dos meus maiores créditos. Não tenho preconceito de io ou de chio. Principalmente de cor. Não tenho nada contra os brancos.
Mesmo porque além desta fachada que exibimos como um pacote composto de umas células algo versáteis, muita água e um sorriso cálcico, acho que nós, os seres humanos, nos adiantamos um pouquinho. Vamos à alma. E ‘alma não tem cor’.
Por outro lado, sei que muitos pensam que este pacote orgânico pode alterar as relações e admitem a superioridade de um indivíduo sobre o outro por causa da cor da pele. Lembro que somos ramos da mesma cepa.
Formamos uma comunidade de mamíferos que se caracteriza pela desenvoltura bipedal, pela presença do tele-encéfalo desenvolvido e pela sagacidade motora do polegar opositor. Mas somos, no frigir dos ovos, mamíferos. Ricos, pobres. Pretos, brancos. Mulheres, homens...Somos todos descendentes da ‘ânsia da vida por si mesma’ (eita frasezinha que me persegue, esta do Gibran, tão atual, tão profunda...Evolucionista...). Este sapiens que conhecemos, que inventou tudo o que tem de bom neste mundo, temperado pela alma (e pelo polegar opositor, observo), refinado pelo sopro da sabedoria, não é nada mais que uma variação temporal de um bichinho que lá na mais remota história da Terra, venceu o poderio desmedido dos dinossauros e se firmou como uma espécie extraordinariamente capaz de sobreviver e de gerar primos engalanados e metidões como nosostros. Somos um produto elaborado de um ratinho chamado Morganucodon, um nome pomposo, como requer a taxonomia, mas que aqui entre nós pode ser chamado simplesmente de ‘o ratinho do Triássico’, numa educada alusão a sua longevidade.
De lá, do alvorecer da vida, herdamos esta indispensável capacidade de lutar por cada dia, apesar das agressões naturais, dos répteis modernos, das provações (dessas que a gente experimenta num ano bissexto), do preconceito e da brutalidade de Domingos Jorge Velho. E ganhamos também, mais tarde, a confortante certeza elaborada pelo tele-encéfalo de que a alma não tem cor.
Axé.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

crônica remix -neide


Cadê a Neide Aparecida?
A Neide Aparecida era do tempo da Rural e do Aero-Willis. Do tempo do óleo Jaçanã e do pão e meio. A Neide Aparecida é da época de antigamente quando chamávamos band-aid de planticure e zíper de fecho-ecler. A moça era de um tempo em que o bairro do Sousa era longe pacas e que a gente falava “égua, tá ralado”, e ainda falava “é longe pacas”.
A Neide Aparecida, confesso, não me traz de volta nananina de sentimentos ingênuos ou infantis e olhe lá, olhe lá, muito pelo contrário, ainda hoje reino com a lembrança provocante da pequena de mini-saia atentando o Clementino pelos corredores do edifício Balança Mas não Cai na telinha em preto e branco daqueles anos distantes.
Enquanto a Neide serpenteava tentadora de espanador na mão pela alegria do Balança...a minha patota varava os quintais pródigos de cajueiros e do rasteiro camapu nas manhãs da Marquês com a Lomas, aquietava-se um pedacinho depois do almoço e mais com um pouco,  se danava a espalmar a mão sob o lodo esverdeado a cata do balulusca ou da colombiana no jogo de peteca da tarde. E à noitinha, se ajeitava pelas janelas de vizinhos para acompanhar as tesouras voadoras fantásticas do Ted Boy Marino, no telequete Montila.
A sedução de Neide se espraiava por um tempo em que os saqueiros ainda não haviam sido tragados pela reestruturação produtiva e os sacos de cimento usados garantiam o desenvolvimento sustentável. Um tempo em que a laranjinha era a da Gelar e o lacre era cortado com a ‘gilé’. Um tempo em que a gente pagava em dia  as prestações do carnê da R. Mendonça. Do tempo em que grassavam entre as mãos da molecada fortunas em carteiras de cigarro conquistadas no palmo resultante do choque de moedas contra a parede. E éramos todos ricos com o orgulho de, ao mesmo tempo, enriquecermos a base de foscas e populares notas de Gaivota ou de brilhantes e  laminadas notas do aristocrático Hilton ou Albany (aquele com filtro de carvão ativado).
Era assim: enquanto no talho do Manduca, na feira da Pedreira o quilo e meio de Pá só com o osso da peça era embrulhado nas folhas de guarumã, a Neide Aparecida despertava, precocemente, a libido imberbe dos meninos de família.
A personagem que a Neide Aparecida interpretava no “Balança...”, atazanava a vida do faxineiro Clementino. Era uma secretária boazuda, em trajes mínimos, que se insinuava para o pobre Clementino, que de bobo e desatento, não percebia o real interesse da moça. Esta lerdeza do faxineiro se reproduzia no bordão “xiiiiiii, como é boa esta secretária, ah se ela me desse bola”. Cai o pano e o Clementido passa batido como sempre: não traça ninguém.
E como era boa aquela secretária dos tempos pueris da Chulipa e do Kichute!
O Tutuca, que interpretava o incauto faxineiro, eu ainda o vejo zorrando, pelas esquetes do Zorra Total..., mas e a Neide, inspiração para as primeiras e maravilhosas sensações que se anunciavam a peso de muitos ‘arrupios’ e chiliquitos para mim e para os outros da patota. Mas e a Neide Aparecida. Cadê a Neide Aparecida?