sábado, 15 de setembro de 2018

crônica da semana - pingo do i


Pingo do i
Mamãe é que falava assim quando eu me mostrava traquina, atentado que só, mas um pingo de gente. Menor. Bem menor que as outras crianças que dividiam uma caixa de sabão comigo, fazendo de conta que aquela armação em madeira era o jipe do tio Rui ganhando os estirões que cortavam os seringais do Acre.
Não falava por mal, mamãe. Ao contrário. Havia carinho, afeto, quando deixava escapar. Tinha, codificados naquelas palavras, minha mãe, um compromisso, um zelo. Reconhecia o zinho que eu era, percebia meu futuro e firmava proteção, elaborava orientações e defesas.
Mais tarde, quando fui estudar na Aparecida, já nesta Belém que nos acolheu, ante a cisma da molecada ao me perguntarem por que eu era tão pequenininho, dava a resposta ensaiada, por anos, com a mamãe: “porque Deus quis”. E fim de papo.
Antes que se multiplicassem esses espelhos grandes nas colunas dos shoppings e dos magazines; ou antes que as fachadas espelhadas, dessas que a gente se vê e se compara com outras pessoas em atitudes espairecidas virassem arte da arquitetura urbana, eu nem percebia que era tão baixola, tão pingo do i. Agora, já na batida da campa é que de repente, comparo as escalas. Estes traçados modernos me dão noção de estatura que eu nem maldava. Porque a gente, os nossos olhos são para o mundo, e não para a gente mesmo. Não me percebia e isso nem me interessava. Cuidei sempre para me expressar em ser pra fora. Para o mundo. Um ser útil, sem moldura de madeira, feito a menção de jipe do tio Rui, tamanho ela que fosse.
Encaro os espelhos da cidade na boa e agora, ora veja, vou me comparando. Como proteção, sou obrigado a olhar pra dentro de mim, o que raramente faço, e em outras épocas nem atinava, pois via nisso sinal de presunção.
Para fora de mim, pelo comum, é que as visões me atraem. Descubro gentes. Traços únicos nas pessoas. Formulo impressões. Guardo e gravo desvios, cacoetes, simulações. Cinismos. Reconheço, como reconhecia em mamãe, carinho e afetos. Para o bem ou para o mal, meus olhos preferem medir o mundo sem pingos nos is como referência. Prefiro as notas absolutas de personalidade e caráter assim, mirando de palmo em cima.
Mas quando me vejo estimulado a olhar pra dentro de mim, não titubeio em reconhecer a minha grandeza. Vôo nas altas altitudes.
Dia desses, fui abordado por uma pessoa com quem divido meus dias no trabalho. Não costumo confundir as coisas. Na fábrica sou peão. Na lagoa, de cócoras com os sapos. Aí, por um motivo qualquer, foi mencionada a minha condição de escritor. Sem disfarçar, meu interlocutor vilipendiou, fez pouco caso, caçoou do fato d’eu, um peão de fábrica, escrever no jornal, crônicas que, segundo ele, ninguém que conheça lê. Ameaçou fazer a bacanagem de comprar o jornal no sábado desde que eu dedicasse umas linhas a ele. Como meus olhos miram o externo, o lado de fora, havia uma possibilidade. Mas no meio do caminho, resolvi falar do baixolinha aqui. Optei voltar meus olhos para a minha história, para o interior da minha alma e medir-lhes a envergadura. Não vou falar dele não. Decidi ser presunçoso.

sábado, 8 de setembro de 2018

crônica da semana- Museu Nacional


Passeio completo
O Rio de Janeiro continua lindo. Quem viaja pra lá, já vai todo na combina de conhecer os encantos da cidade maravilhosa. O visitante fica tão encegueirado pelas fartas paisagens e fantasias que não percebe detalhes ao rés do chão. Passa batido na rica história das almas e do solo onde pisa. Uma temporada no Rio é, pelo comum, montada sobre um oba-oba clássico e plenamente justificado.
Aconteceu comigo da primeira vez que fui pra lá.
Até o momento em que fui estimulado a variar. Um casal muito simpático se aproximou do nosso grupo, na Cinelândia, atraído pela camisa do Paysandu que eu estava usando. Gentis, puxaram conversa e falaram de uma temporada que passaram em Belém. Depois das trocas de gentilezas e empatias (o Paysandu), nos convidaram para dois passeios fora do script. Um era para o Centro de Tradições Nordestinas; o outro foi para conhecer o Museu Nacional. Marcamos para a noite o forró em São Cristóvão e o Museu para o dia seguinte. Ninguém escapa impune a uma buchada de bode. Daí que afrontados, no outro dia, ficamos devendo o Museu.
Aí, passou, passou, e numa outra oportunidade, fuçamos promoções de passagens, o tempo era bom pra pobre viajar, podíamos levar mala grande. Fomos bater no Rio de novo. Demos a forra. Fizemos tudo diferente. A única agenda que permaneceu a mesma foi a da Lapa. O resto foi tudo novidade. Conhecemos a outra face do Rio de Janeiro. Um dia muito especial se deu na visita aos vários museus da cidade. Foi quando conhecemos o Museu Nacional.
Já éramos apresentados assim, de longe, eu e o Museu. Durante o 45º Congresso Brasileiro de Geologia realizado em Belém, no ano de 2010, era presença constante no estande da instituição. Na oportunidade, ganhei um souvenir representando o maior meteorito encontrado no Brasil, o Bendegó, que foi resgatado por D. Pedro II e fazia parte do acervo de Ciências Naturais.
Minha linha de interesse se deu por aí. Dessa vez, quando fui ao Rio, não furei o script, procurei o Museu por causa do meteorito.
Mas o Museu era muito mais. Um ambiente fascinante, de incontáveis saberes. Durante a minha permanência lá, percebi que o Museu recebia muitos estudantes das escolas públicas para visitas monitoradas.
Encontrei com uma turma na sala dos dinossauros. Era indisfarçável o encanto da meninada ao se deparar com os fósseis gigantes. O instrutor, numa sacada genial, reservou uma surpresa. Após apresentar as espécies montadas à nossa frente, pediu que fechássemos os olhos e erguêssemos a cabeça. Quando mandou abrir, nos vimos sendo observados por um enorme Pterodáctilo (o esqueleto do réptil voador estava montado no teto). Um dos garotos exclamou: “puxa vida! Por que não vi isso antiins” (e tento, na escrita, reproduzir a fonética nervosa e ao mesmo tempo deslumbrada do garoto. Porque é assim que o prazer do conhecimento se realiza na gente. Chacoalhando a alma, subvertendo os sons ordinários, transcendendo a monotonia vil do obscurantismo. E faço uso dela, desta fonética nervosa, também, para expressar tristeza e indignação: por que não cuidamos do Museu Nacional antiins!


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

crônica da semana - refugiados


Refugiados
Raimundinho veio do Xapuri, desceu no Ver-o-Peso e foi morar na Pedreira, com a família.
O casal Charlote e Thomas desembarcou ainda no oceano. A mais de duzentos quilômetros da costa. Achavam que estariam mais perto oriente, para recordar a terra natal. Viveriam a vida toda de saudades.
Ernest, Astrid, Edwiges, Andrews e a turma do baralho, nas noites eternas da viagem, apostaram na península. Acordaram as crianças, vestiram-nas com linhos finos e desceram para aquela ponta de terra com os olhos vidrados de sono e com a boca seca. Logo nos primeiros passos, além do banco de areia, achariam água doce para aliviar-lhes a sede.
Os rapazes Thog e Mendelson, juntaram-se a multidão que ficou no estuário. Equilibravam-se no trapiche, na hora do desembarque, revezando os cuidados com a bagagem e a pequenina Diva, uma cachorrinha doce de barbicha acutilada e branca. Quando pisaram em terra, deram-se as mãos, beijaram-se e deixaram a Pincher explorar os entornos do futuro.
Raimundinho sentiu o vento, consultou o coração e foi morar na Pedreira com a família.
Muitos seguiram em frente. Subiram o rio em busca de ouro, prata, balata, terra boa e roxa; uma temperatura mais branda, látex, ervas e baunilha. O verde da floresta, o infinito das águas e céus. Cruzaram tratados e subverteram ordens.
Hannah, Heidi, Herman, Oliver e Dylan ainda dançam no convés. Dia e noite sem parar. Trazem a alegria impregnada nos corpos vermelhos de tanto sol e nas mentes crivadas de generosidade. Formam uma irmandade, uma rede de recepção, de acolhimento. Sobem e descem o rio em todos os sonhos, em todas as vontades, em todos os transes. Embalam de cantos e danças a aventura de viver. De meando em meandro. De meandro em meandro.
Benedito, Chaves, Juan, Aloch, joiel, Brandt e ainda Ketô formam o grupo místico que se lançou às montanhas. Lá onde nenhum navio, nenhum barco ou canoa simples consegue chegar. É um lugar alto e frio, que transforma o grande rio num filete de água cristalina. Lá de cima miram vales, serpenteio de canais, aves baixas, verdes densos. Divisam limites e barreiras impostas pelos costumes humanos. Percebem sons secos, vapores ancestrais, pontes de recomeços. Há chance. Uma remota chance, logo abaixo do céu.
Lá de cima o que se vê é que o espaço não é marcado, não tem divisórias, nem trancas à chave, nem arames pontiagudos, nem políticas excludentes.
O que se avista lá embaixo mesmo são conceitos impostos pelos assustadores costumes humanos.
Alguns preferiram as ilhas vulcânicas por causa da sensação de proximidade com a pátria amada. Outros deram com a península e reinventaram a história. Uma multidão aventurou-se pelas margens, em busca de riquezas. Um grupo, além de qualquer compreensão, dança, por séculos, animando sonhos. Das montanhas, a transcendência e a miragem nos alertam dos falsos caminhos e das fraquezas humanas. E admitem milagres (uma remota chance).
De meandro em meandro, uma ponte de recomeços, um quê de generosidade.
Raimundinho veio do Acre, desceu no Ver-o-Peso e foi morar na Pedreira, com a família.
Éramos todos refugiados.


sábado, 25 de agosto de 2018

crônica da semana - teima


Teima
O Luís Fernando Veríssimo é um cronista aquilatado. Tem um texto valioso. Leio Veríssimo desde que era bebê, em Rondônia. Desde a explosão que foi “O Analista de Bagé” ou o vendaval que se tornou a publicação de “Ed Morte”. Sou fã do cara desde aqueles tempos em que a gente conseguia as publicações dele somente pelo Círculo do Livro. Edições capa dura, bem produzidas e que demoravam quase dois meses pra chegar, via correio. Por essas e por outras acho que temos certas intimidades. Certas empatias. Disse isso pra ele, em uma das edições da Feira do Livro, ainda no Centur.
O que se torna e o que se deixa é que acabei de ler mais uma coletânea do Veríssimo e me vi de novo, alinhado com os mesmos sentimentos, as mesmas manias e as mesmas teimas em uma crônica em que o criador da “velhinha de Taubaté” impinima com a passagem do milênio. Teimo do mesmo jeito.
Em 1999, me emboletava em ferozes e intermináveis discussões sobre a virada do milênio. Lembrando: Houve uma manipulação que nos enfiou goela abaixo que o século 21 começaria no dia primeiro de janeiro de 2000. A minha tese e a do meu cronista preferido considera que o terceiro milênio começou de vera, no dia primeiro de janeiro de 2001. E haja teima. A grande mídia, a Onu, a astrologia e até o mundo binário da computação embarcaram na onda. Inventaram o tal do “bug do milênio” que viria ser a besta apocalíptica da troca de algarismos na virada do século. Não sei o argumento do Veríssimo para validar a tese, mas a minha vem lá da quinta série. Minha professora de História, no primeiro ano do ginásio, demarcou a contagem do tempo considerando o ano 1 da era cristã. Então o primeiro milênio foi do ano 1 ao ano 1000, aqueles anos marcados pelas trevas medievais. O segundo milênio, obviamente percorreria do ano 1001 ao ano 2000, ora bolas. Em 2001, sim, é que começaria o terceiro milênio. Estava lá no meu livro TDH (Trabalho Dirigido de História, que a gente recebia do governo). Sei que tantas foram as lambanças e as firulas que mesmo o mundo virtual provou ser sem sentido os medos. Nenhum computador pirou. Uns ajustes na data e hora no canto da tela do computador, dessas que faço todo dia porque meu PC tá meio cansado, redimiu toda a humanidade das fakes apreensões.
Outra teima que me faz encrencar com o cristão que for é aquela do “que dia é hoje?”. Alguém sempre vem todo metidão dizendo que “hoje são 25 de agosto”. Para mim, esta resposta é um atentado sonoro. Um acinte ruidoso. Uma descompressão fonética violentíssima, capaz de fazer saltar do coco da gente os tímpanos e a paciência. Dizem os entendidos que esta forma é certa. Morro sob tortura afirmando que o verbo é no singular: “hoje é 25 de agosto”. Ávido, recorro aos compêndios gramaticais ortodoxos. Oportunamente, me agarro à elipse, figura de linguagem que me socorre.
Nos encontramos nas teimas eu e Veríssimo. Às vezes, preciosismos literários. Na vida real, as questões são mais substanciosas. Idéias e ações podem apagar o mundo. O risco de nos quedarmos à escuridão nos inspira à teima renhida. Sem medo de ser feliz.

domingo, 19 de agosto de 2018

crônica remix- o rio do meu lugar


O rio do meu lugar
Belém é uma cidade entregue às águas. Castelo Branco quando varou aqui pensou num lugar estratégico para a ocupação da região (aliás, o que os portugueses sabiam fazer bem era ocupar pontos estratégicos. Muito depois de Castelo - e por um bom tempo- as nossas esquinas seriam testemunhas desta virtude. O cheirinho do pão quente, Três’orinha da tarde, denunciou sempre a presença prazerosa, bem a calhar, de um lusitano).
Mas não fez só isso. O fundador da Feliz Lusitânia nos legou uma paisagem líquida, volumosa, dinâmica: a orla de Belém. Esta aqui que obedece a linha que vai do Ver-o-Peso até, mais ou menos, Icoaraci, Mosqueiro. Tem uma direção Norte-Sul (depois, ela dá uma cambada para Leste e aí já toma ares de costa atlântica) e é responsável pelo nosso orgulho, pela nossa soberba.
A frente de Belém é composta pela somatória das águas do rio Guamá e rio Acará. O rio Guamá vem-que-vem, desde Ourém onde a água é mais clarinha e veloz (tem até cachoeira!). É um rio subversivo: corre de Leste para Oeste. Vem ao contrário, da beirada, para o centro.
Já o Acará, é um rio mais doméstico, mais nosso, mais íntimo. Vem do centro, para a beira. Traz o dialeto ribeirinho em si. Vem carreando notícias dos matapis. Vem prevenindo para o banho no balneário (trouxeste short?). Mas como, então? É o rio que traz as memórias de minha querida tia Irá.
Na frente de Belém, os dois rios se juntam e formam o que, popularmente, chamamos de baía do Guajará. Na verdade, um deslumbrante estuário. Ocorrem, aqui, de confronte, as grandes ondas, a alegria da enchente e a monotonia da vazante, a ventania verpertina, o pôr-do-sol dos amantes, as domingueiras festivas nos pontais.
Mais adiante, à altura de Icoaraci, e já de par com o aconchego da ilha de Cotijuba, o estuário se agiganta com o acréscimo das águas do rio Pará.
Este rio extraordinariamente grande desliza soberano pela planície. Prestativo, generoso, obsequioso. Leva e traz sonhos, ilusões, frustrações (além da conveniente aviação e miudezas em geral). Aquece e abranda saudades, no ir e vir dos “Fé em Deus”.  É o rio da integração guajarina-marajoara. Por ele, se chega a Macapá sem precisar voltear a costa. Por ele, se cruza de um mundo (de água) a outro, pelo emaranhado controverso, inexplicável de furos do baixio amazônico. Por ele, ah, por ele, se chega à praia do Pesqueiro e à Ponta de Pedras. Por ele a alma se enaltece nos segredos e mistérios da travessia.
O rio Pará tem rumo certo: o mar.
Corre de Oeste para Leste. Nasce não sei donde (aliás, nem parece que nasce. O rio Pará, simplesmente é.), mas é abnegado, decidido. Diz logo para que veio.
Quando se ajeita, lado-a-lado, com o Tocantins, o rio Pará se eleva à baía. Baía do Marajó (aquela de banzeiros e sacolejos de dar entojos e  arrupios).
E vai derramando suas águas sobre os tributários mais modestos, mais melindrosos, mais finos. Quando o rio Pará quebra para Leste e ganha o status de baía, não tem pra ninguém. Nem para o Guamá, nem para o Acará. Só dá ele.
Daí, Belém, Outeiro, Mosqueiro, também recebem a águas arrogantes, rigorosas do rio Pará. O rio, aqui na quebrada, no respeitoso estuário, vira um componente absolutista, inquestionável. E exige respeito (quem se atreve a atravessar a baía do Marajó sem pedir permissão?).
Um rio soberano, inquestionável, infelizmente, somente para as leis da natureza. Para a lei dos homens, um rio frágil.
No último final de semana, quis dar um mergulho na praia da vila do Conde, que é banhada pelo rio Pará. Mas não deu. Tive medo de sair de lá cheio de pira.

sábado, 18 de agosto de 2018

Crônica da semana - bolsa


Com bolsa e sem bolsa
Vontade que todo mundo tinha, era ter uma bolsa, na minha época de Escola Técnica. Penei que só para ganhar uma. Eu que era precisado pacas, dei graças ao bom pai quando recebi o benefício no último semestre do curso.
Sempre trabalhei por conta e tentava não depender desses vínculos formais. Em todo período da Escola Técnica, segurei as pontas aviando as finas confecções em fio-de-escócia, na barraca que a mamãe tinha na feira da Pedreira (em frente ao Bazar Brasil, como anunciava o reclame da rádio cipó). Era um ganho pouco e incerto, o da feira. Um dia tinha, outro não. Aqui, não vendia nada, mais adiante bamburrava. Uma grana curta, mas certa, vinha a calhar.
O numerário da bolsa, porém, se mostrou picado. Parte vinha do MEC e outra parte resultava de recursos próprios da Escola (não sei donde vinha não, mas esse era o mais certo. O dindim do MEC atrasava que só).
Continuei na feira. Ia abrir e fechar a barraca todos os dias e minhas irmãs aguentavam  o expediente que durasse minha bolsa. Chegava à Escola pelas oito da manhã. Fazia as tarefas, elaborava trabalhos, participava das aulas de Educação Física, com o Serginho, e me mandava pra Pedreira. Fechava a barraca, voltava para as aulas da tarde, na Escola e comia por lá (nessa época tinha sido criada a ‘merenda’ na Escola Técnica, e era a minha valência. Como bolsista, podia fazer as três refeições oferecidas no dia). Voltava pra casa só de noitinha.
Com o meu primeiro pagamento, tirei uma estante no crediário de uma loja tradicional aqui da cidade que, olha só, até hoje ainda resiste às pressões das grandes redes do ramo. Produzia trabalhos na escola. Mapas, artigos. Lia mina de ‘apostilhas’ (sim, até dia desses eu falava ‘apostilha’). Começava a minha coleção de rochas e minerais. Não tinha lugar pra guardar meus tereréns. A estante veio para satisfazer esta necessidade.
A grana da bolsa era uma grana disputada. Outros interessados reivindicavam este recurso federal. Então era uma ação de governo, como hoje, minada, atacada para não resistir. Listada para acabar. E como salientei, a estratégia era fragilizar esta ferramenta de ajuda ao estudante. A falha no pagamento que vinha do MEC quebrava nosso orçamento e tirava a credibilidade do benefício.
Os atrasos foram tantos, que quando viajei para o meu primeiro emprego depois de formado, devia umas quantas prestações da estante. Só deu pra pagar a entrada. As outras parcelas ficaram penduradas nos pregos do caminho, junto com os cheques do MEC que nunca chegavam.
Sem esperança de receber, a loja mandou buscar a estante de volta. Mamãe ficou num desespero só. A estante era meu maior bem e uma peça que lembrava o filho, agora morando longe, nos sertões da Amazônia. Quando os carregadores colocaram a estante no caminhão, para devolução, mamãe subiu junto e foi bater na loja com o gerente. Na chegada, nem descarregaram o móvel. Mamãe chorou, virou, mexeu, convenceu e voltou pra casa com a estante. O meu primeiro salário como Técnico em Mineração, enviado de Rondônia, pelo banco, como ordem de pagamento, quitou a dívida.

sábado, 11 de agosto de 2018

crônica da semana - tirolesa


A Tirolesa e a sexta treze
A única coisa que eu pensava naquele instante letárgico em que o instrutor me atava ao cinto de segurança e este às roldanas sobre o cabo de aço, era que aquela, caprichosa e ironicamente, era uma sexta-feira treze. Além, postada sobre o mirante e protegida da imensidão do canyon por uma mureta compacta de madeira, minha mulher atiçava, dava a maior corda, sugeria que eu soltasse as mãos quando estivesse no meio do trajeto. Ela estaria ali para filmar tudo. Um pensamento rápido buscou em tempos recentes, alguma conversa que tivemos sobre seguro de vida, pecúlio medido e aferido, ou outras prevenções para o incerto futuro. Nada fluiu da memória, e, claro que não se tratava de sutilezas vis ou pés de cá t’espera regados para brotarem mais acolá. Ela só queria mesmo era documentar a aventura. Sem ligar para o treze da sexta, bem mais animada que eu estava. Tanto que som de euforia que se ouviu na hora que o instrutor me largou ao abismo, foi emitido por ela. Iurhuuuu! Eu, em silêncio mergulhei no vazio, e em silêncio boiei lá do outro lado. Tomado por indisfarçável azuorotismo. Teso e pálido.
Não sou dessas artes não. Tenho contadas nos dedos as vezes que me aventurei em brinquedos de parque de diversões. A minha ousadia maior se perde no tempo e em lances ralinhos. Tem aquela em um parque montado lá do outro lado da Mauriti, de confronte à sede da Embaixada de Samba Império Pedreirense. A molecada da rua atravessava as três pistas da Pedro Miranda e ia bater lá. Arrumava uns trocados e se aventurava no dang. E na versão radical. Íamos sempre em dupla. O de trás segurava a cadeirinha do que estava na frente, e quando o conjunto ganhava velocidade, o moleque que estava na frente era empurrado, com  toda a força para além da trajetória prevista para o brinquedo. Isso aumentava e muito o raio de deslocamento e a inclinação da cadeirinha. Maior adrenalina! Depois a gente trocava. O dono do parque ficava pê da vida, dava bronca, falava que a gente ainda ia se esborrachar no chão, mas sempre se acalmava e abria a guarda, afinal, era uma grana certa que entrava todo dia. A gente vendia garrafas, peças e fios de cobre, bacias velhas; fazia carretos, mandados, levava e trazia recados, varria o salão do Cine Paraíso, arranjava uma pelada com a turma da Marquês valendo uma ponta, se batia e se virava pra arrumar o numerário, só para estourar tudo no dang, nas primeiras rodadas da noite.
Outra peripécia que eu me lembre, foi na única roda gigante que andei na vida. Uma roda doce. Pequenina. De bebê. Era no Arraial Flor do Maracujá, festa junina que acontece, no mais graduado estilo, em Porto Velho. Fomos eu e minha priminha de lá. Noite fria de junho, um estranhamento, sei lá, mal’impressão. E não é que faltou energia e ficamos presos lá no cocuruto da bicha. Descemos graças ao acionamento manual. E pra nunca mais subir de novo.
Quando o rapaz me soltou no desfiladeiro, segurei a corda com toda força que tinha. Ouvi um grito ao longe: Iurhuuuu! E a sugestão para largar a mão. Larguei nada. Era sexta treze.