sábado, 18 de março de 2017

crônica da semana - 5S

Cada qual com o seu cada qual
De tantas disparatadas passagens narradas no romance “Cem anos de solidão”, o momento em que a aldeia é submetida ao mal da insônia é aquele que dou reparo especial.
A doença começa pela falta de sono e evolui para o esquecimento. A memória dos habitantes vai definhando, desaparecendo.
A população reage de uma maneira bem prática. Primeiro, escrevendo o nome do objeto. Depois, eles passam também a descrever para que serve aquele objeto. A seguir, ainda somam a origem, modo de fabricação, quantidades existentes, et cetera. É nesta parte da história que dou reparo especial, porque relaciono esta prática de etiquetagem e a um programa que conheci aí, nas minhas lidas de operário.
O programa se chama 5S, porque é formado por cinco palavras em japonês que começam com a letra “s”. Trata-se de uma técnica criada no Japão, que reúne algumas disciplinas com a finalidade de, obviamente como estamos falando do mundo dos negócios, aumentar os lucros. É baseado na otimização de tempo, valorização de equipamentos, limpeza e racionalidade nas ações. Nas empresas é ferramenta exigida como meta dos trabalhadores e tratada como profissão de fé.
A gente que está neste meio, se adapta a este novo trato. E, naturalmente, importa para casa algumas das práticas. Um “s” que batalho para que a gente faça uso em casa, é o segundo, que em japonês se conhece por ‘seiton’ e que significa ordem, organização. É aquele senso que prega que cada coisa tem que estar no seu devido lugar. Quando venho com esta conversa aqui em casa, a galera cai de pau. Diz que o trabalho tá me pondo doido, que isso aqui não é empresa e que coisa e loisa e mariposa. Desisto. Mas quando passo meia hora pra achar a chave do portão ou quando vasculho mundos e fundos atrás do maldito carregador de celular, volto à carga. Me animo na luta. Não significa sucumbir a todas as vilanias do capitalismo a gente admitir que, ter um lugar certo para guardar as coisas, e na hora que precisar ter sempre o que necessita à mão, pode ser até uma conduta que elimina muito estresse. Tenho aqui um texto impresso que se eu soubesse por onde diabos de piriricas de buraco soquei meus óculos, citaria uma pesquisa interessante sobre o caso. Mas não sei por onde andam meus olhos. Fica pra próxima.
Não vamos ao extremo também. Este mesmo “s” inspira ações como a de José Arcádio Buendía nos disparates comuns encontrados em “Cem anos de solidão”. Se não domarmos o senso, vamos sair etiquetando tudo em quanto. Nem tanto, né.
Perco a batalha em casa, pela implantação do 5S, quando o tema é ‘seiri’, o primeiro “s” (hã hã, por isso não comecei por ele). É aquele que determina que a gente só pode guardar, ou ter perto, aquilo que é útil e necessário. Neste aspecto sou indisciplinado pacas. Tenho coisas do arco da velha e que precisariam de etiqueta para lhes dar finalidade, porque nem para que servem, sei mais. Mas não jogo fora nunca. Minha mulher fica na ira para aplicar este “s” em mim, de com força, mas aí digo que aqui não é uma empresa e que não vamos pirar por causa dessas invencionices dos japoneses.
 

sábado, 11 de março de 2017

crônica da semana - o rato roendo

O rato roendo meu dedão do pé
Reza a lenda que, na biqueira de formular a teoria da Relatividade, e ainda envolto em dúvidas atrozes para definir um pensamento científico revolucionário, durante uma cochilada rápida, Einsten sentiu uma chamegamento no dedão do pé. Um roc roc até gostosinho, simpático, relaxante. Diz-se que, durante a soneca, um ratinho encantado veio roer-lhe as dúvidas e ao acordar, o cientista, já estava com a teoria consumada, batida e arrematada, no cocuruto.
Pode até ser uma invencionice, esta história do ratinho roendo o dedão do gênio, destarte, intenta um proseado curioso para ilustrar o momento único da criação. Mas tem um sentido. Este alheamento, este sumiço do físico e palpável, provocado pelo sono, certamente, dá espaço para a transcendência, para a abstração. O espírito voa em sonhos. E o ratinho vem nos inculcar decifrações, revelações.
Acho que todo mundo já passou por situações parecidas. Um trabalho urgente que não sai, mas que depois de uma horinha de sono, de repente se concretiza. Uma tarefa de escola complicada, que não se esclarece de jeito e maneira, e que, no dia seguinte, no abrir dos olhos, abre-se límpida e inquestionável no pensamento. Um encalacre doméstico sem solução, porque envolve vaidades, grana, posturas vãs, transformado em rio navegável, contornável, possível de ser negociado, após a calma de uma noite de sumiço geral, de apagão. Sabe o que é isso? O ratinho, aquele mesmo do físico alemão.
Este conhecimento, no entanto, é fugaz. Se não for trabalhado no mesmo instante, se a gente não anotar, se não houver registro seguro, impressão e certeza, arrisca fugir de novo. Cair no limbo. É o que acontece comigo quando escrevo, em sonho, meus escritinhos aqui na coluna.
O ratinho vem roer meu dedão, como sem falta, todo dia, na viagem para o trabalho.
É bem cedinho, o caminho é longo, o ônibus que nos leva oferece um certo conforto, recosto a cabeça na almofada da poltrona, fecho os olhos e o ratinho vem.Nem tão prodigioso como o do Einsten, mas marca sempre a presença. Do dia, é o meu período mais fértil. No relaxado do roc roc no dedão do pé, por vezes, elaboro uma crônica inteirinha, durante essa meia horinha de viagem. E toda arrumadinha, com recortes de humor, com pesquisa, uma pitada de lirismo. Justa e encorpada. Sem presunção, o melhor da minha criação literária surge nessa hora do ratinho.
Por vezes, faço duas crônicas, um poema e descrevo a paisagem que imagino estar passando ao largo (porque estou de olhos fechados na antecâmara do sono, do jeito que o ratinho gosta), tudo ao mesmo tempo, em ambientes textuais diferentes.
Este desenvolvimento, no entanto, é um lampejo. Assim que Einstein tornou daquele sono, foi ao bloquinho e rabiscou a essência da teoria, reza a lenda.
Não tenho o costume de andar por aí com um bloquinho de anotações e nem a memória guarda os recados que o roc roc abrandado do ratinho em meu dedão, me entrega. Tão logo o ônibus chega, me despeja à realidade do dia, e minha bota com biqueira de aço toca o chão, tudo se esvai em brumadas lembranças.
 

sábado, 4 de março de 2017

crônica da semana- pandegolândia

Meu reininho da Pandegolândia
Éraste! O pobre é ralado. Um ser adversativo. Sempre tem o feixe ‘mas, porém, contudo, entretanto, todavia’ compacto se emboletando na vida dele.
O camarada tem uma semana por acolá de estressante, no trabalho e nas artes? Tem. Tem um alívio quando tudo termina bem? Tem. Pra completar tem um feriadão de carnaval que não acaba mais? Ora, se tem. Mas não esqueçamos: o pobre é ralado. Na batida da campa da sexta-feira ele gripa.
E uma gripe estranha. No meu caso, que sou amamãezado, uma exposição repentina à umidade noturna, a mais doce brisa do terral, uma lufada de respingos da chuva da tarde, já me são o princípio do fim do mundo de coriza e febres por dentro altíssimas, avalie uma gripe estranha com dor de garganta e quebradeira no corpo. Como dizia minha mãe: “chama o carro, chama o carro, que o homi tá mal”.
O que torna é que minha patota ganhou o mundo no sábado gordo e eu fiquei sozinho em casa, dizque, me recuperando.
E até que me recuperei rápido. Na verdade eu estava era cansado pacas. Uma preguiça imensa. Vontade de dormir para sempre. Dei o desdobro para não viajar. A idade, Esse menino, a idade me cobrando quietudes.
Não estranho a solidão, mesmo que seja batendo de frente com a euforia do carnaval. Houve uma época, nos ermos das minerações por onde passei, que meu carnaval era acompanhando o Chacrinha (e em programas gravados). No frigir dos ovos, tô é bem na foto em Belém. Na cidade das mangueiras, na Pedreira, do samba e do amor, com intenções e possibilidades, ali, na biqueira de se concretizarem. Se quiser vou batucar por aí, arriscar uns passinhos atrás do Mangal dos Urubus, concentrar, Irrecuperável,  no Boiúna do Mário. Ver o Piratas passar ali na esquina. Vai de mim. Mas não vou.
A mim, me apraz curtir essa liberdade doméstica alcançada pela sedutora solidão. Ninguém pra concorrer comigo na Netflix. As toalhas dispostas à mão, na tentação de eu pegar qualquer uma sem que o dono me ralhe: “ei, essa toalha é minha!”. E eu peguei qualquer uma. Meu sonho! E peguei mesmo qualquer uma rá rá rá. Isso não tem preço. Carnes, verduras e legumes na geladeira e opto, sem remorsos, pelo macarrãozinho com ovo. Maravilha! Missão sagrada: a comida da gata, esta não pode falhar. Mas no resto, me entrego às leis que não regulam nadica de nada no meu reininho solitário da pandegolândia. A pia, por acolá de louça, e ainda falta água. Pai d’égua, um álibi.
Cerveja a dar na canela só pra mim. Mas de álcool, nadinha. A missão é recuperar. Um suco de acerola pra dar aquele reforço na vitamina C e anoitece.
Nem tinha dado ibope pro celular. Vou ao zap e vejo lá, fotos da família se divertindo. Lá pelas tantas, uma mensagem chega, perguntando se estou melhor. Gravo um áudio: Vou navegando.

No dia seguinte, todo mundo de volta. Reclamações sobre o lixo que não pus fora, sobre o computador que não desliguei, e porque não troquei de roupa. Tava sentindo falta disso. Tusso violentamente, espirro espirros vulcânicos. Caio prostrado. Peço que alguém me faça um chazinho. E sigo, navegando, curtindo uma febrinha por dentro.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

crônica da semana - maré estofa

A maré estofa e o que a gente perde por lá
Eu perdi na maré uma mina de coisas, um trancelim, algum fim, títulos e prosas não escritas. Como alento, aprendi na Universidade a achar artes e peças, a perder de novo. Aprendi.
Foi numa disciplina que me deu um trabalhinho. Na primeira tentativa, passei (com um errezinho, mas passei). Fiquei uns dois semestres passado. Até que fui informado que não poderia me matricular regularmente, porque o meu professor havia me despassado daquela mesma disciplina que eu  havia passado com R, alegando que eu não participara de uma viagem de campo. Já pensou o transtorno? Escapei de repetir a disciplina com um nome consagrado na pesquisa do petróleo. O horário não combinava. Outra vez, nem conheci o professor. Desisti no caminho da Universidade. Sei lá, me deu um banzo.  Fui me atrasando no curso. Voltei com o professor Werner Truckenbrodt, uma lenda, no curso de Geologia. Passei com B, sem precisar fazer viagem alguma. Depois do Werner, me animei. Tratei o curso com mais zelo. Sabia que não iria concluir, mas decidi que o que eu aprendesse dali pra frente, levaria comigo para a vida. Aprendi sobre a maré estofa e sobre este mundo silencioso que nos tira sonhos e coisas.
A maré é uma corrente. Corrente é algo que corre. Werner explicava a dinâmica das marés pra gente ali na sala e a minha cabeça fervilhava, pensando na baia do Guajará. É o que acontece todos os dias aqui na frente de Belém. A água correndo prum lado, tomando as margens, afogando furos, elevando até lá em cima o trapiche feito com o tronco do Miritizeiro. Depois correndo pro outro lado, desbarrancando dobras, trazendo as rasas de açaí, adiantando a viagem do Fé em Deus IV. A maré estofa é o instante certo entre a maré enchente e a vazante. A água vai subindo, até cobrir a pedra do peixe, no Veropa. De repente para de subir e começa a vazar. Entre encher e vazar, há um tempo de corrente parada.Tudo parado (não sei exatamente este tempo. Acho que faltei a esta aula do Werner). Mas é um tempo fundamental para acontecerem espetáculos naturais que impressionam e nos valem.
Se tudo para, aquela correria de água enchendo, para. Nesse momento, o que quer que esteja sendo arrastado pela energia da corrente, se aquieta, procura um canto pra se acomodar. O que é mais pesado vai procurar o fundo do rio, aquele que é mais levinho vai flutuar até descansar num barranquinho e formar um lamaçal fértil.
Hoje, depois de ter perdido o meu diploma universitário e de, ao mesmo tempo, ter achado sentido em outras artes, fico imaginando uma baía do Guajará silenciosa e profunda. Um mundo de água sem movimento, apenas animado por uma laminha flutuando em busca de sossego. Penso que é ali, no seio da maré estofa, que está um trancelim, algum fim, o título e a idéia de uma crônica que iria escrever hoje. Eis que quando abro o arquivo, dou com o título: “Três em um” e o resto da página em branco. Ali, num tempo de letargia, que eu nem sei quanto dura, e que de repente, desperta para a vazante, está uma história da qual, não lembro absolutamente nada.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

crônica da semana - hebreus 11

Hebreus 11
Ano passado, falei aqui sobre uma vontade antiga que eu tinha de viver a jornada diária de um trabalhador belemense. Isso porque, durante muito tempo, fiz jornadas especiais, em cidades distantes, com horários e períodos de labuta diferenciados dos moradores de Belém. Daí este meu desejo latente de ter uma rotina radicalmente urbana. O símbolo desta lida seria a minha inclusão na massa que se desloca às seis da tarde, do centro para a periferia, de preferência apanhando o ônibus naquele vuco-vuco de aperreio que é Presidente Vargas, neste horário. Sonho realizado. Tô completando um ano nesta lida.
De aprendizado, ganhei o entendimento, a dimensão mais justa, um reconhecimento nítido e confortável, do que é a fé.
Bem que poderia, mas não tem a ver com o vuco-vuco, com ônibus lotado e as freadas bruscas para arrumar a carga, queima de paradas, ou feéricos engarrafamentos. Essas coisas a gente contabiliza como sendo os óbvios custos de desejos (meio estranhos, por certo) realizados. Tem a ver, sim, com a natureza humana, com pessoas comuns, seres mundanos, indivíduos diários e suas carências.
A mais convincente definição de fé, me foi repassada por um pregador que entrou no ônibus, no meu caminho de volta pra casa. E, segundo o pregador, pode ser encontrada em Hebreus 11.
Já acostumei com essas intervenções, durante a viagem. Sempre pelo comum, protagonizadas por vendedores. Tenho até uma cota diária para atender a este comércio transitório. Um trocado, sempre reservo para o ‘cocríssimo’ e salgadinho, para os deliciosos bombons de chocolate, para o beijo-de-moça maciínho, para o livreto de colorir ou de caçar palavras. Raros são os dias que não chego com um desses produtos em casa. Às vezes, a oferta é múltipla, mas a grana é pouca. Leva quem entra primeiro no ônibus. Pregadores são menos frequentes, mas quando estão, fico atento.
Este que me alertou sobre a fé, teve um peso especial. Primeiro que foi comovente no testemunho, discreto na oratória e simpático no trato (nada de ameaçar com o fogo do inferno, mesmo porque com o calor que faz em Belém, far-se-ia redundante). E depois, porque tratou a fé no campo filosófico, humano. Cuidou do tema como qualquer um de nós que tivesse uma vontade, estranha que fosse (como a de pegar um ônibus em horário de pico), cuidaria. E deu o endereço: Hebreus 11.
Em casa, fui ao livro sagrado. A Bíblia revela que a fé é “a certeza daquilo que esperamos”. Esta afirmativa para mim é límpida, otimista, aprazível. Não abona ou indica religião nenhuma, sinaliza apenas que nossas vontades têm força e razão de ser. Firme!
Não comprei nada do pregador, mas me dei com ele. Passou por mim, dei-lhe o Real que guardara para um ‘cocríssimo’ que pintasse, e acrescentei meu sorriso conivente.
Nem tudo é confortável, porém. Ainda em Hebreus 11, há um complemento que diz ser a fé, “a prova daquilo que não vemos”. Diferente do verso anterior, esta afirmação não alude ao humanismo, nem ao horário de pico, nem às carências humanas. Neste caso, meu Real iria, com toda fé, para o cocríssimo, se cocríssimo houvesse.


sábado, 11 de fevereiro de 2017

crônica da semana - relógio patrasmente

O relógio que marca hora patrasmente.
Aprender a ver hora em relógio de ponteiro foi um dos maiores desafios da minha vida. Uma luta pra mamãe inculcar aos meus tico e teco a lógica daquele raciocínio. E era tão titânica a missão, que apesar de seu dulcíssimo ser, de sua infindável paciência de mãe, e de sua inquebrantável generosidade, de quando em vez, perdia a conta; “Esse menino é desorientado, só pode ser”. Mandava eu treinar e voltava n’outro dia, tentando inculcar de novo.
Não era fácil. Na hora cheia, até que ia. Ponteiro pequeno aqui, ali, acolá; ponteiro grande, no doze. Essa eu acertava de prima e mamãe criava uma esperançazinha. Quando era na hora quebrada é que a coisa desandava. Não acertava uma. A mais drástica das combinações era o quinze pras três. Eu nunca dava uma forra. Ia direto para as duas horas. Mamãe reinava em me dar uns transpescos nessa hora. Não dava, mas mandava uns elogios daqueles que dá vontade da gente se enterrar. Também, quem manda! Muita informação. Velocidade diferente dos ponteiros, enquanto um fica numa lerdeza de passar de dois para o três, o outro vai com mais de mil, ao encontro do doze. Era demais para mim.
E até que o sofrimento não era tão avassalador. Lutávamos dentro da população dos números inteiros. Quer ver quando passei uns dias na Espanha e vi que lá eles contam no conjunto dos Racionais. Diz-se por lá: “Um quarto para as três”. Já pensou? É de baratinar total. Se no tempo da mamãe eu tivesse que me valer das frações próprias, das frações irredutíveis, das simplificações, tava era na roça.
Fui indo, fui vindo, recebendo um elogio aqui, inspirando um transpesco da mamãe ali. E não é que aprendi a parada! Virei craque. Quando os primeiros Casios digitais chegaram, não dei nem thum pr’eles. Continuei prestigiando os relógios de ponteiros. Usufruindo do charme, da precisão, e até de uma presunção em lidar com as horas no sistema sexagesimal. Firulando, até. Fazendo graça, usando a peça no braço esquerdo, com o pino pra frente; no braço direito, com pino pra trás. Trocando pulseira, trocando visor, trocando tudo. Fazendo a  conta e tirando de letra aquela, outrora, angustiante conversão que prega três ser quinze; seis ser trinta e o nove (o famigerado racional um quarto), ser quarenta e cinco.
O aprendizado da hora nos relógios de ponteiros, além de nos conectar ao tempo e às urgências da vida, nos orienta e nos propõe um sentido universal, aquele que mede a eficiência até na mexida do mingau: se não for no ‘sentido horário’, empola.
O que se dá é que, anos a fio dominando o caminho horário dos ponteiros, dias desses, tive que reiniciar no aprendizado. É que um relógio que ganhei do poeta Francisco Mendes, depois de uma semana operando no sentido e na precisão, do nada, começou a girar ao contrário. Cismou de contar o tempo para trás. Tipo relógio do Benjamin Button. Não desisti. Não se despreza presente dado de coração. Virei pino, reorientei a sintaxe de números e marcadores, refiz sentido de leitura. E ando, pra cima e pra baixo, charlando com o patrasmente do meu relógio de ponteiros.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

crônica da semana- Ipê

O conto do Ipê
O Ipê é árvore das mais bonitas. Copa ordenada, colorida. Tronco estiradão. Trata-se, sem um isso de senão, de uma árvore pra lá de elegante. Mas não marque um encontro tendo como referência um frondoso Ipê, no auge da florada...
Não fosse o compromisso assumido lá atrás, no lugar do Pau Brasil, a árvore símbolo do Brasil seria o Ipê. Muitos defendem esta possibilidade. Eu embarco na onda. Nada mais brasileiro do que um Ipê amarelo se mostrando presunçoso sobre a mata verde.
Também o conheci por nome Pau d’arco. Um nome mais pra fazer frente ao outro pau, o Brasil. Penso até, afinado com a sua utilização como madeira de lei.
É belezura que se estende por todo o território brasileiro. Aqui, acolá a gente topa com um mais bonito que o outro. Ocorre em cores variadas.
Exibe-se nas alturas. Um pé pode atingir 30 metros além do chão. É lindo de se ver e de se imaginar.
Até um dia desses, eu imaginava que as folhas é que compunham a parte colorida do Ipê. O colorido vem das flores. A altura da copa, que dificulta o discernimento, pode ser uma explicação para esta pequena confusão.
Aconteceu comigo assim: embrenhado nas matas, atuei, por diversas vezes em campanhas de pesquisa. Era no brabo. No bruto. Floresta robusta, tudo igual. Chance alta de desorientar-se. Tínhamos que desenvolver mecanismos de navegação. Havia um grupo de profissionais especializado nesta arte. Reconheciam determinada área de helicóptero, aplicavam a técnica deles, lá, e depois disso, não erravam mais o caminho. Podia passar um século todinho, mas se possível fosse atender à demanda, eles iriam varar no local pretendido certinho. Pra gente, que ia por terra, a navegação era no charme mesmo. Havia momentos caríssimos para que a orientação fosse a mais precisa possível. A hora do almoço, por exemplo, era hora sagrada e ao mesmo tempo, tensa. Saíamos do acampamento cedo, com uma área enorme a explorar. Um dos membros da equipe recebia a missão de levar o nosso rango. Era um desafio. Ele ia no nosso rastro e quando rastro não havia, a gente descascava um tronco de árvore, lavrava um cambito e atravessa na casca do pau, indicando a direção; dispunha pedras uma atrás da outra, dando um rumo. Eu só sei que a gente ficava meio desesperançado de almoçar. Toda vez que a equipe aceitava uma missão, era assim ao largo imenso e incerto da floresta. Mas quando a gente dava fé, lá aparecia o companheiro, com a fieira de marmitas alçadas ao ombro, cansado, suado, amedrontado dos barulhos da mata, mas fiel. Amigo. Era um alívio, quando ele aparecia.
O furo foi quando usamos para a navegação um exuberante Ipê amarelo. No início, foi facinho. Quando descia a serra, ele já divisava o colorido e definia o trajeto.

Um belo dia, nos dirigimos ao trabalho, e a árvore lá, vistosa. Antes do final da manhã formou um tempo. Vento forte, nuvens carregadas. Nesse dia, não almoçamos. Caímos no conto do Ipê. Nosso marmiteiro se perdeu. Na volta para o acampamento, azuis de fome, nos deparamos com as flores amarelas no chão, explicando por que a nossa navegação falhou.