domingo, 9 de maio de 2010

vestida de azul e branco

Vestida de azul e branco
Levando um sorriso franco pelos caminhos que iam dar no Instituto de Educação, Luzia encantava com os seus passos educados, o insubordinado seringueiro.
Pra frente que era, o homem do mato, mais velho e mais experiente, mas indiscretamente apaixonado, não resistia e acompanhava, com evidente interesse, o inocente caminhar da normalista de 16 anos rumo à Escola Normal.
No início da noite, enquanto as moças passeavam faceiras pela praça à beira do rio, ele juntava uns amigos, arrumava um violão e se declarava para Luzia cantando os versos de Nelson Gonçalves que tinham uma normalista como musa inspiradora.
Não conhecia limites, o coletor de látex, fazia e acontecia para chamar a atenção da jovem estudante. Aproximou-se da casa, conquistou os pais, os irmãos, superava-se em gentilezas para a família.
‘Mas a linda normalista não pode casar ainda, só depois que se formar’, alertava a poderosa voz de Nelson Gonçalves na canção. E ele esperou.
Nessa época, Luzia ainda não era a mamãe. Era uma estudante do curso normal querendo ser professora lá nas terras distantes do Xapuri e Manoel Sodré, atentado que só ele, ainda não era meu papai que tão pouco conheci, era um coração entregue, dominado, submetido aos caprichos da paixão.
O seringueiro, que de passagem se diga, era realmente um homem carismático, boa praça, fez porque fez que acabou ganhando a simpatia e o amor da doce normalista.
Casaram-se. E foi tudo direitinho, como manda o figurino. Com véu, grinalda, e lua de mel na capital do então território do Acre. Depois vieram os filhos...
Outro dia, coloquei o disco na vitrola, chamei os meus meninos e disse, olha aí, foi assim que a nossa história começou, com o Nelson Gonçalves fazendo a trilha sonora.

Luzia enviuvou aos 28 anos. Desde então, viveu apenas para as crias. Deu as costas para o mundo e dedicou a vida única e exclusivamente ao papel de mãe.
Neste ano de 2008, faz dez anos que Nelson Gonçalves nos deixou. Naquele dia, quando ouvi pelo rádio a notícia da morte do cantor, senti que os rastros deixados pela felicidade que um dia existiu, estavam por fim, se apagando. Pressenti que a linha frágil, mas benéfica, útil que ligava a história da cândida normalista lá do interior do Acre com a mãe dedicada prostrada, agora, num leito de hospital em Belém, estava, a partir daquele momento, se rompendo.
Naquele instante, peguei a mão de minha mãe (as mãos mais lindas do mundo), e pedi que ela cantasse aquela canção do Nelson. Por quê? - perguntou ela surpresa com aquela idéia absurda. Porque, mamãe, respondi pausadamente, porque quero guardar a tua voz aqui dentro do meu coração cantando a canção que um dia te fez feliz.
A minha mãe não cantou. O ar lhe faltava para articular as palavras (e tanto que ela gostava de cantar!). E eu também não lhe falei que o Nelson Gonçalves havia morrido.
Por aqueles dias (como hoje, véspera do Dia das Mães), eu quis fugir, me perder no mar sem fim e chorar escondido. Mas no14 de maio, dia do meu aniversário, tive que ser forte. Não escapei ao último encontro com a bela normalista que, certa vez, se apaixonou por um seringueiro bruto. Comemos o bolo de caixinha que a minha irmã fez e cantamos um parabéns austero, como num ritual de despedida, até que ao final da tarde a luz que vestia de azul e branco o olhar da minha amada mãe foi se apagando...
No dia seguinte, o sorriso franco era apenas uma lembrança de uma canção ausente, e minha mãe, para o meu total desespero, descansava serena, para sempre em paz, em meus braços.

11 comentários:

  1. essa normalista... não te disse que vinha ver teu blog... falou... Parabéns! Ronaldo

    ResponderExcluir
  2. Gostei de ver o blog.
    Agora sim, com teus escritos percorrendo as veias da internet.

    ResponderExcluir
  3. Raimundo:
    Estou aqui, na fria e chuvosa Curitiba, lendo suas deliciosas crônicas há mais ou menos uns seis meses. Sou geólogo, amigo e colega de Afonso Gonçalves, que me passou o teu endereço.
    Tambem tenho um blog, o "urublues", onde falo algumas coisinhas de minha terra, uma fria e chuvosa cidade do litoral do paraná chamada Antonina. Vejo muita sintonia entre minha terra e o Parazão, o qual conheço infelizmente muito pouco. Suas cronicas completaram essa sensação, e saiba que sou teu fã e teu seguidor. vou colocar no meu blog o teu endereço pro povo aqui no sul te acompanhar tambem.
    um abraço
    Jefferson Picanço
    http://jd.picanco.zip.net/

    ResponderExcluir
  4. Caro Raimundo, pronto, sou um seguidor do seu blog. Parabéns pela iniciativa, esperamos que vc sempre coloque matérias interessantes como sempre vc faz. Ha um detalhe, não esqueça de seguir o meu ok?
    www.paulosantospa.blogspot.com

    abraços

    ResponderExcluir
  5. meu cumpadi Sodré, já estou aqui cheio de enxerimento e pavulagem pra vosmicê ir lá no meu quantinho trocar dois dedos de prosa.
    se sabe que se pegar no zóio cega,lembra disso...rss?
    O Gaya lembra...
    já tá linkado!!!

    ResponderExcluir
  6. A normalista lembra as saias frisadas do IEP...rss
    abs

    ResponderExcluir
  7. PARABÉNS, Raimundo! Excelentes dotes de escriba. Um grande abraço aqui do sudoeste paranaense.
    Aguardo também a sua visita ao meu blogue humílimo.

    ResponderExcluir
  8. Texto maravilhoso. Me emocionei. Me tocou fundo. Parabéns e obrigada, Raimundo.

    ResponderExcluir
  9. Lindo de viver! samanta

    ResponderExcluir