terça-feira, 17 de outubro de 2017

Sobrevoando as montanhas coloridas dos Andes. Cusco- Peru

sábado, 14 de outubro de 2017

crônica da semana - a bom remar jorane

A bom remar
É um jeito delicioso de falar que não se usa mais. Antigamente era comum: “dizque fulana ia me dar uma prova daquele chope de groselha docinho. E eu, a bom acreditar nela, mas quite, me enganou, a sacrista”... Só Jorane mesmo.
Uma única vez a vi de pertinho. Foi numa mobilização em favor da preservação do Casarão da Praça Ferro de Engomar. E nem foi tão de perto. Eu fiquei numa esquina, e ela noutra. Mas reparei bem o quanto ela é reconhecida como uma referência. Revela opiniões, expõe ações. Naquela época, fez peso, ali na praça, em favor da proteção do Casarão que estava sendo pilhado de peças estruturais e ornamentais de considerável valor histórico e cultural.
Sou fã da cineasta Jorane Castro. Não sou nem crítico de cinema nem nada, mas dou o maior valor na linguagem que ela usa para contar as histórias na tela. Além do talento, Jorane tem uma desenvoltura, uma facilidade na comunicação de chamar atenção. É jornalista, atua no meio acadêmico, tem obras reconhecidas internacionalmente, mas admiro muito a cineasta, também, por aquele traço ribeirinho, aquele viés pés no chão da personalidade dela.
Atinei bem na revelação destes vieses da alma, numa entrevista que ela deu à jornalista Linda Ribeiro, no programa Coxia. Um momento muito dos seus pai d’égua. Duas destacadas figuras  na arte da comunicação. Linda Ribeiro, usando da sua reconhecida competência como entrevistadora, deixou Jorane muito à vontade para uma boa conversa. E aí, ela cortou e arou. Falou dos tempos que viveu fora do Brasil, dos grandes projetos que participou, da estrutura profissional que ergueu para viabilizar o cinema na Amazônia. Éraste, e eu, vendo pela televisão e já conhecendo um pouco da trajetória da cineasta, fiquei até tonto com tantos valores, com tantas conquistas, com a envergadura do talento de Jorane. Estava, então, explicado: Me peguei como um fã platônico que jamais atravessaria a rua da praça  Ferro de Engomar para puxar uma prosa com pessoa tão famosa, mesmo que fosse para salvar o Casarão. Era uma estrela das mais inalcançáveis alturas. Das mais inatingíveis lonjuras...
Até que ela começou a falar das vezes que vinha de Paris para as férias e se quedava aos encantos ribeirinhos do interior. Nessa hora, bateu o martelo sobre aquela coisa da natureza cabocla que ela preserva. Mostrou-se rés ao chão paraense. Perto mesmo, de ao pegado da gente.
Em determinado momento, usou uma expressão que por demais me encanta. Confrontando a vida nos glamourosos recantos da Europa, com o emaranhado de furos que moldam os rios da Amazônia, revelou que, quando das férias, passava os dias no interior “a bom remar, a bom remar”, assim mesmo, de forma reiterada.
“A bom remar” É uma variação do sentimento de intensidade que vale para “a bom esperar”, “a bom andar”. Só Jorane mesmo, em entrevista perfeita, na simplicidade de todo seu brilho, para abrigar tão bem, na boa fala, uma pérola dos nossos dizeres tradicionais.
E falou com tanta naturalidade, que parecia que estava na porta da rua, numa conversa solta, de fim de tarde cametaense, a bom enfileirar causos.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lua do Círio



















Véspera do Círio 2017

domingo, 8 de outubro de 2017

crônica da semana - círio psicodélico

O Círio e o povo unido
Quando entramos na praça, um tilintar psicodélico ecoou dentro de mim, uma satisfação líquida percorreu minha dorsal, ativou minhas terminações nervosas e o meu mundo transladou pela órbita letárgica de um caleidoscópio de flores lilases. Viajou entorpecida minha alma entre cantigas e bênçãos. Havíamos chegado no céu.
Mas antes, lutamos a luta de um povo unido.
Os padres franceses estavam um isso para serem expulsos do Brasil. Enquadrados na Lei de Segurança Nacional, os religiosos aguardavam julgamento presos.
O Círio era no dia seguinte. Na sede do Ipar, uma reunião, à revelia da ordem de Dom Alberto Ramos que proibia a realização de qualquer manifestação na procissão, decidia a estratégia de mobilização e protesto em apoio aos padres e aos 13 posseiros do Araguaia. Uma alemã magra, alta, com a dicção voluntariosa, fazia uma fala de certezas e crenças na liberdade. A pastora Rosa Marga iniciava um apostolado vibrante, corajoso, e solidário. Foi a grande líder do MLPA, movimento que se ergueu para lutar ao lado dos presos do Araguaia.
Tínhamos uma irmã salesiana na luta, também. Irmã Lísia era, como todas as outras freiras, digamos assim, caseira. Não se abalava para as coisas do mundo. Professava sua fé coordenando o semi-internato do Centro Social Auxilium e de lá saía apenas para a reunião com os jovens, do outro lado da rua, na Escola Salesiana do Trabalho. Foi contaminada com o bichinho do inconformismo, com a larvinha revolucionária. E acabou saindo pro mundo. Para toda reunião ou mobilização do MLPA, a gente arrastava a Queridinha, querido diminutivo pelo qual a irmã era conhecida, por causa daquele humor cearense da peste.
Vivíamos dias de transformações no início dos anos 80. A igreja retornava com as Comunidades de Base, apostava na práxis popular centrada no método “Ver, julgar e agir”. Os religiosos eram chamados a colaborar. Nossa turma operava com, o então padre, Brunys e com a Queridinha, pelas ruas estivadas da Pedreira e Sacramenta, no diapasão de Puebla.
No dia do Círio, o pau cantou feio. Dom Alberto falou. Dom Alberto avisou. Não passarão.
Até que caminhamos um bocado, mas, às proximidades da Basílica, o tempo fechou. Polícia despintada que estava no meio de nós, polícia fardada, todo mundo tirou uma casquinha. A primeira faixa a ser destruída, para mim, era a mais verdadeira. Trazia uma passagem da conversão de Paulo: “Por que me persegues?” Era simbólica. Quando ela caiu, quando se esfarelou aos pisões da repressão, nós todos nos esfarelamos. Padres, freiras, religiosos, leigos, jovens, velhos, todo mundo apanhou. Muitos foram presos com violência. Sangravam. Mas não choravam. Em meio ao ataque, ainda se entoou um canto novo de alegria, até o sufocamento total da manifestação. Eu fui varando, com pedaços de pano e uma ferpa deste tamanho sacada da estaca que emoldurava minha faixa, na mão. Pequenininho, me vi diluído naquela multidão, triturado por uma onda poderosíssima. Era a Berlinda chegando.

Quando entramos no CAN, um psicodelismo lilás acendeu dentro de mim. Havia chegado no céu.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

crônica remix - Francisco

O Santo dos pobres
Um violão Giannini Trovador. Vinte e seis exemplares do Asterix, que representavam até então, a coleção completa dos episódios criados pelos geniais franceses René Goscinny e Albert Urdezo. Um Pau de Chuva, instrumento percussivo que arremeda o som de água caindo, originário dos Andes chilenos e que comprei, numa exposição, como sendo artesanato dos Cintas-Largas. Uma caixa com muitos quadrinhos. A linhagem inteiriçada dos cartunistas paulistanos. Revista Circo. Chiclete com Banana. Geraldão. Níquel Náusea. Piratas do Tietê; De carona, a vovozinha revista MAD, já nos estertores, fazendo o contraponto; e uma pilha de PQP que mamãe mandava pra mim, todo mês. Somando no acervo, os primeiros números de O Planeta Diário e Casseta e Planeta. Noutra caixa, as aquisições capa dura, feitas junto ao Círculo do Livro e também adquiridas na livraria da, revolucionária, Rose. Sartre. Veríssimos, muitos Veríssimos e as minhas, até hoje, iluminações literárias, Zero e Feliz Ano Velho. Na mala, uns vinis ‘emprestados’ de Mercedes Sosa, Zé Geraldo, Ana Belém, Maria Betânia...e preciosas amostras de cassiterita, columbita, topázio, quartzo-dente-de-cão, quartzo rosa, uma fagulhinha, quase invisível de diamante industrial, meus quase nada de vestir, um frasco de Contouré  e...só. Esta era a minha bagagem franciscana quando embarquei em Porto velho, de volta para Belém, num dia 4 de outubro, como o de hoje. Dia de São Francisco de Assis.
Operou um milagre, o Santo dos Pobres, naquele dia. Depois de quatro anos longe, estava difícil de voltar. Uma greve poderosíssima dos aeronautas tirou do ar uma leva de aviões. Os vôos liberados eram um aqui, outro ali. Esta situação fez com que, naquela terceira vez, eu me visse deixando Porto Velho sem ninguém para me dar um tiauzinho, antes do embarque. Estava sozinho. Mas deixei estar, não queria incomodar os Borges Guimarães, a minha família rondoniense, com mais uma tentativa. Antes, nas duas incursões, toda a galera. Lencinho branco de despedida, lembrancinhas, emoções, saudades antecipadas, e, olha só, os vôos foram cancelados. No dia 4 de outubro, havia uma chance mínima, para que a viagem desse certo. A providência, um milagrezinho tinha que acontecer. Combinei com meu povo que iria sozinho, afinal, milagres não acontecem assim, na vida da gente, quando a gente bem entende. Não botei fé.
O avião que me trouxe marcaria certinho o final da greve. Desde ele, tudo voltaria ao normal. Desembarquei em Belém, já de tardinha, com a certeza da ajuda do Santo Francisco.
Sempre fui fã de São Francisco (meu filho tem Assis no nome). Isso, se não causou conflito, gerou um desconfortozinho na minha vivência dentro da igreja. Sou ex aluno salesiano. Atuei na pastoral da Sacramenta, nas comunidades de base, nos movimentos de jovens, levando a mensagem de Dom Bosco, mas não escondia a minha inclinação franciscana.

Um ser humano admirável, Francisco. Em plena idade média, num cenário irrefreável da ascensão burguesa, rebelou-se e optou pela pobreza. Talvez essa reviravolta na vida seja, realmente, o maior atrativo na historia de Francisco. E esta visão, um tanto romanceada do santo, de prima, me arrebatou. Mas depois, conhecendo mais sobre a opção de Francisco (e ajudado pelos cenários históricos dramáticos envolvendo os Fraticelli, descritos por Umberto Eco em O Nome da Rosa), tomei pé do quanto o Santo de Assis foi sábio e corajoso para superar a suntuosidade da Igreja, a soberba do clero, a ânsia dos pobres... séculos mais tarde, a greve dos aeronautas, e operar milagres. Salve, Francisco!


sábado, 30 de setembro de 2017

crônica da semana - banzeiro

Banzeiro
Daquele dia que aportamos no galpão Mosqueiro-Soure, chegando do Acre, custei que só para navegar nas águas da Guajará de novo.
Meio tonteira isso, algo de não se entender, mas nós belemenses, temos um jeito continental de ser e de estar. Pouca trela dedicamos às nossas águas de fora (do contrário já teríamos uma linha regular de transporte público, Icoaraci-Belém).
Nos batemos há tempos pelos caminhos de terra firme, hoje mais que antes, travados, engarrafados, esburacados e perigosos. Resulta que só caí pra dentro da baía, novamente, quando regressei de uma temporada de um ano trabalhando nas minas de ouro do Amapá. E foi cheia de graça essa minha viagem. Poderia regressar de avião, o contrato que fiz com a empresa, me dava direito. Quis experimentar a aventura de quase 24 horas navegando pelos rios amazônicos. Troquei minha passagem de avião por uma de navio e zarpamos eu e minha companheira Edna. Ela, que durante a minha jornada em Macapá fez várias vezes este trajeto, não se animou muito. Mas eu... Cisquei a viagem toda. Não preguei o olho. Subia, descia os conveses, zanzava de popa a proa. Perdia o olhar durante o dia procurando o horizonte ou, pela parte da noite, admirando o brilho das estrelas. Por vezes, eu corria exaltadíssimo ao encontro de Edninha com a notícia de que as canoinhas estavam se aproximando. E ela, calejada naquela lida, me voltava com uns saquinhos plásticos já preparados contendo pequenos regalos a serem lançados para os ribeirinhos. E lá eu me abalava para a balaustrada do navio, aprumava a pontaria e...
Foi uma experiência. Uma vivência que jamais pensei, no futuro, se repetir tantas vezes.
Pouco depois de voltar de Macapá e retomar a vida continental de Belém, fui chamado para trabalhar em Barcarena. Pronto. Acabou a aridez. Findou-se a pobreza de água. Se num determinado momento da minha vida, me fiz cativo das terras emersas, nos últimos 22 anos, me realizo no leito da baía do Guajará. Começo e termino o dia navegando os humores das águas toldadas do estuário.
E esta frequência me dá um quê de proximidade com a dinâmica da baía. Conheço detalhes da travessia. Entendo o balançar do barco em cada trecho da viagem. Me permito a tensão quando cruzamos a foz do rio Guamá e navegamos meio de banda resistindo à forte correnteza guamarina. E me deixo folgar quando o sentido da corrente passa a ser único, na frente de Belém.
Um tempão ziguezagueando por este tecido líquido guajarino, garante o conhecimento sobre a ocorrência das marés e permite elaborações de agendas (na maré cheia, a viagem, normalmente é mais rápida. Isto não é uma regra, mas, pelo comum, é). O cerzido diário me concede saber respeitar a vontade dos ventos.
Dia sim, outro também, a caminhada sobre as ondas me alerta para a época do ano de grandes banzeiros. De manhanzinha, até que não, mas ao cair da tarde, agora, entre agosto e dezembro, o banzeiro é certo. É tempo de onda quebrar no Ver-o-Peso e ir lamber a calçada da ‘Casas Pernambucanas’.

Para quem se queixava ser continental, a aventura, de uns tempos pra cá, tá é boa.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

degenerescendo

Há homens que eu aprecio
puros ou com gelo
grisalhos ou imberbes
ativos ou pacatos
doces ou amaros
sutis ou indelicados
ébrios, ébrios,ébrios
ou sóbrios e sonolentos
Há homens que eu aprecio
puros, crus, ao natural
ou com uma pitadinha de sal
pais, filhos, espíritos cantos e encantos
mas são poucos
muito poucos
e com carinho
lembro tanto deles.