sábado, 14 de janeiro de 2017

crônica da semana - caixinha de surpresa

Caixinha de surpresa
Estava eu bem fuçando meus teretetês literários semanais, no firme propósito de coletar um feixe de crônicas para o próximo livro, quando dei com uma candidatíssima a entrar no bolo da nova edição. O ícone do word anunciava um texto  abonado pela simpatia do título: “caixinha de surpresa”. Dei um rolé pelos outros ícones, certifiquei prosas conhecidas, igualmente selecionáveis, volvi à ‘caixinha’. Surpresa monstra foi a minha quando dei que só existia o título. Nada mais escrito havia na vastidão do word. A mais pura página em branco me recebia.
Fururuquei o cocuruto catando o dia em que ensaiei, fiz menção, dei título e não desenrolei a parada da caixinha de surpresa. Onde é que eu estava com a cabeça, meu pai, que não atravessei aquele Rubicão? Que apagão me deu, que não escrevi nadica de nada?
Mas umbora elucubrar. Hummm! O que poderia inspirar uma crônica com tão sugestivo texto. A vida, é uma caixinha de surpresa, diria o narrador da dramática história de Joseph Climber.
Por mim, pelo que me torna e pelo que me deixa, não carrego na bagagem fato ou passagem que eu possa definir como produto inusitado de uma caixinha. Do passado não vem uma lembrancinha sequer. Ah, vem sim...
Quando estava terminando a Escola Técnica, bem no finzinho do semestre e do curso, inesperadamente, para uma época em que as interações entre empresa e escola não eram tão fartas, fui selecionado para uma visita de cinco dias à Mineração Rio do Norte, no trombetas, (surpresa monstra e absoluta, porque, olha, não era top 10 da turma não). Bacana. Primeira viagem de avião. Pela TABA. Com direito a suco de maracujá com aquele cuizinho preto residindo no fundo do copo; e podia tomar quanto quisesse, bastava levantar-se e chegar à garrafa térmica localizada no final do corredor da aeronave.
A visita foi um sucesso. Conhecemos técnicas e processo. Também, claro, exercitamos nossa índole de estudante varando a última noite num bar chamado ‘Bauxitão’, abarcando baldes e baldes de gelada.
Mas a vida, a vida é uma caixinha de surpresa. Sexta-feira, na hora de voltarmos para Belém, a bronca. Não tinha avião. A TABA, inacreditavelmente, falhou no atendimento. No dia seguinte, sábado, seria a nossa cerimônia de formatura (18 de dezembro de 1982). Aí foi um fuzuê. Choramos, tiramos a calça e pisamos em cima, fizemos beicinhos e pirraças. Fretaram um avião, mas só para o dia seguinte. Pra encurtar a história, chegamos em Belém às duas da tarde e a colação começaria às seis. Correria com roupa, convites, formalidades, alguém para dar o nó na gravata, o padrinho...
Meu tio nos deu apoio com o fusquinha da família. Ocorre que, na mesma pisada que apanhou um panelão de maniçoba destinado à nossa comemoração doméstica, emendou e nos apanhou eu, mamãe e meu padrinho para a cerimônia. Não percebemos que a maniçoba tinha entornado um tanto, na beirada do banco traseiro. Mamãe toda arrumada, no seu longo acetinado, sentou em cima.
A vida é uma caixinha.... Ao desembarcar no ginásio, descobri naquele dia, para que serve o lenço que vem na lapela do paletó.


domingo, 8 de janeiro de 2017

crônica da semana- belém 23 graus

Belém 23 graus
Mas foi só as primeiras chuvas de dezembro arriarem na cidade, que as mídias se enxameram de testemunhos dramáticos sobre o frio intenso que invadiu, sem tomar conhecimento, as mais fininhas das fretas dos mais protegidos puxadinhos de Belém.
Penso que há uma lógica nisso tudo. Uma brecha sensitiva por onde o frio passa verossímil que é uma maravilha.
Vamos e venhamos que saímos de um novembro esturricante, com temperaturas beirando os 33 graus e sensação térmica de sei lá...400 graus, por aí. Então o barato deste caro destrambelho climático é exatamente a sensação. É aquele um tanto a mais catalisado pelo nosso caótico desenho urbano. Dependendo do calibre da pessoa, em novembro, o calor foi de calcinar mesmo, de quebrar a molécula de água da mais arquitetada combinação química orgânica que a gente possa ter dentro da gente. Tem gente que desfalece. Delira, baba, dá piripaques e grosopes assustadores.
Ocorre que no outro extremo, uma temperatura mínima de 23 graus, esta que nos visita desde o início de dezembro, é potencializada e ‘sentida’ como se fosse siberianos 22 graus, por exemplo. Dá-se naturalmente um choque térmico coletivo. Quem está acostumado ao banho de mar sabe o que significa esta sensação. Está debaixo daquele sol, pegando aquele bronze, fixando aquele brondor na mecha do cabelo, mas quando cisma de dar um mergulho, aquele resistente contado do dedo mindinho do pé com a pequena onda que se acaba na areia, ao corajoso banhista, lhe parece que o mundo o acutila a alma. No primeiro mergulho, então, é o céu que desaba sobre o empedernido veranista. A água é fria que dói.
Daí, da mesma forma que o corpo tem que se acostumar com a frieza da água da praia, numa tarde de sol de julho; o inverno amazônico reivindica, ao organismo, a mesma adaptação. As fartas reclamações que assistimos nas mídias, nos fazem crer que até o corpo tornar para as confortabilidades térmicas, exigidas a partir de dezembro, vai demorar um pouquinho.
O que vai nos valer é aproximar a dita sensação térmica, que transforma dóceis 23 graus em terríveis percepções de frio intenso, possíveis de serem medidas somente na escala Fahreneit; o que vai nos acudir é trazer a sensação para perto das temperaturas realistas, amigas e eficazes, que não fazem mal a ninguém.
Temperaturas inofensivas, realistas, mas que nos permitem sim, usar aquela camisa manga comprida, conservada à naftalina durante todo o ano, no fundo da gaveta. Nos abonam no uso daquele moletom com capuz e tudo. E nos permitem usar o ventilador à noite, apontando para cima, girando sem buscar a gente, na missão única de espantar os carapanãs.

Temos que desmistificar o frio total que nos assombra, mas, ao mesmo tempo, é coerente aceitar que 23 graus, para nós belemenses que vivemos na “cidade maravilha/purgatório da beleza e do caos” é sim, friozinho muito dos seus aquele, pai d’eguinha que só ele, gostosinho no prumo, no jeito para pôr uma meia, esticar o sono, puxar o pano de imaginar, nos cobrir dos pés a cabeça e...sonhar.

sábado, 31 de dezembro de 2016

crônica da semana -reveion

Reveion no Santa Cruz
Olha, pode tá aí bombando o foguetório, a Sidra da boa, a orquestra no tom, o pulinho nas ondinhas, a roupa alva, alva, que para mim, não tem nem comparação, Reveion muito dos seus paid’égua era o do Santa Cruz.
O Santa Cruz era um clube que existia aqui na Pedreira. Tinha o time de celotex, os meninos do caratê, um afamado escrete de futsal e a sede. Essa é que era maior atração do Santa: A sede dançante. Nós, os moleques da Mauriti, éramos muito chegados do alto comando do Santa Cruz. Nos dias de festa, a gente se montava nuns panos, passava um extrato contorrê, um maço de Hilton no bolso pra dar o charme e ficávamos só na bicora na porta da sede. Dava uma chance, e o Bendelaque colocava todo mundo pra dentro. Assim foi no reveion. O melhor, sem comparação.
Uma conversa puxa a outra e a outra vira a banca. Aí, me vem o texto de uma reportagem que li, por esses dias. O texto fala de uma pesquisa que afirma que uma pessoa, em média, mente 3 vezes a cada 10 minutos. Será, meu pai? Tomei foi um susto com esta revelação científica. Desde o dia que lia a matéria, fico me policiando. Aproveito que ganhei um relógio de ponteiro do poeta Francisco Mendes, e de vez em quando dou uma checada na hora. Faço as contas, revisito as conversas que tive no período (inclusive comigo mesmo), somo, divido, tiro a prova dos noves, a prova real, extraio a raiz quadrada. Contabilizo as minhas mentiras. E olha, a coisa vai que é uma maravilha no rumo das invencionices. Pode prestar reparo. As mentiras variam de tom e gravidade. Desde a quantidade de açúcar no café (que eu sempre digo que coloquei só pouquinho, mas coloquei foi muitão), até uma explicação insossa cobrada e reivindicada sobre aquela fatura do cartão. Tudo a gente inventa. Pode ver. Dá uma olhada aí em cima no texto que não dá nem dez minutos de leitura. Nada do que escrevi aí é verdade. A ciência não falha.
Outra prosa que me tirou um tempo contado em relógio de ponteiro foi uma cena que vi num filme nacional que rodou na TV dia desses. Duas garotas jogando tênis de mesa. Uma delas faz a pergunta fatal: “o que você nunca contou pra ninguém?” Nem vi mais o resto do filme. Aquela pergunta ficou martelando na minha cabeça e lá fui eu escacaviar o mais profundo do meu ser, os meus mais recônditos suplícios, os meus mais abissais prazeres, minhas soterradas dúvidas, meus medos intactos, minhas maldades retidas. Qual o segredo, ou o fato, ou o dado e  passado importante, ou irrelevante que seja, que eu nunca contei para o mais confiável dos amigos, nem para a mãe, nem para o padre em confissão jurada e confirmada? Vou virar o ano cascavilhando.
São inquietações que aparecem assim, de repente, na batida da campa do ano. Podem ser delírios, fantasias. Mas um desassossego assim, em tempo de resoluções e expectativas para o ano novo até que vem bem. Funciona como uma dica para que a gente, cientificamente, mapeie nossas mentiras ou intimamente descubra um segredo não revelado e sua insignificância. Ou sua severidade.
Nos vemos no reveion do Santa. Feliz Ano Novo.


sábado, 24 de dezembro de 2016

crônica da semana= sandoval

Amigo invisível
Vou dar um tempo na prosa (porque encasquetei de escrever um traçado encarreirado das minhas impressões sobre a vida de trabalhador, sobre o doce acre mundo do trabalho) e vou abrir um parêntese para falar do Natal. E olha só, na biqueira, porque hoje já é véspera.
Então é Natal.
E nem vou me enviesar tanto do rumo tomado, traçado decidido e encasquetado, visto que a prosa que me ocorre vem de um ano aí, quando trabalhava de empacotador de supermercado e fizemos lá entre nós, do baixo clero, uma brincadeira de amigo invisível.
Foi numa fase em que se estava desarticulando o trabalho dos garotos. Estávamos com os dias contados. Seríamos substituídos pelos ‘de maior’. Um deles operava já há um tempo. Estava adaptado. Era bem mais velho que nós, os boys, e bem mais velho também que os outros colegas mais velhos. Seu Sandoval.
O Natal era uma época boa. Ganhávamos muita gorjeta. A gente que conhecia os fregueses de olhos fechados, dava um banho no Sandoca. Ele dava uma patetada e pegávamos o freguês dele. Pra faturar um bom apurado no dia, seu Sandoval tinha que se aliar. Trabalhávamos em dupla, empacotando. Um selecionava o cliente, ia buscar o carrinho lá no corredor; o outro providenciava os paneiros, jornal pra forrar, flanela pra limpar o balcão do caixa quando um congelado descongela e pinga. Dias antes do Natal, tiramos os nomes no amigo invisível. Sandoca não era dessas coisas. Nem sabia como funcionava a brincadeira direito. Mas foi convencido. Meteu a mão no saco e tirou um nome. Dias antes do Natal, Seu Sandoval veio pro meu caixa. Aí, fomos nos conhecendo melhor, eu e meu concorrente.
Numa dessas, na hora da merenda, naquele sufoco de movimento, nos aviamos de umas fatias de presunto afiambrado, um pão com manteiga de duas passadas, duas Grapetes geladinhas, e fomos matar a broca na calçada do estacionamento.
Tinha cinco filhos. Morava numa estrada do Coqueiro ainda na piçarra e no matagal. Estudo muito pouco. Com o dinheiro da gorjeta, comprava arroz, feijão, açúcar, leite Girolei, sabão Regência. Todo dia levava uma coisinha. Reparei direitinho nele. Era bem velhinho. Tinha perto de 60, acho. Não ia aguentar muito tempo naquele trabalho braçal de carregar paneiros pelas ruas do Marco.
No dia 24, todo mundo bamburrado. Dinheiro só do graúdo de gorjeta. Minha dupla com seu Sandoval foi um sucesso. A loja fechando, os últimos fregueses saindo, portas baixando. Antes do último caixa encerrar, fomos à seção de brinquedos, eu e meu parceiro. Desacostumado com a brincadeira de amigo invisível, confessou haver tirado meu nome. Apanhou da prateleira cinco brinquedinhos baratos para os filhos, e um mais ajeitadinho para mim. Separou dinheiro pra pagar.
Tomei os brinquedos da mão dele e fui direto ao caixa. Paguei do meu apurado, os presentes dos meninos dele, e o meu.
No início de janeiro, nós, os garotos, fomos demitidos. Os grandes tomaram nosso lugar. Seu Sandoval ficou. Não ficou por muito tempo... O presente que ele me deu (um trenzinho de plástico), não foi substituído, durou um tempão, até ficar bem velhinho.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Parede vermelha
Quando o vermelho não basta
Quando o traço
É destroçado
O moço morre ou hiberna
Silencia nos dissabores
Escreve
Faz fogo da neve
Cria facho da escuridão
Engendra jeitos
Vermelho traço
Sangue de fundo
Abre um sorriso ocre
Crê que tudo passa
E ri de novo
Mas ri um riso vazio
Que é riso torto
Zonzo
Um riso de
Quando o vermelho não basta
Quando o traço
É destroçado

Escreve 

sábado, 17 de dezembro de 2016

crônica da semana- geladeira de picolé

Acre doce
Dessa época é aquela história que contei anos atrás e que virou título do meu segundo livro, “O dia mais feliz da Minha Vida”.
Dá conta da fase que a mamãe resolveu morar sozinha. Alugou uma casa de três cômodos na vila Três irmãos, na Visconde. Uma ousadia sem tamanho.
Ocorre que desde quando chegamos do Acre, moramos, toda a tropa dos Sodreres, com a vovó, mãe da mamãe. Éramos mais cinco bocas, mais cinco redes pra atar, mais cinco na fila do banheiro e por aí... Apesar da generosidade da vovó, era uma situação delicada. Orçamento apertado, receita fixa, despesa aumentada radicalmente. Mamãe segurou um tempo, mas depois, doeu na consciência. Juntou as tralhas poucas, os meninos, confiou no salário que recebia como operadora de Caixa na padaria Aveirense, perto do Museu, e lançou-se na vida sozinha.
Foi a nossa primeira experiência em Belém, independentes, assumindo a carreira solo. Para mim, que era danadinho, representou a conquista de um mundo fora dos domínios das quatro paredes de uma casa. Ficávamos os quatro, boa parte do dia, além dos olhos da mamãe. A rua era uma tentação. Logo arrumei uma parceirada, descobri a campo do Areal e o igarapé da Visconde. Daí a lembrança marcante que resultou no meu livro “ O Dia Mais Feliz...”.
Deixa estar que a parada não era fácil. Quando que a mamãe iria dar conta de todas as contas só com o ordenado da panificadora! Vivíamos no aperreio. Tivemos uma conversa séria, amarramos compromissos. A solução era todo mundo cair no batalho. Minhas irmãs saíram para as prendas nas casas de família e a mim, me coube a tentativa de arrumar um trabalhinho, também. Tinha 9 anos.
Belém para mim, ainda era encanto e segredos. A cada dia ia me reconhecendo na cidade. Estudava com uma bolsa oferecida pelo Estado, na escola da igreja Aparecida. No dia-a-dia, cortava boa parte do bairro. Frequentava a feira da Pedreira, me consultava no Centro três, assistia a uma vesperal do Paraíso. Ia explorando... Entendi os itinerários dos ônibus e quando dei fé, já ia sozinho para o Ver-o-Peso, dava voltas de ônibus. Assim, fui me espertando, me distanciando do menino de pés recatados, lá das terras acreanas do Xapuri, e ao fim, já era um pequenozinho que me virava em Belém.
Apostando nessa minha desenvoltura, mamãe arriscou me mandar para um trabalho lá na Sato Antônio, no centro, a dois passos da Carrapatoso. Até aonde a minha memória alcança, foi o meu primeiro, nomeado e denominado, emprego. Nem lavar as orelhas sabia lavar direito; contas de mais ou de menos da matemática, não precisava uma; e achava que podia ser o homenzinho da casa.
Queria ajudar a mamãe e como já fururicava pela cidade, fui trabalhar como Office boy em um escritório de advocacia, na dita Santo Antonio.

Não durei um dia. De certo, era um bebê. Os conhecimentos que eu tinha da cidade, me valeram apenas para voltar pra casa a pé, e em prantos, desde lá do centro, porque não resisti a uma amostra mínima, ínfima deste ambiente necessário (que depois defini como mais acre que doce) que conhecemos como o mundo do trabalho.

sábado, 10 de dezembro de 2016

crônica da semana - cena de cinema

Cenas de cinema
Cena 1: O cavalo seria sacrificado. Sofria desde o dia da queda. A pata dianteira quebrada era um suplício para o animal. O fazendeiro armou a espingarda. Consolado por familiares, amigos, dirigiu-se para a missão. O coração dilacerado. Um sofrimento atroz. Lágrimas inundavam-lhe os olhos. Mãos trêmulas, dor da perda. O desapego indelicado, a certeza da separação, um amor apartado. Somou-se em sentimentos nobres. Postou-se diante do animal. Com dramática contrafeição apertou o gatilho. À frente dele, denso e gelatinoso, o cavalo tomba morto.
Cena 2: O mesmíssimo típico cidadão americano arma novamente a espingarda. Concentra-se frio e decidido. Mais adiante, uma casa é saqueada, incendiada por um grupo de, igualmente cidadãos americanos, encapuzados. A família que estava sendo atacada não resiste ao sítio e, em desespero lança-se à rua em busca de salvação. Um homem negro consegue furar o cerco dos encapuzados e dispara pela rua margeada de pequenas árvores. O mesmíssimo cidadão que tem pena de sacrificar cavalos faz a mira. Dispara o tiro certeiro. À frente dele, leve e humilhado, o homem negro tomba morto.
As cenas são de um filme que assisti há alguns anos. Guardei na memória esta sequência, também porque ela expressa o sofrimento de um fazendeiro ao ter que sacrificar um cavalo de sua propriedade. Mas o motivo real de ter sempre em mente esta passagem do filme é que o dito fazendeiro, interpretado com muita competência pelo ator Tom Berenger, não expressa nenhum pudor, não revela nadica de nada de piedade ou dó, ao matar um homem negro. Para matar um cavalo, era um sofrimento só. Mas para matar um preto, era daqui pra’li.
Uma sincera narrativa da natureza humana, este filme. Dentro de nós, habitam seres diversos. Médicos, monstros. Anjos, demônios. Singelos passarinhos, víboras terríveis. Mundos entrelaçam-se nos meandros da alma e deságuam em atos, omissões. Revelam resistências, permissões. Tudo conforme e conveniente aos termos, à hora. Tudo de acordo com crenças e certezas. Vilões e mocinhos protagonizam nossa história, de acordo com os interesses, com as oportunidades. O bem, o mal relativizam-se nas nossas ações a partir das possibilidades de sucesso ou comodidades.
Me pelo de medo disso.
Nos últimos tempos, atento aos repentes sociais que grassam no Brasil, tenho olhado para dentro de mim tentando conciliar meus eus. Procuro apaziguar os embates. Tomar posição ou intentar uma obra pode daqui pra’li, ser registro de um ato intolerante, preconceituoso. Tenho o maior cuidado para não ser confundido com o fazendeiro que tem pena de sacrificar um cavalo, mas não hesita em derrubar um homem negro. Entre tantos caminhos, desvio do comportamento que prega ser contra o aborto, mas apoia a pena de morte. Nego veementemente a ideia de ser contra a violência, e por outro lado, defender o uso de armas pela população. Tento domar meus eus.
Cena 1: Então é Natal. Luzes piscando. Um clamor é solto ao vento. Paz. Amor. Felicidade.
Cena 2: O fazendeiro arma a espingarda. Posta-se diante do espelho...