quarta-feira, 19 de maio de 2010

eternidade


Traduzir-se
Não é de hoje que a gente se bate com a história de que o mundo vai acabar. O medo do fim é antigo.
Eu por mim, não acredito no pluft e nem no bang definitivo. Mesmo porque, tenho a plena consciência da eternidade. Tenho certeza de que o tempo, do jeito que se realiza para a gente, é inesgotável.
Não acredito no fim do mundo, também, porque sempre confiei muito na minha mãe. E ela, quanto a isso, sempre nos tranquilizou. Dizia que era pra gente esquecer aquela ideia de fogo, de estrondos destruidores, de movimentos desordenados de nuvens baixas e escuridão. Considerava que tudo aquilo era até possível, mas de jeito e maneira, era próximo. Em seus momentos de admirável racionalidade nos confirmava que “o mundo não se acaba. Quem se acaba é a gente”. Minha mãe Luzia, em instantes de profunda inspiração nos alertava que os passageiros nesta nave vestida de água e de céu azul, somos nós. O resto, tudo, continua pelas eras e eras além.
Mais tarde, entendendo a mensagem dos fósseis; reconstruindo, pela ciência, a história de seres primitivos, me certifiquei da fugacidade da vida. Reconheci que desde a formação da Terra, muitos hóspedes passaram por aqui e por um probleminha de adaptação cá, ou uma catastrofezinha acolá, ó, desapareceram para sempre do planeta porque, como assegurou o García Márquez num traço Darwinista agregado ao seu belo romance, “as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra”.
Hoje se fala muito que o homem vai destruir o planeta e tal e coisa e coisa e loisa. Mas quando, já! Vai acabar é com ele mesmo. A Terra já é passada na casca do alho. Já esteve metida em poucas e boas. Quentura total. Frio total. Continente indo. Continente vindo. Um vulcãozinho barulhando aqui, um meteorito chamuscando acolá. Amebinhas reinaram pávulas por aqui. Samambaias jactaram-se soberanas pelas encostas. Dinossauros dominaram o céu e a terra. Quando tudo foi se ajeitando, favorecendo, um bípede todo metidão surgiu das savanas africanas, poliu umas pedrinhas, ganhou umas proteínas e dizque, começou a pensar. Olha no que deu. Pensou tanto que pirou.
Se a gente for fazer a conta direitinho, este homem moderno que consegue realizar tarefas elaboradas e utilizar o fogo, apareceu um dia desses na face da Terra (aqueles filmes que mostram homens lutando contra mal-humorados dinossauros não dizem uma verdadezinha sequer. O homem não conviveu com os grandes répteis). Usando um método criado pelo astrônomo Carl Sagan, a gente pode comparar todo o tempo de existência da terra, com o período de um ano. Seguindo este caminho a gente vê que a Terra seria formada em janeiro; a vida profusa e ansiosa, aconteceria somente em meados de novembro; os dinossauros seriam extintos logo depois do Natal e o homem só daria as caras nas últimas horas do dia 31 de dezembro.
Dá pra gente perceber que na quase totalidade da existência, a vida não vingou na Terra. A gente nota também que foi um trabalhão pra Terra se preparar para receber o homem (fez várias experiências de vida). Este tempo inimaginável entre o surgimento da terra e o aparecimento do homem é o que eu chamo de eternidade. E se ela existe antes do homem, mesmo que o homem desapareça (numa extinção que fazemos questão de, desavergonhadamente, providenciar) a eternidade vai estar bem postada conduzindo outras experiências no planeta. Até que um dia vai voltar tudo de novo: samambaia, amebinha. Frio total. Quentura total e pluft, fim. Mas podemos ficar tranquilos. Como dizia a minha mãe, não vamos ter que passar por isso.

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